Series 1
(1951 - 1953)
Ficha técnica, versões e história do Alfa Romeo 1900C Cabriolet.
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(1951 - 1953)
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No período pós-Segunda Guerra Mundial, a Alfa Romeo precisou reestruturar completamente a sua filosofia de produção e estratégia comercial para garantir a sobrevivência no mercado automotivo europeu. Os modelos anteriores, como as lendárias séries 6C e 8C, eram refinados, mas demandavam métodos de fabricação artesanais e caros, inviáveis para o novo cenário econômico do pós-guerra. Sob a liderança técnica do engenheiro Orazio Satta Puliga, a fabricante italiana desenvolveu o Alfa Romeo 1900, lançado no final de 1950. O modelo representou um marco histórico de reestruturação industrial ao se tornar o primeiro veículo da marca construído inteiramente em uma linha de montagem automatizada e o primeiro a adotar uma estrutura monobloco integrada.
Para promover o novo sedã de quatro portas (Berlina), o departamento comercial da marca utilizou o famoso slogan publicitário "o carro de família que vence corridas". O motor de quatro cilindros com duplo comando de válvulas no cabeçote apresentava excelente desempenho esportivo, o que atraiu rapidamente o interesse de pilotos particulares e equipes. Para atender a essa demanda competitiva e apoiar a renomada indústria italiana de carroceiros independentes, a Alfa Romeo disponibilizou uma versão especial do monobloco chamada 1900C. A letra "C" refere-se a corto (curto em italiano), indicando uma redução no entre-eixos de 2.630 mm para 2.500 mm. Essa base encurtada, extremamente rígida e leve, serviu como ponto de partida para que estúdios de prestígio criassem algumas das carrocerias coupé e cabriolet mais marcantes da história.
O projeto técnico do 1900C apresentava dimensões externas compactas e eficientes, com comprimento de 440,5 cm, largura de 163 cm e altura de 135 cm. O peso seco das carrocerias variava entre 1.000 kg e 1.100 kg, dependendo do tipo de estrutura e da quantidade de alumínio empregada pelas diferentes oficinas especializadas.
A suspensão dianteira utilizava braços sobrepostos (double wishbones) com molas helicoidais e amortecedores telescópicos hidráulicos fornecidos pela Girling. Na parte traseira, o sistema de suspensão passou por uma importante evolução durante os primeiros anos do modelo. Inicialmente, o eixo rígido traseiro era posicionado por braços de liga leve e uma barra Panhard transversal, o que gerava trepidações e instabilidade em curvas acentuadas e de alta velocidade. Para solucionar essa deficiência de estabilidade lateral, os engenheiros da Alfa Romeo introduziram um novo arranjo composto por dois braços de reação de aço tubular e dois braços diagonais curtos conectados a um pivô central posicionado sobre a carcaça do diferencial. Esse arranjo em paralelogramo eliminou as oscilações indesejadas e melhorou significativamente a aderência e o comportamento dinâmico do veículo.
O sistema de frenagem do modelo contava com tambores hidráulicos de alumínio aletados denominados "Alfin". Esses freios possuíam propriedades autoajustáveis e dutos de refrigeração integrados na dianteira para dissipar de forma eficiente o calor sob uso severo em pistas de corrida. Em relação aos pneus, os primeiros exemplares de 1900C saíram de fábrica equipados com os convencionais de medida 6.00-16 Pirelli Stella Bianca. No entanto, a partir de 1952, a fabricante adotou os pneus radiais Pirelli Cinturato de especificação 165HR400, montados frequentemente em rodas raiadas Borrani com cubo rápido para otimizar as respostas de direção.
O motor do 1900C foi desenvolvido a partir de conceitos de blocos de corrida de alta resistência, utilizando bloco de ferro fundido de quatro cilindros em linha com cabeçote de liga leve e duas árvores de comando de válvulas no cabeçote (DOHC). Uma característica mecânica notável do motor do 1900 era o sistema prático de ajuste de folga de válvulas. As hastes das válvulas, com diâmetro de 10 mm, possuíam uma rosca interna na qual era parafusado um tucho em formato de pata de cachorro, eliminando a necessidade de remover as árvores de comando para trocar pastilhas de ajuste, o que facilitava muito o trabalho de mecânicos e preparadores.
Entre 1951 e 1959, os motores do 1900C dividiram-se em duas motorizações principais associadas às gerações e atualizações do modelo:
| Especificação de Desempenho | Versão Sprint (1.9 Litros - 1951 a 1953) | Versão Super Sprint (2.0 Litros - 1953 a 1959) |
|---|---|---|
| Código do Bloco | Tipo 1306 | Tipo 1308 |
| Cilindrada Total | 1.884 cm³ | 1.975 cm³ |
| Diâmetro x Curso | 82,55 mm x 88 mm | 84,5 mm x 88 mm |
| Taxa de Compressão | 7,75:1 | 8,0:1 |
| Carburação | Solex simples de fluxo descendente | Dois carburadores duplos Solex 40 PII |
| Potência Máxima | 100 cv @ 5.500 rpm | 115 cv @ 5.500 rpm |
| Velocidade Máxima | ~180 km/h | ~190 km/h |
| Câmbio e Acionamento | Manual de 4 marchas (coluna de direção) | Manual de 5 marchas (coluna ou console central) |
A versão inicial Sprint (1.9 litros) utilizava a mesma configuração mecânica do sedã esportivo 1900 TI, gerando 100 cv de potência para garantir agilidade nas competições de estrada. Em 1953, para honrar o desempenho dinâmico e extrair mais torque, a Alfa Romeo aumentou o diâmetro dos cilindros em 2 mm (de 82,55 mm para 84,5 mm), criando a linha de motores "Super" de 1.975 cm³. Na configuração mais forte utilizada nos coupés Super Sprint (CSS), a potência foi elevada para 115 cv com a ajuda de dois carburadores duplos Solex e válvulas de admissão maiores, que passaram de 38 mm para 41 mm.
