O nascimento da linhagem Abarth no modelo 124 ocorreu em 1972, quando as oficinas de Carlo
Abarth, em Turim, assumiram a tarefa de transformar o elegante Fiat 124 Sport Spider em uma
máquina de ralis capaz de competir no cenário mundial. Este projeto não era apenas um exercício
de estilo, mas uma necessidade estratégica para a Fiat, que buscava substituir os modelos
anteriores por um veículo que atendesse às exigências do Grupo 4 da FIA.
O Processo de Homologação e a Versão Stradale
Para competir no Grupo 4, as regras da época exigiam a fabricação de pelo menos 500 unidades de
uma versão de rua, denominada "Stradale". A produção oficial iniciou-se no outono de 1972,
estendendo-se até o início de 1974. No entanto, devido à alta demanda e à necessidade de
qualificar o carro também para o Grupo 3, a Fiat e a Abarth acabaram produzindo aproximadamente
1.000 unidades do Fiat Abarth 124 Rally, tecnicamente conhecido pelo código 124 CSA.
A fabricação era um processo híbrido. Os chassis eram retirados da linha de montagem principal da
Fiat e enviados para as instalações da Abarth para uma preparação específica. O foco principal
era a redução de peso e o aumento da rigidez. Painéis de carroceria leves foram adotados,
incluindo o capô e o porta-malas em fibra de vidro preta fosca, além de revestimentos de porta
em alumínio. A remoção dos para-choques pesados e a instalação de uma capota rígida fixa
(hardtop) com janela traseira de perspex foram fundamentais para atingir um peso em vazio de
apenas 938 kg.
Arquitetura Mecânica e o Motor Twin-Cam
O coração do 124 Abarth Rally era o motor de quatro cilindros em linha, com 1.756 cm³, projetado
pelo engenheiro Aurelio Lampredi. Este propulsor utilizava um bloco de ferro fundido com
cabeçote de liga de alumínio e duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC). Para a versão
Stradale, a Abarth instalou dois carburadores Weber 44 IDF, substituindo o carburador único dos
modelos Fiat convencionais, e um sistema de escape Abarth com saída dupla.
Especificação TécnicaValor do Modelo Stradale 1972 Cilindrada1.756 ccDiâmetro x Curso84,0 mm x
79,2 mmTaxa de Compressão9.8:1Potência Máxima128 cv @ 6.200 rpmTorque Máximo16,2 kg.m @ 5.200
rpmAlimentação2 Carburadores Weber 44 IDFTransmissãoManual de 5 marchasVelocidade Máxima190 km/h
Uma das maiores inovações desta geração foi a introdução da suspensão traseira totalmente
independente. Diferente do eixo rígido encontrado no Fiat 124 Spider padrão, a versão Abarth
utilizava um sistema com braços oscilantes transversais e inferiores, braços de raio
longitudinais e molas helicoidais, o que conferia ao carro uma agilidade superior e uma tração
muito mais eficiente em terrenos irregulares típicos de ralis.
A Evolução para as Pistas: 1973 a 1975
O desenvolvimento técnico não parou na versão de homologação. Entre 1973 e 1975, o modelo de
competição passou por evoluções drásticas. Em 1973, pacotes de performance permitiam que o motor
atingisse 170 cv, embora o carro ainda enfrentasse problemas de confiabilidade e peso em relação
aos competidores do Campeonato Mundial de Rali.
A grande mudança ocorreu para as temporadas de 1974 e 1975. O motor foi atualizado com um
cabeçote de 16 válvulas, elevando a potência para cerca de 200 cv. Na fase final de 1975, o
deslocamento foi ligeiramente aumentado para 1.840 cc e foi adotado o sistema de injeção
mecânica Kugelfischer, o que resultou em uma potência de até 215 cv a 7.000 rpm. Visualmente,
estas versões finais eram identificadas por entradas de ar maiores no capô e alargadores de
para-lamas integrados para acomodar rodas e pneus mais largos.