1ª Geração
(2017 - 2023)
Ficha técnica, versões e história do Aston Martin DB11.
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A história do Aston Martin DB11 não pode ser dissociada do momento crítico em que a fabricante britânica se encontrava em meados da década de 2010. O lançamento deste modelo no 86º Salão Internacional do Automóvel de Genebra, em março de 2016, não representou apenas a introdução de um novo produto, mas sim a pedra angular da sobrevivência corporativa e da redefinição estratégica da marca.
Durante doze anos, a Aston Martin dependeu do venerável DB9 e da arquitetura VH (Vertical Horizontal), desenvolvida sob a propriedade da Ford. Embora o DB9 fosse esteticamente aclamado, sua tecnologia e dinâmica de chassi haviam ficado para trás em relação a concorrentes que avançavam rapidamente em engenharia de alumínio e eletrônica embarcada. O DB11 foi, portanto, o primeiro fruto tangível do "Plano do Segundo Século" (Second Century Plan), uma estratégia agressiva orquestrada pelo então CEO Andy Palmer, visando estabilizar as finanças da empresa e garantir sua sustentabilidade para os próximos cem anos.
Este modelo simbolizou o início de uma nova era de design, engenharia e processos de manufatura. A produção oficial teve início em 28 de setembro de 2016, na sede da empresa em Gaydon, Warwickshire. Em um ato simbólico que demonstrava o compromisso com a qualidade — uma área onde a marca historicamente enfrentava críticas —, Andy Palmer inspecionou pessoalmente as primeiras 1.000 unidades que saíram da linha de montagem, assinando as placas de inspeção do motor como garantia final.
A importância econômica do DB11 foi imediata e profunda. Os relatórios financeiros da Aston Martin Lagonda indicam que, impulsionado pelas entregas do DB11, o volume de vendas no varejo cresceu 58% em 2017 em comparação ao ano anterior, ultrapassando a marca de 5.000 unidades pela primeira vez desde 2008. Este sucesso comercial gerou o fluxo de caixa vital que permitiu o desenvolvimento subsequente do novo Vantage e, crucialmente, do SUV DBX.
Sob a liderança de Marek Reichman, a equipe de design da Aston Martin enfrentou o desafio de evoluir a linguagem visual clássica da marca sem cair na armadilha do "design retrô". O objetivo era criar um Grand Tourer (GT) que respeitasse a proporção áurea de 1:3 entre a área envidraçada e a carroceria, mas que introduzisse elementos futuristas e funcionais.
Uma das características mais distintivas e tecnicamente complexas do DB11 é o seu capô em formato de concha (clamshell). Trata-se de uma peça única de alumínio prensado, que se estende por toda a frente do veículo. Esta decisão de design eliminou as inestéticas linhas de corte (fendas de separação de painéis) que normalmente cruzam o capô e os para-lamas em carros convencionais.
Além da pureza estética, o capô clamshell serve a um propósito de segurança. Devido à sua grande área e capacidade de deformação, ele é excepcionalmente eficaz na dissipação de energia em caso de impacto com pedestres. Isso permitiu que os engenheiros dispensassem sistemas pirotécnicos pesados e complexos que elevam o capô em colisões, economizando peso e espaço no compartimento do motor. A abertura do capô, articulada na frente, é uma homenagem direta aos clássicos da marca, como o DB2 dos anos 1950, oferecendo uma visão teatral do motor V12 ou V8.
O DB11 rompeu com a tradição de usar grandes aerofólios ou spoilers traseiros que poderiam comprometer a silhueta elegante de um GT. Em vez de utilizar soluções visíveis, a equipe de engenharia integrou a aerodinâmica dentro da carroceria através de duas inovações principais: o Curlicue e o AeroBlade.
| Recurso Aerodinâmico | Localização | Função Técnica |
|---|---|---|
| Curlicue | Para-lamas dianteiros | Uma saída de ar moldada dentro da caixa de roda que extrai o ar de alta pressão turbulento gerado pela rotação das rodas. Isso reduz a sustentação (lift) no eixo dianteiro e suaviza o fluxo de ar ao longo das laterais do carro. |
| AeroBlade | Colunas C e Tampa do Porta-malas | O ar é capturado por entradas discretas na base das colunas traseiras (C-pillars), canalizado através de dutos internos na carroceria e expelido verticalmente por uma fenda na tampa do porta-malas. Esse jato de ar cria um "spoiler virtual", empurrando a traseira para baixo sem a necessidade de uma asa física. |
O sistema AeroBlade é complementado por um pequeno spoiler ativo (Gurney flap) que se eleva automaticamente em velocidades muito altas para aumentar a eficácia do jato de ar, garantindo estabilidade sem penalizar o coeficiente de arrasto em velocidades de cruzeiro.
