1ª Geração
(2016 - 2020)
Ficha técnica, versões e história do Abarth 124 Spider.
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A história do Abarth 124 Spider representa um dos capítulos mais fascinantes da indústria automotiva italiana, unindo a elegância do design europeu com a agressividade mecânica que define a marca do escorpião. Desde o seu surgimento na década de 1970 como uma ferramenta de homologação para ralis até o seu renascimento moderno em parceria com a engenharia japonesa, o modelo manteve uma filosofia central: a busca pelo prazer de dirigir através da leveza e do equilíbrio dinâmico. Este relatório analisa de forma exaustiva cada fase do modelo, detalhando suas especificações técnicas, volumes de produção e as evoluções que consolidaram seu status como um ícone entre entusiastas e colecionadores.
O nascimento da linhagem Abarth no modelo 124 ocorreu em 1972, quando as oficinas de Carlo Abarth, em Turim, assumiram a tarefa de transformar o elegante Fiat 124 Sport Spider em uma máquina de ralis capaz de competir no cenário mundial. Este projeto não era apenas um exercício de estilo, mas uma necessidade estratégica para a Fiat, que buscava substituir os modelos anteriores por um veículo que atendesse às exigências do Grupo 4 da FIA.
Para competir no Grupo 4, as regras da época exigiam a fabricação de pelo menos 500 unidades de uma versão de rua, denominada "Stradale". A produção oficial iniciou-se no outono de 1972, estendendo-se até o início de 1974. No entanto, devido à alta demanda e à necessidade de qualificar o carro também para o Grupo 3, a Fiat e a Abarth acabaram produzindo aproximadamente 1.000 unidades do Fiat Abarth 124 Rally, tecnicamente conhecido pelo código 124 CSA.
A fabricação era um processo híbrido. Os chassis eram retirados da linha de montagem principal da Fiat e enviados para as instalações da Abarth para uma preparação específica. O foco principal era a redução de peso e o aumento da rigidez. Painéis de carroceria leves foram adotados, incluindo o capô e o porta-malas em fibra de vidro preta fosca, além de revestimentos de porta em alumínio. A remoção dos para-choques pesados e a instalação de uma capota rígida fixa (hardtop) com janela traseira de perspex foram fundamentais para atingir um peso em vazio de apenas 938 kg.
O coração do 124 Abarth Rally era o motor de quatro cilindros em linha, com 1.756 cm³, projetado pelo engenheiro Aurelio Lampredi. Este propulsor utilizava um bloco de ferro fundido com cabeçote de liga de alumínio e duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC). Para a versão Stradale, a Abarth instalou dois carburadores Weber 44 IDF, substituindo o carburador único dos modelos Fiat convencionais, e um sistema de escape Abarth com saída dupla.
Especificação TécnicaValor do Modelo Stradale 1972 Cilindrada1.756 ccDiâmetro x Curso84,0 mm x 79,2 mmTaxa de Compressão9.8:1Potência Máxima128 cv @ 6.200 rpmTorque Máximo16,2 kg.m @ 5.200 rpmAlimentação2 Carburadores Weber 44 IDFTransmissãoManual de 5 marchasVelocidade Máxima190 km/h
Uma das maiores inovações desta geração foi a introdução da suspensão traseira totalmente independente. Diferente do eixo rígido encontrado no Fiat 124 Spider padrão, a versão Abarth utilizava um sistema com braços oscilantes transversais e inferiores, braços de raio longitudinais e molas helicoidais, o que conferia ao carro uma agilidade superior e uma tração muito mais eficiente em terrenos irregulares típicos de ralis.
O desenvolvimento técnico não parou na versão de homologação. Entre 1973 e 1975, o modelo de competição passou por evoluções drásticas. Em 1973, pacotes de performance permitiam que o motor atingisse 170 cv, embora o carro ainda enfrentasse problemas de confiabilidade e peso em relação aos competidores do Campeonato Mundial de Rali.
