1ª Geração
(2020 - 2024)
Ficha técnica, versões e história do Aston Martin DBX.
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A história do Aston Martin DBX não pode ser dissociada da narrativa de sobrevivência e reinvenção que permeia a trajetória da Aston Martin Lagonda. Durante mais de um século, a marca britânica foi reverenciada pela produção de Grand Tourers (GTs) elegantes e carros esportivos de alto desempenho, cimentando sua imagem na cultura popular através de uma associação indelével com a franquia James Bond. No entanto, a realidade econômica da indústria automotiva de ultra-luxo no século XXI impôs desafios que a tradição, por si só, não conseguia superar. A volatilidade financeira histórica da empresa exigia uma estabilização, e a resposta do mercado global apontava inequivocamente para uma direção: os Veículos Utilitários Esportivos (SUVs).
Em meados da década de 2010, concorrentes diretos e indiretos já colhiam os frutos de diversificar seus portfólios. A Porsche, com o Cayenne, havia provado que puristas poderiam protestar, mas o mercado compraria em massa. A Bentley preparava o Bentayga e a Lamborghini o Urus. Sob a liderança do então CEO Dr. Andy Palmer, a Aston Martin concebeu o "Plano do Segundo Século" (Second Century Plan), uma estratégia agressiva para garantir a sustentabilidade da empresa nos seus segundos cem anos de vida. Este plano previa o lançamento de sete modelos principais em sete anos, sendo o DBX o quarto e, estrategicamente, o mais crucial para gerar volume de caixa e financiar os carros esportivos de nicho.
O primeiro sinal tangível dessa ambição foi revelado no Salão do Automóvel de Genebra em 2015, com a apresentação do conceito DBX. Aquele protótipo inicial diferia significativamente do carro de produção final; era um cupê de duas portas com suspensão elevada, sugerindo uma fusão entre um GT tradicional e um crossover. A mensagem, contudo, era clara: a Aston Martin estava redefinindo o que um SUV poderia ser, priorizando a beleza estética e a proporção em um segmento conhecido por veículos utilitários e quadrangulares.
Uma das maiores preocupações durante a fase de desenvolvimento, que se estendeu de 2015 a 2019, foi garantir que o DBX não fosse apenas um "Aston Martin alto", mas que atendesse às necessidades práticas de um público mais amplo. A demografia tradicional da marca era majoritariamente masculina. Para o DBX, a Aston Martin buscou ativamente atrair mulheres abastadas e famílias.
Para isso, a empresa estabeleceu um "Conselho Consultivo Feminino" (Female Advisory Board), um grupo de clientes e especialistas que forneceu feedback crucial sobre ergonomia, visibilidade e usabilidade diária. Esse feedback influenciou decisões de design, como a disposição do console central (com espaço para bolsas), a facilidade de acesso aos bancos traseiros e a visibilidade externa, garantindo que o veículo fosse acolhedor para motoristas de todas as estaturas, desde o percentil 5 feminino até o percentil 99 masculino.
Diferentemente de muitos rivais que utilizam plataformas compartilhadas dentro de grandes conglomerados (como o Grupo Volkswagen, onde Audi, Porsche, Bentley e Lamborghini compartilham a arquitetura MLB Evo), a Aston Martin optou por um caminho mais árduo e exclusivo: desenvolver uma plataforma dedicada de alumínio colado. A infraestrutura histórica da marca em Gaydon, na Inglaterra, não possuía capacidade para absorver a produção em massa de um SUV com essas características.
A solução foi um investimento massivo na criação de uma segunda fábrica em St Athan, no País de Gales. O local escolhido tinha um peso histórico significativo: tratava-se de uma antiga base da Força Aérea Real (RAF St Athan). O projeto de conversão, iniciado em 2015, transformou hangares militares em uma linha de montagem de última geração. Esta decisão não foi apenas logística, mas política e social, trazendo empregos qualificados para a região e marcando o DBX como o primeiro Aston Martin a ser "Made in Wales" (Feito no País de Gales). A fábrica foi oficialmente inaugurada para a produção do DBX em 2019, pronta para construir até 4.000 unidades por ano, operando com a filosofia de mesclar automação de precisão com o acabamento manual artesanal típico da marca.
O lançamento comercial do DBX ocorreu em 2020, introduzindo uma arquitetura técnica que buscava resolver o paradoxo do SUV de luxo: como oferecer conforto de limusine e dinâmica de carro esportivo em um pacote de 2,2 toneladas.
