1ª Geração
(2012-2017)
Ficha técnica, versões e história do Aston Martin Vantage V12 Roadster.
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No panteão da história automotiva moderna, poucos veículos capturam a imaginação purista com a mesma intensidade que o Aston Martin V12 Vantage. Este automóvel não é apenas um modelo dentro de uma gama; ele representa um momento de desafio filosófico e de engenharia. A premissa era enganosamente simples, evocando a era dos "Hot Rods" clássicos: instalar o maior e mais potente motor disponível na menor e mais ágil carroceria da empresa. No entanto, a execução dessa ideia pela Aston Martin, uma marca historicamente associada a Grand Tourers (GTs) refinados e elegantes, resultou em uma máquina de caráter singular, frequentemente descrita como "um bruto em um terno sob medida".
Este relatório técnico e histórico tem como objetivo dissecar, com exaustão de detalhes, a trajetória do V12 Vantage. Desde a sua concepção inicial como um projeto "skunkworks" (desenvolvimento secreto) em 2007 até a sua despedida final e turbinada em 2022, analisaremos cada parafuso, cada decisão estratégica e cada número de produção que compõe a lenda. Examinaremos como a Aston Martin navegou pelas restrições da plataforma VH (Vertical Horizontal), as batalhas internas sobre transmissões manuais versus automatizadas, e como, contra todas as probabilidades lógicas de mercado, este carro se tornou o último bastião da experiência de condução analógica.
A análise a seguir não se limita a listar especificações; ela busca entender o "porquê" por trás dos dados. Por que a Aston Martin insistiu em uma transmissão manual quando a Ferrari a abandonava? Por que a produção do Roadster foi tão restrita? E como a evolução do motor V12 de aspiração natural para o biturbo alterou fundamentalmente a alma do veículo? Através dos dados coletados e da análise de especialistas, reconstruiremos a narrativa definitiva do V12 Vantage.
Em 2007, a Aston Martin vivia um período de otimismo e independência recém-adquirida, tendo se separado da Ford. Sob a liderança do Dr. Ulrich Bez, a marca buscava reafirmar sua identidade não apenas como fabricante de carros bonitos, mas como uma força de engenharia séria. O V8 Vantage, lançado em 2005, já era um sucesso crítico e comercial, posicionado como um rival direto do Porsche 911. No entanto, críticos apontavam que o chassi do V8 era capaz de lidar com muito mais potência do que o motor 4.3 litros original oferecia.
A resposta a essa crítica não veio de um comitê de planejamento de produto, mas da paixão dos engenheiros. A ideia de transplantar o motor V12 do carro-chefe DBS para o chassi compacto do Vantage parecia, no papel, uma impossibilidade física e dinâmica. O compartimento do motor do Vantage fora projetado para um V8 curto; um V12 longo alteraria drasticamente a distribuição de peso e o fluxo de ar.
O mundo foi apresentado a essa ideia audaciosa em 11 de dezembro de 2007. A ocasião foi a inauguração do novo Centro de Design da Aston Martin em Gaydon, Warwickshire. Diante de uma plateia de VIPs e jornalistas, a capa foi retirada de um carro pintado em um azul vibrante (Mako Blue), batizado de V12 Vantage RS Concept.
O "RS" no nome não era apenas marketing; significava uma conexão direta com as pistas. Ao contrário do carro de produção que viria depois, o conceito RS era uma besta de engenharia focada quase exclusivamente em performance de circuito.
A reação foi imediata e avassaladora. A empresa recebeu o que descreveu como uma "inundação" de interesse, com clientes dispostos a depositar cheques em branco naquela noite. O Dr. Ulrich Bez, percebendo o potencial, anunciou: "Se houver demanda suficiente, consideraremos seriamente uma produção de baixo volume num futuro próximo". A semente estava plantada, mas o caminho para a produção exigiria compromissos e soluções de engenharia brilhantes.
Transformar o RS Concept em um carro de estrada vendável, durável e legalizado levou apenas 12 meses — um tempo de desenvolvimento incrivelmente curto para os padrões da indústria. No entanto, algumas mudanças cruciais foram feitas em relação ao conceito inicial.
A mudança mais significativa foi no motor. O V12 de corrida com cárter seco do conceito foi considerado muito extremo, caro e difícil de manter para um carro de estrada global. Em seu lugar, a Aston Martin utilizou a especificação AM11 do motor V12 de 5.9 litros, a mesma unidade encontrada no DBS contemporâneo. Embora fosse um sistema de cárter úmido tradicional, ele era robusto, confiável e já homologado para emissões.
