101 Series 1
(1959 - 1960)
Ficha técnica, versões e história do Alfa Romeo Giulietta Promiscua.
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(1959 - 1960)
A história do Alfa Romeo Giulietta é uma das trajetórias mais relevantes para a compreensão da evolução industrial automotiva europeia no período pós-guerra. O modelo simbolizou a transição bem-sucedida da Alfa Romeo de uma fabricante artesanal de automóveis de luxo de baixíssimo volume para uma indústria moderna de produção em massa, sem que isso significasse abrir mão do refinamento de engenharia ou do temperamento esportivo de seus veículos. O conceito original do Giulietta consistiu em equipar sedãs de passeio leves e compactos com motores dinâmicos e de alta rotação, criando a base para o segmento de sedãs esportivos modernos.
O presente relatório analisa em profundidade a evolução histórica, os detalhes de engenharia, as atualizações visuais (facelifts) e as especificações de desempenho das duas primeiras gerações do Giulietta Berlina (sedã de quatro portas) e de suas raras variantes de carga e uso misto — conhecidas popularmente como Promiscua ou Giardinetta —, abrangendo as plataformas Tipo 750/101 (1955–1965) e Tipo 116 (1977–1985).
Apresentado ao público no Salão do Automóvel de Turim em abril de 1955, o Giulietta Berlina (sedã) seguiu o lançamento do cupê Sprint de 1954, consolidando a entrada da Alfa Romeo na classe de motores de 1,3 litro. O projeto utilizava uma carroceria monobloco de aço que combinava leveza e alta rigidez torcional, resultando em um peso em ordem de marcha de apenas 915 kg.
A suspensão dianteira apresentava braços triangulares sobrepostos independentes com molas helicoidais coaxiais e amortecedores hidráulicos. Na traseira, o carro utilizava um eixo rígido muito bem localizado por braços longitudinais e uma haste de reação superior em formato de "Y" ancorada à carcaça de alumínio do diferencial. O sistema de freios consistia em tambores hidráulicos aletados nas quatro rodas, com excelente capacidade de refrigeração.
O coração desta geração era o inovador motor de quatro cilindros em linha e 1.290 cc, totalmente fabricado em liga leve de alumínio (bloco e cabeçote). O propulsor adotava camisas de cilindro úmidas de ferro fundido, cabeçote de fluxo cruzado com câmaras de combustão hemisféricas e duas válvulas por cilindro acionadas de forma direta por um duplo comando de válvulas no cabeçote (DOHC) comandado por corrente dupla de distribuição. Com diâmetro de 74 mm e curso de 75 mm, era um motor de rotação livre e alta eficiência para os padrões da época.
A primeira geração da Berlina evoluiu por meio de três séries distintas de produção, acompanhadas de melhorias mecânicas e de estilo:
Como a fábrica de Portello não tinha capacidade ou linhas de produção estruturadas para fabricar veículos de uso misto, a Alfa Romeo terceirizou a produção de variantes familiares para convertedores independentes especializados:
A tabela abaixo reúne as especificações técnicas, códigos de chassi e o número total de exemplares produzidos para as versões sedã e perua da primeira geração.
