1ª Geração
(2005-2012)
Ficha técnica, versões e história do Alfa Romeo 159.
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A identidade visual do Alfa Romeo 159 é um dos seus legados mais duradouros, um triunfo do design italiano que continua a ser celebrado por entusiastas e designers. A sua forma não foi um acaso, mas o resultado de uma colaboração estratégica e de uma filosofia de design clara que visava redefinir a linguagem estética da marca para o século XXI.
A silhueta marcante do 159 nasceu da colaboração entre duas potências do design italiano: o lendário Giorgetto Giugiaro da Italdesign, nomeado "Designer de Automóveis do Século" em 1999, e o Centro Stile interno da Alfa Romeo. Esta parceria fundiu a visão estrutural e a elegância de Giugiaro com a alma desportiva e a herança da Alfa Romeo, resultando num design que é simultaneamente agressivo e gracioso.
A inspiração direta para a face inconfundível do 159 veio do protótipo Alfa Romeo Brera, apresentado em 2002. A Fiat encarregou explicitamente Giugiaro de transferir o design frontal do Brera, amplamente elogiado pela sua agressividade e beleza, para a sua futura berlina. Esta decisão estabeleceu um novo "family feeling" para a marca, criando uma identidade visual coesa entre a berlina 159 e os seus irmãos coupé (Brera) e roadster (Spider).
O exterior do 159 é uma sinfonia de linhas musculadas e detalhes requintados. A frente é dominada pelo tradicional "Trilobo", com a grelha em forma de V, o scudetto, a servir de ponto de origem a partir do qual as linhas vincadas do capot fluem, conferindo ao carro uma presença imponente. Uma das suas características mais distintivas são os grupos óticos triplos e cilíndricos de cada lado, uma escolha ousada que rejeitou a tendência da época de faróis de lente única e criou uma "face" instantaneamente reconhecível e ameaçadora.
A linha de cintura alta e ascendente, combinada com um pilar C substancial, transmite uma sensação de solidez e segurança, fazendo o carro parecer robusto e bem plantado na estrada. Estas escolhas de design foram deliberadas para fazer o carro parecer maior e mais substancial do que o seu antecessor, uma estratégia pensada especificamente para apelar ao mercado norte-americano, onde a Alfa Romeo planeava regressar.
No interior, a Alfa Romeo procurou igualar e até superar os seus rivais alemães em termos de ambiente e qualidade. O cockpit é marcadamente orientado para o condutor, com o painel de instrumentos e a consola central angularmente virados para quem está ao volante, uma tradição da marca que reforça a experiência de condução. Houve um salto qualitativo significativo nos materiais utilizados, com a aplicação de alumínio genuíno em vez de plástico pintado, e plásticos e couros de maior qualidade, demonstrando a séria intenção de competir no segmento premium. Detalhes como os instrumentos profundamente recuados e os manómetros com inscrições em italiano — Benzina, Acqua, Olio — adicionavam um charme exótico e uma sensação de autenticidade que diferenciava o 159 dos seus concorrentes mais sóbrios.
A estratégia de design focada no mercado americano, que nunca se concretizou, teve consequências tangíveis e, em grande parte, negativas. A busca por uma aparência maior e mais imponente resultou num aumento significativo das dimensões físicas em relação ao 156: o 159 era 225 mm mais comprido e 85 mm mais largo. Este crescimento substancial alterou o caráter do carro. Para muitos proprietários leais do 156, que apreciavam a sua agilidade e dimensões compactas, o 159 parecia demasiado grande e pesado para ser considerado um sucessor direto. Assim, a perseguição de um mercado fantasma levou a decisões de design que, paradoxalmente, alienaram uma parte da base de clientes estabelecida da Alfa Romeo, representando um erro de cálculo estratégico fundamental na própria conceção do veículo.
A base técnica do Alfa Romeo 159 é a plataforma GM/Fiat Premium, uma arquitetura que encapsula as maiores forças e as mais profundas fraquezas do carro. A sua conceção e implementação contam a história de uma engenharia ambiciosa, mas também de um compromisso estratégico que definiria o destino do modelo.
Desenvolvida no início dos anos 2000, com contribuições significativas de engenheiros da Saab, a plataforma Premium foi concebida como uma arquitetura de topo para veículos de tração dianteira e integral. O seu objetivo era proporcionar uma base rígida e sofisticada, capaz de suportar dinâmicas de condução de alto nível e padrões de segurança elevados, adequados para o segmento executivo.
