I12
(2018 - 2020)
Ficha técnica, versões e história do Bmw i8 Roadster.
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Quando o BMW i8 chegou às ruas em 2014, não parecia apenas um carro novo; parecia uma visão materializada do futuro. Com um design que ainda hoje, anos após o fim da sua produção, consegue virar cabeças e parecer saído de um filme de ficção científica, o i8 foi muito mais do que um mero exercício de estilo. Representou um marco revolucionário para a BMW e para toda a indústria automotiva, uma ousada declaração de que a performance de um superdesportivo e a consciência ecológica não só podiam coexistir, como também podiam criar uma experiência de condução inteiramente nova e emocionante.
A proposta central do i8 era, na sua essência, um paradoxo fascinante: a fusão do desempenho de um carro desportivo de elite com a eficiência de um veículo compacto. Capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em impressionantes 4,4 segundos, um tempo que o colocava no território de desportivos de renome, o i8 conseguia, ao mesmo tempo, apresentar números de consumo de combustível e emissões que eram, até então, impensáveis para um veículo com tal performance. Esta dualidade não foi um acaso, mas sim o resultado de uma filosofia de engenharia e design que repensou o automóvel desde os seus alicerces.
Este relatório detalhado irá traçar a jornada completa do BMW i8, desde a sua génese como um audacioso carro-conceito que chocou o mundo em 2009, até ao seu último exemplar que saiu da linha de produção em 2020. Exploraremos a filosofia inovadora que deu origem à submarca "i", desvendaremos os segredos da sua construção revolucionária, analisaremos as especificações técnicas de cada versão e atualização, e apresentaremos os números exatos que definiram a sua história. Ao final, compreenderemos por que o BMW i8 não é apenas um carro do passado, mas um verdadeiro clássico do futuro, cujo legado continua a influenciar a forma como pensamos sobre a mobilidade e o prazer de conduzir.
A história do BMW i8 começa cinco anos antes do seu lançamento oficial, com uma estreia dramática no Salão Automóvel de Frankfurt de 2009. Naquele palco, a BMW não apresentou apenas mais um protótipo, mas sim uma declaração de intenções radical chamada BMW Vision EfficientDynamics. Este carro-conceito era uma vitrine tecnológica que sinalizava a direção futura da marca, um futuro onde a eficiência e a emoção ao volante não seriam mutuamente exclusivas. O seu objetivo era claro: provar que a mobilidade híbrida podia ser tão emocionante quanto a performance de um modelo da linha M da BMW.
O Vision EfficientDynamics era revolucionário em todos os aspetos. O seu sistema de propulsão era um híbrido plug-in que combinava um motor turbodiesel de três cilindros e 1,5 litros com dois motores elétricos, um posicionado em cada eixo. Juntos, estes três motores produziam uma potência combinada de 356 cavalos e um impressionante torque de 800 Nm (590 lb-ft), permitindo que o carro acelerasse de 0 a 100 km/h em apenas 4,8 segundos. No entanto, o mais notável era que esta performance era alcançada com um consumo de combustível de apenas 3,76 L/100km e emissões de CO2 de 99 g/km, números comparáveis aos de um carro urbano moderno.
O design do conceito era uma aula de aerodinâmica funcional. A BMW introduziu uma nova linguagem de design chamada "layered surfacing" (superfícies em camadas), onde painéis da carroçaria se sobrepunham para criar canais de ar. Esta abordagem, inspirada na Fórmula 1 e na aviação moderna, permitia que o ar fluísse não apenas ao redor do carro, mas também através dele, otimizando o arrefecimento dos componentes e a estabilidade. O resultado foi um coeficiente de arrasto (Cd) extraordinariamente baixo de apenas 0,22. O visual era complementado por portas que abriam para cima no estilo "asa de borboleta", um teto e painéis de porta feitos de policarbonato, e uma estética geral que parecia desfocar as fronteiras entre o interior e o exterior do veículo.
A escolha de um motor a diesel para o conceito refletia a estratégia da BMW na época, que promovia o diesel como uma tecnologia eficiente e de alto desempenho. Contudo, a transição para a versão de produção exigiu uma reavaliação pragmática. Um carro desportivo a diesel, especialmente para mercados cruciais como o norte-americano, representava um risco comercial significativo, onde a perceção do diesel estava associada a veículos utilitários e não a desportivos de luxo. A decisão de substituir o motor a diesel por um motor a gasolina de três cilindros — o primeiro a ser usado num modelo de produção da BMW — foi estratégica. Manteve-se a filosofia de um motor pequeno e eficiente, mas utilizando um combustível universalmente aceite para carros de alta performance. Esta mudança, embora feita anos antes do escândalo "Dieselgate", acabou por ser profética, protegendo o legado do i8 de qualquer associação negativa com a tecnologia diesel.