O DB11 estreou uma arquitetura inteiramente nova de alumínio colado e rebitado. Diferente da plataforma VH anterior, esta nova estrutura foi otimizada para ser mais leve, rígida e eficiente em termos de aproveitamento de espaço interno.
A construção utiliza uma combinação de alumínio extrudado para as longarinas principais e fundições complexas para os pontos de montagem da suspensão, garantindo rigidez torcional superior. As portas são fabricadas em magnésio, uma escolha de material exótico que reduz o peso em uma área crítica e facilita o fechamento com uma sensação de solidez premium.
A suspensão adota uma configuração de triângulos sobrepostos (double wishbone) na dianteira e um sistema multi-link na traseira. O comportamento dinâmico é gerenciado por amortecedores adaptativos Bilstein, que oferecem três modos distintos selecionáveis pelo motorista: GT, Sport e Sport Plus. Estes modos alteram não apenas a rigidez do amortecimento, mas também a resposta do acelerador, a velocidade das trocas de marcha e o peso da direção assistida eletricamente (EPAS) — a primeira vez que um Aston Martin DB utilizou direção elétrica.
A trajetória do DB11 é marcada pela evolução de seus grupos motopropulsores e pela distinção clara entre as personalidades do V8 e do V12.
O modelo de lançamento foi equipado com o novo motor AE31, um V12 de 5.2 litros biturbo desenvolvido internamente pela Aston Martin. Este motor marcou a transição da era naturalmente aspirada (o antigo 6.0L V12) para a indução forçada, necessária para cumprir metas de emissões e desempenho.
Apesar de ser o modelo mais potente no lançamento, o V12 original (2016-2018) recebeu críticas mistas sobre sua dinâmica. Jornalistas apontaram que a suspensão traseira era excessivamente macia, resultando em movimentos verticais da carroceria (float) em estradas onduladas quando conduzido no limite. Ele era, essencialmente, um GT focado no conforto supremo.
Em 2017, a Aston Martin introduziu a variante V8, equipada com o motor M177 de 4.0 litros biturbo fornecido pela Mercedes-AMG. Esta foi a primeira grande manifestação da parceria técnica entre as duas empresas.
Lançado em outubro de 2017, o DB11 Volante substituiu o DB9 Volante. Uma decisão crucial de engenharia definiu este modelo: ele foi oferecido exclusivamente com o motor V8. A Aston Martin justificou essa escolha com base no peso; instalar o V12 pesado na frente de um conversível (que já possui reforços estruturais pesados) comprometeria inaceitavelmente a dinâmica de condução.
Em maio de 2018, a Aston Martin substituiu o DB11 V12 original pelo DB11 AMR (Aston Martin Racing). Este modelo foi a resposta da engenharia às críticas sobre a suavidade excessiva do V12 original e marcou a influência de Matt Becker, o chefe de dinâmica de veículos contratado da Lotus.
Para o ano-modelo 2022, a Aston Martin simplificou a nomenclatura. O emblema "AMR" foi retirado, e o carro passou a ser chamado simplesmente de DB11 V12, mantendo as especificações de 630 bhp do AMR. Simultaneamente, o motor V8 recebeu um aumento de potência, subindo de 503 bhp para 528 bhp (535 cv), permitindo uma nova velocidade máxima de 309 km/h.
