1ª Geração
(1993-1999)
Ficha técnica, versões e história do Aston Martin DB7.
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(1993-1999)
(1999-2003)
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O Aston Martin DB7 ocupa uma posição singular e crítica na historiografia da Aston Martin Lagonda Ltd. Frequentemente descrito como o veículo que "salvou a empresa", o DB7 representa o ponto de inflexão entre a era artesanal, caracterizada por volumes de produção ínfimos e instabilidade financeira crônica, e a era moderna de propriedade corporativa, manufatura em série e viabilidade global. Lançado em um momento em que a produção anual da marca lutava para atingir três dígitos, o DB7 não apenas democratizou o acesso à marca — em termos relativos ao mercado de ultra-luxo — mas também estabeleceu a linguagem visual que definiria a identidade da Aston Martin pelas duas décadas seguintes.
Este relatório examina exaustivamente a trajetória do DB7, desde suas origens controversas como um projeto Jaguar abortado até sua evolução final como um Grand Tourer V12 de classe mundial. A análise abrange os detalhes técnicos de cada variante, os números precisos de produção, as especificidades das edições limitadas e as soluções de engenharia — muitas vezes criativas e baseadas no compartilhamento de componentes — que permitiram sua existência.
No início da década de 1980, a Jaguar iniciou o desenvolvimento de um sucessor espiritual para o lendário E-Type e um substituto técnico para o XJ-S. O projeto, designado internamente como XJ41 (para o cupê) e XJ42 (para o conversível), visava criar um carro esportivo moderno, aerodinâmico e turboalimentado, destinado a competir com o Porsche 911 e o Chevrolet Corvette.
O desenvolvimento do XJ41 estendeu-se ao longo da década de 1980, consumindo recursos significativos. O veículo projetado era, sem dúvida, esteticamente agradável e rápido, mas sofria de um "inchaço" progressivo em termos de peso, complexidade técnica e custos de fabricação. Quando a Ford Motor Company adquiriu a Jaguar em 1989/1990, os auditores americanos revisaram o projeto XJ41. A conclusão foi severa: o carro estava massivamente acima do orçamento e muito pesado para atingir seus objetivos de desempenho. Consequentemente, a Ford cancelou o projeto XJ41 em 1990, instruindo a Jaguar a focar na atualização do XJ-S e no desenvolvimento de uma plataforma inteiramente nova para o futuro XK8.
O cancelamento do XJ41 deixou um vácuo, mas também uma oportunidade. Tom Walkinshaw, fundador da Tom Walkinshaw Racing (TWR), mantinha uma relação estreita com a Jaguar através do programa de corridas do Grupo C e da joint-venture JaguarSport.
Walkinshaw, percebendo o potencial do design do XJ41, propôs uma solução alternativa. Ele encarregou o designer Ian Callum de adaptar as linhas gerais do XJ41 para uma plataforma existente e já homologada: a do Jaguar XJ-S. A ideia era criar um carro com o visual moderno do projeto cancelado, mas com custos de produção drasticamente reduzidos, utilizando o chassi de aço do XJ-S em vez da complexa engenharia original do XJ41. Este novo conceito foi codificado pela TWR como "Projeto XX".
A intenção original de Walkinshaw era vender o Projeto XX de volta para a Jaguar como um substituto "pronto para uso" e de baixo custo para o XJ-S. No entanto, a gestão da Jaguar rejeitou a proposta. O motivo, segundo relatos de Ian Callum, foi uma mistura de política interna ("não foi inventado aqui") e o fato de a Jaguar já estar comprometida com o desenvolvimento do XK8 sob a supervisão da Ford.
Neste momento crítico, os destinos da TWR e da Aston Martin se cruzaram. A Aston Martin, também sob propriedade da Ford na época, era liderada por Walter Hayes. A marca estava em uma situação financeira precária, vendendo pouquíssimas unidades do caro e pesado Virage. A marca precisava desesperadamente de um modelo de "entrada" para aumentar o volume e garantir sua sobrevivência.
