F07
(2010 - 2013)
Ficha técnica, versões e história do Bmw Série 5 Gran Turismo.
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O BMW Série 5 Gran Turismo, com o código interno F07, representa uma das apostas mais audaciosas e controversas da BMW no século XXI. Lançado em 2009, este não foi apenas uma nova variante de carroceria da consagrada Série 5, mas uma tentativa deliberada de criar um nicho de mercado inteiramente novo. A proposta da marca bávara era fundir, num único veículo, as características mais desejáveis de três mundos distintos: a elegância e o prestígio de um sedã de luxo, a versatilidade e a posição de dirigir elevada de um Sports Activity Vehicle (SAV), e o conforto para longas distâncias de um Gran Turismo clássico.
Inserido num período de grande experimentação formal sob a liderança de design de Adrian van Hooydonk, o F07 foi o primeiro modelo da sexta geração da Série 5 (codinome "F") a chegar ao mercado, antecedendo até mesmo o sedã (F10) e a perua (F11). A sua missão era clara: oferecer o luxo e o espaço de um Série 7 com a praticidade de um X5 e a silhueta elegante de um cupê. No entanto, desde a sua apresentação, o modelo gerou uma recepção polarizada. Enquanto a sua engenharia e funcionalidade eram amplamente elogiadas, o seu design se tornou o principal ponto de debate, dividindo a opinião de críticos e consumidores e definindo a sua trajetória no mercado. Este relatório detalha a história completa do BMW F07, desde a sua concepção engenhosa até o seu legado como um dos carros mais incompreendidos da marca.
Para compreender a essência do Série 5 Gran Turismo, é fundamental analisar os seus alicerces técnicos e conceituais, que revelam uma identidade muito mais complexa do que o seu nome sugere.
A origem do F07 remonta ao protótipo "BMW Concept 5 Series Gran Turismo", revelado com grande destaque no Salão do Automóvel de Genebra em 2009. A visão por trás do projeto, internamente denominada "Progressive Activity Sedan" (PAS), era criar um veículo para um cliente que buscava mais espaço, luxo e versatilidade do que um sedã tradicional poderia oferecer, mas que não se identificava com a imagem robusta de um SUV. O foco estava em criar um automóvel que se destacasse pelo conforto supremo em viagens longas, pela funcionalidade no uso diário e por um nível de acabamento e sofisticação comparável aos modelos de topo da BMW.
Apesar de ter sido batizado e comercializado como parte da família Série 5, o Gran Turismo foi, na sua essência, construído sobre a plataforma do irmão maior, o BMW Série 7 (F01). Esta decisão de engenharia é o ponto mais crucial para entender o caráter do F07.
O carro compartilha com o Série 7 de entre-eixos padrão a mesma distância entre eixos de 3.070 mm, bem como a largura de 1.901 mm e as bitolas. Esta base resultou em um espaço para as pernas no banco traseiro idêntico ao do Série 7 e um espaço para a cabeça comparável ao do SUV X5, cumprindo a promessa de um interior vasto e arejado.
Essa escolha, no entanto, gerou um paradoxo fundamental. O nome "Série 5" evoca a imagem de um sedã executivo com foco na dinâmica e na agilidade. Contudo, a engenharia do F07, herdada do Série 7, priorizava o conforto, o isolamento e a suavidade de rodagem, resultando em um veículo significativamente mais pesado e menos ágil que o Série 5 sedã (F10). Essa discrepância entre o nome e a alma do carro criou uma crise de identidade que confundiu o mercado. Os consumidores que esperavam a esportividade de um Série 5 encontraram o peso e o conforto de um Série 7, embalados em uma carroceria de hatchback. Essa confusão sobre o propósito do veículo foi um dos grandes desafios para a sua aceitação.
O design do F07, assinado por Christopher Weil, foi uma tentativa de harmonizar elementos de diferentes tipologias de veículos. A carroceria combinava uma silhueta alongada com uma linha de teto descendente, ao estilo cupê, e quatro portas sem moldura nos vidros — uma novidade para um modelo BMW de quatro portas na época. A dianteira era imponente, com a grade "duplo rim" proeminente e verticalizada, e foi o primeiro modelo da marca a usar anéis de LED ("corona rings") como luz de condução diurna.
A traseira, contudo, foi o ponto mais controverso. Com proporções altas e um volume considerável, foi frequentemente descrita pela crítica como desajeitada e visualmente pesada. Essa forma, no entanto, não foi um erro estético isolado, mas uma consequência direta da sua ambiciosa proposta funcional. Para alcançar o espaço interior prometido e acomodar o complexo mecanismo do porta-malas, a traseira precisava ter aquele volume. A BMW, neste caso, priorizou a função sobre a forma convencional, resultando em um design que, embora polarizador, era ditado pela engenharia.
Uma das características mais engenhosas e distintivas do F07 era a sua tampa do porta-malas, que possuía um mecanismo de abertura de duas vias, uma solução de engenharia complexa e altamente funcional.
