A história do Aston Martin DBX não pode ser dissociada da narrativa de sobrevivência e reinvenção que permeia
a trajetória da Aston Martin Lagonda. Durante mais de um século, a marca britânica foi reverenciada pela
produção de Grand Tourers (GTs) elegantes e carros esportivos de alto desempenho, cimentando sua imagem na
cultura popular através de uma associação indelével com a franquia James Bond. No entanto, a realidade
econômica da indústria automotiva de ultra-luxo no século XXI impôs desafios que a tradição, por si só, não
conseguia superar. A volatilidade financeira histórica da empresa exigia uma estabilização, e a resposta do
mercado global apontava inequivocamente para uma direção: os Veículos Utilitários Esportivos (SUVs).
A Necessidade Existencial e o Conceito de 2015
Em meados da década de 2010, concorrentes diretos e indiretos já colhiam os frutos de diversificar seus
portfólios. A Porsche, com o Cayenne, havia provado que puristas poderiam protestar, mas o mercado compraria
em massa. A Bentley preparava o Bentayga e a Lamborghini o Urus. Sob a liderança do então CEO Dr. Andy
Palmer, a Aston Martin concebeu o "Plano do Segundo Século" (Second Century Plan), uma estratégia agressiva
para garantir a sustentabilidade da empresa nos seus segundos cem anos de vida. Este plano previa o
lançamento de sete modelos principais em sete anos, sendo o DBX o quarto e, estrategicamente, o mais crucial
para gerar volume de caixa e financiar os carros esportivos de nicho.
O primeiro sinal tangível dessa ambição foi revelado no Salão do Automóvel de Genebra em 2015, com a
apresentação do conceito DBX. Aquele protótipo inicial diferia significativamente do carro de produção
final; era um cupê de duas portas com suspensão elevada, sugerindo uma fusão entre um GT tradicional e um
crossover. A mensagem, contudo, era clara: a Aston Martin estava redefinindo o que um SUV poderia ser,
priorizando a beleza estética e a proporção em um segmento conhecido por veículos utilitários e
quadrangulares.
O Desafio da Identidade e o Conselho Consultivo Feminino
Uma das maiores preocupações durante a fase de desenvolvimento, que se estendeu de 2015 a 2019, foi garantir
que o DBX não fosse apenas um "Aston Martin alto", mas que atendesse às necessidades práticas de um público
mais amplo. A demografia tradicional da marca era majoritariamente masculina. Para o DBX, a Aston Martin
buscou ativamente atrair mulheres abastadas e famílias.
Para isso, a empresa estabeleceu um "Conselho Consultivo Feminino" (Female Advisory Board), um grupo de
clientes e especialistas que forneceu feedback crucial sobre ergonomia, visibilidade e usabilidade diária.
Esse feedback influenciou decisões de design, como a disposição do console central (com espaço para bolsas),
a facilidade de acesso aos bancos traseiros e a visibilidade externa, garantindo que o veículo fosse
acolhedor para motoristas de todas as estaturas, desde o percentil 5 feminino até o percentil 99 masculino.
A Industrialização: De Base da RAF a Centro de Excelência
Diferentemente de muitos rivais que utilizam plataformas compartilhadas dentro de grandes conglomerados (como
o Grupo Volkswagen, onde Audi, Porsche, Bentley e Lamborghini compartilham a arquitetura MLB Evo), a Aston
Martin optou por um caminho mais árduo e exclusivo: desenvolver uma plataforma dedicada de alumínio colado.
A infraestrutura histórica da marca em Gaydon, na Inglaterra, não possuía capacidade para absorver a
produção em massa de um SUV com essas características.
A solução foi um investimento massivo na criação de uma segunda fábrica em St Athan, no País de Gales. O
local escolhido tinha um peso histórico significativo: tratava-se de uma antiga base da Força Aérea Real
(RAF St Athan). O projeto de conversão, iniciado em 2015, transformou hangares militares em uma linha de
montagem de última geração. Esta decisão não foi apenas logística, mas política e social, trazendo empregos
qualificados para a região e marcando o DBX como o primeiro Aston Martin a ser "Made in Wales" (Feito no
País de Gales). A fábrica foi oficialmente inaugurada para a produção do DBX em 2019, pronta para construir
até 4.000 unidades por ano, operando com a filosofia de mesclar automação de precisão com o acabamento
manual artesanal típico da marca.