A base técnica do Alfa Romeo 159 é a plataforma GM/Fiat Premium, uma arquitetura que encapsula as maiores
forças e as mais profundas fraquezas do carro. A sua conceção e implementação contam a história de uma
engenharia ambiciosa, mas também de um compromisso estratégico que definiria o destino do modelo.
Origens e Ambição da Plataforma
Desenvolvida no início dos anos 2000, com contribuições significativas de engenheiros da Saab, a plataforma
Premium foi concebida como uma arquitetura de topo para veículos de tração dianteira e integral. O seu
objetivo era proporcionar uma base rígida e sofisticada, capaz de suportar dinâmicas de condução de alto
nível e padrões de segurança elevados, adequados para o segmento executivo.
A Fortaleza do Chassis
A maior virtude da plataforma Premium era a sua excecional integridade estrutural. Conferiu ao 159 uma
rigidez torsional líder na sua classe, atingindo 180.000 daNm/rad. Esta estrutura extremamente rígida foi a
base para um nível de segurança passiva notável, validado pela obtenção da classificação máxima de cinco
estrelas nos testes de colisão Euro NCAP. Este foi um argumento de venda crucial e uma melhoria massiva em
relação ao seu antecessor, o 156.
O "Calcanhar de Aquiles" - O Peso Excessivo
Apesar da sua robustez, a plataforma continha uma falha crítica: o peso. A decisão tardia de transferir o
projeto do 159 para esta arquitetura, que foi fundamentalmente projetada para carros maiores do segmento E,
resultou num peso excessivo. O peso em ordem de marcha variava entre aproximadamente 1.400 kg e quase 1.700
kg nas versões mais equipadas, um aumento substancial em relação ao 156. Esta penalização de peso tornou-se
o compromisso mais definidor do carro, afetando negativamente o desempenho, a eficiência de combustível e a
agilidade, aspetos que eram tradicionalmente pontos fortes da Alfa Romeo.
Análise da Suspensão
Para gerir o seu peso e cumprir as suas ambições dinâmicas, o 159 foi equipado com um sistema de suspensão
altamente sofisticado. Na frente, utilizava uma configuração de "duplo braço em A alto" (high double
wishbone), enquanto a traseira adotava um sistema multilink. Estes designs são inerentemente superiores para
o controlo da geometria das rodas e para a precisão da condução, proporcionando uma excelente aderência e
estabilidade. No entanto, esta complexidade também contribuiu para o peso geral e para os custos de produção
e manutenção do veículo.
Sistema de Tração Integral "Q4"
Disponível nas motorizações de topo (3.2 V6 e 2.4 JTDm), o sistema de tração integral "Q4" era uma peça de
engenharia avançada. Utilizava um diferencial central Torsen Tipo-C que, em condições normais, distribuía o
binário com uma ligeira predominância para o eixo traseiro (por exemplo, 43:57), preservando uma sensação de
condução desportiva de tração traseira. O sistema melhorava significativamente a tração e a estabilidade em
condições de baixa aderência, sem o subviramento típico de muitos sistemas de tração integral da época.
A Plataforma como uma "Órfã" dispendiosa
A história da plataforma Premium é marcada pelo abandono. A General Motors acabou por descartar a sua
utilização, considerando-a demasiado cara para as suas marcas como a Opel e a Saab. A Fiat, tendo já
investido pesadamente no seu desenvolvimento, ficou com uma plataforma "órfã" e teve de tentar amortizar os
custos através dos modelos 159, Brera e Spider. Isto significa que os enormes custos de desenvolvimento
tiveram de ser diluídos por um volume de produção relativamente baixo — apenas 247.661 unidades para o 159.
Este elevado custo unitário da plataforma provavelmente forçou a Alfa Romeo a adotar uma estratégia de
preços menos competitiva, dificultando a concorrência lucrativa contra os rivais alemães, cujas plataformas
eram partilhadas por milhões de veículos. O 159 era, desde a sua fundação, um carro sobre-engenheirado e
caro de produzir, um fardo financeiro que, em última análise, contribuiu para o seu fim prematuro.