Series 1
(1974 - 1976)
Ficha técnica, versões e história do Aston Martin Lagonda.
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(1974 - 1976)
(1976 - 1986)
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O Aston Martin Lagonda é um dos automóveis mais singulares, ousados e marcantes da indústria automotiva global. Produzido de forma artesanal entre 1974 e 1990 na histórica fábrica de Newport Pagnell, na Inglaterra, este sedã de luxo de grande porte desafiou as convenções de estilo e de tecnologia de sua época. O modelo nasceu em um momento de extrema vulnerabilidade financeira para a Aston Martin, que enfrentava os reflexos da crise do petróleo de 1973 e chegou a declarar falência no final de 1974. A decisão de criar um sedã de quatro portas de altíssimo luxo foi uma estratégia ousada para atrair capital estrangeiro, especialmente do Oriente Médio, garantindo o fluxo de caixa que salvou a fabricante da insolvência.
Durante seus dezesseis anos de história, o Lagonda passou por profundas transformações estéticas e mecânicas, divididas em quatro séries distintas. O modelo evoluiu de um sedã de formato clássico baseado no cupê esportivo da marca para um design futurista em formato de cunha (wedge design), tornando-se também o pioneiro mundial no uso de painéis de instrumentos digitais em carros de produção. No total, apenas 645 unidades foram produzidas, o que assegura ao modelo o status de item de coleção altamente exclusivo.
O nome Lagonda remete a uma tradicional fabricante de automóveis britânica fundada em 1906 por Wilbur Gunn. A marca conquistou grande prestígio nas décadas seguintes, incluindo uma vitória histórica nas 24 Horas de Le Mans de 1935 com o modelo M45R. Em 1947, o industrial David Brown adquiriu a Lagonda logo após comprar a Aston Martin, fundindo as duas marcas.
Após a fusão, a marca Lagonda perdeu espaço gradualmente, sendo utilizada apenas em modelos de quatro portas muito exclusivos, como o Lagonda Rapide produzido entre 1961 e 1964, do qual apenas 55 unidades foram fabricadas. A decisão de reativar o nome na década de 1970 foi uma tentativa direta de diversificar o catálogo da Aston Martin, que até então era conhecida quase exclusivamente por seus cupês esportivos de duas portas.
A primeira geração do Aston Martin Lagonda, conhecida como Série 1, foi apresentada no Salão do Automóvel de Londres em outubro de 1974. Diferente do formato futurista que consagraria o carro anos mais tarde, o Série 1 era essencialmente uma versão alongada de quatro portas do cupê Aston Martin V8 (que por sua vez evoluiu do DBS).
Projetado por William Towns, o Série 1 tinha o chassi de aço estendido em 30,5 centímetros para oferecer espaço confortável aos passageiros do banco traseiro, mantendo os painéis de alumínio moldados à mão sobre uma estrutura de seção em caixa. O visual frontal trazia faróis simples ladeados por uma grade em formato de ferradura típica da Lagonda.
O conjunto mecânico utilizava o motor V8 de 5,3 litros (5.340 cc) com duplo comando de válvulas por bancada (DOHC) e duas válvulas por cilindro, alimentado por quatro carburadores Weber. Este propulsor entregava 280 cv na versão padrão, embora estimativas de alto desempenho apontem até 320 cv. A transmissão oferecida era manual ZF de 5 marchas ou automática de 3 marchas (BorgWarner nos primeiros modelos e Chrysler Torqueflite posteriormente).
Com velocidade máxima de 240 km/h e aceleração de 0 a 96 km/h em 6,2 segundos, o Série 1 apresentava números de desempenho impressionantes para um sedã de duas toneladas. No entanto, seu preço de venda era extremamente elevado (£ 14.040, cerca de 24% mais caro que o cupê V8), o que limitou as vendas a apenas 7 unidades no período de produção ativa. Uma oitava unidade foi montada e autorizada posteriormente pela fábrica.
Entre essas raras unidades, três veículos (chassis 12003, 12005 e 12006) foram posteriormente atualizados pela preparadora R.S. Williams para uma especificação de 7,0 litros do motor V8, gerando uma potência estimada entre 440 cv e 480 cv e torque de 76 kgfm.