Mais do que apenas uma demonstração técnica, o Vision EfficientDynamics tinha um propósito emocional. No final dos anos 2000, os carros híbridos eram sinónimo de economia, mas raramente de prazer de condução. A BMW, cuja identidade de marca está intrinsecamente ligada ao "puro prazer de conduzir", precisava de combater essa narrativa. O conceito foi uma ferramenta de engenharia e marketing projetada para associar a futura tecnologia híbrida da marca à emoção e ao desempenho de um carro desportivo de elite. Ao criar um veículo tão visualmente impressionante e com números de performance tão convincentes, a BMW não estava apenas a antecipar um produto; estava a moldar a perceção pública do que um híbrido poderia ser, garantindo que a sua futura submarca "i" nascesse com uma aura de desejo e não apenas de responsabilidade ecológica.
O sucesso e o impacto do conceito Vision EfficientDynamics abriram caminho para o próximo passo estratégico da BMW: a criação de uma submarca inteiramente nova, dedicada à mobilidade sustentável. Em fevereiro de 2011, a BMW lançou oficialmente a submarca "BMW i". O nome "i" foi escolhido para representar valores como "inspiração, inteligência e inovação", sinalizando uma nova era de mobilidade premium, com um foco rigoroso na sustentabilidade em toda a cadeia de valor. O BMW i8, baseado diretamente no conceito Vision EfficientDynamics, foi anunciado como um dos dois modelos de lançamento, ao lado do urbano totalmente elétrico BMW i3.
No coração do i8 e de toda a filosofia da BMW i estava uma abordagem de construção completamente nova e radical: a arquitetura LifeDrive. Em vez de adaptar uma plataforma de carro a combustão, a BMW desenvolveu uma estrutura de duas partes, concebida de raiz para as exigências de um veículo eletrificado.
O Módulo "Life" constituía a célula de passageiros e era fabricado em Plástico Reforçado com Fibra de Carbono (CFRP). Este material de alta tecnologia, até então reservado a supercarros de produção limitada e carros de corrida, oferecia a rigidez do aço com metade do seu peso, e era cerca de 30% mais leve que o alumínio. O uso extensivo de CFRP foi uma decisão de engenharia fundamental. Um sistema híbrido plug-in adiciona um peso considerável a um veículo, devido à bateria, ao motor elétrico e à eletrónica de potência. Num carro desportivo, onde o peso é o inimigo da performance, esta era uma barreira significativa. O CFRP não foi, portanto, uma escolha estética ou de luxo, mas uma necessidade técnica para viabilizar o conceito do i8, permitindo que o peso extra do sistema híbrido fosse quase totalmente anulado.
O Módulo "Drive", por sua vez, era um chassis de alumínio que abrigava todo o sistema de propulsão: o motor a combustão, o motor elétrico, a bateria de alta voltagem, a suspensão e os componentes estruturais de segurança. A bateria foi posicionada no centro do veículo, num "túnel de energia" que percorria o comprimento do chassis. Esta disposição resultou numa distribuição de peso quase perfeita de 50/50 entre os eixos dianteiro e traseiro e proporcionou ao i8 o centro de gravidade mais baixo de qualquer veículo da BMW na época, um fator crucial para a sua agilidade e comportamento dinâmico.
Esta abordagem de "folha em branco" resolveu os compromissos inerentes aos primeiros veículos eletrificados, que muitas vezes eram adaptações de plataformas existentes. A arquitetura LifeDrive permitiu uma otimização completa do espaço, da dinâmica e da segurança, demonstrando que um carro eletrificado podia ser projetado de forma superior desde o início. Além disso, o compromisso com a sustentabilidade estendia-se à produção. A fábrica da BMW em Leipzig, na Alemanha, onde o i8 era montado, foi projetada para ser uma das mais ecológicas do mundo, sendo totalmente alimentada por energia gerada pelas suas próprias turbinas eólicas.
Após anos de desenvolvimento e expectativa, a versão de produção do BMW i8 foi finalmente revelada no Salão Automóvel de Frankfurt de 2013, mantendo-se incrivelmente fiel ao design futurista do conceito original. As primeiras entregas a clientes começaram na Europa em junho de 2014, seguidas pelos Estados Unidos em agosto do mesmo ano, marcando oficialmente a chegada de uma nova era para os carros desportivos.
O coração do i8 era o seu inovador sistema híbrido plug-in, que combinava o melhor de dois mundos. Na traseira, estava o motor a combustão, um BMW TwinPower Turbo de 1,5 litros com três cilindros (código B38K15T0), que produzia 231 cv de potência e 320 Nm de torque, transmitidos às rodas traseiras. Na dianteira, um motor elétrico síncrono gerava 131 cv e 250 Nm de torque instantâneo, movendo as rodas dianteiras.
