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Ficha técnica, versões e história do Aston Martin Valour.
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A indústria automotiva global atravessa, na terceira década do século XXI, a sua transformação mais radical desde a substituição das carruagens puxadas por cavalos pelo motor de combustão interna. A transição para a eletrificação e a digitalização dos sistemas de controle veicular criou um cenário onde a eficiência energética e a conectividade muitas vezes se sobrepõem à experiência visceral de condução. É neste contexto de mudança de paradigma que a Aston Martin, fabricante britânica sediada em Gaydon, concebeu o projeto Valour.
O Aston Martin Valour não deve ser interpretado apenas como mais um automóvel de alta performance; ele representa um manifesto de resistência mecânica e uma homenagem deliberada aos 110 anos de história da marca, celebrados em 2023. O modelo posiciona-se como um "fim de era", encapsulando a filosofia de design e engenharia que definiu os grandes carros de turismo (Grand Tourers) britânicos: motores de grande cilindrada montados na dianteira, tração traseira e, crucialmente, o envolvimento mecânico direto do condutor através de uma transmissão manual.
A exclusividade do projeto é garantida pela sua produção estritamente limitada a 110 unidades globais, número alusivo ao aniversário da empresa. A relevância do Valour no mercado de ultra-luxo é amplificada pelo fato de ser, no momento do seu lançamento, o único carro esportivo de motor dianteiro V12 disponível no mercado com transmissão manual, uma configuração que se tornou extinta entre os grandes fabricantes de supercarros.
A referência primária para o Valour é o lendário Aston Martin V8 Vantage, lançado em 1977. Naquela época, o V8 Vantage foi aclamado como o "primeiro supercarro da Grã-Bretanha", projetado para competir com as Ferrari Daytona e Lamborghini Miura em velocidade e aceleração.
A conexão visual entre o Valour e o V8 Vantage de 1977 é deliberada e evidente em vários pontos chave:
Para além do modelo de estrada, o Valour busca inspiração técnica e visual no carro de corrida RHAM/1, apelidado carinhosamente de "The Muncher" (O Devorador). Este veículo competiu nas 24 Horas de Le Mans em 1977 e 1979 e ficou famoso pela sua voracidade — tanto por combustível quanto por discos de freio — e pela sua carroceria extremamente alargada para acomodar pneus de competição.
O Valour homenageia o "Muncher" através das suas rodas de liga leve forjadas de 21 polegadas com design em favo de mel ("honeycomb"), que replicam a estética das rodas de competição da época, e pela sua postura rebaixada e larga que sugere estabilidade em alta velocidade.
Embora as raízes estejam nos anos 70, o "pai" direto do projeto Valour em termos de execução moderna é o Aston Martin Victor. Revelado em 2020, o Victor foi um modelo único ("one-off") criado pela divisão de personalização "Q by Aston Martin" sobre o chassi de fibra de carbono do supercarro One-77.
O sucesso crítico e a recepção entusiástica do público ao design retro-futurista do Victor validaram a decisão da Aston Martin de produzir uma série limitada com a mesma filosofia estética. No entanto, enquanto o Victor era uma peça única de valor inestimável baseada em um chassi exótico, o Valour foi projetado para ser produzido em uma escala maior (110 unidades), utilizando uma plataforma de alumínio derivada do V12 Vantage e do DBS, tornando o projeto viável para um grupo seleto de colecionadores.
| Modelo | Ano de Lançamento | Tipo de Produção | Motorização | Influência no Valour |
|---|---|---|---|---|
| V8 Vantage | 1977 | Série | V8 Aspirado | Design frontal, "muscle car" ethos |
| RHAM/1 "Muncher" | 1977/79 | Carro de Corrida | V8 Twin-Turbo | Rodas, postura larga, aerodinâmica |
| Aston Martin Victor | 2020 | One-Off (1 unidade) | V12 Aspirado (7.3L) | Linguagem de design retro-futurista |
| Aston Martin Valour | 2023 | Limitada (110 unid.) | V12 Twin-Turbo (5.2L) | Síntese de todos os anteriores |
O design do Valour é descrito pela marca como "sem medo" (forever fearless). A carroceria é inteiramente construída em fibra de carbono, o que permitiu aos designers criar formas complexas que seriam impossíveis ou proibitivamente caras de estampar em metal tradicional.
