Impressões de Condução e Manutenção
A experiência ao volante do Spider confirma seu caráter de Grand Tourer. É um carro confortável para viagens
longas, com um interior acolhedor e uma suspensão que, apesar de firme, absorve bem as irregularidades do
asfalto. A capota de lona de tripla camada oferece um excelente isolamento, tornando a condução com o teto
fechado surpreendentemente silenciosa para um conversível. Com o teto aberto, o para-brisa inclinado e o
defletor de vento fazem um bom trabalho em minimizar a turbulência na cabine.
No entanto, quando se exige um comportamento mais esportivo, as limitações do chassi e o peso do carro se
tornam evidentes. Em estradas sinuosas, o Spider pode parecer "solto" ou "flexível", uma crítica comum a
carros que foram convertidos de cupês para conversíveis sem uma plataforma projetada especificamente para
isso. A frente pesada, especialmente com os motores V6 e 2.4 diesel, pode levar ao subesterço se o motorista
entrar em uma curva com excesso de velocidade. O modelo com o motor 1.750 TBi é o que oferece a experiência
mais equilibrada e ágil, mitigando parte do peso na dianteira.
Como muitos carros italianos de sua época, o Spider 939 tem uma reputação de exigir manutenção atenta e de
apresentar alguns problemas crônicos. Para um potencial proprietário, é crucial estar ciente dessas
questões:
- Motor 2.2 JTS: O problema mais notório é o esticamento da corrente de distribuição.
Ruídos de chocalho na partida a frio são um sinal de alerta que não deve ser ignorado, pois uma falha
pode causar danos catastróficos ao motor. A troca preventiva é altamente recomendada.
- Suspensão: Devido ao peso do carro, os componentes da suspensão dianteira, como braços
de controle e buchas, sofrem desgaste acelerado. Molas dianteiras quebradas também são uma ocorrência
relativamente comum. Ruídos de "toc-toc" ao passar por lombadas são um indicativo de que a suspensão
precisa de atenção.
- Sistema Elétrico: Falhas elétricas intermitentes são uma queixa frequente. Isso pode
incluir desde o mau funcionamento dos sensores de estacionamento e dos vidros elétricos até luzes de
advertência que acendem e apagam sem motivo aparente no painel. Muitas vezes, a causa são maus contatos
nos conectores.
- Mecanismo da Capota: O complexo sistema eletro-hidráulico da capota de lona pode ser
uma fonte de problemas. Falhas nos motores, sensores de posição ou vazamentos no sistema hidráulico
podem resultar em um reparo caro.
- Motores Diesel: Nos motores JTDm, o filtro de partículas (DPF) e a válvula EGR podem
ficar obstruídos, especialmente se o carro for usado principalmente em trajetos curtos na cidade, o que
impede o ciclo de regeneração do filtro. Isso leva à perda de potência e ao acendimento de luzes de
advertência no painel.
Apesar desses pontos, muitos proprietários relatam uma experiência de posse confiável, desde que a manutenção
seja feita rigorosamente em oficinas especializadas que conheçam as particularidades do modelo.
Legado e Produção
A produção do Alfa Romeo Brera e do Spider foi encerrada no final de 2010 na fábrica da Pininfarina em San
Giorgio Canavese, com as últimas unidades sendo vendidas ao longo de 2011. A curta carreira do modelo, que
durou apenas cinco anos, foi impactada por vendas abaixo do esperado e pela crise financeira global de 2008,
que afetou duramente o mercado de carros de nicho.
No total, foram produzidas 12.488 unidades do Spider e 21.786 unidades do Brera cupê. A produção
relativamente baixa do Spider, em particular, o torna um carro significativamente mais raro que seus
principais concorrentes alemães, que foram fabricados em volumes muito maiores. A análise da produção anual
revela o ciclo de vida comercial do carro.
Tabela de Produção: Alfa Romeo Spider (939) por Ano
| Ano |
Unidades Produzidas |
| 2006 |
2.838 |
| 2007 |
4.535 |
| 2008 |
2.559 |
| 2009 |
999 |
| 2010 |
1.432 |
| Total |
12.363* |
*Nota: Outras fontes citam um total de 12.488 unidades. A pequena discrepância provavelmente se
deve a diferentes métodos de contagem (ano de produção vs. ano de registro).
Os dados mostram um pico claro em 2007, o primeiro ano completo de produção, seguido por um declínio
acentuado a partir de 2008, coincidindo com a crise econômica. A queda drástica em 2009 reflete tanto a
recessão quanto o envelhecimento natural do modelo no mercado. O ligeiro aumento em 2010 pode ser atribuído
à popularidade do novo motor 1.750 TBi e à produção final do modelo. Essa baixa contagem de produção é,
paradoxalmente, um dos maiores trunfos do carro hoje. A combinação de seu design universalmente aclamado,
seu caráter imperfeito mas cheio de personalidade (o clássico paradoxo Alfa Romeo) e sua raridade objetiva
cria a receita perfeita para um futuro clássico. O que foi um sucesso comercial modesto em sua época se
transformou em um fator chave para sua desejabilidade no mercado de colecionáveis. Seus baixos números de
produção são o que o eleva de um simples "carro usado" para um "clássico moderno".
Conclusão: Uma Beleza Imperfeita
A jornada do Alfa Romeo Spider 939 é uma das mais fascinantes da história automotiva moderna. Nasceu como um
sonho — um conceito radical e sem compromissos de Giorgetto Giugiaro, com a promessa de um retorno às raízes
de alto desempenho da Alfa Romeo. Transformou-se em uma realidade de produção moldada por restrições
corporativas e compromissos de engenharia, um processo que o distanciou de sua visão original, mas que,
milagrosamente, preservou sua beleza estonteante.
O veredito final sobre o Spider 939 é que ele é a personificação da "beleza imperfeita". Ele nunca foi o
roadster mais rápido, o mais ágil ou o mais confiável de sua geração. Seu peso era um obstáculo, e sua
dinâmica de condução, embora competente, não possuía a centelha dos grandes esportivos. No entanto, nenhuma
dessas críticas consegue diminuir o impacto de sua presença. Olhar para um Spider 939 é entender o poder do
design italiano em sua forma mais pura e emocional. Suas linhas, curvas e proporções transcendem a função e
entram no reino da arte.
Seu legado está seguro, não como um marco de desempenho, mas como uma das últimas grandes expressões de
design automotivo emocional de sua era. É um carro que continua a virar cabeças, a gerar conversas e a
recompensar os proprietários que entendem e aceitam seu caráter único. Em um mundo de carros cada vez mais
homogêneos e eficientes, o Alfa Romeo Spider 939 permanece como um lembrete de que, às vezes, a beleza é,
por si só, razão suficiente. Um clássico inegável, não apesar de suas falhas, mas por causa delas.