Quando ambos os motores trabalhavam em conjunto, o i8 funcionava como um desportivo de tração integral, com uma potência combinada de 362 cv e um torque de 570 Nm. Esta configuração permitia-lhe acelerar de 0 a 100 km/h em apenas 4,4 segundos e atingir uma velocidade máxima limitada eletronicamente de 250 km/h.
O sistema era alimentado por uma bateria de iões de lítio com uma capacidade de 7,1 kWh (5,2 kWh úteis), que podia ser recarregada numa tomada doméstica. Esta bateria proporcionava uma autonomia puramente elétrica de até 37 km (no ciclo de testes europeu NEDC) ou 24 km (no ciclo mais rigoroso da EPA americana), com uma velocidade máxima no modo elétrico de 120 km/h. A autonomia total, combinando o motor a gasolina e a carga da bateria, era de aproximadamente 500 km.
O design exterior era dominado pelas icónicas portas "asa de gaivota" (dihedral doors) que abriam para cima e para a frente, um elemento de design que garantia uma entrada e saída teatrais. O interior, embora reconhecivelmente BMW, apresentava materiais sustentáveis, como couro curtido com extratos de folhas de oliveira. Em termos de tecnologia, o i8 estava equipado com um Head-Up Display, um sistema de som premium Harman Kardon e, de forma pioneira, foi o primeiro carro de produção em série do mundo a oferecer faróis com tecnologia a laser como opcional, que eram mais eficientes e potentes que os LEDs tradicionais.
Em 2018, quatro anos após o seu lançamento inicial, a BMW introduziu uma atualização de meio de ciclo, conhecida internamente como LCI (Life Cycle Impulse), para a gama i8. Esta atualização não só refinou o modelo existente, como também trouxe uma nova e emocionante variante de carroçaria: o i8 Roadster.
A principal melhoria da atualização LCI estava no coração do sistema elétrico. A BMW implementou uma nova geração de baterias com maior densidade energética. A capacidade bruta da bateria de iões de lítio foi significativamente aumentada, passando de 7,1 kWh para 11,6 kWh. Este aumento permitiu não só uma maior autonomia, mas também a extração de mais potência do motor elétrico, que foi aprimorado para produzir 143 cv, um ganho de 12 cv. Consequentemente, a potência total combinada do sistema subiu para 374 cv.
Estes aprimoramentos traduziram-se numa experiência de condução elétrica mais robusta. A autonomia puramente elétrica aumentou para cerca de 55 km para o Coupé e 53 km para o Roadster (no ciclo NEDC), tornando os trajetos diários sem emissões uma realidade mais prática.
A grande novidade da gama foi a introdução do BMW i8 Roadster. Apresentado no Salão Automóvel de Los Angeles em 2017 e lançado em maio de 2018, o Roadster transformou o i8 num desportivo de dois lugares a céu aberto. A sua capota de lona elétrica podia ser aberta ou fechada em apenas 15 segundos, a velocidades de até 50 km/h. A remoção do teto fixo e dos pequenos bancos traseiros do Coupé exigiu reforços estruturais no chassis de alumínio para manter a rigidez, o que resultou num aumento de peso de aproximadamente 60 kg em comparação com o Coupé LCI. Mesmo com este peso adicional, a performance do Roadster permaneceu impressionante, com uma aceleração de 0 a 100 km/h em 4,6 segundos, apenas dois décimos de segundo mais lento que o seu irmão Coupé.
| Métrica | BMW i8 Coupé (2014) | BMW i8 Coupé (2018) | BMW i8 Roadster (2018) |
|---|---|---|---|
| Potência do Motor Elétrico | 131 cv | 143 cv | 143 cv |
| Potência Combinada | 362 cv | 374 cv | 374 cv |
| Capacidade Bruta da Bateria | 7,1 kWh | 11,6 kWh | 11,6 kWh |
| Autonomia Elétrica (NEDC) | 37 km | 55 km | 53 km |
| Aceleração (0-100 km/h) | 4,4 s | 4,4 s | 4,6 s |
Para manter o fascínio em torno do seu carro-ícone e oferecer um grau extra de exclusividade aos seus clientes, a BMW lançou várias edições especiais do i8 ao longo do seu ciclo de vida. Estas edições, focadas principalmente em combinações de cores e acabamentos únicos, serviram para gerar atenção mediática e reforçar o estatuto do i8 como um objeto de desejo.
