1ª Geração
(1983 - 1987)
Ficha técnica, versões e história do Alfa Romeo Arna 3-door.
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No final da década de 1970, a fabricante italiana Alfa Romeo, que na época operava sob controle do conglomerado estatal Istituto per la Ricostruzione Industriale (IRI), enfrentava graves dificuldades financeiras, crises trabalhistas constantes e um controle de qualidade severamente prejudicado. A marca precisava com urgência de um modelo hatchback de dois volumes para competir no competitivo segmento C europeu, liderado pelo Volkswagen Golf, Lancia Delta e Ford Escort. Sem recursos financeiros para projetar uma plataforma totalmente nova, a diretoria buscou um parceiro internacional.
Simultaneamente, a japonesa Nissan buscava alternativas estratégicas para contornar as severas cotas de importação aplicadas por países europeus aos veículos produzidos no Japão, principalmente no Reino Unido e na França. A montagem de automóveis em território europeu viabilizaria a expansão comercial da marca no continente.
Dessa necessidade mútua, em 9 de outubro de 1980, Takashi Ishihara, presidente da Nissan, e Ettore Massacesi, presidente da Alfa Romeo, assinaram em Tóquio o acordo que estabeleceu a Alfa Romeo Nissan Autoveicoli S.p.A. (Arna). Para operacionalizar o projeto, foi construída uma nova unidade industrial em Pratola Serra, na região de Avellino, localizada a cerca de 50 quilômetros da fábrica da Alfasud em Pomigliano d'Arco, onde ocorria a integração final dos conjuntos mecânicos. O acordo previa que a Nissan forneceria as chapas e painéis de carroceria estampados do modelo Pulsar N12 (vendido na Europa como Nissan Cherry), correspondendo a 20% do trabalho de montagem de cada veículo, enquanto a Itália completaria o veículo com motorização e componentes mecânicos locais.
O projeto Arna prometia unificar o estilo e a dinâmica de condução italianos com a precisão de fabricação e a confiabilidade mecânica do Japão. O resultado prático, no entanto, inverteu essa lógica: o veículo combinou a carroceria quadrada e visualmente conservadora da Nissan com os conhecidos problemas elétricos e a suscetibilidade à corrosão que afetavam a Alfa Romeo na época.
Do ponto de vista da engenharia, a união das duas plataformas impôs sérias barreiras técnicas. A adaptação da suspensão dianteira independente do tipo MacPherson do Alfasud e do motor boxer longitudinal de quatro cilindros no chassi japonês — projetado originalmente para motores transversais em linha — exigiu modificações estruturais profundas nos painéis frontais e no cofre do motor. Esses desafios estenderam o cronograma de desenvolvimento, atrasando a apresentação oficial do carro para setembro de 1983, no Salão do Automóvel de Frankfurt.
Mecanicamente, o Arna herdou a transmissão de cinco marchas, o sistema de direção, a suspensão dianteira e os discos de freio frontais do Alfasud. A suspensão traseira independente de braços arrastados, os freios traseiros a tambor e o painel de instrumentos eram fornecidos pela Nissan. Para harmonizar o comportamento dinâmico entre a dianteira firme da Alfa Romeo e a traseira mais macia da Nissan, os engenheiros italianos removeram a barra estabilizadora dianteira e ajustaram os ângulos de cambagem. O modelo manteve sistemas elétricos de origem italiana, o que perpetuou os problemas de confiabilidade característicos da marca no período.
O ciclo de vida do Alfa Romeo Arna estendeu-se de 1983 a 1987 em uma única geração. Ao longo desse período, a fabricante rejeitou a aplicação de reestilizações estéticas na carroceria, optando por direcionar os investimentos a evoluções mecânicas e de acabamento interno.
O veículo chegou ao mercado europeu no final de 1983 nas configurações de entrada L (três portas) e SL (cinco portas), equipadas com o motor boxer de 1,2 litro de 63 cavalos. Paralelamente, houve a introdução temporária de uma versão de apelo ligeiramente esportivo, denominada TI de três portas, equipada com motor de 1,3 litro e 71 cavalos de potência.
No ano de 1984, a gama foi aprimorada com a chegada de variantes de alto desempenho. A versão TI de 1,3 litro foi atualizada com um novo motor que adotava dois carburadores de corpo duplo Weber ou Dell'Orto, elevando a potência para 86 cavalos e permitindo atingir a velocidade máxima de 173 km/h. No mesmo período, foi introduzida a versão topo de linha TI de 1,5 litro, que entregava 95 cavalos de potência.