A maior virtude da plataforma Premium era a sua excecional integridade estrutural. Conferiu ao 159 uma rigidez torsional líder na sua classe, atingindo 180.000 daNm/rad. Esta estrutura extremamente rígida foi a base para um nível de segurança passiva notável, validado pela obtenção da classificação máxima de cinco estrelas nos testes de colisão Euro NCAP. Este foi um argumento de venda crucial e uma melhoria massiva em relação ao seu antecessor, o 156.
Apesar da sua robustez, a plataforma continha uma falha crítica: o peso. A decisão tardia de transferir o projeto do 159 para esta arquitetura, que foi fundamentalmente projetada para carros maiores do segmento E, resultou num peso excessivo. O peso em ordem de marcha variava entre aproximadamente 1.400 kg e quase 1.700 kg nas versões mais equipadas, um aumento substancial em relação ao 156. Esta penalização de peso tornou-se o compromisso mais definidor do carro, afetando negativamente o desempenho, a eficiência de combustível e a agilidade, aspetos que eram tradicionalmente pontos fortes da Alfa Romeo.
Para gerir o seu peso e cumprir as suas ambições dinâmicas, o 159 foi equipado com um sistema de suspensão altamente sofisticado. Na frente, utilizava uma configuração de "duplo braço em A alto" (high double wishbone), enquanto a traseira adotava um sistema multilink. Estes designs são inerentemente superiores para o controlo da geometria das rodas e para a precisão da condução, proporcionando uma excelente aderência e estabilidade. No entanto, esta complexidade também contribuiu para o peso geral e para os custos de produção e manutenção do veículo.
Disponível nas motorizações de topo (3.2 V6 e 2.4 JTDm), o sistema de tração integral "Q4" era uma peça de engenharia avançada. Utilizava um diferencial central Torsen Tipo-C que, em condições normais, distribuía o binário com uma ligeira predominância para o eixo traseiro (por exemplo, 43:57), preservando uma sensação de condução desportiva de tração traseira. O sistema melhorava significativamente a tração e a estabilidade em condições de baixa aderência, sem o subviramento típico de muitos sistemas de tração integral da época.
A história da plataforma Premium é marcada pelo abandono. A General Motors acabou por descartar a sua utilização, considerando-a demasiado cara para as suas marcas como a Opel e a Saab. A Fiat, tendo já investido pesadamente no seu desenvolvimento, ficou com uma plataforma "órfã" e teve de tentar amortizar os custos através dos modelos 159, Brera e Spider. Isto significa que os enormes custos de desenvolvimento tiveram de ser diluídos por um volume de produção relativamente baixo — apenas 247.661 unidades para o 159. Este elevado custo unitário da plataforma provavelmente forçou a Alfa Romeo a adotar uma estratégia de preços menos competitiva, dificultando a concorrência lucrativa contra os rivais alemães, cujas plataformas eram partilhadas por milhões de veículos. O 159 era, desde a sua fundação, um carro sobre-engenheirado e caro de produzir, um fardo financeiro que, em última análise, contribuiu para o seu fim prematuro.
A gama de motorizações do Alfa Romeo 159 foi diversificada, mas também inconsistente, refletindo as complexidades da aliança Fiat-GM. Enquanto os motores diesel, de origem Fiat, eram geralmente elogiados, os propulsores a gasolina iniciais, derivados da GM, foram um ponto de controvérsia entre os puristas da marca.
