Series 1
(1950 - 1953)
Ficha técnica, versões e história do Alfa Romeo 1900 Berlina.
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(1950 - 1953)
(1954 - 1958)
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O período posterior à Segunda Guerra Mundial exigiu que a fabricante italiana Alfa Romeo passasse por uma profunda transformação operacional e estratégica. Até o final da década de 1940, a empresa era reconhecida pela produção quase artesanal de automóveis de luxo altamente sofisticados e caros, como a linha de seis cilindros 6C 2500. No entanto, a nova realidade econômica do pós-guerra reduziu significativamente a demanda por esses veículos de nicho. Para sobreviver, a diretoria da empresa percebeu que precisava de um veículo de passageiros moderno, menor e projetado para produção em massa, que pudesse alcançar volumes de venda elevados sem abdicar do desempenho esportivo inerente à identidade da marca.
O desenvolvimento do novo modelo foi liderado pelo engenheiro-chefe Orazio Satta Puliga. O primeiro protótipo do veículo foi apresentado de forma não oficial no Salão de Turim em maio de 1950. Contudo, devido a semelhanças estéticas com um projeto concorrente da FIAT, o desenho original foi considerado insatisfatório e retornou para a prancheta de desenvolvimento. Com a colaboração de Gaetano Ponzoni, da renomada encarroçadora Touring Superleggera, a equipe de design refinou as linhas do carro. O modelo definitivo foi apresentado oficialmente à imprensa e ao público em outubro de 1950, durante o Salão do Automóvel de Paris.
Batizado de Alfa Romeo 1900, o modelo representou três revoluções históricas para a fabricante milanesa:
Com o slogan comercial "O carro de família que vence corridas", a Alfa Romeo conseguiu posicionar o 1900 Berlina como um sedã prático e espaçoso para o cotidiano, mas com atributos mecânicos capazes de fazê-lo vencer competições de turismo importantes da época, como a Targa Florio e a Stella Alpina.
A arquitetura do Alfa Romeo 1900 Berlina combinava soluções de engenharia inovadoras para garantir comportamento dinâmico superior. A estrutura monobloco foi projetada para oferecer excelente rigidez torcional. O carro apresentava uma distância entre eixos de 2.630 mm, comprimento total de 4.400 mm, largura de 1.600 mm e altura de 1.490 mm. O peso seco do veículo era de aproximadamente 1.100 kg para a primeira versão, e seu coeficiente de arrasto aerodinâmico (Cd) era de 0,46, uma marca competitiva para os padrões de um sedã familiar dos anos 1950. A capacidade de bagagem ficava em 380 litros e o tanque de combustível comportava 53 litros.
Na parte mecânica, o motor de quatro cilindros em linha era instalado na posição dianteira longitudinal, transmitindo a potência para o eixo traseiro. A suspensão dianteira era independente, composta por braços sobrepostos, molas helicoidais e amortecedores hidráulicos telescópicos. A traseira utilizava um eixo rígido muito bem ancorado por braços tensores longitudinais e um braço central triangular, apoiado por molas helicoidais. Esse conjunto evitava as oscilações excessivas comuns em outros carros da época. O sistema de frenagem contava com freios a tambor nas quatro rodas.
O motor trazia características avançadas herdadas das pistas de corrida. O bloco era feito de ferro fundido, mas recebia um cabeçote de liga leve com câmaras de combustão hemisféricas e duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC) acionados por corrente. Devido à escassez de materiais e componentes industriais na Itália do pós-guerra, a Alfa Romeo terceirizou a fabricação de algumas partes internas do motor, importando pistões da marca Hepolite do Reino Unido com diâmetro de 82,55 mm. Para suportar altas temperaturas e regimes esportivos de rotação, as válvulas do motor eram preenchidas com sódio e as sedes de válvulas eram usinadas em ligas endurecidas de stellite.
Os primeiros modelos saíram de fábrica com pneus diagonais Pirelli Stella Bianca de medida 6.00-16. A partir de 1952, a fabricante adotou os novos pneus radiais Pirelli Cinturato de medida 165HR400, uma inovação que melhorou significativamente a precisão de direção e a estabilidade em curvas do sedã.
Ao longo de seu ciclo de vida de 1950 a 1959, o motor do Alfa Romeo 1900 Berlina passou por modificações graduais para oferecer mais potência e melhor dirigibilidade. As versões esportivas preparadas pela fábrica, conhecidas pelas siglas TI (Turismo Internazionale) e TI Super, pavimentaram o sucesso dinâmico da marca nas pistas e nas ruas.
No lançamento em 1950, a versão básica (Normale) utilizava o propulsor Tipo 1306 de 1.884 cc de deslocamento. Equipado com um carburador simples Weber ou Solex, o motor produzia entre 80 cv e 90 cv a 4.800 rpm, permitindo uma velocidade máxima de 150 km/h a 163 km/h.