A decisão de não compartilhar plataforma permitiu aos engenheiros da Aston Martin, liderados pelo Chefe de Criação Marek Reichman, ditar as proporções exatas do veículo sem os compromissos inerentes a adaptar um chassi existente. A estrutura do DBX utiliza a tecnologia de alumínio colado (bonded aluminium), uma técnica refinada pela marca em seus carros esportivos. O uso de adesivos aeroespaciais curados termicamente, em vez de soldas tradicionais, resulta em uma estrutura incrivelmente rígida e leve.
Esta arquitetura permitiu uma distância entre eixos (entre-eixos) longa de 3.060 mm. A vantagem técnica imediata foi a capacidade de empurrar as rodas para os cantos extremos da carroceria, reduzindo os balanços dianteiro e traseiro. Isso não apenas melhorou o espaço interno, permitindo um assoalho plano e amplo, mas também reduziu o momento polar de inércia, facilitando a mudança de direção do veículo em curvas. O peso em ordem de marcha foi contido em 2.245 kg, um valor competitivo para um SUV deste porte com motor V8 e tração integral.
Para a motorização, a Aston Martin manteve sua parceria técnica estratégica com a Mercedes-AMG. O modelo de lançamento foi equipado com o motor V8 biturbo de 4.0 litros (código M177), uma unidade de força amplamente elogiada por sua durabilidade e entrega de potência linear.
O motor foi montado em uma posição "dianteira central", recuado para trás do eixo dianteiro tanto quanto possível. Isso contribuiu para uma distribuição de peso quase perfeita de 54% na frente e 46% na traseira, essencial para um manuseio neutro. A transmissão escolhida foi uma caixa automática de 9 velocidades com conversor de torque (9G-Tronic), fornecida pela Mercedes, mas com mapeamento de software exclusivo da Aston Martin para garantir trocas que se adequassem ao caráter GT do carro.
O "segredo" dinâmico do DBX reside na sua complexa suspensão a ar de triplo volume (triple volume air suspension). Diferente de molas de aço convencionais ou bolsas de ar simples, este sistema permite uma variação extrema na rigidez da mola e na altura do passeio. O carro pode ser elevado em até 45 mm para transpor obstáculos off-road ou rebaixado em 50 mm para facilitar o acesso e melhorar a aerodinâmica em alta velocidade.
Complementando as molas pneumáticas, o DBX introduziu um sistema de Controle Eletrônico Ativo de Rolagem (eARC - electronic anti-roll control) de 48 volts. Em vez de barras estabilizadoras físicas rígidas que conectam as rodas esquerda e direita (o que prejudicaria o conforto em buracos unilaterais), o eARC usa motores elétricos poderosos para torcer as barras apenas quando necessário. Em curvas, o sistema aplica torque contrário à inclinação da carroceria, mantendo o carro plano. A Aston Martin afirmou que o DBX, graças a este sistema, gera menos rolagem de carroceria em curvas extremas do que o seu cupê esportivo DB11, uma façanha de engenharia notável para um SUV alto.
O sistema de tração integral (AWD) é igualmente sofisticado, utilizando uma caixa de transferência central ativa que pode enviar até 100% do torque para o eixo traseiro, se necessário, e um diferencial traseiro eletrônico de deslizamento limitado (eDiff) que distribui a força entre as rodas traseiras para vetorização de torque, ajudando a "empurrar" o nariz do carro para dentro da curva.
O design do DBX, assinado por Marek Reichman, foi norteado pela "Proporção Áurea", buscando uma estética que fosse inegavelmente Aston Martin, sem recorrer a caricaturas.
A frente do veículo é dominada pela maior grade "DB" já instalada em um Aston Martin até então, necessária para alimentar os requisitos de refrigeração do V8 biturbo. Os faróis ovais bi-LED mantêm a assinatura visual da família. Uma característica distinta são os dutos de luz diurna (DRL) integrados que não são apenas estéticos; eles canalizam o ar através das caixas de roda dianteiras para reduzir a turbulência e o arrasto aerodinâmico ao longo das laterais do veículo, criando uma "cortina de ar".
As portas são do tipo "Swan-hinged" (dobradiças de cisne), que se abrem ligeiramente para cima e para fora. Isso não é apenas um floreio dramático; evita que as portas raspem em calçadas altas, um problema comum em carros esportivos baixos, agora adaptado para o SUV para facilitar a entrada e saída sem sujar as roupas nas soleiras.