A dianteira é dominada por um capô do tipo concha (clamshell), uma peça única de fibra de carbono que se estende até as cavas das rodas. Esta característica não é apenas estética; ela elimina linhas de corte visíveis na parte superior dos para-lamas, criando uma superfície limpa e contínua.
No centro do capô, encontra-se uma grande abertura em forma de ferradura (horse shoe vent), ladeada por duas condutas NACA (NACA ducts). As condutas NACA, originalmente desenvolvidas pela NASA, são projetadas para admitir ar com o mínimo de arrasto aerodinâmico. No Valour, a sua função é crítica: alimentar o motor V12 biturbo com o imenso volume de ar fresco necessário para a combustão e o arrefecimento, garantindo a gestão térmica ideal mesmo sob uso intenso.
A lateral do veículo apresenta saídas de ar nos para-lamas dianteiros com "veias" de fibra de carbono. A função destes elementos é extrair a alta pressão de ar turbulento que se forma dentro das caixas de roda quando o pneu gira em alta velocidade. Ao aliviar essa pressão, o carro reduz a sustentação (lift) no eixo dianteiro, melhorando a precisão da direção.
A traseira adota o conceito "Kamm-tail" (traseira truncada), onde a carroceria é cortada abruptamente na vertical. Este princípio aerodinâmico reduz o arrasto ao minimizar a turbulência do ar que se desprende do veículo. O painel traseiro inclui "exoblades" (lâminas externas) de fibra de carbono, inspiradas nos anos 70, que funcionam como geradores de vórtices para organizar o fluxo de ar.
O difusor traseiro proeminente trabalha em conjunto com o divisor dianteiro (splitter) para criar equilíbrio aerodinâmico, mantendo o carro plantado no solo sem recorrer a grandes asas traseiras ativas, preservando assim a silhueta clássica.
Como um modelo de comemoração, o Valour ofereceu aos clientes um vasto leque de personalização. Um exemplo notável é a pintura em "Aston Martin Racing Green" com detalhes contrastantes em "Lime" (verde limão) nas bordas do difusor e nas saídas de ar, uma combinação que remete às cores de competição modernas da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin. A carroceria de fibra de carbono também pode ser deixada exposta, com vernizes coloridos (vermelho, azul ou verde) que permitem ver a trama do material sob a luz.
A engenharia do Valour é focada na pureza da experiência de condução. Enquanto muitos hipercarros modernos utilizam sistemas híbridos para aumentar a potência, o Valour confia exclusivamente na combustão interna e na interação mecânica.
O propulsor do Valour é uma versão especialmente calibrada do motor AE31, um V12 de 5.2 litros com sobrealimentação biturbo.
A calibração do motor foi ajustada para oferecer uma entrega de potência elástica. A engenharia trabalhou para criar uma curva de torque "virtualmente plana" na segunda marcha, disponível desde as 1.800 rpm até as 7.000 rpm. Na prática, isso significa que o carro possui uma resposta imediata ("punch") em quase qualquer situação de rodagem, eliminando a necessidade de reduções constantes de marcha para ultrapassagens.
O elemento central que define o caráter do Valour é a sua transmissão manual de 6 velocidades, desenvolvida em parceria com a especialista italiana Graziano. Acoplar uma caixa manual a um motor V12 moderno com tanto torque apresenta desafios significativos de engenharia, exigindo componentes reforçados para lidar com a carga sem comprometer a facilidade de uso da embreagem.
A transmissão está montada na traseira (transaxle) para otimizar a distribuição de peso do veículo. Ela conta com um Diferencial de Deslizamento Limitado (LSD) Mecânico. Diferente dos diferenciais eletrônicos (E-Diff) comuns em carros modernos que usam os freios para vetorizar o torque, o LSD mecânico do Valour oferece uma resposta mais natural e previsível, permitindo que o motorista sinta exatamente quando os pneus traseiros estão prestes a perder aderência.
A Aston Martin enfatiza que não há "manipulação artificial de torque" ou sistemas eletrônicos intrusivos para suavizar as trocas de marcha; a responsabilidade de operar o sistema suavemente recai inteiramente sobre o piloto, reforçando o conceito de engajamento.
O Valour utiliza uma estrutura de alumínio colado (bonded aluminium), uma tecnologia que a Aston Martin refinou ao longo de décadas. No entanto, para garantir que a suspensão trabalhe com precisão, a rigidez torcional do chassi foi aumentada significativamente.