Nesta atualização, a Aston Martin também reestruturou as opções de acabamento interno em três "ambientes" para facilitar a configuração:
| Especificação | DB11 V12 (2016-2018) | DB11 V8 (2017-2021) | DB11 V8 (2022-2023) | DB11 Volante (2018-2023) | DB11 AMR / V12 (2018-2023) |
|---|---|---|---|---|---|
| Motor | 5.2L V12 Biturbo (AE31) | 4.0L V8 Biturbo (M177) | 4.0L V8 Biturbo (M177) | 4.0L V8 Biturbo (M177) | 5.2L V12 Biturbo (AE31) |
| Potência Máxima | 600 bhp (608 cv) | 503 bhp (510 cv) | 528 bhp (535 cv) | 503 / 528 bhp | 630 bhp (639 cv) |
| Torque Máximo | 700 Nm | 675 Nm | 675 Nm | 675 Nm | 700 Nm |
| Aceleração 0-100 km/h | 3,9 s | 4,0 s | 4,0 s | 4,1 s | 3,7 s |
| Velocidade Máxima | 322 km/h (200 mph) | 300 km/h (187 mph) | 309 km/h (192 mph) | 300 km/h (187 mph) | 334 km/h (208 mph) |
| Peso (Seco/Kerb) | ~1.770 kg | ~1.655 kg (-115kg vs V12) | ~1.655 kg | ~1.765 kg (+110kg vs V8) | ~1.765 kg |
| Distribuição de Peso | 51% Dianteira / 49% Traseira | Mais peso na traseira | Mais peso na traseira | 47% Dianteira / 53% Traseira | 51% Dianteira / 49% Traseira |
| Preço de Lançamento | £157.900 (UK) | £144.900 (UK) | Variável | £159.900 (UK) | £174.995 (UK) |
A Aston Martin utilizou edições especiais, muitas vezes desenvolvidas pela divisão "Q by Aston Martin", para manter o interesse no modelo e aumentar a margem de lucro média por unidade.
Limitada a 300 unidades globais, a Shadow Edition foi um pacote visual disponível apenas para os modelos V8 (Coupé e Volante). A intenção era atrair um público mais jovem que preferia uma estética "blacked-out" (escurecida) em vez do cromo tradicional.
No lançamento do AMR, a Aston Martin ofereceu uma série ultra-exclusiva de 100 unidades chamada Signature Edition.
Celebrando a parceria com a famosa regata de remo inglesa, a divisão Q criou dois exemplares únicos que serviram de base para configurações personalizadas.
Uma homenagem à rota cênica da Escócia, limitada a um número extremamente reduzido (aprox. 12 unidades).
O interior do DB11 representou um salto quântico em relação ao DB9, mas também trouxe desafios de percepção. A colaboração com a Daimler permitiu que a Aston Martin abandonasse a antiga arquitetura elétrica Volvo/Ford.
A produção do DB11 foi vital para a saúde financeira da Aston Martin. Analisando os relatórios anuais e declarações, é possível traçar um panorama claro de seu desempenho de mercado.
A produção total do DB11 (todas as variantes) é estimada entre 10.000 e 12.000 unidades ao longo de seus sete anos de vida (2016-2023).
Embora o motor V8 tenha se tornado o mais vendido nos anos finais devido a impostos e eficiência, o motor V12 AE31 é historicamente significativo. Estima-se que entre 4.000 e 5.000 motores V12 tenham sido produzidos para o DB11 antes de sua descontinuação, tornando essas unidades futuras clássicas potenciais.
A produção do Aston Martin DB11 foi encerrada oficialmente no final de junho de 2023. Ele foi substituído pelo Aston Martin DB12, que a marca descreveu não mais como um "Grand Tourer", mas como o primeiro "Super Tourer" do mundo, indicando um salto ainda maior em desempenho e dinâmica.
O DB11 deixa um legado de transformação. Ele provou que a Aston Martin poderia sobreviver sem a Ford, poderia criar uma arquitetura de alumínio de classe mundial e poderia integrar tecnologia moderna sem perder sua alma. Ele resolveu o problema existencial da marca na década de 2010 e pavimentou o caminho financeiro e tecnológico para a atual gama de produtos da empresa. O modelo V12, em particular, permanece como um dos últimos grandes GTs de doze cilindros da história automotiva, um marco de uma era que está rapidamente se encerrando.
Imagens do Aston Martin DB11