Em novembro de 1984, já como linha 1985, a Alfa Romeo implementou uma série de melhorias técnicas e de engenharia. O motor básico de 1,2 litro foi atualizado com a substituição do carburador de corpo simples por um carburador vertical de corpo duplo Solex, o que elevou sua potência de 63 para 68 cavalos. No interior, o Arna recebeu novos materiais de revestimento e modificações nos grafismos do painel. O chassi e a parte elétrica também evoluíram com a instalação de novas molas helicoidais na suspensão traseira e um sistema elétrico de 12V revisado para mitigar falhas crônicas de funcionamento.
Em meados de 1986, a Alfa Romeo descontinuou as versões TI, mantendo em produção apenas as opções básicas de 1,2 litro e a configuração de 1,5 litro até o encerramento das atividades da linha de montagem em 1987.
Os motores boxer de quatro cilindros contrapostos aplicados ao Arna representavam o ponto alto do conjunto, garantindo aceleração ágil e o ronco característico dos esportivos italianos.
Tabela 1: Especificações de Motorização do Alfa Romeo Arna (1983–1987)
| Versão / Modelo | Código do Motor | Cilindrada | Configuração | Potência Máxima | Torque Máximo | Sistema de Alimentação | Velocidade Máxima | Aceleração (0 a 100 km/h) | Período de Produção |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| 1.2 L / LS (63 CV) | AS 305 | 1.186 cc | Boxer H4 | 63 PS (46 kW) @ 6.000 rpm | 88 N·m @ 2.000 rpm | Carbilitador vertical simples | 155 km/h | N/D | 1983 – 1984 |
| 1.2 L / LS (68 CV) | AS 305 | 1.186 cc | Boxer H4 | 68 PS (50 kW) @ 6.000 rpm | 92 N·m @ 2.000 rpm | Carburador vertical duplo Solex | 156 km/h | 14,1 s | 1984 – 1987 |
| 1.3 TI (71 CV) | AS 30006 | 1.351 cc | Boxer H4 | 71 PS (52 kW) @ 5.800 rpm | 107 N·m @ 3.000 rpm | Carburador vertical simples | 156 km/h | N/D | 1983 – 1984 |
| 1.3 TI (86 CV) | AS 31010 | 1.351 cc | Boxer H4 | 86 PS (63 kW) @ 5.800 rpm | 121 N·m @ 4.000 rpm | 2 Carburadores Dell'Orto/Weber | 173 km/h | 11,2 s | 1984 – 1986 |
| 1.5 TI (95 CV) | AS 31016 | 1.490 cc | Boxer H4 | 95 PS (70 kW) @ 5.800 rpm | 133 N·m @ 4.000 rpm | 2 Carburadores de corpo duplo | 175 km/h | 10,6 s | 1984 – 1987 |
Tabela 2: Dimensões, Capacidades e Especificações de Chassi do Arna
| Parâmetro de Medição | Valor Especificado | Origem / Detalhes de Engenharia |
|---|---|---|
| Comprimento Total | 4.000 mm | Idêntico ao padrão da carroceria do Nissan Pulsar N12 |
| Largura | 1.621 mm ou 1.651 mm | Alargamento mínimo para acomodação da bitola dianteira italiana |
| Altura | 1.340 mm ou 1.367 mm | Altura variável conforme calibração da suspensão das versões L e TI |
| Distância Entre-Eixos | 2.416 mm | Chassi compacto com balanços curtos |
| Peso em Ordem de Marcha | 850 kg a 920 kg | Variação associada ao maior peso do motor de 1,5 litro e acabamento TI |
| Capacidade do Porta-Malas | 250 litros | Espaço limitado pela presença da suspensão traseira independente |
| Tanque de Combustível | 50 litros (10 litros de reserva) | Autonomia média estimada em até 800 quilômetros na versão de entrada |
| Pneus e Rodas | 165/70 R13 em rodas de ferro de 13" | Rodas de aço estampado com calotas plásticas pretas de proteção |
| Freios Dianteiros / Traseiros | Discos de 239 mm / Tambores de 203 mm | Sistema misto herdado da união das plataformas Alfa e Nissan |
Como parte dos acordos de distribuição e contorno das barreiras alfandegárias europeias, a joint venture comercializou o Arna sob diferentes identidades e marcas dependendo do país de destino. Adicionalmente, o desenvolvimento conjunto estendeu-se a outros segmentos de mercado automotivo.
