937.
(2000-2004)
O "Carro do Ano" que redefiniu a estética dos compactos premium com o charme milanês.
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(2000-2004)
(2004-2006)
(2006-2010)
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A virada do milênio marcou um período crítico e transformador para a indústria automotiva europeia, especialmente para a lendária casa milanesa Alfa Romeo. Após décadas oscilando entre a glória nas pistas e crises financeiras, a marca, sob a tutela do Grupo Fiat, buscava reafirmar sua identidade premium e esportiva. O lançamento do Alfa Romeo 147, designado internamente como Projeto 937, não foi apenas a apresentação de um novo modelo; foi a consolidação de uma estratégia de renascimento iniciada com o sucesso estrondoso do sedã 156 em 1997.
O segmento C, ou segmento de carros médios-compactos, era o campo de batalha mais feroz da Europa, dominado pela engenharia pragmática alemã, personificada pelo Volkswagen Golf e pelo recém-chegado Audi A3. A Alfa Romeo precisava de uma resposta que não apenas competisse em números, mas que oferecesse uma alternativa emocional e dinâmica. A missão do 147 era substituir a dupla 145/146, modelos que, embora competentes, baseavam-se na plataforma do Fiat Tipo e careciam do refinamento técnico necessário para enfrentar as marcas premium.
Apresentado ao público no Salão do Automóvel de Turim em junho de 2000, o 147 capturou imediatamente a imaginação da imprensa e do público. O reconhecimento da excelência do projeto culminou na conquista do prêmio Carro do Ano na Europa em 2001 (European Car of the Year), superando concorrentes de peso como o Ford Mondeo e o Toyota Prius. Este prêmio validou a aposta da Fiat Auto em utilizar uma plataforma de segmento superior (D) encurtada para criar um hatchback do segmento C, uma decisão de engenharia que definiu o caráter do carro.
Ao longo de uma década de produção, de 2000 a 2010, o 147 tornou-se um pilar de vendas e imagem para a marca, totalizando 651.823 unidades produzidas na fábrica de Pomigliano d'Arco, na Itália. Este relatório detalha minuciosamente a trajetória técnica, estética e comercial deste ícone, explorando desde a geometria de sua suspensão até as nuances de suas edições limitadas.
O design do Alfa Romeo 147 é amplamente citado como um dos exemplos mais felizes do estilo italiano contemporâneo. A responsabilidade pelas linhas recaiu sobre o Centro Stile Alfa Romeo, sob a liderança de dois dos designers mais influentes da época: Walter de Silva e Wolfgang Egger.
A primeira geração do 147, produzida entre 2000 e o final de 2004, é frequentemente considerada pelos puristas como a mais pura e equilibrada. O design frontal foi uma homenagem direta aos modelos clássicos da década de 1950, como o 6C 2500 Villa d'Este.
Em 2004, o 147 passou por um facelift significativo para alinhar sua estética à nova linguagem visual da marca, introduzida pelos conceitos que levariam ao Alfa 159 e ao Brera. O redesenho envolveu a colaboração do estúdio de Giorgetto Giugiaro.
O interior do 147 foi projetado com foco total no motorista ("driver-centric"). O painel de instrumentos apresenta o clássico layout de "binóculos" da Alfa Romeo, com velocímetro e conta-giros alojados em túneis profundos para evitar reflexos. O console central é voltado ligeiramente para o condutor, facilitando o acesso aos controles de climatização e áudio.
Os materiais utilizados representaram um salto de qualidade em relação ao 145. O painel utilizava plásticos de toque macio (soft-touch) com uma textura que imitava o grão de couro. No entanto, em climas tropicais como o do Brasil, esse revestimento demonstrou tendência a se tornar pegajoso com o passar dos anos, um problema cosmético conhecido. A ergonomia dos bancos foi elogiada pelo suporte lateral, essencial para um carro com pretensões esportivas.
O grande diferencial do Alfa Romeo 147 em relação aos seus concorrentes contemporâneos residia na sofisticação de sua engenharia de chassi. Enquanto o padrão da indústria para hatchbacks compactos era a suspensão dianteira MacPherson e traseira por eixo de torção (uma solução barata e robusta, usada no VW Golf IV), a Alfa Romeo optou por uma abordagem derivada das pistas de corrida.