A traseira do DBX apresenta um design controverso, mas altamente funcional, inspirado no modelo Vantage. A tampa do porta-malas possui um "ducktail" (cauda de pato) pronunciado. Este elemento gera downforce (pressão aerodinâmica) significativa no eixo traseiro, estabilizando o veículo em altas velocidades.
Mais interessante é a gestão do fluxo de ar sobre o vidro traseiro. O ar que passa pelo teto é direcionado por um spoiler montado no topo, descendo sobre o vidro traseiro e limpando-o naturalmente. Essa eficiência aerodinâmica permitiu que os designers dispensassem o limpador de para-brisa traseiro, mantendo as linhas limpas e elegantes do design, uma raridade no segmento de SUVs onde o vidro traseiro vertical geralmente acumula sujeira.
Reconhecendo a importância crítica do mercado chinês e as suas peculiaridades fiscais, a Aston Martin diversificou a gama DBX em novembro de 2021 com uma versão exclusiva para aquela região: o DBX Straight-Six (Mild Hybrid). Equipado com um motor M256 da Mercedes-AMG (6 cilindros em linha, 3.0L), produzia 435 PS e 520 Nm. Apesar da lógica fiscal, o modelo teve vida curta e foi descontinuado em 2024, pois o mercado de ultra-luxo chinês preferiu migrar para o DBX707.
Se o DBX original provou que a Aston Martin podia fazer um SUV, o DBX707, lançado em 2022, provou que ela podia dominar o segmento em termos de performance pura. O objetivo explícito era superar o Lamborghini Urus e reivindicar o título de "SUV de luxo mais potente do mundo".
Apesar do sucesso mecânico, o DBX sofria críticas severas pelo seu interior e sistema de infoentretenimento desatualizado. A resposta veio com a atualização do modelo para 2025 (apresentada em 2024).
Com a chegada do modelo 2025, a Aston Martin descontinuou o modelo V8 "base" de 550 PS, tornando o DBX707 o modelo de entrada padrão da linha global.
A Aston Martin anunciou o DBX S, projetado para ser o novo capitânia. Beneficia-se da tecnologia do Valhalla, com potência elevada para 727 PS. O foco principal é a redução de peso ("lightweighting"), com opções como teto de fibra de carbono e rodas de magnésio, podendo reduzir o peso total em até 47 kg em comparação com o DBX707.
O impacto do DBX nas finanças da Aston Martin foi transformador.
| Ano Fiscal | Unidades Vendidas | % do Total da Marca | Contexto |
|---|---|---|---|
| 2020 | 1.516 | ~45% (2º sem.) | Lançamento no meio do ano. |
| 2021 | 3.001 | ~48% | Primeiro ano completo. Best-seller. |
| 2022 | 3.219 | >50% | Pico histórico com o DBX707. |
| 2023 | 2.939 | ~44% | Leve retração, mas manteve-se dominante. |
| 2024 (Est.) | ~1.900 | ~32% (Queda no H1) | Ano de transição e corte do modelo base. |
O DBX foi fundamental para aumentar o Preço Médio de Venda (ASP) da marca, que atingiu um recorde de £245.000 em 2024.
| Especificação | DBX V8 (2020-2024) | DBX Straight-Six (China) | DBX707 (2022-Presente) | DBX S (2025+) |
|---|---|---|---|---|
| Motor | M177 (4.0L V8 Biturbo) | M256 (3.0L I6 Turbo + 48V) | M177 (Revisado) | M177 (Spec Valhalla) |
| Transmissão | 9-Marchas Auto (Conv. Torque) | 9-Marchas Auto | 9-Marchas MCT (Embreagem Úmida) | 9-Marchas MCT (Otimizada) |
| Potência Máxima | 550 PS (542 hp) | 435 PS (429 hp) | 707 PS (697 hp) | 727 PS (717 hp) |
| Torque Máximo | 700 Nm | 520 Nm | 900 Nm | 900 Nm (faixa estendida) |
| Aceleração 0-100 km/h | 4,5 segundos | 5,4 segundos | 3,3 segundos | 3,3 segundos (estimado) |
| Velocidade Máxima | 291 km/h | 259 km/h | 310 km/h | 310 km/h |
| Peso (DIN) | 2.245 kg | N/A | 2.245 kg | ~2.198 kg (com opcionais) |
Este relatório consolida a trajetória do Aston Martin DBX de um conceito controverso em 2015 para o pilar financeiro da marca em 2024. O modelo exemplifica a capacidade da indústria de luxo de se adaptar às novas demandas do consumidor sem sacrificar totalmente a sua herança de desempenho.
Imagens do Aston Martin DBX