| Versão / Modelo | Código de Tipo | Período de Produção | Motor / Cilindrada | Taxa de Compressão | Carburador / Alimentação | Potência Máxima | Velocidade Máxima | Produção Total (Unidades) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Berlina Normale (Série I) | 750C | 1955–1959 | 1.290 cc DOHC | 7,5:1 | 1 Solex de corpo simples | 50–53 PS | 135 km/h | Incluído na Série II |
| Berlina Normale (Série II) | 101.00 | 1959–1961 | 1.290 cc DOHC | 7,5:1 | 1 Solex de corpo simples | 50–53 PS | 135 km/h | Incluído na Série III |
| Berlina Normale (Série III) | 101.28 | 1961–1963 | 1.290 cc DOHC | 7,5:1 | 1 Solex de corpo simples | 62 PS | 140 km/h | 39.057 (Séries I, II e III) |
| Berlina T.I. (Série I) | 753 / 750C | 1957–1959 | 1.290 cc DOHC | 8,0:1 | 1 Solex de corpo duplo | 65 PS | 150 km/h | Incluído na Série II |
| Berlina T.I. (Série II) | 101.11 / 101.13 | 1959–1961 | 1.290 cc DOHC | 8,0:1 | 1 Solex de corpo duplo | 65 PS | 150 km/h | Incluído na Série III |
| Berlina T.I. (Série III) | 101.29 / 101.09 | 1961–1964 | 1.290 cc DOHC | 8,5:1 | 1 Solex de corpo duplo | 74 PS | 155 km/h | 89.408 (Séries I, II e III - LHD) |
| Berlina T.I. RHD (Guida Destra) | 101.09 | 1960–1963 | 1.290 cc DOHC | 8,5:1 | 1 Solex de corpo duplo | 74 PS | 155 km/h | 780 |
| Berlina T.I. CKD (Montagem Local) | N/A | 1961–1963 | 1.290 cc DOHC | 8,5:1 | 1 Solex de corpo duplo | 74 PS | 155 km/h | 2.540 |
| Promiscua (Colli Wagon) | 750C / 101.22 | 1957–1960 | 1.290 cc DOHC | 7,5:1 | 1 Solex de corpo simples | 50–53 PS | 135 km/h | 91 |
| Weekendina (Boneschi Wagon) | 750 | 1957–1960 | 1.290 cc DOHC | 7,5:1 | 1 Solex de corpo simples | 50–53 PS | 135 km/h | ~20 |
Em novembro de 1977, a Alfa Romeo reintroduziu no mercado automobilístico o nome Giulietta. Conhecida popularmente como Nuova Giulietta, a geração Tipo 116 foi projetada como um sedã executivo de porte médio, posicionado para substituir a antiga linha Giulia (Tipo 105) e preencher o catálogo de produtos entre o compacto Alfasud de tração dianteira e o sedã maior Alfetta.
O Giulietta Tipo 116 compartilhava a sofisticada plataforma mecânica do Alfetta. O motor era posicionado de forma longitudinal na dianteira, mas o conjunto de embreagem, caixa de câmbio manual de cinco marchas e o diferencial de tração eram agrupados em uma única carcaça montada no eixo traseiro (configuração transaxle).
Essa disposição de componentes garantia uma distribuição de peso próxima da relação ideal de 50% em cada eixo, minimizando as transferências bruscas de carga dinâmica e resultando em excelente estabilidade e facilidade de controle em curvas.
A suspensão dianteira utilizava braços triangulares sobrepostos associados a barras de torção longitudinais agindo sobre as bandejas inferiores e amortecedores hidráulicos verticais. A suspensão traseira utilizava um avançado sistema de eixo rígido do tipo De Dion, apoiado por molas helicoidais e estabilizado lateralmente por um paralelogramo de Watt. Os freios traseiros a disco eram instalados de forma interna (inboard), montados diretamente na saída do diferencial e não junto às rodas, o que reduzia a massa não suspensa do chassi.
A carroceria de três volumes foi desenhada internamente pelo Centro Stile Alfa Romeo, sob o comando do designer Ermanno Cressoni. O carro exibia uma frente em cunha pronunciada com a traseira muito curta, alta e dotada de um pequeno spoiler aerodinâmico moldado diretamente na tampa de aço do porta-malas.
O interior do veículo contava com detalhes ergonômicos e funcionais muito peculiares para os padrões europeus da época:
Ao longo de seus oito anos de comercialização, o Giulietta Tipo 116 foi submetido a duas reestilizações estéticas e mecânicas:
Desenvolvido pela Autodelta (divisão oficial de corridas e preparação da Alfa Romeo), o Giulietta Turbodelta foi o último automóvel esportivo a ostentar de fábrica a chancela oficial da preparadora antes de seu fechamento definitivo. Equipado com o motor de 1.962 cc, o Turbodelta adotava um turbocompressor da marca KKK que soprava pressão para dentro de dois carburadores horizontais de corpo duplo Weber.
Com uma potência de 170 cv e torque de 283 Nm, o modelo acelerava de 0 a 100 km/h em 7,5 segundos e atingia velocidade máxima de 206 km/h. Exclusivo e com apenas 361 unidades produzidas, o Turbodelta era caracterizado pela carroceria pintada em tom cinza e preto metálico de dois tons, rodas Speedline de 14 polegadas e interior revestido em veludo vermelho-salmão com detalhes em couro sintético vermelho de nome Texalfa.