O coração do V12 Vantage de primeira geração é uma obra-prima da engenharia de combustão interna.
O maior desafio técnico era o calor. Colocar um V12 de 6.0 litros em um cofre projetado para um V8 de 4.3 litros criou uma fornalha térmica. A solução dos engenheiros tornou-se a assinatura visual do carro: as grandes aberturas ("louvres") no capô. Feitas de fibra de carbono moldada à mão, essas aberturas não eram decorativas; elas eram vitais para extrair o ar quente dos radiadores e reduzir a pressão de ar (lift) no eixo dianteiro em alta velocidade.
Para parar o carro, a Aston Martin padronizou o uso de freios de Carbono-Cerâmica (CCM).
O lançamento em 2009 foi recebido com aclamação quase universal. A imprensa automotiva elogiou o caráter "analógico" do carro. Em um mundo que se movia rapidamente para caixas de dupla embreagem e direção assistida elétrica, o V12 Vantage mantinha a direção hidráulica pesada e comunicativa e o câmbio manual.
O momento definitivo na cultura pop ocorreu no episódio final da série 13 do programa Top Gear (Agosto de 2009). Jeremy Clarkson realizou um teste poético e melancólico, sugerindo que, devido às pressões ambientais e econômicas, "nunca mais veríamos um carro como este". O segmento terminou com o carro parado diante de uma paisagem desértica ao som de "An Ending (Ascent)" de Brian Eno, cimentando o status do V12 Vantage como um clássico instantâneo antes mesmo de sair de linha.
V12 Vantage Carbon Black Edition
Para manter o interesse no modelo, a Aston Martin lançou edições especiais focadas em estética. A mais proeminente foi a Carbon Black Edition.
V12 Vantage Roadster (2012–2013)
O conversível chegou tarde no ciclo de vida, em 2012. A remoção do teto em um carro com tanto torque e peso na frente exigiu um trabalho extenso de reforço estrutural para evitar a torção do chassi ("scuttle shake").
O V12 Zagato merece um capítulo à parte, pois representa a união da mecânica bruta do V12 Vantage com a alta costura italiana. Criado para celebrar o 50º aniversário da parceria Aston Martin-Zagato (iniciada com o DB4 GT Zagato), este carro foi um exercício de design e artesanato.
Baseado inteiramente na mecânica do V12 Vantage (chassi VH, motor 5.9L de 510 bhp, câmbio manual), o Zagato diferenciava-se pela carroceria.
Antes de vender o carro de estrada, a Aston Martin construiu dois protótipos de corrida, apelidados afetuosamente de "Zig" (verde) e "Zag" (vermelho). Eles competiram nas 24 Horas de Nürburgring de 2011, provando a durabilidade mecânica do pacote antes da entrega aos clientes.
A Aston Martin anunciou originalmente uma intenção de produzir até 150 unidades. O preço, no entanto, era astronômico: cerca de £330.000 a £396.000 (dependendo dos impostos), o dobro do preço do carro doador. Devido a esse custo proibitivo e à economia global instável da época, a produção foi cortada.
Em 2013, o V12 Vantage original saiu de linha para dar lugar ao V12 Vantage S. A letra "S" denotava mais do que um facelift; representava uma revisão técnica profunda destinada a tornar o carro mais rápido e focado em pista.
A maior mudança estava sob o capô. O motor evoluiu para a especificação AM28.
A decisão mais polarizadora da geração "S" foi a eliminação inicial do câmbio manual. A Aston Martin instalou a transmissão Sportshift III de 7 velocidades.
O V12 Vantage S introduziu amortecedores adaptativos da Bilstein com três modos: Normal, Sport e Track. Isso ampliou a janela de operação do carro, tornando-o mais confortável em viagens longas (GT) e mais rígido e plano em circuitos, resolvendo em parte a crítica de que o carro original era "duro demais" para uso diário.
Ouvindo os apelos dos puristas e observando a valorização dos modelos manuais usados, a Aston Martin fez um movimento ousado em 2016 (Model Year 2017). Eles reintroduziram uma opção manual como um item "sem custo adicional".
A plataforma VH, já madura, serviu de base para algumas das máquinas mais extremas já feitas pela marca.
Originalmente planejado para se chamar "Vantage GT3", o carro foi renomeado para GT12 após uma disputa legal com a Porsche sobre o uso da sigla GT3. O GT12 foi a expressão máxima do V12 aspirado para as pistas.
Lançado para comemorar a vitória da Aston Martin Racing (AMR) na classe GTE Pro em Le Mans. O AMR era essencialmente um V12 Vantage S com o motor "Power Pack" de fábrica (perto de 600 cv) e esquemas de pintura inspirados em corridas (como o Stirling Green com faixas Lime Green).