Resultado: Segundo a documentação oficial, o Valour possui a carroceria mais rígida já produzida pela Aston Martin até a data do seu lançamento, o que permite um controle mais preciso da geometria da suspensão sob cargas laterais elevadas.
O sistema de suspensão utiliza amortecedores adaptativos fornecidos pela Bilstein. O motorista pode selecionar entre três modos de condução através de botões no volante:
Diferente do modelo Valiant (que veremos adiante), o Valour não utiliza os amortecedores Multimatic de competição, pois seu foco primário é ser um carro de estrada (Road Car) capaz de longas viagens, e não apenas uma ferramenta de pista.
Para conter a massa e a potência do V12, o Valour é equipado de série com freios de Carbono-Cerâmica (CCB).
Benefício de Peso: A utilização de carbono-cerâmica economiza 23 kg de massa não suspensa em comparação com discos de aço equivalentes. Essa redução melhora não apenas a frenagem, mas também o conforto e a agilidade da direção, pois a suspensão tem menos inércia para controlar.
Os pneus são os Michelin Pilot Sport S 5, marcados com o código "AML", indicando que foram desenvolvidos especificamente para a Aston Martin. Eles possuem um composto híbrido: a parte externa da banda de rodagem foca em aderência seca (performance), enquanto a parte interna é otimizada para segurança em piso molhado.
O habitáculo do Valour é um estudo em contrastes, misturando a tradição britânica com materiais de alta tecnologia. O layout é estritamente para dois ocupantes, reforçando o caráter intimista do cupê.
A peça central do interior, tanto visual quanto funcionalmente, é a alavanca de câmbio. A Aston Martin optou por um design de mecanismo exposto (exposed gear linkage). Em vez de ocultar as hastes mecânicas sob couro, o túnel central tem um recorte que permite ver o funcionamento físico da transmissão a cada troca de marcha.
A manopla do câmbio oferece quatro opções de acabamento para personalização:
Num movimento ousado contra a onipresença do couro e da Alcantara em supercarros, a Aston Martin reintroduziu o tweed de lã tradicional no Valour. O padrão do tecido é inspirado no Aston Martin DBR1, vencedor de Le Mans em 1959. O uso de tweed nos bancos e forros de porta oferece uma textura quente e tátil, além de ser mais respirável que o couro e oferecer melhor aderência ao corpo do motorista nas curvas.
Este material clássico contrasta com a fibra de carbono "Mokume" ou fibra de carbono tradicional utilizada no console central, painel e portas. A combinação cria uma atmosfera que a marca descreve como "contemporânea atemporal".
Apesar do apelo nostálgico, o Valour é um carro moderno. O painel de instrumentos é digital, mas configurado para apresentar as informações de forma clara. O sistema de infoentretenimento, contudo, baseia-se numa arquitetura anterior da Mercedes-Benz, controlada por um dial rotativo e botões físicos, em vez de depender exclusivamente de telas sensíveis ao toque (touchscreens). Críticos apontam que o sistema é um pouco datado visualmente, mas funcionalmente adequado para um carro focado na condução, onde as distrações digitais devem ser minimizadas.
A ergonomia segue o padrão de carros esportivos, com bancos "Performance" de fibra de carbono que oferecem excelente suporte lateral, embora com acolchoamento firme que pode ser cansativo em viagens muito longas. O espaço para armazenamento de objetos pessoais (como telefones e carteiras) é limitado, uma característica comum em veículos desta categoria.
Embora a Aston Martin priorize a "sensação" sobre os números brutos para o Valour, o desempenho objetivo do carro é formidável.
| Parâmetro | Dados do Aston Martin Valour |
|---|---|
| Motor | 5.2L V12 Twin-Turbo (AE31) |
| Potência | 715 PS (705 hp / 526 kW) a 6.500 rpm |
| Torque | 753 Nm (555 lb-ft) entre 1.800 - 7.000 rpm |
| Transmissão | Manual de 6 velocidades (Graziano) |
| Tração | Traseira (RWD) com Diferencial Mecânico (LSD) |
| 0-100 km/h | ~3.4 a 3.6 segundos (Estimado) |
| Velocidade Máxima | 322 km/h (200 mph) |
| Peso (Ordem de Marcha) | Aprox. 1.780 kg |
| Rodas | 21" Forged Alloy Honeycomb |
| Pneus Dianteiros | 275/35 R21 Michelin Pilot Sport S 5 |
| Pneus Traseiros | 325/30 R21 Michelin Pilot Sport S 5 |
Nota sobre aceleração: A Aston Martin não divulgou oficialmente um tempo exato de 0-100 km/h no lançamento, focando na narrativa da experiência manual. No entanto, testes e estimativas baseadas na relação peso/potência situam o tempo na casa dos 3.4 a 3.6 segundos. O tempo é marginalmente superior ao de carros automáticos equivalentes (como o V12 Vantage automático que faz em 3.5s) puramente devido ao tempo humano necessário para operar a embreagem e a alavanca de câmbio.
