O Contexto de Desenvolvimento: Projeto DP2034
Para compreender o Virage original, é necessário revisitar o clima da Aston Martin em meados da década de
1980. Sob a liderança carismática de Victor Gauntlett, a empresa havia recuperado alguma estabilidade, mas
sua linha de produtos — baseada no V8 introduzido em 1969 — estava irremediavelmente envelhecida. As normas
de emissões, especialmente nos Estados Unidos, estavam estrangulando o desempenho dos motores carburados
antigos, e o design "muscular" dos anos 70 estava saindo de moda em favor de uma estética mais aerodinâmica
e suave.
A necessidade de um novo modelo era existencial. O projeto, designado internamente como DP2034, tinha um
mandato claro: criar um carro que fosse moderno o suficiente para levar a Aston Martin para o século XXI,
mas que mantivesse a construção tradicional de chassi separado e carroceria de alumínio moldada à mão,
preservando a identidade artesanal da marca.
O Concurso de Design
A escolha do design não foi trivial. A Aston Martin convidou cinco estúdios de design para submeter
propostas. Diferente da tradição de usar encarroçadores italianos como a Zagato ou a Touring, a proposta
vencedora veio de uma dupla britânica: John Heffernan e Ken Greenley. Eles eram professores de design
automotivo no Royal College of Art em Londres.
A proposta de Heffernan e Greenley venceu porque conseguiu equilibrar a modernidade com a herança. O design
apresentava superfícies limpas e fluidas ("flush surfacing"), eliminando as calhas de chuva e para-choques
cromados proeminentes dos modelos anteriores. No entanto, mantinha a "presença" física imponente que os
clientes da marca exigiam. O carro parecia ter sido esculpido a partir de um único bloco de alumínio sólido,
uma característica que se tornaria a assinatura visual do modelo.
A apresentação oficial ocorreu no Salão do Automóvel de Birmingham em 1988. A recepção foi entusiástica, com
a imprensa elogiando a modernização das linhas clássicas. Contudo, o lançamento comercial coincidiu com o
colapso do mercado de supercarros e a recessão global do início dos anos 90, o que significou que o Virage,
destinado a ser um sucesso de vendas, tornou-se um produto de volume extremamente baixo, dependente de
clientes ultra-ricos e leais.
Engenharia e Especificações Técnicas (1989-1995)
O Virage foi o primeiro Aston Martin verdadeiramente novo em quase 20 anos. Embora mantivesse a filosofia de
motor dianteiro e tração traseira, a execução técnica foi significativamente atualizada em relação ao seu
antecessor.
O Motor V8 de 32 Válvulas
O coração do Virage era uma evolução profunda do motor V8 de liga leve projetado pelo engenheiro polonês
Tadek Marek. No entanto, para atender às novas exigências de potência e emissões, a Aston Martin precisou de
ajuda externa.
- Desenvolvimento Callaway: A empresa contratou a Callaway Engineering, de Connecticut
(EUA), famosa por seus trabalhos em Corvettes turbo, para redesenhar os cabeçotes do motor. O objetivo
era implementar uma configuração de 4 válvulas por cilindro (32 válvulas no total) para melhorar a
"respiração" do motor e a eficiência de combustão.
- Gerenciamento de Combustível: Os carburadores Weber, temperamentais e difíceis de
ajustar para emissões, foram substituídos por um moderno sistema de injeção eletrônica de combustível
Weber-Marelli.
- Especificações Finais: O motor de 5.340 cc (5.3 Litros) produzia 330 bhp (cavalos) a
6.000 rpm e 350 lb-ft (475 Nm) de torque a 3.700 rpm.
- Catalisadores: Uma das maiores conquistas deste motor foi a capacidade de manter (e até
aumentar ligeiramente) a potência em relação aos modelos anteriores, mesmo com a introdução restritiva
de conversores catalíticos obrigatórios.
Transmissão e Drivetrain
A transferência dessa potência para as rodas traseiras foi gerida por duas opções principais de transmissão,
refletindo a dupla personalidade do carro como esportivo e grand tourer:
- Manual ZF de 5 Velocidades: Cerca de 40% dos Virages iniciais foram encomendados com
esta caixa. Era uma transmissão robusta, mas conhecida por ter um acionamento pesado, exigindo esforço
físico do motorista.
- Automática Chrysler TorqueFlite: A maioria dos compradores (60%) optou pelo conforto da
transmissão automática. Inicialmente, o Virage utilizava a caixa de 3 velocidades da Chrysler, uma
unidade antiga que, embora suave, limitava a aceleração e o consumo de combustível. Em 1993, esta foi
substituída por uma unidade de 4 velocidades mais moderna, com overdrive, melhorando significativamente
a capacidade de cruzeiro em alta velocidade.
Chassi e Suspensão
O chassi do Virage era uma plataforma de aço, sobre a qual a carroceria de alumínio era fixada. A suspensão
representava uma mistura de tradição e modernidade:
- Dianteira: Braços duplos (double wishbone) com molas helicoidais e barra
estabilizadora.
- Traseira: A Aston Martin manteve o complexo e custoso eixo De Dion, localizado por
braços radiais e um mecanismo de Watt (Watt's linkage). O eixo De Dion é uma solução técnica
interessante que permite que as rodas traseiras se mantenham verticais em relação ao solo (como num eixo
rígido) mas sem o peso não suspenso do diferencial (que é fixado ao chassi, como numa suspensão
independente). Isso proporcionava uma excelente tração e conforto em superfícies irregulares, ideal para
um GT pesado.
Componentes Compartilhados ("Parts Bin")
Para viabilizar a produção de um carro de tão baixo volume, a Aston Martin recorreu ao "canibalismo" de peças
de grandes fabricantes, uma prática comum na indústria de nicho britânica.
- Faróis Dianteiros: Provenientes do Audi 200.
- Lanternas Traseiras: Originais do Volkswagen Scirocco de segunda geração.
- Coluna de Direção e Controles: Emprestados da Ford e, em alguns casos, da General
Motors ou Jaguar. Apesar dessas origens humildes, o acabamento interno era inigualável, com couro
Connolly costurado à mão e madeira de nogueira (walnut) cobrindo o painel, escondendo efetivamente as
origens plebeias dos componentes elétricos.