O grande final da produção do i8 foi, no entanto, ainda mais exclusivo. As últimas 18 unidades que saíram da fábrica de Leipzig foram verdadeiramente únicas. Cada um destes carros foi pintado numa cor que nunca antes tinha sido aplicada ao i8, muitas das quais eram tons icónicos da história da BMW. Este processo, que exigiu um trabalho quase artesanal na secção de pintura, foi uma homenagem final a um modelo que marcou uma era, transformando estes últimos exemplares em peças de coleção instantâneas.
Apesar de ser um carro de nicho com um preço elevado, o BMW i8 alcançou um sucesso comercial notável no seu segmento. Ao longo da sua produção, estabeleceu-se como o carro desportivo híbrido plug-in mais vendido do mundo, um testemunho do seu apelo único que combinava design futurista com tecnologia de ponta.
A produção do BMW i8 na fábrica de Leipzig, na Alemanha, decorreu de março de 2014 a junho de 2020. Durante este período de seis anos, foi alcançado um marco significativo de mais de 20.000 unidades vendidas. Os números oficiais e definitivos revelam a distribuição exata entre as duas variantes de carroçaria.
A produção total do BMW i8 foi de 20.465 unidades. Este número divide-se da seguinte forma:
Esta divisão torna o Roadster consideravelmente mais raro, dado que foi produzido por um período mais curto (de 2018 a 2020) e tinha um preço superior.
| Versão | Período de Produção | Total de Unidades Produzidas |
|---|---|---|
| BMW i8 Coupé | 2014 – 2020 | 16.581 |
| BMW i8 Roadster | 2018 – 2020 | 3.884 |
| Total Geral | 2014 – 2020 | 20.465 |
O encerramento da produção em junho de 2020 não foi um sinal de fracasso, but sim a conclusão de uma missão bem-sucedida. O i8 foi concebido como um pioneiro, uma vitrine tecnológica que serviu para desbravar o caminho da eletrificação para a BMW. Ele introduziu e validou tecnologias cruciais, desde a propulsão híbrida plug-in até à produção em massa de componentes em fibra de carbono. Com estas tecnologias já a serem disseminadas por toda a gama de modelos da BMW, a missão do i8 como "desbravador" estava completa.
A decisão de descontinuar o modelo também refletiu uma evolução na estratégia da própria BMW. O foco da marca estava a deslocar-se de híbridos de nicho para o desenvolvimento e lançamento de uma gama mais vasta de veículos totalmente elétricos (BEVs), como o i4, o iX e os futuros modelos da "Neue Klasse". Os recursos e o conhecimento adquiridos com o i8 foram redirecionados para estes novos projetos de maior volume. Além disso, a complexidade da sua construção, especialmente o uso intensivo de CFRP, tornava-o um carro caro de produzir, e a otimização de custos para plataformas elétricas de produção em massa tornou-se a prioridade.
O BMW i8 deixou uma marca indelével na indústria automotiva, e o seu legado vai muito além dos seus números de produção ou das suas especificações técnicas. Foi um carro que mudou perceções e quebrou paradigmas, provando que a sustentabilidade e a performance podiam, de facto, andar de mãos dadas de uma forma espetacular e desejável.
O seu impacto mais significativo foi, talvez, servir como uma poderosa prova de conceito. O i8 demonstrou ao mundo que um carro híbrido não precisava de ser monótono ou focado apenas na economia. Podia ser dramático, rápido e emocionante, redefinindo o que significava ser um carro desportivo no século XXI. O seu pioneirismo no uso de Plástico Reforçado com Fibra de Carbono (CFRP) em escala industrial foi outra contribuição fundamental. As lições aprendidas na produção do i8 e do i3 foram cruciais para o desenvolvimento de técnicas de construção leve, essenciais para compensar o peso das baterias nos futuros veículos elétricos.
Frequentemente, o i8 enfrentou críticas por não ser "rápido o suficiente" para o seu visual de supercarro, especialmente quando comparado com desportivos de motor a combustão de preço semelhante. No entanto, esta crítica falha em compreender a sua proposta fundamental. O i8 não foi projetado para ser o carro mais rápido em linha reta; foi concebido para ser um novo tipo de desportivo, um que privilegiava o equilíbrio tecnológico, a eficiência inteligente e uma experiência de condução única, em vez de apenas a potência bruta.
Hoje, o BMW i8 é universalmente reconhecido como um "clássico do futuro". A sua combinação de design intemporal, que se recusa a envelhecer, tecnologia pioneira que antecipou o futuro da indústria, e uma produção relativamente limitada, especialmente na versão Roadster, garantem o seu lugar na história do automobilismo. O i8 não foi apenas um capítulo na longa e rica história da BMW; foi o prólogo visionário para o futuro eletrificado que agora se está a tornar a nossa realidade.
Imagens do Bmw i8 Roadster