| Modelo do Motor | Tipo | Cilindros | Cilindrada (cc) | Potência (cv @ rpm) | Torque (Nm @ rpm) | Anos de Produção |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1.8 MPI | Gasolina | 4 em linha | 1,796 | 140 @ 6,500 | 175 @ 3,800 | 2007–2010 |
| 1.9 JTS | Gasolina | 4 em linha | 1,859 | 160 @ 6,500 | 190 @ 4,500 | 2005–2007 |
| 2.2 JTS | Gasolina | 4 em linha | 2,198 | 185 @ 6,500 | 230 @ 4,500 | 2005–2010 |
| 1.750 TBi | Gasolina | 4 em linha | 1,742 | 200 @ 5,000 | 320 @ 1,400 | 2009–2011 |
| 3.2 V6 JTS | Gasolina | V6 | 3,195 | 260 @ 6,200 | 322 @ 3,800 | 2005–2010 |
| 1.9 JTDM 8V | Diesel | 4 em linha | 1,910 | 120 @ 4,000 | 280 @ 2,000 | 2005–2010 |
| 1.9 JTDM 16V | Diesel | 4 em linha | 1,910 | 150 @ 4,000 | 320 @ 2,000 | 2005–2010 |
| 2.0 JTDM 16V | Diesel | 4 em linha | 1,956 | 136 @ 4,000 | 350 @ 1,750 | 2010–2011 |
| 2.0 JTDM 16V | Diesel | 4 em linha | 1,956 | 170 @ 4,000 | 360 @ 1,750 | 2009–2011 |
| 2.4 JTDM 20V | Diesel | 5 em linha | 2,387 | 200 @ 4,000 | 400 @ 2,000 | 2005–2007 |
| 2.4 JTDM 20V | Diesel | 5 em linha | 2,387 | 210 @ 4,000 | 400 @ 1,500 | 2007–2010 |
O percurso do Alfa Romeo 159, desde a sua estreia até ao final da produção, foi marcado por uma evolução contínua, com a marca a procurar refinar a fórmula e a responder às críticas iniciais, especialmente em relação ao peso.
O Alfa Romeo 159 foi oficialmente apresentado ao mundo no Salão Automóvel de Genebra de 2005, como sucessor do popular 156. A receção inicial foi dominada por elogios ao seu design deslumbrante e à qualidade superior do interior, que o posicionavam como um concorrente credível aos seus rivais alemães. Um ano depois, no mesmo salão, foi introduzida a variante Sportwagon. Esta versão carrinha foi aclamada pelo seu estilo, conseguindo manter a elegância e a desportividade da berlina, embora a sua capacidade de bagageira de 445 litros fosse prática, mas não líder na sua classe.
Em resposta direta à principal crítica dirigida ao modelo — o seu peso excessivo —, a Alfa Romeo implementou uma importante atualização para o ano-modelo de 2008. Através da utilização de componentes de suspensão em alumínio e outras otimizações, o peso em ordem de marcha foi reduzido em 45 kg. Esta "cura de emagrecimento" foi acompanhada por melhorias no interior, com novos acabamentos e instrumentação, e pela introdução de uma versão do motor 3.2 V6 com tração apenas dianteira. Esta última alteração não só reduziu o peso, como também permitiu que o modelo atingisse uma velocidade máxima de 250 km/h.
A fase final do ciclo de vida do 159 representou o seu apogeu técnico. Em 2009, foram introduzidos dois novos motores que transformaram a gama: o soberbo 1.750 TBi a gasolina e o eficiente e potente 2.0 JTDM a diesel. Estas unidades motrizes, mais leves e modernas, ofereceram finalmente ao 159 a combinação de desempenho e eficiência que muitos sentiam que faltava desde o lançamento, alinhando o "coração" do carro com a excelência do seu chassis e design. Este período representa o 159 na sua forma mais completa e desejável.
A Alfa Romeo ofereceu o 159 com uma variedade de níveis de acabamento que permitiam aos clientes escolher entre diferentes graus de luxo, desportividade e equipamento, culminando no altamente cobiçado pacote TI.
Dependendo do mercado, a estrutura de acabamentos variava. Na maioria dos mercados europeus, a gama era composta por três níveis principais:
No Reino Unido, a nomenclatura era diferente, com os níveis Turismo, Elegante e Lusso a corresponderem aproximadamente à mesma hierarquia.
O pacote TI (Turismo Internazionale) era muito mais do que um simples nível de acabamento; era uma transformação que elevava o 159 a um patamar superior de desportividade e apelo visual.
Ao longo da sua produção, surgiram algumas edições especiais. Um exemplo notável foi a "Limited Edition" de 2008, exclusiva para o mercado do Reino Unido, com apenas 250 unidades produzidas. Esta versão vinha com pintura preta Carbonio, as rodas de 19 polegadas do pacote TI e as pinças de freio Brembo vermelhas.
No entanto, a versão mais mítica do 159 é aquela que nunca chegou a existir oficialmente: o 159 GTA. Existem evidências e testemunhos de que a Alfa Romeo desenvolveu e testou um protótipo em 2007. Este protótipo estaria equipado com um motor V8 derivado da unidade de 4.2 litros da Maserati, semelhante à utilizada no exclusivo 8C Competizione. O projeto foi, contudo, cancelado, provavelmente devido a uma combinação de fatores: as preocupações com o peso já elevado do carro, os custos de desenvolvimento e a crise financeira global de 2008. O 159 GTA permanece assim como um dos mais fascinantes "e se" da história recente da Alfa Romeo.