A grande mudança ocorreu para as temporadas de 1974 e 1975. O motor foi atualizado com um cabeçote de 16 válvulas, elevando a potência para cerca de 200 cv. Na fase final de 1975, o deslocamento foi ligeiramente aumentado para 1.840 cc e foi adotado o sistema de injeção mecânica Kugelfischer, o que resultou em uma potência de até 215 cv a 7.000 rpm. Visualmente, estas versões finais eram identificadas por entradas de ar maiores no capô e alargadores de para-lamas integrados para acomodar rodas e pneus mais largos.
Após décadas de ausência, o nome 124 Spider retornou em 2016, fruto de uma colaboração entre a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e a Mazda. Embora o carro compartilhasse a plataforma e a linha de montagem em Hiroshima com o Mazda MX-5 (ND), a versão Abarth foi concebida para ter uma personalidade distinta, focada na força do motor turbo e em uma calibração de suspensão muito mais agressiva.
O design moderno, desenvolvido no Centro Stile Fiat sob a direção de Ruben Wainberg, buscou inspiração direta no modelo original de 1966 e 1972. As protuberâncias duplas no capô, a grade hexagonal e as lanternas traseiras horizontais são referências claras ao passado. Diferente da versão Fiat, o Abarth recebia para-choques exclusivos, saias laterais pretas e o logotipo do escorpião substituindo os emblemas tradicionais da Fiat.
Um detalhe crucial sobre a produção é que, embora o chassi básico fosse fabricado no Japão, a montagem final dos componentes específicos de performance era realizada na Officine Abarth em Turim, na Itália. Isso incluía a instalação da suspensão Bilstein, do sistema de escape e de acabamentos internos exclusivos, garantindo que o DNA da marca fosse preservado no produto final.
Diferente do motor aspirado de 2.0 litros do seu "irmão" japonês, o Abarth 124 Spider utilizou o motor 1.4 MultiAir Turbo da FCA. Esta tecnologia de gerenciamento de válvulas elimina a necessidade de uma borboleta de aceleração tradicional para controlar a entrada de ar, utilizando um sistema eletro-hidráulico para variar o tempo e a abertura das válvulas de admissão.
Essa motorização permitiu que o carro entregasse torque máximo em rotações muito baixas, característica essencial para um roadster esportivo de uso diário. No mercado europeu (região EMEA), o motor foi calibrado para 170 cv, enquanto no mercado norte-americano (NAFTA), a potência foi de 164 cv.
Parâmetro de PerformanceEspecificação do Abarth 124 Spider (2016-2020) Motor1.4L Turbo MultiAirCilindros4 em linha, 16 válvulasPotência (Europa)170 cv @ 5.500 rpmPotência (América do Norte)164 cv @ 5.500 rpmTorque Máximo250 Nm @ 2.500 rpm (Modo Sport)Aceleração 0-100 km/h6,8 segundosVelocidade Máxima232 km/hPeso (Manual)1.060 kg
A escolha da transmissão manual de seis velocidades também foi estratégica. A Abarth optou por utilizar a caixa de câmbio da terceira geração do Mazda MX-5 (NC), em vez da caixa do modelo ND, pois a unidade mais antiga era capaz de lidar com o torque superior do motor turbo de 1.4 litros sem comprometer a durabilidade a longo prazo.
O Abarth 124 Spider não passou por facelifts visuais profundos durante seu ciclo de vida, mantendo a carroceria estável de 2017 a 2020. No entanto, houve atualizações mecânicas e a introdução de pacotes de estilo que alteraram a percepção do modelo ao longo dos anos.
Em 2018, as mudanças focaram na personalização. Foi introduzida a "Red Top Edition" para o modelo Lusso, mas que influenciou as opções de cores da gama Abarth. O principal destaque mecânico foi o refinamento do seletor de modo de condução (Sport Mode Selector), que passou a ser padrão no Abarth, alterando a resposta do acelerador, o peso da direção e, nos modelos automáticos, os tempos de troca de marcha.
