A primeira geração do Continental GT marcou o início de uma nova era, não só para a
Bentley, mas para todo o segmento de automóveis de luxo. Foi um carro que combinou, com
um sucesso sem precedentes, a força bruta com a elegância artesanal.
O Lançamento (2003): Uma Nova Era Começa
Apresentado ao mundo em 2003, o Continental GT foi uma escultura automóvel. Desenhado sob
a liderança de Dirk van Braeckel e Raul Pires, o seu design era simultaneamente moderno
e reverente à história da marca. As linhas musculadas, especialmente a "powerline" que
fluía dos faróis dianteiros duplos até aos ombros traseiros largos, eram uma clara
homenagem ao icónico R-Type Continental de 1952, estabelecendo uma continuidade visual
com o passado. A utilização da plataforma D1 do Grupo Volkswagen foi um pilar
fundamental que tornou o projeto viável em tempo recorde.
O coração desta nova máquina era o seu motor, uma peça central de engenharia que se
tornaria lendária: um 6.0 litros W12 biturbo. A sua configuração única, em essência dois
motores VR6 compactos partilhando um único virabrequim, permitiu que fosse
excecionalmente curto, melhorando a distribuição de peso, ao mesmo tempo que
proporcionava uma suavidade e um torque imensos. Na sua versão inicial, debitava uns
impressionantes 560 PS (552 bhp) de potência e 650 Nm de torque, disponíveis a partir de
rotações muito baixas. Estes números traduziam-se numa performance estonteante para um
carro de luxo com mais de 2.300 kg: uma aceleração de 0 a 100 km/h em apenas 4,8
segundos e uma velocidade máxima de 318 km/h. Para gerir esta potência, o GT estava
equipado com uma caixa automática ZF de 6 velocidades e, crucialmente, um sistema de
tração integral permanente com um diferencial central Torsen, garantindo que a
performance fosse utilizável e segura em todas as condições climatéricas.
O interior redefiniu as expectativas de luxo e personalização. Desde o lançamento, os
clientes podiam escolher entre uma vasta gama de opções, incluindo inicialmente seis
cores de carroçaria, oito cores de couro e cinco tipos de acabamentos em madeira. Cada
detalhe era meticulosamente trabalhado à mão em Crewe, desde as costuras do couro até ao
polimento dos folheados de madeira. Um detalhe que se tornou icónico foi o relógio
analógico no centro do painel, fabricado pela prestigiada marca suíça Breitling, um
símbolo da atenção ao detalhe e da parceria entre duas marcas de luxo.
A Expansão da Família: Versões e Edições Especiais
Mulliner Driving Specification (a partir de 2004)
Introduzido em 2004, este pacote opcional tornou-se rapidamente uma escolha quase
obrigatória para os clientes que desejavam um toque extra de desportividade e
personalização. Incluía rodas de 20 polegadas com um design de 7 raios, pedais de
alumínio perfurado e uma manete de velocidades com acabamento serrilhado em metal e
couro. No entanto, o seu elemento mais distintivo, que se tornaria uma assinatura da
marca, era o estofamento em couro com costura em padrão de diamante, aplicado nos
bancos, portas e painéis traseiros.
Continental GTC (2006): O Céu como Limite
A versão conversível, o GTC, foi apresentada em 2005 e chegou ao mercado em 2006. A sua
criação não estava nos planos originais da Bentley, mas a enorme procura por parte de
clientes que se apaixonaram pelo design do coupé levou a marca a desenvolver a variante
a céu aberto, demonstrando uma nova agilidade e capacidade de resposta ao mercado. A
capota de lona, fabricada pela especialista Karmann, era uma obra de arte de engenharia.
Composta por sete arcos estruturais e três camadas de material, garantia um isolamento
térmico e acústico excecional, tornando o GTC quase tão silencioso como o coupé quando
fechado. O peso adicional do reforço estrutural e do mecanismo da capota afetava
ligeiramente a performance: a aceleração de 0 a 100 km/h subia para 5,1 segundos, e a
velocidade máxima era de 314 km/h com a capota fechada e 305 km/h com ela aberta.