A Alfa Romeo nunca vendeu de forma oficial uma versão perua (station wagon) da plataforma Tipo 116. No entanto, encarroçadores parceiros mantiveram a tradição de criar tais versões utilitárias sob encomenda:
A tabela abaixo compila as principais motorizações a gasolina e diesel aplicadas no Giulietta Tipo 116 ao longo de suas três séries históricas de produção.
| Versão / Modelo | Código do Motor | Cilindrada | Alimentação / Indução | Potência Máxima | Torque Máximo | Velocidade Máxima | Período de Produção | Produção Estimada (Unidades) |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| Giulietta 1.3 | AR 01644 | 1.357 cc | 2 Carburadores de corpo duplo | 95 PS (70 kW) a 6.000 rpm | 121 Nm a 4.500 rpm | 165 km/h | 1977–1983 | 50.890 |
| Giulietta 1.6 | AR 01600 | 1.570 cc | 2 Carburadores de corpo duplo | 109 PS (80 kW) a 5.600 rpm | 143 Nm a 4.300 rpm | 175 km/h | 1977–1985 | ~180.000 (estimado) |
| Giulietta 1.8 | AR 01678 | 1.779 cc | 2 Carburadores de corpo duplo | 122 PS (90 kW) a 5.300 rpm | 167 Nm a 4.000 rpm | 180 km/h | 1979–1985 | ~100.000 (estimado) |
| Giulietta 2.0 | AR 01655 / AR 11671 | 1.962 cc | 2 Carburadores de corpo duplo | 130 PS (96 kW) a 5.400 rpm | 178 Nm a 4.000 rpm | 185 km/h | 10/1980–1985 | ~17.000 (estimado) |
| Giulietta 1.8 Turbo | AR 01354 | 1.779 cc | Turbocompressor e Carburador | 150 HP (110 kW) a 5.500 rpm | 206 Nm a 3.500 rpm | 200 km/h | 1984–1985 | ~3.000 |
| Giulietta Turbodelta | AR 01699 | 1.962 cc | Turbocompressor KKK e 2 Carburadores | 170 PS (125 kW) a 5.000 rpm | 283 Nm a 3.500 rpm | 206 km/h | 1982–1985 | 361 |
| Giulietta Turbodiesel | VM HR488 (VM 4 HT) | 1.995 cc | Turbocompressor VM Motori | 82 PS (60 kW) a 4.300 rpm | 162 Nm a 2.300 rpm | 155 km/h | 1982–1985 | ~28.700 (estimado) |
A trajetória do Alfa Romeo Giulietta Berlina demonstra o papel central que este nome exerceu sobre a estabilidade corporativa e a identidade de engenharia da marca milanesa ao longo do tempo. Cada uma das gerações desempenhou funções estratégicas diferentes no mercado:
A primeira geração (Tipo 750/101) alterou de forma definitiva os padrões de mercado vigentes sobre sedãs de pequeno porte. Até a sua introdução, os sedãs populares europeus eram lentos e pesados, voltados exclusivamente para fins utilitários. O motor Twin Cam em liga de alumínio e o comportamento dinâmico do modelo milanês mostraram que a esportividade e as tecnologias de competição poderiam ser aplicadas com excelência a um automóvel familiar acessível e de uso diário. Com a introdução da pioneira versão Promiscua da Colli, a Alfa Romeo abriu o mercado para o surgimento do conceito de peruas esportivas de luxo na Europa, antecipando uma tendência comercial expressiva.
A segunda geração (Tipo 116) atuou como uma resposta técnica e comercial de peso em um mercado que se reestruturava a partir de novos regulamentos de emissões poluentes e de segurança automotiva. Por meio do reaproveitamento do chassi do Alfetta, a Alfa Romeo manteve ativo o espírito da tração traseira com distribuição perfeita de peso, o que era um diferencial frente ao crescimento dos modelos compactos de tração dianteira de outras fabricantes. O uso pioneiro de indução forçada por turbo nas edições Turbodelta de rua e nos protótipos de quebra de recorde de velocidade a diesel demonstrou que a engenharia milanesa continuava na vanguarda da eficiência de propulsão sob pressão.
A produção da geração Tipo 116 foi definitivamente encerrada em 1985, acumulando aproximadamente 380.000 unidades fabricadas. Seu substituto de mercado foi o Alfa Romeo 75, modelo que herdou quase toda a base mecânica e estrutural do transaxle do Giulietta para perpetuar o comportamento esportivo clássico dos veículos da marca por mais uma década.