Para o ano-modelo 2019, a Abarth expandiu a oferta de tecnologia. O sistema de infoentretenimento com tela de 7 polegadas e a câmera de ré tornaram-se equipamentos de série em mais mercados. Além disso, o pacote "Veleno Appearance" foi disponibilizado para o Abarth, adicionando detalhes em vermelho nos espelhos retrovisores, no lábio inferior do para-choque dianteiro e no gancho de reboque.
No último ano de produção oficial para a América do Norte, o modelo 2020 recebeu como principal novidade o pacote de adesivos "Scorpion Sting". Este conjunto incluía uma grande decalque do escorpião no capô e faixas laterais, reforçando a identidade agressiva da marca antes do encerramento da produção. Apesar da expectativa de um facelift mais robusto, a FCA optou por não investir em grandes mudanças de design, sinalizando o fim iminente do modelo.
A Abarth utilizou sua tradição em edições especiais para manter o interesse no 124 Spider vivo durante sua comercialização. Cada variante foi projetada para destacar um aspecto específico do carro, seja o luxo, o desempenho em pista ou a herança histórica.
O 124 GT foi uma das adições mais importantes à linha. Apresentado como uma solução para quem desejava a experiência de um cupê e a liberdade de um roadster, o GT vinha equipado com um teto rígido de fibra de carbono removível de apenas 16 kg. Além de melhorar o isolamento acústico e térmico, este teto aumentava significativamente a rigidez torcional do veículo.
As especificações do GT incluíam:
A versão Scorpione foi lançada como uma opção mais purista e acessível, focada no desempenho essencial. Ela mantinha toda a mecânica de 170 cv e o diferencial autoblocante, mas simplificava o acabamento interno para reduzir o custo. Estava disponível apenas em cores sólidas como o preto San Marino 1972 ou o branco Turini 1975, homenageando as vitórias da Abarth no passado.
Para celebrar a vitória do Abarth 124 Rally na Copa FIA R-GT em 2018, foi lançada a edição limitada "Rally Tribute", restrita a apenas 124 unidades numeradas. Este modelo apresentava logotipos específicos nos para-lamas e uma placa metálica interna com o número de série da unidade.
Já a série "70th Anniversary" marcou o ano de 2019. Todos os modelos Abarth 124 produzidos e registrados nesse ano receberam um emblema especial comemorativo, celebrando a fundação da marca em 1949. Estes carros tornaram-se instantaneamente colecionáveis devido à simbologia da data.
O grande diferencial do Abarth 124 Spider em relação ao Fiat 124 e ao Mazda MX-5 estava na calibração meticulosa do seu conjunto dinâmico. A Abarth focou em criar um carro que fosse previsível no limite, mas extremamente ágil em mudanças de direção.
A suspensão utilizava um layout de braços duplos na dianteira e multilink de cinco braços na traseira. A calibração Abarth incluía amortecedores de pressão a gás da Bilstein em todas as rodas e molas específicas com maior constante elástica. Isso resultava em um carro com rolagem de carroceria mínima, ideal para condução em estradas sinuosas.
O sistema de frenagem Brembo era opcional ou de série dependendo da versão. Ele contava com pinças fixas de alumínio de quatro pistões na dianteira e discos autoventilados de 280 mm. Esse conjunto garantia uma potência de parada consistente e resistente ao calor, algo fundamental para quem pretendia levar o carro a dias de pista (track days).
Um elemento emocional indispensável era o sistema de escape Record Monza de modo duplo. Através de uma válvula mecânica operada pela pressão dos gases, o sistema alterava o fluxo do escape em rotações mais elevadas, liberando um som rouco e característico da Abarth.