O ciclo de vida do Alfa Romeo 159 concluiu-se com um legado misto, marcado por números de produção modestos, uma receção crítica que reconhecia a sua beleza mas lamentava os seus compromissos, e um impacto duradouro no mercado de clássicos modernos.
A produção total do Alfa Romeo 159, entre 2004 e o seu término em novembro de 2011, atingiu as 247.661 unidades. Toda a produção esteve concentrada na histórica fábrica de Pomigliano d'Arco, perto de Nápoles, Itália. O fim da linha de produção foi motivado por uma conjugação de fatores: vendas em declínio à medida que o modelo envelhecia e, mais crucialmente, uma decisão estratégica da gestão da Fiat, liderada por Sergio Marchionne. A fábrica de Pomigliano d'Arco foi escolhida para ser completamente remodelada para produzir o novo Fiat Panda, um modelo de grande volume considerado vital para a saúde financeira do grupo. A produção do 159 foi, assim, sacrificada em prol de uma estratégia focada em modelos de massa.
A receção ao 159 foi consistentemente dualista. Por um lado, o carro foi universalmente aclamado pelo seu design, vencendo prémios como o "Auto Bild Design Award" de 2006 e sendo considerado "L'Automobile più Bella del Mondo". A sua qualidade de construção, materiais interiores e, sobretudo, o seu nível de segurança de cinco estrelas foram igualmente elogiados como um enorme passo em frente para a marca. Por outro lado, em testes comparativos diretos com os seus principais rivais, como o BMW Série 3 (E90) e o Audi A4 (B7), o 159 era frequentemente criticado. O seu peso excessivo prejudicava a aceleração e a agilidade, e o consumo de combustível era geralmente mais elevado. Além disso, o espaço para os passageiros no banco traseiro era considerado acanhado para a sua classe, um compromisso feito em nome do estilo.
Atualmente, o Alfa Romeo 159 goza de um estatuto crescente como um clássico moderno. A sua beleza intemporal garante que continua a ser um carro visualmente impressionante e desejável, destacando-se no trânsito moderno. No entanto, para potenciais compradores, é crucial estar ciente dos problemas crónicos que podem afetar o modelo. Os pontos de atenção mais críticos incluem:
O fim da produção do 159 em 2011 e o lançamento do seu sucessor, o Alfa Romeo Giulia (952), apenas em 2016, criou um hiato de quase cinco anos. Durante este período, a Alfa Romeo esteve completamente ausente do crucial segmento D. Este "Hiato Alfa" teve consequências profundas e duradouras. A marca perdeu uma geração inteira de potenciais clientes para os seus rivais alemães, enfraqueceu a sua rede de concessionários, que ficou sem uma berlina emblemática para vender, e perdeu uma visibilidade e um impulso de mercado significativos. A decisão estratégica da Fiat de priorizar o Panda de produção em massa em detrimento da manutenção de uma presença no segmento premium tornou o lançamento subsequente do Giulia muito mais desafiador. O Giulia teve de reconquistar um território que a marca tinha efetivamente abandonado por meia década. O fim do 159 não foi apenas o fim de um modelo; foi o início de uma pausa estratégica que comprometeu as ambições premium da Alfa Romeo a longo prazo.
O Alfa Romeo 159 permanece na memória coletiva como um automóvel de belas contradições. Foi uma obra-prima de design construída sobre uma plataforma comprometida; um carro com segurança de topo que era demasiado pesado para ser verdadeiramente ágil; um modelo que só recebeu os seus melhores motores no final do seu ciclo de vida. Esta dualidade encapsula perfeitamente a paixão, a beleza, a ambição e os frustrantes "e se" que tantas vezes definem a experiência Alfa Romeo.
O seu legado não se mede em números de vendas ou em vitórias em testes comparativos, mas sim no seu apelo estético duradouro. O 159 é um testemunho do génio do design italiano, um automóvel cuja beleza transcende a sua época e continua a cativar entusiastas em todo o mundo. Mais do que um concorrente falhado aos gigantes alemães, o Alfa Romeo 159 é, e será sempre, recordado como uma das berlinas mais belas do século XXI, uma verdadeira expressão do Cuore Sportivo.
Imagens do Alfa Romeo 159