O 147 foi construído sobre uma versão modificada da plataforma do Alfa 156. A distância entre eixos foi encurtada em 50 mm (totalizando 2.546 mm) para conferir maior agilidade em curvas fechadas. Apesar de menor, a estrutura recebeu reforços adicionais na traseira para compensar a perda de rigidez torcional inerente ao formato hatchback (devido à grande abertura do porta-malas), resultando em um peso em ordem de marcha muito próximo ao do sedã 156, variando entre 1.200 kg e 1.360 kg dependendo da motorização.
A Alfa Romeo implementou no eixo dianteiro um sistema de suspensão de braços sobrepostos (também conhecido como duplo A ou double wishbone).
No eixo traseiro, o 147 utilizou uma suspensão independente do tipo MacPherson evoluída, com braços transversais de comprimentos desiguais e um braço longitudinal.
Tabela: Comparativo de Arquitetura de Suspensão (Segmento C - Anos 2000)
| Modelo | Suspensão Dianteira | Suspensão Traseira | Vantagem Técnica |
|---|---|---|---|
| Alfa Romeo 147 | Quadrilátero Alto (Double Wishbone) | Independente MacPherson (Camuffo) | Aderência em curva, direção direta, controle de cambagem. |
| VW Golf IV / Audi A3 (8L) | MacPherson Simples | Eixo de Torção (Torsion Beam) | Baixo custo, robustez, espaço de porta-malas. |
| Ford Focus Mk1 | MacPherson Simples | Independente Multi-link "Control Blade" | Excelente compromisso conforto/agilidade (principal rival dinâmico). |
A gama de motores do Alfa 147 foi extensa, refletindo a necessidade de atender desde o consumidor urbano focado em economia até o entusiasta de performance pura. Os motores podem ser divididos em três famílias principais: Twin Spark (gasolina, 4 cilindros), JTD/JTDm (diesel, 4 cilindros) e o lendário Busso (gasolina, V6).
Os motores Twin Spark 16V eram a espinha dorsal da linha a gasolina. O nome deriva da tecnologia de dupla ignição: cada cilindro possui duas velas de ignição (uma principal central e uma menor lateral).
Versões Twin Spark:
O Alfa 147 foi fundamental na popularização dos motores a diesel de alta performance na Europa. O Grupo Fiat foi pioneiro na tecnologia Common Rail (injeção direta de alta pressão), que transformou os motores a diesel de barulhentos e lentos em propulsores potentes e refinados.
No topo da gama estava o motor 3.2 V6 24V, apelidado de "Busso" em homenagem ao seu projetista original, Giuseppe Busso. Este motor é reverenciado mundialmente não apenas pela performance, mas pela estética (com os dutos de admissão cromados expostos) e pela sonoridade inconfundível.
A maioria dos modelos saiu de fábrica com câmbios manuais de 5 marchas (para os motores 1.6 e 2.0) ou 6 marchas (para os diesel 16v e o GTA). Eram caixas precisas, embora com curso de alavanca considerado longo em comparação a alguns rivais japoneses.
O Alfa 147 foi um dos veículos responsáveis por democratizar o câmbio robotizado (automatizado) no segmento de compactos. O sistema Selespeed, desenvolvido pela Magneti Marelli e derivado da tecnologia usada pela Ferrari na Fórmula 1, não é um câmbio automático convencional (não possui conversor de torque).
Nas versões finais a diesel de alta performance (como a Ducati Corse e a Q2), a Alfa Romeo introduziu o diferencial Q2. Trata-se de um diferencial de deslizamento limitado (LSD) mecânico do tipo Torsen.
O 147 GTA representa o auge da performance do modelo e é hoje um item de coleção altamente valorizado. Lançado em 2002, ele não era apenas um 147 com motor grande; a engenharia foi extensivamente revista.
Para acomodar a potência do V6 e os pneus mais largos (225/45 R17), a carroceria do GTA foi alargada. Os para-lamas foram estendidos, resultando em um aumento na largura total de 1.729 mm para 1.764 mm. O visual era completado por para-choques agressivos com grandes tomadas de ar para resfriar o motor V6 e freios, saias laterais aerodinâmicas e uma saída de escape dupla cromada.
No interior, bancos esportivos tipo "concha" com apoio de cabeça integrado, pedais em alumínio e um velocímetro escalado até 300 km/h diferenciavam o modelo.
Um ponto crítico na história do GTA envolveu o dimensionamento dos freios.