Tabela 3: Variantes Globais e Projetos Paralelos do Acordo Alfa-Nissan
| Denominação Comercial | Fabricante Associada | Mercados de Atuação | Diferenciais e Características Técnicas |
|---|---|---|---|
| Nissan Cherry Europe | Nissan | Reino Unido e Espanha | Vendido nas concessionárias Nissan; trazia as lanternas traseiras do Arna. |
| Nissan Pulsar Milano X1 | Nissan | Japão | Modelo de produção japonês que usava a grife Alfa Romeo e interior TI verde e preto. |
| Holden Astra (LB/LC) | Holden (General Motors) | Austrália | Versão de 5 portas; equipada com motor Nissan 1.5 produzido na Austrália. |
| Romeo / Nissan Trade | Nissan / Alfa Romeo | Europa | Veículo comercial leve derivado da cooperação industrial das marcas. |
No mercado britânico, a estratégia de comercialização gerou grande ambiguidade. Inicialmente, o veículo foi introduzido como Nissan Cherry Europe. Isso afastou os tradicionais clientes da Nissan, que prezavam pela qualidade de montagem japonesa e desconfiavam da mão de obra italiana, além de gerar reclamações das concessionárias locais devido ao alto índice de reparos necessários na entrega técnica. Em 1985, a Alfa Romeo assumiu a importação direta, rebatizando o modelo como Arna, mas as vendas continuaram baixas, pois os compradores tradicionais de Alfa Romeo rejeitaram a carroceria japonesa de traços genéricos.
O desempenho comercial do Alfa Romeo Arna ficou muito abaixo das projeções originais da marca. O plano industrial previa uma cadência de produção constante de aproximadamente 60.000 unidades ao ano no período de 1983 a 1987. No entanto, ao longo de seus quatro anos de mercado, o total produzido atingiu somente 53.047 unidades. Os dados estatísticos de acervo mantidos pelo Museu Alfa Romeo registram um volume total ligeiramente superior, computando pouco mais de 58.000 carrocerias montadas, número que engloba as variantes destinadas à exportação direta.
Tabela 4: Volume de Vendas Anuais do Alfa Romeo Arna
| Ano Comercial | Unidades Vendidas | Cenário e Dinâmica do Período |
|---|---|---|
| 1983 | N/D | Lançamento em Frankfurt e início tímido da distribuição na Itália. |
| 1984 | 31.066 unidades | Ano de maior sucesso comercial, correspondente à metade da meta anual projetada. |
| 1985 | 10.976 unidades | Queda drástica de vendas decorrente da forte concorrência interna com o modelo 33. |
| 1986 | N/D | Fim das versões TI; venda restrita aos modelos básicos em mercados locais. |
| 1987 | N/D | Cancelamento definitivo e encerramento da produção sob ordem do Grupo Fiat. |
A derrocada comercial e financeira do Arna foi acelerada por dois fatores principais:
Em 1986, diante de uma crise financeira insustentável, a estatal italiana IRI colocou a Alfa Romeo à venda. O Grupo Fiat adquiriu a fabricante e assumiu seu controle direto. Uma das primeiras medidas estratégicas adotadas pela nova diretoria da Fiat foi o encerramento definitivo da parceria com a Nissan, fechando a linha de montagem do Arna em 1987 para concentrar todos os esforços industriais e de vendas no Alfa 33.
O Alfa Romeo Arna é frequentemente apontado por historiadores da indústria automotiva como um exemplo claro de planejamento inadequado em acordos de cooperação internacional. O projeto falhou ao desconsiderar os pontos fortes de cada marca, unindo uma carroceria sem identidade visual à mecânica de manutenção complexa e propensa a falhas de confiabilidade.
Essa falha comercial impôs mudanças de rumo significativas para ambas as empresas. A Nissan abandonou parcerias semelhantes na Europa e optou por estabelecer operações próprias e independentes no continente, inaugurando em Sunderland, na Inglaterra, uma das fábricas mais eficientes do mercado europeu. Para a Alfa Romeo, o episódio acelerou o fim de sua gestão estatal e sua integração definitiva ao Grupo Fiat.
Com o passar dos anos, a rápida oxidação das chapas de aço e a escassez de peças de reposição fizeram com que a frota do Arna desaparecesse das ruas europeias, tornando o veículo uma raridade extrema. No Reino Unido, por exemplo, onde Jeremy Clarkson destruiu simbolicamente um exemplar em rede nacional no ano de 2000, restam apenas três veículos sobreviventes registrados. Hoje, o Arna é considerado um veículo exótico de coleção e um importante estudo de caso sobre os desafios da globalização automotiva.
Imagens do Alfa Romeo Arna 3-door