Continental GT Speed (2007): A Busca por Velocidade
Em 2007, a Bentley ressuscitou o lendário nome "Speed", inspirado nos seus modelos de
alta performance dos anos 20, para criar uma versão mais focada do Continental GT. O
motor W12 foi aprimorado para debitar 610 PS (602 bhp) e 750 Nm de torque. Com esta
potência extra, o GT Speed era capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em 4,5 segundos e
atingir uma velocidade máxima de 326 km/h, tornando-se o primeiro Bentley de produção a
ultrapassar a barreira das 200 mph. As melhorias iam além do motor: a suspensão foi
rebaixada e tornada mais firme, as barras estabilizadoras foram reforçadas e foram
instaladas rodas exclusivas de 20 polegadas com pneus Pirelli P-Zero de alta
performance. Visualmente, o Speed distinguia-se pela grelha frontal e pelas entradas de
ar inferiores com um acabamento em cromado escurecido, conferindo-lhe uma aparência mais
agressiva.
Continental Supersports (2009): O Atleta Radical
O Supersports, lançado em 2009, representou o auge da performance da primeira geração.
Foi concebido para ser o Bentley mais rápido e potente de sempre até àquela data, um
verdadeiro supercarro com o conforto de um GT. A potência do motor W12 foi elevada a um
novo patamar de 630 PS (621 bhp) e 800 Nm de torque, permitindo uma aceleração de 0 a
100 km/h em apenas 3,9 segundos e uma velocidade máxima de 329 km/h.
O foco na performance levou a uma medida drástica para um Bentley: a redução de peso. O
Supersports era 110 kg mais leve que o GT Speed, uma dieta conseguida através da remoção
dos bancos traseiros, que foram substituídos por uma elegante estrutura de arrumação
reforçada com fibra de carbono, e da instalação de bancos dianteiros de competição,
também em fibra de carbono, embora mantendo o aquecimento e o luxo esperado. O
Supersports foi também um pioneiro tecnológico, sendo o primeiro Bentley capaz de
funcionar com biocombustível E85. De série, vinha equipado com travões de
carbono-cerâmica, que na altura eram os maiores discos de travão instalados em qualquer
carro de produção, garantindo uma capacidade de travagem à altura da sua performance.
Continental GT Series 51 (2009): A Celebração do Design
Lançada no mesmo ano do Supersports, a Series 51 era uma edição especial que celebrava o
legado do design da Bentley, homenageando o ano de 1951, quando o primeiro estúdio de
estilo oficial da marca foi estabelecido. Esta versão não se focava na performance, mas
sim na personalização exclusiva. Oferecia combinações de cores e acabamentos interiores
de três tons, cuidadosamente selecionadas pela equipa de design e inspiradas em modelos
clássicos. Distinguia-se por emblemas "51" nos para-lamas dianteiros, rodas polidas de
14 raios e 20 polegadas, e acabamentos interiores únicos, como o folheado de madeira
Amboyna.
Números de Produção e o Impacto no Mercado
O sucesso do Continental GT foi estrondoso e imediato. As vendas totais da Bentley
dispararam de 1.017 unidades em 2003 para 6.576 em 2004, atingindo um pico de 10.014
unidades em 2007, um aumento de quase dez vezes em apenas quatro anos. Este modelo, por
si só, transformou a Bentley de um fabricante de nicho para um protagonista no mercado
de luxo global. As edições mais exclusivas, como o Supersports, tiveram uma produção
limitada, com 1.207 unidades do coupé e 583 do conversível, o que aumenta a sua raridade
e valor hoje em dia.
Com a primeira geração, a Bentley não lançou apenas um carro; criou um ecossistema de
produtos. O GT base estabeleceu o mercado. O GTC capturou um novo segmento de clientes
que valorizavam a experiência a céu aberto. O Speed apelou àqueles que desejavam mais
performance sem sacrificar o luxo quotidiano. O Supersports serviu como um "halo car",
um carro de imagem que reforçou as credenciais de performance de toda a gama, atraindo
os entusiastas mais radicais. Juntamente com as infinitas possibilidades de
personalização da Mulliner e as edições especiais como a Series 51, a Bentley criou uma
"escada de valor". Esta estratégia permitiu aos clientes gastar progressivamente mais
para obter mais performance, exclusividade ou personalização, maximizando a
rentabilidade e solidificando a imagem da marca como líder indiscutível em performance e
luxo.
| Modelo (Ano) |
Motor |
Potência (cv) |
Torque (Nm) |
Aceleração 0-100 km/h (s) |
Velocidade Máxima (km/h) |
| Continental GT (2003) |
6.0 W12 Biturbo |
560 |
650 |
4,8 |
318 |
| Continental GTC (2006) |
6.0 W12 Biturbo |
560 |
650 |
5,1 |
314 |
| Continental GT Speed (2007) |
6.0 W12 Biturbo |
610 |
750 |
4,5 |
326 |
| Continental Supersports (2009) |
6.0 W12 Biturbo |
630 |
800 |
3,9 |
329 |