O sucesso e a flexibilidade técnica da plataforma do Alfa Romeo 1900 estenderam-se para além dos carros de
rua convencionais. A solidez de sua estrutura monobloco e as boas qualidades de suspensão deram origem a
projetos especiais, parcerias internacionais e aplicações que marcaram época.
O Surgimento da "Pantera" na Segurança Pública Italiana
No início da década de 1950, a Polícia de Estado da Itália (Polizia di Stato) buscava renovar sua frota móvel
de patrulhamento com veículos velozes, robustos e capazes de combater a criminalidade com eficácia. A
corporação selecionou o Alfa Romeo 1900 TI e o potente TI Super para se tornarem os primeiros carros de
patrulha modernos equipados especificamente para esse serviço.
Pintada em um preto brilhante e agressivo, a Berlina ganhou o apelido popular de "Pantera" devido à sua
agilidade dinâmica e ao potente motor de 115 cv de força. Cerca de 400 unidades do sedã foram adaptadas e
fornecidas à polícia com modificações técnicas exclusivas:
- Grades metálicas instaladas na dianteira do veículo para proteger os pneus contra perfurações ou
colisões intencionais.
- Para-brisa de segurança blindado dividido em duas partes.
- Rádio transmissor de alta frequência integrado ao painel.
- Um farol de busca direcional manual montado do lado do motorista.
- Teto flexível de lona dobrável que permitia aos policiais ficarem de pé dentro da cabine para responder
ao fogo inimigo.
Esses carros tornaram-se ícones da cultura policial e da segurança pública italiana durante a década de 1950.
A Carrozzeria Boano e o Primavera
Buscando explorar novos mercados de luxo, a fabricante fornecia chassis rolantes para encarroçadores
renomados criarem cupês e conversíveis exclusivos. A Carrozzeria Boano utilizou a base estrutural e mecânica
de 1.975 cc da Berlina Super para desenvolver uma carroceria cupê de duas portas bastante estilizada chamada
"Primavera". Produzido em tiragem extremamente restrita de 300 unidades entre 1955 e 1957, o Primavera
chamava a atenção por sua pintura elaborada em dois tons e por uma coluna "B" curva e inclinada que
posteriormente influenciou outros designs automotivos europeus.
IKA Bergantín: Uma Alternativa na Argentina
No final dos anos 1950, a Industrias Kaiser Argentina (IKA) operava com sucesso na produção local sob licença
do grande sedã Kaiser Carabela e de utilitários Jeep na fábrica de Córdoba. Para complementar sua linha
produtiva e oferecer uma opção menor e mais econômica de tamanho médio, a IKA negociou com a Alfa Romeo em
1959 a compra de todo o maquinário industrial e das matrizes de estamparia da Berlina 1900, que estava sendo
retirada de linha na Itália.
O carro foi batizado de IKA Bergantín (Bergantim) e sua fabricação começou em março de 1960. O veículo
consistia em uma mistura peculiar de engenharia italiana com mecânica norte-americana de utilitários:
- A estrutura monobloco e o sistema de suspensão eram idênticos aos da Berlina 1900.
- A motorização básica era composta pelo motor Willys de quatro cilindros e 2,5 litros de fabricação
argentina, que rendia 77 cv.
- Em 1961, adicionou-se a opção do motor Continental de seis cilindros em linha e 3,7 litros de 115 cv.
- Os eixos de transmissão traseiros, freios a tambor e outros periféricos eram compartilhados com a linha
Jeep e Estanciera locais para reduzir custos.
Esteticamente, os estilistas da IKA alteraram o visual clássico europeu da Alfa Romeo para dar ao carro uma
aparência mais robusta ao gosto dos compradores argentinos. A tradicional grade vertical em formato de
escudo foi removida, dando lugar a uma grade horizontal larga colocada entre os faróis. O carro também
recebeu calotas integrais cromadas, pneus de faixa branca e pintura em dois tons para agregar sofisticação.
A trajetória do Bergantín terminou em fevereiro de 1962, com pouco menos de 5.000 unidades comercializadas. O
principal entrave ao projeto foi o desgaste acentuado das matrizes de estamparia originais adquiridas da
Alfa Romeo. Já bastante desgastado por anos de uso em Milão, o ferramental começou a gerar peças de lataria
com defeitos e desalinhamentos frequentes, dificultando a manutenção dos padrões mínimos de qualidade
exigidos pela IKA na linha de montagem argentina e forçando a descontinuação precoce do modelo.