Diante da necessidade de criar um produto revolucionário para atrair a atenção do mercado global e demonstrar a capacidade de inovação da marca sob nova gestão, a Aston Martin revelou o Lagonda Série 2 no Salão de Londres de 1976. O designer William Towns abandonou o visual clássico e adotou o estilo de "papel dobrado" ou design em cunha (wedge design), caracterizado por linhas extremamente angulares, superfícies planas e uma carroceria muito baixa e larga. O visual externo trazia faróis escamoteáveis (pop-up) instalados no capô e uma diminuta grade dianteira que servia como entrada de ar para o radiador de óleo da transmissão.
O modelo compartilhava o chassi alongado e a suspensão independente com braços sobrepostos na dianteira e eixo De Dion com braços arrastados e ligação de Watt na traseira, além de freios a disco ventilados Girling nas quatro rodas (com os discos traseiros montados de forma interna, junto ao diferencial). O motor continuava a ser o V8 de 5,3 litros com quatro carburadores Weber 42DCNF de corpo duplo, gerando 280 cv a 5.000 rpm e 49,7 kgfm de torque a 3.000 rpm, acoplado exclusivamente a uma transmissão automática Chrysler TorqueFlite de 3 marchas. O consumo médio era bastante alto, situando-se entre 4 e 5 km/l.
Embora o design externo do Série 2 tenha gerado grande repercussão, as entregas aos clientes só começaram em 1979 devido à enorme complexidade no desenvolvimento de sua cabine. O Lagonda foi o primeiro automóvel de produção no mundo equipado com um painel de instrumentos totalmente digital e comandos sensíveis ao toque. A primeira fase desse sistema eletrônico utilizava displays de LED (Diodos Emissores de Luz) e botões de membrana capacitiva controlados por um microprocessador Z80.
Esse sistema inicial, desenvolvido em parceria com o Cranfield Institute of Technology, mostrou-se muito instável em testes práticos, sofrendo com panes elétricas causadas pelo calor gerado pela fiação complexa de mais de 300 cabos. Para sanar os problemas, a Aston Martin contratou a empresa americana Javelina Corporation, especializada na eletrônica dos caças F-15 Eagle.
A partir de 1984, a Javelina substituiu o arranjo original por três telas de tubos de raios catódicos (CRT) instaladas atrás do volante para exibir a velocidade, o nível de combustível e os parâmetros do motor, além de adicionar um sintetizador de voz para alertas em quatro idiomas. O custo de desenvolvimento dessa tecnologia foi enorme, representando cerca de quatro vezes o orçamento do restante do projeto do carro.
O Série 2 recebeu diversas atualizações ao longo de seus nove anos de produção:
Apresentado no Salão do Automóvel de Nova York em janeiro de 1986, o Lagonda Série 3 manteve as linhas da carroceria em formato de cunha desenvolvidas para o Série 2, mas introduziu uma modernização mecânica de grande importância para as novas leis de emissões: a injeção eletrônica de combustível Weber-Marelli.
Com a adoção da injeção eletrônica, o motor V8 de 5,3 litros passou a entregar 300 cv de potência na versão europeia e torque máximo de 44,2 kgfm, proporcionando respostas de aceleração mais diretas. Nos Estados Unidos, para atender às regras antipoluição mais rígidas, a potência declarada foi limitada a 240 cv. A transmissão automática Chrysler TorqueFlite de 3 marchas continuou a equipar o modelo.
No interior do Série 3, o painel de instrumentos também evoluiu. Os antigos monitores de tubo de raios catódicos (CRT), conhecidos pela alta dissipação de calor e fragilidade, foram substituídos no início de 1987 por displays fluorescentes a vácuo (VFD). Essa nova tecnologia apresentava visual semelhante ao de relógios digitais da época, operando de forma muito mais estável e fria. O peso do veículo em ordem de marcha atingiu o pico de 2.096 kg nesta geração devido ao acréscimo de novos sistemas eletrônicos.
O Série 3 permaneceu em produção por apenas um ano, registrando o encerramento da montagem com somente 75 unidades fabricadas. Essa baixa produção confere ao Série 3 o título de modelo regular mais raro de toda a linha comercializada do Lagonda em formato de cunha.