A produção do GTA foi limitada e durou até 2005. O número total de unidades produzidas foi de 5.029 carros.
A estrutura de versões do 147 variou conforme o mercado, mas a hierarquia europeia padrão era clara, complementada por edições especiais no final do ciclo de vida.
O selo TI era um pacote de equipamentos focado na estética e dirigibilidade esportiva, disponível para diversas motorizações. Incluía suspensão rebaixada, rodas de liga leve de design exclusivo, saias laterais, teto interno preto e bancos esportivos com logotipos TI.
Para manter as vendas aquecidas antes da chegada da Giulietta, a Alfa lançou versões altamente equipadas:
A história do 147 no Brasil é um capítulo à parte, marcado pela exclusividade e pela curta duração.
A Fiat Automóveis trouxe o 147 para o Brasil em 2002 para substituir o 145/146. O posicionamento era premium, competindo diretamente com as versões de topo do Audi A3 (nacionalizado na época) e do VW Golf GTI.
A importação foi encerrada em 2005/2006, coincidindo com a reestruturação das operações da Fiat e a decisão de retirar a marca Alfa Romeo do mercado brasileiro oficialmente. Estima-se que o volume total de importação das versões finais tenha sido inferior a 100 unidades, o que torna o 147 "facelift" uma visão raríssima nas ruas brasileiras.
Devido à complexidade mecânica (especialmente do Selespeed e do variador de fase) e à falta de mão de obra qualificada na rede Fiat generalista, o 147 sofreu grande desvalorização nos anos seguintes ao fim da importação. No entanto, na última década, o modelo recuperou status de "cult". Clubes de entusiastas e oficinas especializadas mantêm a frota remanescente rodando, e exemplares bem conservados atingem preços muito acima da tabela de mercado.
A produção total do Alfa Romeo 147 atingiu a marca de 651.823 unidades ao longo de 10 anos. Esse volume expressivo confirma o sucesso da estratégia da marca em oferecer um produto premium acessível.
Tabela: Estimativa de Produção e Versões Chave
| Modelo / Versão | Período de Produção | Notas de Produção |
|---|---|---|
| Alfa 147 (Total) | 2000 – 2010 | Total: 651.823 unidades. |
| Alfa 147 GTA | 2002 – 2005 | Total: 5.029 unidades (1.004 Selespeed). |
| Alfa 147 Série 1 | 2000 – 2004 | Maior volume de vendas. |
| Alfa 147 Série 2 | 2004 – 2010 | Facelift (Giugiaro). Volumes menores no final do ciclo. |
O 147 foi substituído em 2010 pela Alfa Romeo Giulietta (Projeto 940). Embora a Giulietta fosse um carro moderno, mais seguro e rígido, ela abandonou a suspensão dianteira de braços sobrepostos em favor de um sistema MacPherson mais leve e barato. Para muitos críticos e fãs, isso significou que o 147 foi o último hatchback compacto da Alfa a oferecer uma experiência de direção verdadeiramente purista e sem compromissos de engenharia de custo no chassi.
Para proprietários atuais e futuros, a convivência com um Alfa 147 exige conhecimento técnico específico. Abaixo, detalham-se os pontos críticos de manutenção.
Este é o "Calcanhar de Aquiles" dos motores TS.
A geometria de braços sobrepostos é excelente para curvas, mas sensível a pisos irregulares.
A manutenção do sistema robotizado é crítica.
O Alfa Romeo 147 não foi apenas um carro; foi uma declaração de princípios. Em uma era onde a indústria automotiva caminhava para a padronização e a redução de custos, o Projeto 937 ousou trazer suspensão de carro de corrida, design de alta costura e motores cheios de personalidade para o segmento popular.
Seus defeitos — a fragilidade de alguns componentes elétricos, a manutenção exigente do Selespeed e o consumo de combustível dos motores Twin Spark — são inegáveis. No entanto, eles são o preço a pagar por suas virtudes: uma direção telepática, um ronco de motor instigante e um estilo que, mais de duas décadas depois, ainda faz cabeças girarem nas ruas.
Para o mercado brasileiro, ele permanece como um símbolo de uma época onde a diversidade automotiva era maior e onde a paixão pela engenharia ainda podia ser encontrada em um hatchback médio. O 147 é, em essência, a democratização do "Cuore Sportivo".
Imagens do Alfa Romeo 147 2.0 TS 5 Portas (Manual)