Para garantir que a potência chegasse ao solo de forma eficiente, a Abarth equipou todos os 124 Spider com o Diferencial de Deslizamento Limitado (LSD) mecânico, denominado Abarth D.A.M.. Este componente permitia que a roda com maior tração recebesse mais torque em curvas agressivas, evitando que a potência fosse desperdiçada pela roda interna mais leve, melhorando a tração e o controle em saídas de curva.
Um capítulo à parte na história moderna do modelo é a versão Rally, desenvolvida para a categoria R-GT. Ao contrário do modelo de rua que usava o motor 1.4L, a versão Rally foi equipada com um motor 1.8L Turbo de quatro cilindros montado de forma longitudinal-central.
ComponenteEspecificação da Versão Rally R-GT Motor1.8 Litros Turbocharged I-4Potência300 cv @ 6.500 rpmTorque500 NmTransmissãoSequencial de 6 marchas Sadev com paddle shiftPeso1.050 kgSuspensãoAjustável de 5 viasFreiosBrembo Gran Turismo (355 mm frente / 320 mm trás)
O carro de rali utilizava painéis de alumínio e fibra de carbono para compensar o peso adicional do arco de segurança obrigatório e da transmissão sequencial mais robusta. Este modelo foi fundamental para resgatar a imagem da Abarth como uma competidora legítima no cenário internacional de ralis.
A trajetória do Abarth 124 Spider foi curta mas intensa. A produção total, combinando as versões Fiat e Abarth (já que ambas eram montadas na mesma linha básica da Mazda antes da finalização na Itália), atingiu pouco mais de 41.000 unidades.
A distribuição geográfica das vendas mostra que a Europa foi o mercado mais forte para o modelo, refletindo a paixão cultural da região por roadsters italianos.
Ano CivilVendas na Europa Vendas nos EUA Vendas no Canadá Total 20163.7172.4752586.45020177.8314.47860112.91020187.6373.51528411.43620194.7172.6442057.5662020761.7111651.9522021-955521.007Total Global23.97815.7781.56541.321
Os números de 2020 e 2021 representam o escoamento de inventário restante, pois a produção efetiva foi encerrada na maioria dos mercados no final de 2019 devido a novos ciclos de regulamentação. Na Austrália, o modelo teve seu pico em 2017 com 375 unidades vendidas, caindo para apenas 57 unidades em 2020, culminando na retirada oficial do mercado australiano.
O encerramento da produção foi motivado por uma combinação de fatores técnicos e financeiros. A transição para os padrões de emissões Euro 6d-Temp e WLTP na Europa exigiria investimentos massivos na atualização do motor 1.4 MultiAir, que já estava em fim de ciclo de vida dentro da gama FCA. Além disso, o declínio rápido do segmento de roadsters compactos em favor de SUVs tornou o modelo economicamente inviável para uma renovação de contrato com a Mazda.
A Abarth, sob a nova estratégia da Stellantis, começou a focar seus esforços na eletrificação, como visto com o lançamento dos novos modelos 500e e 600e, deixando o 124 Spider como um dos últimos representantes da era clássica de motores turbo de combustão interna puramente esportivos.
O Abarth 124 Spider é hoje um veículo de coleção altamente desejado. Sua combinação de engenharia japonesa — conhecida pela confiabilidade e rigidez de chassi — com o motor e a alma italianos criou um híbrido que oferece o melhor de dois mundos. A evolução do modelo desde os anos 70 até a era moderna mostra um respeito contínuo à filosofia de Carlo Abarth: "Small but wicked" (Pequeno, mas maldoso).
Para o entusiasta moderno, o Abarth 124 Spider oferece uma experiência analógica em um mundo digital. O teto manual simples, a tração traseira com diferencial autoblocante e o som inconfundível do escape Record Monza garantem que este modelo será lembrado como um dos roadsters mais puros do seu tempo. Com uma produção limitada a cerca de 41 mil unidades globais, sua raridade no futuro é garantida, especialmente para as versões limitadas como o GT e o Rally Tribute, que representam o auge técnico da linhagem 124.
Imagens do Abarth 124 Spider