O Série 4 foi revelado ao público no Salão do Automóvel de Genebra em março de 1987, trazendo a primeira grande mudança visual externa na carroceria em cunha desde o seu lançamento original em 1976. William Towns foi novamente contratado para rejuvenescer o design do carro, com a missão de suavizar as linhas marcantes para adequar o sedã às tendências estéticas do final dos anos 1980.
As principais alterações realizadas no design do Série 4 foram:
Mecanicamente, o Série 4 manteve o motor V8 de 5,3 litros com injeção eletrônica Weber-Marelli e duas bombas de combustível elétricas da marca SU. O motor foi calibrado para entregar 289 cv a 5.000 rpm e torque de 44,3 kgfm a 3.000 rpm. O peso total em ordem de marcha foi ligeiramente reduzido para 2.064 kg. O desempenho em linha reta apresentava aceleração de 0 a 100 km/h em 8,4 segundos e velocidade máxima de 233 km/h.
A produção do Série 4 estendeu-se até janeiro de 1990, quando a última unidade deixou a linha de montagem de Newport Pagnell. Foram produzidos 105 exemplares do Série 4, sendo 72 com volante no lado esquerdo (LHD) e 33 com volante no lado direito (RHD).
O processo de fabricação artesanal do Lagonda abriu caminho para versões altamente personalizadas por divisões internas e oficinas externas:
Apresentado no salão de Londres de 1983 pela Tickford, a divisão interna de customização da Aston Martin, este modelo trazia um kit estético composto por spoilers dianteiros profundos, saias laterais em alumínio desenhadas por Simon Saunders e rodas BBS de 15 polegadas com pneus Pirelli P7. O interior trazia acabamento em madeira de nogueira, teto revestido em couro, duas televisões coloridas montadas no console, videocassete, armário de bebidas com garrafas de cristal personalizadas e um telefone via rádio. O preço de venda de £ 85.000 limitou a fabricação a apenas 5 unidades.
Em 1984, a Tickford desenvolveu uma versão com entre-eixos alongado em 25,4 centímetros (10 polegadas) e teto elevado em 5 centímetros (2 polegadas) para ampliar o espaço interno para pernas e cabeça. O modelo contava com divisória interna de privacidade, vidros traseiros bipartidos e telefone via rádio integrado ao console. Vendida pelo valor recorde de £ 110.000 na época, estima-se que apenas 4 unidades tenham sido efetivamente concluídas.
O Lagonda também serviu de base para raras versões perua desenvolvidas por oficinas terceiras. A mais famosa delas foi criada pela empresa suíça Roos Engineering, baseada em um Série 3 de 1987 e finalizada em 2000 após quatro anos de trabalho. O projeto incluiu a criação de painéis de vidro traseiros curvos sob medida que custaram cerca de 40 mil francos suíços. Outra conversão notável de perua foi desenhada pelo sueco Ted Mannerfeldt, com o objetivo de preservar as linhas originais da coluna C de William Towns. O entusiasta holandês Harry Kielstra também desenvolveu de forma independente uma versão perua em sua própria oficina para uso pessoal de carga.
O conceito de um sedã de luxo extremo com a assinatura Lagonda permaneceu inativo na Aston Martin por vinte e cinco anos após o fim da produção em 1990. No entanto, em 2014, a fabricante anunciou o desenvolvimento de um sucessor espiritual sob a marca Lagonda: o Lagonda Taraf.
Projetado por Marek Reichman sob o codinome de desenvolvimento "Project Comet", o Taraf (que significa "luxo definitivo" em árabe) buscou inspiração visual direta nas linhas geométricas em cunha criadas por William Towns em 1976. O modelo foi montado sobre a plataforma modular VH da Aston Martin, compartilhada com os modelos DB9 e Rapide.
O Taraf trazia carroceria construída inteiramente em painéis de fibra de carbono reforçada com plástico para manter o peso final abaixo de 2.000 kg, compensando o aumento de suas dimensões físicas (5,40 metros de comprimento). O modelo era equipado com o motor V12 naturalmente aspirado de 5,9 litros produzido em Colônia, na Alemanha, entregando 540 cv de potência e 64,2 kgfm de torque, acoplado a uma transmissão automática de 8 marchas da fabricante alemã ZF. Com esse conjunto, o Taraf acelerava de 0 a 100 km/h em 4,4 segundos e atingia a velocidade máxima de 314 km/h.
