A Base Mecânica e o Lançamento
A produção em série do Audi TT Coupé começou em 1998, seguida pelo Roadster em 1999.
Apesar de sua aparência exótica, o TT Mk1 foi construído sobre uma base pragmática e
comprovada: a plataforma PQ34 do Grupo Volkswagen. Esta mesma plataforma servia de base
para o Volkswagen Golf Mk4 e para a primeira geração do Audi A3.
A utilização desta plataforma ditou a configuração fundamental do carro: motor dianteiro
montado transversalmente. Isso diferenciava o TT dos sedãs maiores da Audi, que usavam
motores longitudinais. Para as versões de tração dianteira, a suspensão traseira era um
eixo de torção simples, enquanto as versões com tração integral quattro utilizavam uma
suspensão traseira multi-link mais sofisticada para acomodar o diferencial traseiro.
O sistema de tração integral quattro no TT também era distinto. Devido à montagem
transversal do motor, o TT não podia usar o diferencial central Torsen (mecânico)
tradicional da Audi. Em vez disso, adotou o sistema Haldex. Este sistema utiliza uma
embreagem multidisco hidráulica controlada eletronicamente. Em condições normais de
condução, o torque é enviado quase inteiramente para as rodas dianteiras. Se o sistema
detecta perda de aderência, a embreagem fecha em milissegundos, transferindo força para
o eixo traseiro. Embora puristas criticassem o sistema por ser "reativo", ele oferecia
segurança e tração excepcionais em climas adversos.
A Crise de Estabilidade e o Recall de Segurança
O início da vida do TT foi marcado por uma controvérsia significativa que quase
descarrilou o sucesso do modelo. Pouco após o lançamento, começaram a surgir relatos na
Alemanha de acidentes graves em rodovias (autobahns) em altíssimas velocidades,
frequentemente acima de 180 km/h. Alguns destes acidentes resultaram em fatalidades.
A investigação revelou que a forma aerodinâmica pura do carro, especificamente a
curvatura suave da traseira, funcionava de maneira semelhante a uma asa de avião,
gerando sustentação (lift) no eixo traseiro em altas velocidades. Isso tornava a
traseira do carro extremamente leve. Em situações de mudança brusca de faixa ou curvas
rápidas em declive, o carro exibia uma tendência repentina e difícil de controlar ao
sobrevirço (a traseira derrapava para fora da curva), pegando motoristas de surpresa.
A resposta da Audi foi um recall abrangente e dispendioso no final de 1999 e início de
2000. As medidas corretivas alteraram tanto a estética quanto a mecânica do carro:
- Instalação de um Spoiler Traseiro: Uma pequena asa fixa foi
adicionada à tampa do porta-malas para quebrar o fluxo de ar e reduzir a sustentação
aerodinâmica. Embora eficaz, a mudança gerou debate, pois alterava a pureza das
linhas originais do design.
- Suspensão Recalibrada: A Audi modificou os braços de controle
dianteiros, instalou barras estabilizadoras mais grossas e alterou a firmeza dos
amortecedores. O objetivo era aumentar a tendência natural do carro ao subvirço
(sair de frente), que é considerado mais seguro e previsível para o motorista comum.
- ESP (Programa Eletrônico de Estabilidade): O sistema de controle de
estabilidade, que antes era opcional ou indisponível dependendo do mercado,
tornou-se equipamento de série em todas as versões. O sistema pode frear rodas
individualmente para corrigir a trajetória do carro.
Estas mudanças resolveram os problemas de estabilidade e o TT continuou a ser um sucesso
de vendas, provando a resiliência da marca.
Especificações de Motores e Performance (Mk1)
A primeira geração do TT foi impulsionada principalmente pelo robusto motor 1.8 Turbo de
4 cilindros e 20 válvulas (5 válvulas por cilindro), uma maravilha da engenharia da
época que combinava bom torque em baixas rotações com potência em alta. Mais tarde, um
motor V6 foi adicionado à gama.
| Versão |
Motor |
Potência |
Torque |
Tração |
Transmissão |
Detalhes Técnicos |
| TT 180 |
1.8 T |
180 cv |
235 Nm |
Dianteira / Quattro |
Manual 5/6 marchas ou Auto |
Turbocompressor K03 menor. Modelo de volume. |
| TT 225 |
1.8 T |
225 cv |
280 Nm |
Quattro (Série) |
Manual 6 marchas |
Turbocompressor K04 maior, dois intercoolers (um de cada lado), internos
do
motor reforçados. |
| TT 3.2 |
3.2 VR6 |
250 cv |
320 Nm |
Quattro (Série) |
DSG 6 marchas |
Motor V6 de ângulo estreito (15 graus), som encorpado, resposta imediata
do
acelerador. |
| Quattro Sport |
1.8 T |
240 cv |
320 Nm |
Quattro (Série) |
Manual 6 marchas |
Edição especial limitada (detalhada abaixo). |
A Revolução DSG (2003): O Audi TT 3.2 VR6 tem um lugar especial na
história automotiva por ser um dos primeiros carros de produção em massa do mundo a ser
equipado com a transmissão de dupla embreagem Direct-Shift Gearbox (DSG). Diferente das
transmissões automáticas convencionais com conversor de torque, o DSG usava duas
embreagens banhadas a óleo: uma engatava as marchas ímpares e a outra as pares. Isso
permitia que a próxima marcha estivesse sempre pré-selecionada, resultando em trocas de
marcha feitas em milissegundos sem interrupção perceptível na entrega de força.
Edição Especial: TT Quattro Sport (2005)
Para celebrar o 25º aniversário do sistema quattro original e marcar o fim da produção do
Mk1, a divisão esportiva da Audi (quattro GmbH) lançou o TT Quattro Sport. Esta versão
era focada puramente na performance de condução:
- Redução de Peso: Os bancos traseiros foram removidos e substituídos
por uma barra de reforço estrutural. O estepe e o contrapeso traseiro (usado para
equilíbrio em modelos normais) também foram removidos. O ar-condicionado tornou-se
opcional. O resultado foi uma redução de cerca de 75 kg (ou 49 kg dependendo da
configuração).
- Estética: O teto era pintado em preto "Phantom Black", criando um
visual de dois tons. As rodas eram exclusivas de 15 raios e os bancos eram do tipo
concha da marca Recaro.
- Motor: O motor 1.8T foi recalibrado para 240 cv, tornando-se a
versão de quatro cilindros mais potente da geração Mk1.
Detalhes do Roadster Mk1
O TT Roadster Mk1 mantinha o design icônico com arcos de proteção (roll hoops) cromados
fixos atrás dos bancos. Um detalhe importante para proprietários e colecionadores diz
respeito ao mecanismo da capota. Nas primeiras versões e modelos manuais, a operação
exigia uma intervenção física significativa: o motorista precisava girar uma alavanca
central no topo do para-brisa para destravar o teto antes que ele pudesse ser recolhido
(eletricamente ou manualmente). O teto dobrava-se em forma de "Z" e não ficava escondido
sob uma tampa rígida, mas sim exposto, podendo ser coberto por uma capa de vinil
(tonneau cover) instalada manualmente para um visual mais limpo.