Em 1951, a fabricante introduziu o 1900 TI. Esta versão esportiva utilizava o mesmo bloco de 1.884 cc, mas recebeu melhorias significativas: a taxa de compressão aumentou de 7,5:1 para 7,75:1, as válvulas de admissão foram alargadas de 38 mm para 41 mm (e as de escape de 34 mm para 36,5 mm) e o motor passou a ser alimentado por um carburador de corpo duplo Weber 40 DCA 3 ou dois carburadores Solex de corpo duplo 40 PII. Essas alterações elevaram a potência para 100 cv a 5.500 rpm, elevando a velocidade máxima para 170 km/h.
Em 1954, ocorreu uma reestruturação da gama sob a direção de Francesco Quaroni e Giuseppe Luraghi. O diâmetro do motor foi ampliado de 82,55 mm para 84,5 mm (mantendo o curso de 88 mm), o que gerou um novo bloco de 1.975 cc de deslocamento conhecido como Tipo 1308.
Este novo motor de 2,0 litros equipou duas novas versões de quatro portas:
| Versão do Modelo | Período de Produção | Motor (Código) | Deslocamento | Potência | Torque Máximo | Velocidade Máxima |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Berlina Normale | 1950–1954 | Tipo 1306 | 1.884 cc | 80–90 cv @ 4.800 rpm | 140 Nm @ 3.500 rpm | 150–163 km/h |
| Berlina TI | 1951–1953 | Tipo 1306 | 1.884 cc | 100 cv @ 5.500 rpm | 130 Nm @ 3.000 rpm | 170 km/h |
| Berlina Super | 1954–1959 | Tipo 1308 | 1.975 cc | 90 cv @ 5.200 rpm | 140 Nm @ 3.500 rpm | 160 km/h |
| Berlina TI Super | 1954–1957 | Tipo 1308 | 1.975 cc | 115 cv @ 5.500 rpm | 157 Nm @ 3.700 rpm | 180 km/h |
O desenho original da carroceria Berlina de quatro portas trazia uma proposta aerodinâmica limpa. Seus para-lamas eram integrados ao restante do corpo da carroceria sem ressaltos, adotando o conceito visual moderno do início dos anos 1950. Na seção frontal, o tradicional escudo em formato de coração da Alfa Romeo era acompanhado por duas entradas de ar horizontais posicionadas logo abaixo, conferindo um aspecto sóbrio e esportivo ao mesmo tempo.
Com a introdução da série "Super" em 1954, a Alfa Romeo promoveu atualizações de estilo e conforto para manter o modelo competitivo contra sedãs de luxo europeus mais modernos.
As modificações de estilo externas do facelift incluíram:
O habitáculo também passou por uma importante evolução funcional. Na primeira série (1950-1953), a Berlina era configurada para acomodar até seis passageiros graças a dois bancos inteiriços (dianteiro e traseiro) e ao posicionamento da alavanca de marchas montada na coluna de direção, o que eliminava o console central e aumentava o espaço interno. O painel possuía um acabamento mais simples com um único mostrador semicircular para instrumentação básica.
Após o facelift de 1954, o painel curvo passou a oferecer opções refinadas de acabamento em couro ou preto piano. O painel de instrumentos foi atualizado com novos acabamentos e, para melhorar o controle e a ergonomia durante uma condução mais ágil, a Alfa Romeo passou a oferecer assentos esportivos individuais do tipo concha no lugar do banco dianteiro inteiriço. A alavanca de câmbio na coluna de direção foi substituída, na segunda série, por uma alavanca montada diretamente no assoalho.
A linha de montagem do Alfa Romeo 1900 encerrou suas atividades em 1959. Ao longo de quase uma década de produção, a fábrica de Portello, em Milão, registrou a produção de 21.304 veículos pertencentes à gama 1900. Deste total, as Berlinas de quatro portas de fábrica somaram 17.390 unidades, consolidando-se como o modelo de maior volume comercial da marca até então. O restante da produção foi composto pelas versões cupê (Sprint) e cabriolet de chassi curto feitas para encarroçadores externos (1900C), variantes especiais de competição, chassis nus (1.083 unidades do 1900C e 91 unidades do chassi longo L) e o veículo utilitário militar com tração 4x4 Matta AR51/AR52.