A partir de meados de 1955, uma profunda revisão mecânica substituiu a corrente única que acionava as árvores de comando por duas correntes silenciosas. Essa modificação inverteu a rotação das árvores de comando e alterou a ordem de ignição dos cilindros de 1-3-4-2 para 1-2-4-3, melhorando o equilíbrio do motor. O câmbio também evoluiu para uma caixa de 5 marchas sincronizadas da segunda à quarta marcha, com relações de transmissão otimizadas para as curvas de potência do propulsor Tipo 1308.
Devido à relação de proximidade entre os executivos da Alfa Romeo e da Carrozzeria Touring de Milão, a empresa recebeu o encargo de produzir a versão coupé esportiva oficial que seria vendida diretamente na rede de concessionárias da marca. A Touring construiu a carroceria de alumínio utilizando o seu método patenteado Superleggera, caracterizado pela leveza e rigidez estrutural obtidas pela fixação de painéis de liga de alumínio moldados à mão sobre uma fina estrutura de tubos de aço.
Embora a documentação histórica da época apresente divergências entre os arquivos da fabricante, do registro histórico da Touring e do clube oficial do modelo, a evolução do coupé Touring divide-se extraoficialmente em quatro séries distintas:
| Geração / Série Touring | Características de Design | Diferenciais de Acabamento | Unidades Produzidas |
|---|---|---|---|
| Série 1 (1951 - 1953) | Formato coupé de 5 janelas com frente herdada do sedã | Tipo 1 com portas longas sob as soleiras e maçanetas retráteis ; Tipo 2 com portas encurtadas | 650 unidades |
| Série 2 (1954) | Formato de 5 janelas com portas curtas sobre as soleiras | Motor Super de 1.975 cc e câmbio de 5 marchas na coluna de direção | 299 unidades |
| Série 3 (1954 - 1955) | Formato de 5 janelas com áreas envidraçadas e para-brisa traseiro maiores | Novas saídas de ar frontais, freios maiores e câmbio posicionado no console central | Parte das 854 unidades Super Sprint |
| Série 4 (1956 - 1958) | Carroceria rakish e esportiva de apenas 3 janelas | Visual limpo inspirado no design do Giulietta Sprint | Parte das 854 unidades Super Sprint |
Durante a produção da Série 1, a Touring refinou o modelo buscando eficiência de manufatura. A transição do Tipo 1 para o Tipo 2 consistiu principalmente no encurtamento das portas para que não ultrapassassem a linha das soleiras laterais, simplificando os ajustes artesanais. A Série 2 de 1954 foi um modelo de transição temporário que adotou o motor atualizado de 2.0 litros e o novo câmbio de 5 marchas, mas manteve a carroceria anterior de portas curtas e a alavanca de marchas na coluna de direção. A Série 3 trouxe as melhorias estéticas e ergonômicas de que o modelo precisava, com vidros ampliados e a muito requisitada alavanca de câmbio esportiva no console central. Por fim, a Série 4 abandonou o desenho clássico de cinco janelas em favor de uma carroceria fastback moderna de três janelas, aproximando-se visualmente da identidade dos novos cupés compactos da marca.
Enquanto a Touring focava em coupés puramente esportivos, a Alfa Romeo encomendou à Carrozzeria Pinin Farina a fabricação de uma versão conversível (Cabriolet) de quatro lugares e um coupé correspondente. O objetivo do estúdio liderado por Battista Farina era criar modelos elegantes para o uso diário, oferecendo uma opção refinada frente aos conversíveis produzidos por outros carroceiros como Stabilimenti Farina e Worblaufen.
Pinin Farina produziu exatamente 88 unidades do Cabriolet e cerca de 100 unidades do Coupé sobre a plataforma curta 1900C entre os anos de 1952 e 1953, com o faturamento e entrega de alguns lotes ocorrendo em 1954. Para assegurar um peso competitivo, o estúdio fez amplo uso de alumínio na moldagem de painéis funcionais, como os para-lamas internos, portas e forrações estruturais de acabamento, resultando em um acréscimo de peso de apenas 50 kg em relação ao coupé de alumínio da Touring. No interior, o couro foi descartado nos primeiros lotes por ser considerado comum demais por Battista Farina, que optou por forrar todo o painel, portas e teto com tecido de mohair de altíssima qualidade.
A evolução dessas versões seguiu uma distinção clara entre duas séries de produção:
Estima-se que apenas cerca de 30 unidades desses raros conversíveis tenham resistido ao tempo, restando hoje somente 21 exemplares documentados e mantidos em coleções particulares de prestígio.
A disponibilização do chassi encurtado e rígido do 1900C permitiu que outras renomadas empresas de design executassem projetos de baixíssimo volume ou peças únicas (one-off) que marcaram a época do design automotivo europeu:
A análise detalhada da história do Alfa Romeo 1900C revela que o modelo não foi apenas um sucesso nas pistas e ruas da Europa do pós-guerra, mas também representou o encerramento de um capítulo fundamental na história do automóvel italiano. Ele foi o último modelo de grande produção da Alfa Romeo cujos chassis monoblocos foram fornecidos em larga escala para encarroçadores independentes aplicarem designs personalizados. Com o avanço tecnológico e a consolidação de métodos de produção mais rígidos e integrados adotados nas décadas seguintes, essa prática de fabricação artesanal tornou-se financeiramente inviável. Os coupés e cabriolets da série 1900C permanecem como testemunhos históricos da engenharia focada em desempenho e do design de carrocerias feitas sob medida.
Imagens do Alfa Romeo 1900C Cabriolet