Hayes e Walkinshaw viram uma simbiose perfeita: a Aston Martin precisava de um carro novo mas não tinha orçamento para desenvolvê-lo do zero; a TWR tinha um carro quase pronto (o Projeto XX) mas não tinha uma marca para vendê-lo. Assim, o Projeto XX rejeitado pela Jaguar foi rebatizado como "Projeto NPX" (Newport Pagnell Experimental). Ian Callum foi então instruído a "Aston-martinizar" o design, incorporando a grade clássica da marca e ajustando as linhas para evocar a linhagem DB.
O chassi do DB7 é, fundamentalmente, uma evolução da plataforma do Jaguar XJ-S, que por sua vez tem raízes que remontam a 1975. A TWR modificou extensivamente esta estrutura de aço monocoque para acomodar a nova carroceria e melhorar a rigidez. É importante notar que, ao contrário dos Aston Martins anteriores que utilizavam alumínio batido à mão, ou dos posteriores que utilizariam alumínio colado (plataforma VH), o DB7 foi o primeiro e único Aston Martin a utilizar uma construção unitária de aço.
Para manter o preço de venda competitivo, a equipe de desenvolvimento recorreu a componentes existentes de fabricantes de volume. Esta prática foi elevada a uma forma de arte no DB7.
| Componente | Veículo Doador | Detalhes da Integração |
|---|---|---|
| Lanternas Traseiras | Mazda 323F (Astina) | As unidades ópticas traseiras foram retiradas diretamente do hatchback da Mazda. Para disfarçar sua origem, a Aston Martin utilizou uma moldura na cor da carroceria que cobria as bordas e alterava o perfil visual das luzes, integrando-as perfeitamente ao painel traseiro. |
| Maçanetas Externas | Mazda 323 Estate | As maçanetas embutidas do modelo perua da Mazda foram escolhidas por seu perfil aerodinâmico e discreto, encaixando-se nas linhas fluidas do DB7. |
| Maçanetas Internas | Mazda MX-5 (Miata NA) | As alavancas cromadas de abertura das portas no interior foram herdadas da primeira geração do roadster da Mazda. |
| Retrovisores Externos | Citroën CX | Os espelhos do Citroën CX foram escolhidos pelo design, embora o mecanismo elétrico interno fosse proveniente do Ford Scorpio. |
| Componentes Elétricos | Ford Scorpio | Grande parte dos interruptores internos, incluindo os controles dos vidros elétricos e ajuste dos espelhos, além do sistema de ar-condicionado, veio do sedã executivo da Ford. |
| Fechaduras e Chaves | Ford (Tibbe) | O sistema de chaves e cilindros utilizava o padrão "Tibbe" da Ford, embora com um layout de oito discos (semelhante ao da Jaguar) em vez dos seis discos padrão da Ford, para maior segurança. |
| Transmissão Automática | GM / Hummer H1 | A caixa de câmbio automática de 4 velocidades (4L80-E) usada no modelo i6 era uma unidade robusta da General Motors, compartilhada com caminhões e o Hummer H1, escolhida pela capacidade de torque. |
O coração da primeira geração do DB7 não era um V8 ou V12, mas um motor de seis cilindros em linha de 3.2 litros (3.228 cc). Designado como AJ6, este bloco de liga leve era derivado da unidade usada pela Jaguar, mas foi profundamente modificado pela TWR para a aplicação na Aston Martin.
A decisão técnica mais significativa foi a adoção de um compressor mecânico (supercharger) Eaton do tipo Roots, refrigerado a água e acionado por correia dentada a partir do comando de válvulas. A escolha pelo supercharger, em detrimento dos turbocompressores usados no projeto original do Jaguar XJ41, visava proporcionar uma resposta de acelerador instantânea e linear, características essenciais para um Grand Tourer de luxo, evitando o "turbo lag" comum na tecnologia da época.
O DB7 i6 oferecia duas opções de transmissão:
A suspensão utilizava braços duplos (double wishbones) na frente e atrás. No entanto, houve uma mudança significativa em relação à arquitetura tradicional da Jaguar na traseira. Enquanto o XJ-S usava freios traseiros "inboard", o DB7 adotou freios traseiros "outboard" (montados nas rodas). Esta mudança simplificou a manutenção e melhorou o arrefecimento dos freios.
Em 1999, a trajetória do DB7 mudou drasticamente. Diante da necessidade de elevar o prestígio do modelo e diferenciá-lo do recém-lançado Jaguar XK8, a Aston Martin introduziu o DB7 V12 Vantage. O modelo de seis cilindros foi gradualmente descontinuado.