Quando a produção do Vantage VH parecia encerrada, a divisão de personalização "Q by Aston Martin" aceitou uma encomenda especial que resultou no V600. O nome homenageava o V8 Vantage V600 dos anos 90, o carro mais potente do mundo em sua época.
Após um hiato de alguns anos, onde a nova geração do Vantage (lançada em 2018) operou apenas com motores V8 biturbo fornecidos pela AMG, a Aston Martin anunciou um último "hurrah" para o V12.
O modelo 2022 é um animal completamente diferente das gerações anteriores. Baseado na nova arquitetura de alumínio colado, ele teve que ser alargado em 40mm para acomodar a suspensão e a aerodinâmica necessárias para lidar com a nova potência.
O design foi ditado pela necessidade de resfriamento e downforce. A grade dianteira cresceu 25% para alimentar os radiadores. O capô ostenta uma ventilação em forma de ferradura ("Horse Shoe") para extrair calor dos turbos. Na traseira, uma asa fixa gera 204 kg de downforce na velocidade máxima, mantendo o carro plantado.
A Aston Martin definiu números rígidos para garantir a valorização futura:
Ambas as séries esgotaram antes do lançamento público, oferecidas primeiramente a clientes leais.
Uma parte crucial da história do V12 Vantage é a sua raridade. Ao contrário do Porsche 911 Turbo, que é produzido aos milhares, o V12 Vantage sempre foi um produto de nicho. Abaixo, apresentamos a análise consolidada dos números de produção, compilada a partir de registros de entusiastas e dados da fábrica.
| Geração | Modelo | Anos | Transmissão | Unidades (Aprox.) |
|---|---|---|---|---|
| Gen 1 | V12 Vantage Coupé | 2009-2013 | Manual (6-speed) | 1.199 |
| Gen 1 | V12 Vantage Roadster | 2012-2013 | Manual (6-speed) | 101 |
| Zagato | V12 Zagato | 2011-2012 | Manual (6-speed) | 61 (65 total) |
| Gen 2 | V12 Vantage S Coupé | 2013-2017 | Sportshift III | ~1.017 |
| Gen 2 | V12 Vantage S Coupé | 2016-2017 | Manual (7-speed) | 260 |
| Gen 2 | V12 Vantage S Roadster | 2013-2017 | Sportshift III | ~272 |
| Gen 2 | V12 Vantage S Roadster | 2016-2017 | Manual (7-speed) | ~91-97 |
| Especial | GT12 | 2015 | Sportshift III | 100 |
| Especial | V12 AMR (Coupé) | 2017 | Manual & SSIII | ~75 (57 Man / 18 SSIII) |
| Especial | V12 AMR (Roadster) | 2017 | Manual & SSIII | ~29 (23 Man / 6 SSIII) |
| Especial | V600 | 2018 | Manual (7-speed) | 14 (7 Coupé / 7 Roadster) |
| Gen 3 | V12 Vantage (Biturbo) | 2022 | Automática (8-speed) | 333 |
| Gen 3 | V12 Vantage Roadster (Biturbo) | 2022 | Automática (8-speed) | 249 |
Nota: Os números para as variantes manuais e AMR são baseados em registros de entusiastas e podem variar ligeiramente, mas representam a melhor estimativa disponível.
A história do Aston Martin V12 Vantage é a crônica de uma improbabilidade. Em uma era definida pelo "downsizing", eficiência de combustível e homogeneização de plataformas, a Aston Martin ousou fazer o oposto. Eles pegaram seu menor carro e deram-lhe o maior coração possível.
O legado do V12 Vantage não reside em tempos de volta em Nürburgring ou em aceleração de 0 a 100 km/h, áreas onde rivais como o Nissan GT-R ou o Porsche 911 Turbo frequentemente o superavam. Seu legado é emocional. É a sensação da direção hidráulica vibrando nas mãos do motorista, o som mecânico e não filtrado de um V12 aspirado subindo a 7.000 rpm, e a exigência física de uma transmissão manual pesada que requer habilidade para ser dominada.
Ao encerrar a produção em 2022 com a versão biturbo de 700 cv, a Aston Martin fechou um capítulo glorioso da engenharia automotiva britânica. Com pouco mais de 4.000 unidades produzidas ao longo de todas as gerações e variantes em 13 anos, o V12 Vantage garantiu seu lugar na história não apenas como um grande Aston Martin, mas como um dos últimos e maiores carros esportivos analógicos já criados.
Imagens do Aston Martin Vantage V12 Roadster