Inicialmente planejado para ser vendido em regime de convite restrito apenas para o mercado do Oriente Médio com um teto de produção de 100 unidades, o Taraf teve sua comercialização ampliada para a Europa, Singapura, África do Sul e Estados Unidos pelo CEO Andy Palmer, com o limite de produção reajustado para 200 unidades. O preço de venda de cerca de US$ 1 milhão (aproximadamente £ 580.000 no Reino Unido) limitou a demanda final. No total, apenas 120 unidades do Taraf foram efetivamente construídas entre 2015 e 2016, consolidando o modelo como um dos veículos mais raros da era contemporânea da Aston Martin.
As tabelas a seguir consolidam as dimensões, pesos, especificações mecânicas e o volume de produção do Aston Martin Lagonda de forma comparativa ao longo das gerações:
| Série | Comprimento | Largura | Altura | Entre-eixos | Peso em Ordem de Marcha |
|---|---|---|---|---|---|
| Série 1 (1974-1975) | 4.928 mm | 1.829 mm | 1.323 mm | 2.910 mm | 2.000 kg |
| Série 2 (1976-1985) | 5.281 mm | 1.791 mm | 1.302 mm | 2.916 mm | 2.023 kg a 2.064 kg |
| Série 3 (1986-1987) | 5.283 mm | 1.816 mm | 1.302 mm | 2.908 mm | 2.096 kg |
| Série 4 (1987-1990) | 5.283 mm | 1.816 mm | 1.302 mm | 2.908 mm | 2.064 kg |
| Série | Tipo de Motor | Alimentação / Combustível | Transmissão de Fábrica | Potência | Torque Máximo | Vel. Máxima |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Série 1 | V8 5.3L DOHC 16v | Carburadores simples | Manual ZF 5-m / Auto BorgWarner 3-m | 280 cv | 44,2 kgfm | 240 km/h |
| Série 2 | V8 5.3L DOHC 16v | 4 Carburadores Weber 42DCNF | Auto Chrysler TorqueFlite 3-m | 280 cv a 5.000 rpm | 49,7 kgfm a 3.000 rpm | 238 km/h |
| Série 3 | V8 5.3L DOHC 16v | Injeção Eletrônica Weber-Marelli | Auto Chrysler TorqueFlite 3-m | 300 cv (Eur) / 240 cv (EUA) | 44,2 kgfm | 230 km/h |
| Série 4 | V8 5.3L DOHC 16v | Injeção Eletrônica Weber-Marelli | Auto Chrysler TorqueFlite 3-m | 289 cv a 305 cv a 5.500 rpm | 44,3 kgfm a 3.000 rpm | 233 km/h a 241 km/h |
| Modelo / Série | Anos de Atividade | Unidades Produzidas | Observações Técnicas e Comerciais |
|---|---|---|---|
| Série 1 | 1974 – 1975 | 8 unidades | Baseado no chassi clássico do DBS; 5 automáticos e 3 manuais ZF. |
| Série 2 | 1976 – 1985 | 457 unidades | Primeiro carro com painel digital; introdução do design em cunha de Towns. |
| Série 3 | 1986 – 1987 | 75 unidades | Transição técnica para injeção eletrônica de combustível. |
| Série 4 | 1987 – 1990 | 105 unidades | Reestilização profunda com eliminação dos faróis escamoteáveis. |
| Total Global | 1974 – 1990 | 645 unidades | Volume final oficial de chassis artesanais construídos. |
O Aston Martin Lagonda destaca-se na história da engenharia automotiva como uma aposta radical em termos de estilo e tecnologia, lançada em um momento em que a marca dependia de um produto de forte impacto para garantir sua sobrevivência. A ousadia no design em formato de cunha de William Towns e o pioneirismo ao introduzir sistemas eletrônicos avançados no interior, mesmo enfrentando severos problemas de confiabilidade mecânica e elétrica devido às limitações técnicas dos anos 1970 e 1980, abriram as portas para a digitalização das cabines que se tornou o padrão da indústria automotiva contemporânea. Com apenas 645 unidades artesanais finalizadas ao longo de dezesseis anos, o modelo permanece como uma das demonstrações mais extremas e exclusivas de luxo e inovação da indústria britânica.
Imagens do Aston Martin Lagonda