A maior parte dos sedãs foi montada na Itália, mas houve também um pequeno lote montado sob licença na fábrica da S.A. Impéria, em Nessonvaux, na Bélgica, entre os anos de 1953 e 1954.
| Categoria / Versão da Berlina | Unidades Produzidas | Detalhamento Cronológico / Produção Anual |
|---|---|---|
| Berlina Normale (1.884 cc) | 7.611 | 1950: 6 unidades 1951: 1.220 unidades 1952: 3.107 unidades 1953: 3.115 unidades |
| Berlina TI (1.884 cc) | 572 | Produção concentrada de 1951 a 1953 |
| Berlina Super (1.975 cc) | 8.282 | Produção principal de 1954 a 1959 |
| Berlina TI Super (1.975 cc) | 478 | Produção principal de 1954 a 1957 |
| Berlina Primavera (Boano) | 300 | 1955: 4 unidades 1956: 286 unidades 1957: 10 unidades |
| Total Geral de Berlinas | 17.390 | Corresponde a aproximadamente 81,6% de toda a linha 1900 |
O sucesso e a flexibilidade técnica da plataforma do Alfa Romeo 1900 estenderam-se para além dos carros de rua convencionais. A solidez de sua estrutura monobloco e as boas qualidades de suspensão deram origem a projetos especiais, parcerias internacionais e aplicações que marcaram época.
No início da década de 1950, a Polícia de Estado da Itália (Polizia di Stato) buscava renovar sua frota móvel de patrulhamento com veículos velozes, robustos e capazes de combater a criminalidade com eficácia. A corporação selecionou o Alfa Romeo 1900 TI e o potente TI Super para se tornarem os primeiros carros de patrulha modernos equipados especificamente para esse serviço.
Pintada em um preto brilhante e agressivo, a Berlina ganhou o apelido popular de "Pantera" devido à sua agilidade dinâmica e ao potente motor de 115 cv de força. Cerca de 400 unidades do sedã foram adaptadas e fornecidas à polícia com modificações técnicas exclusivas:
Esses carros tornaram-se ícones da cultura policial e da segurança pública italiana durante a década de 1950.
Buscando explorar novos mercados de luxo, a fabricante fornecia chassis rolantes para encarroçadores renomados criarem cupês e conversíveis exclusivos. A Carrozzeria Boano utilizou a base estrutural e mecânica de 1.975 cc da Berlina Super para desenvolver uma carroceria cupê de duas portas bastante estilizada chamada "Primavera". Produzido em tiragem extremamente restrita de 300 unidades entre 1955 e 1957, o Primavera chamava a atenção por sua pintura elaborada em dois tons e por uma coluna "B" curva e inclinada que posteriormente influenciou outros designs automotivos europeus.
No final dos anos 1950, a Industrias Kaiser Argentina (IKA) operava com sucesso na produção local sob licença do grande sedã Kaiser Carabela e de utilitários Jeep na fábrica de Córdoba. Para complementar sua linha produtiva e oferecer uma opção menor e mais econômica de tamanho médio, a IKA negociou com a Alfa Romeo em 1959 a compra de todo o maquinário industrial e das matrizes de estamparia da Berlina 1900, que estava sendo retirada de linha na Itália.
O carro foi batizado de IKA Bergantín (Bergantim) e sua fabricação começou em março de 1960. O veículo consistia em uma mistura peculiar de engenharia italiana com mecânica norte-americana de utilitários:
Esteticamente, os estilistas da IKA alteraram o visual clássico europeu da Alfa Romeo para dar ao carro uma aparência mais robusta ao gosto dos compradores argentinos. A tradicional grade vertical em formato de escudo foi removida, dando lugar a uma grade horizontal larga colocada entre os faróis. O carro também recebeu calotas integrais cromadas, pneus de faixa branca e pintura em dois tons para agregar sofisticação.
A trajetória do Bergantín terminou em fevereiro de 1962, com pouco menos de 5.000 unidades comercializadas. O principal entrave ao projeto foi o desgaste acentuado das matrizes de estamparia originais adquiridas da Alfa Romeo. Já bastante desgastado por anos de uso em Milão, o ferramental começou a gerar peças de lataria com defeitos e desalinhamentos frequentes, dificultando a manutenção dos padrões mínimos de qualidade exigidos pela IKA na linha de montagem argentina e forçando a descontinuação precoce do modelo.
O Alfa Romeo 1900 Berlina desempenhou um papel vital de reestruturação para a marca no cenário pós-guerra. Ao inaugurar a era das carrocerias monobloco e das linhas de montagem automatizadas em Milão, o modelo provou que a Alfa Romeo podia produzir automóveis de forma industrializada, sem comprometer seu reconhecido caráter esportivo e refinamento de engenharia.
Com mais de 17 mil sedãs fabricados, o 1900 consolidou-se como o maior sucesso comercial da Alfa Romeo até meados dos anos 1950. O conhecimento tecnológico obtido com o desenvolvimento do motor de duplo comando de válvulas e a produção seriada do 1900 Berlina serviu de base direta para a criação das linhas Giulietta e Giulia. Esses modelos subsequentes consolidaram de vez a presença global da fabricante italiana como uma referência em sedãs esportivos de grande volume de vendas nas décadas seguintes.
Imagens do Alfa Romeo 1900 Berlina