Durante o ciclo de vida do Valour, surgiu uma demanda por uma versão ainda mais extrema, focada especificamente no uso em pista. Esta demanda foi catalisada por uma encomenda pessoal do piloto de Fórmula 1 da equipe Aston Martin Aramco, Fernando Alonso. O resultado foi o nascimento do Aston Martin Valiant, uma evolução direta do Valour.
O Valiant pode ser considerado a "versão de pista" do Valour. Embora compartilhem o mesmo DNA e chassi, as diferenças técnicas são profundas e justificam a distinção como modelos separados, embora irmãos.
| Característica | Aston Martin Valour | Aston Martin Valiant |
|---|---|---|
| Propósito | Road Car (Estrada / GT Analógico) | Track Focused (Foco em Pista / Extremo) |
| Produção | 110 unidades | 38 unidades |
| Potência do Motor | 715 PS (705 hp) | 745 PS (735 hp) – Recalibrado |
| Amortecedores | Bilstein Adaptativos (foco em estrada/sport) | Multimatic ASV (Adaptive Spool Valve) de corrida |
| Aerodinâmica | Visual limpo, sem elementos móveis | Discos aerodinâmicos nas rodas, asa fixa proeminente |
| Redução de Peso | Foco em materiais de luxo e carbono | Subchassi traseiro impresso em 3D, bateria de lítio, rodas de magnésio |
| Interior | Conforto, Tweed, Bancos Sport | Semi-gaiola de proteção (Half-cage), cintos de 4 pontos |
| Rodas | Alumínio Forjado (21") | Magnésio (21") – mais leves |
O Valiant introduz inovações como um subchassi traseiro impresso em 3D, que economiza 3 kg sem perder rigidez, e um tubo de torque de titânio que economiza 8.6 kg. A produção do Valiant é ainda mais restrita, limitada a apenas 38 unidades globais, todas vendidas imediatamente.
A produção do Aston Martin Valour começou na fábrica de Gaydon, Reino Unido, no segundo semestre de 2023, com as entregas se estendendo por 2024. A quantidade de 110 exemplares é fixa e imutável. Devido à natureza altamente desejável do veículo, todas as unidades foram alocadas para clientes VIP e colecionadores da marca antes mesmo do anúncio público ou nas semanas imediatamente seguintes.
O preço base estimado do Valour situava-se entre £1 milhão e £1.5 milhão de libras esterlinas (aprox. US$ 1.5 a US$ 2 milhões de dólares). No entanto, o preço final de cada unidade variava drasticamente dependendo do nível de personalização "Q by Aston Martin" solicitado pelo cliente (pinturas especiais, materiais exóticos, etc.).
No mercado secundário, o Valour é considerado um ativo de investimento ("Blue Chip"). A combinação de motor V12, câmbio manual e produção limitada historicamente garante valorização a longo prazo. Houve relatos isolados de tentativas de revenda rápida ("flipping") logo após o lançamento, com alguns preços oscilando, mas a tendência geral para modelos V12 manuais da Aston Martin é de valorização sólida à medida que a eletrificação da frota mundial avança.
O Aston Martin Valour encerra um capítulo glorioso da engenharia automotiva britânica. Ele não tenta competir com os tempos de volta digitais de um carro elétrico, nem oferece a condução autônoma de um sedã moderno. O seu valor reside na preservação de uma forma de arte: a condução engajada.
Ao unir a estética brutalista dos anos 70 com a engenharia de materiais de 2023, o Valour serve como uma ponte entre o passado e o futuro da marca. Para os puristas, ele é a prova definitiva de que, mesmo num mundo cada vez mais automatizado, ainda existe espaço para a emoção mecânica, o ruído de um V12 e a satisfação de uma troca de marcha perfeita executada pela mão humana. O Valour não é apenas um carro; é a celebração da alma da Aston Martin.
Imagens do Aston Martin Valour