O motor de produção foi desenvolvido pela Ford e a Aston Martin, em parceria com a Cosworth: um V12 de 6.0 litros (5.935 cc) totalmente novo. Embora frequentemente descrito de forma simplista como "dois motores V6 Ford Duratec unidos", a realidade técnica é mais complexa. O V12 Aston Martin compartilhava a geometria básica e o diâmetro dos pistões com o Duratec para aproveitar as ferramentas de usinagem da Ford (reduzindo custos), mas o bloco, cabeçotes, virabrequim e sistemas de admissão/escape eram exclusivos e desenvolvidos pela Cosworth para a Aston Martin.
A introdução do V12 exigiu uma revisão completa do carro.
O GT foi projetado como a versão focada no purista da condução.
O GTA era a variante automática do GT. Mecanicamente, mantinha o motor V12 padrão do Vantage (420 bhp) e a transmissão automática Touchtronic de 5 velocidades, mas incorporava todas as modificações estéticas e de suspensão do modelo GT.
| Edição | Ano | Base | Quantidade | Características Exclusivas |
|---|---|---|---|---|
| Alfred Dunhill | 1998 | i6 | 78 | Cor "Dunhill Silver", interior em couro carvão, acabamento das rodas imitando isqueiros, e umidificador de charutos integrado no console. |
| Neiman Marcus | 1998 | i6 | 10 | Cor "Jet Black", vendidos através do catálogo de Natal da Neiman Marcus. |
| Stratstone | 1999 | i6 | 19 | Cor "Bowland Black", introduziu acabamentos em fibra de carbono no painel pela primeira vez. |
| Jubilee | 2002 | V12 | 50 | Celebração do Jubileu de Ouro da Rainha Elizabeth II. Cor "Jubilee Blue". |
| Keswick | 2002 | V12 | 10 | Cor "Nero Daytona Black", rodas de 19 polegadas, interior com acabamentos metálicos. |
O DB7 foi, até a chegada do V8 Vantage (2005), o Aston Martin mais produzido da história. Sua produção total ultrapassou 7.000 unidades.
| Modelo / Variante | Anos de Produção | Quantidade Produzida (Aprox.) | Faixa de Chassis (VIN) |
|---|---|---|---|
| DB7 i6 Coupé | 1994–1999 | 1.605 | SCFAA111VK 100001 - 102703 |
| DB7 i6 Volante | 1996–1999 | 879 | SCFAA311-TK 201001 em diante |
| DB7 V12 Vantage Coupé | 1999–2003 | 2.091 | SCFAB121-XK 300001 - 304458 |
| DB7 V12 Vantage Volante | 1999–2003 | 2.059 | SCFAB322-XK 400001 - 404297 |
| DB7 GT | 2002–2003 | 190 | Numeração incluída na série Vantage |
| DB7 GTA | 2002–2003 | 112 | Numeração incluída na série Vantage |
| DB7 Zagato | 2003 | 99 | SCFAE123-3K700001 - 700100 |
| DB AR1 | 2003 | 99 | Numeração específica da série AR1 |
| TOTAL | 1994–2004 | ~7.165 |
A produção do DB7 foi encerrada em dezembro de 2004, dando lugar ao DB9 e à nova plataforma de alumínio VH (Vertical/Horizontal). O DB7 cumpriu sua missão com louvor: ele não apenas salvou a Aston Martin da falência, mas também transformou a percepção da marca, de uma fabricante de curiosidades artesanais para uma potência global no segmento de luxo.
Embora nascido de um projeto rejeitado da Jaguar e construído com peças de várias origens, o DB7 transcendeu suas raízes humildes através de um design atemporal e de uma evolução mecânica constante. A introdução do V12 no DB7 Vantage foi o movimento estratégico que permitiu à Aston Martin competir diretamente com a Ferrari nos anos seguintes. Hoje, o DB7 é reconhecido como um clássico moderno, valorizado tanto pela sua beleza estética, assinada por Ian Callum, quanto pelo seu papel histórico fundamental na sobrevivência e renascimento da marca Aston Martin.
Imagens do Aston Martin DB7