Se o exterior era controverso, o interior era universalmente aclamado. A cabine do F07 era o seu maior trunfo, oferecendo um nível de espaço, luxo e conforto que superava em muito o Série 5 tradicional e rivalizava diretamente com o Série 7. O painel, em grande parte herdado do Série 7, e a qualidade dos materiais transmitiam uma sensação de pertencimento a um segmento superior.
A posição dos assentos era ligeiramente elevada ("semi-command"), proporcionando uma visibilidade superior à de um sedã sem a altura total de um SUV. O verdadeiro destaque, porém, estava no banco traseiro. Os assentos podiam deslizar longitudinalmente em até 100 mm e tinham encostos reclináveis, permitindo que os passageiros ajustassem o espaço para as pernas ou priorizassem a capacidade de bagagem. Como opcional, era possível configurar o banco traseiro com dois assentos individuais de luxo ("executive class seating"), separados por um console central, transformando o F07 em uma verdadeira limusine.
A capacidade de carga era igualmente impressionante: o porta-malas oferecia 440 litros na configuração padrão, que podiam ser expandidos para 590 litros com os bancos traseiros movidos para a frente, e atingia um máximo de 1.700 litros com os bancos rebatidos — um volume superior ao de muitas peruas.
| Característica | Medida / Valor | |
|---|---|---|
| Comprimento | 4.998 mm (LCI: 5.004 mm) | |
| Largura | 1.901 mm | |
| Altura | 1.559 mm | |
| Distância entre eixos | 3.070 mm | |
| Bitola Dianteira | 1.611 mm | |
| Bitola Traseira | 1.654 mm | |
| Peso (em ordem de marcha) | 1.940 kg - 2.215 kg | |
| Capacidade do Porta-Malas | 440 L (LCI: 500 L) | |
| Capacidade Máxima do Porta-Malas | 1.700 L |
A vida do BMW Série 5 Gran Turismo pode ser dividida em duas fases distintas: o modelo original, lançado em 2009, e a versão atualizada (LCI) que chegou em 2013, trazendo refinamentos estéticos e tecnológicos.
O F07 estreou no mercado europeu no final de 2009 com uma gama inicial de três motores potentes e modernos, todos acoplados de série à então nova transmissão automática de 8 velocidades da ZF, que se destacava pela suavidade e eficiência. As opções iniciais eram:
Em 2010, a gama foi expandida com a introdução do sistema de tração integral xDrive como opcional para a maioria das motorizações, aumentando a segurança e a versatilidade em diferentes condições climáticas. Nesse mesmo ano, foi adicionada a versão 535d, com uma versão mais potente do motor 3.0 diesel, alcançando 300 cv e 600 Nm de torque.
| Modelo | Anos | Motor | Tipo | Potência | Torque | Tração |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 535i GT | 2009–2013 | 3.0L I6 Turbo (N55) | Gasolina | 306 cv | 400 Nm | RWD / xDrive |
| 550i GT | 2009–2013 | 4.4L V8 Biturbo (N63) | Gasolina | 407 cv | 600 Nm | RWD / xDrive |
| 530d GT | 2009–2013 | 3.0L I6 Turbo (N57) | Diesel | 245 cv | 540 Nm | RWD / xDrive |
| 535d GT | 2010–2013 | 3.0L I6 Turbo (N57) | Diesel | 300 cv | 600 Nm | RWD / xDrive |
Nota: Os dados de potência e torque podem ter pequenas variações dependendo do ano e mercado. A tração xDrive foi adicionada em 2010.
Em meados de 2013, para o ano-modelo de 2014, a BMW aplicou um facelift, conhecido como LCI (Life Cycle Impulse), a toda a linha Série 5. O Gran Turismo recebeu atualizações importantes com o objetivo de refinar o seu estilo e modernizar a sua tecnologia.
As mudanças externas foram sutis, mas eficazes. A dianteira ganhou um para-choque com novas linhas e contornos. Os faróis de xênon passaram a ser de série, com a opção de faróis de LED adaptativos, e os indicadores de direção foram integrados aos espelhos retrovisores.
A alteração mais significativa, no entanto, ocorreu na traseira. A tampa do porta-malas foi redesenhada, tornando-se visualmente mais longa e baixa. Essa modificação visava suavizar a silhueta do carro, que era o seu ponto mais criticado, e conferir uma aparência mais elegante. Como um bônus funcional, essa mudança aumentou a capacidade do porta-malas em 60 litros, passando de 440 para 500 litros com os bancos em posição normal.
No interior, o sistema de infoentretenimento iDrive foi atualizado para a versão 4.2, que incluía um novo controlador giratório com uma superfície sensível ao toque (touchpad) para inserção de caracteres. Novas opções de acabamentos internos, cores externas e desenhos de rodas também foram disponibilizadas.
A gama de motores também foi atualizada. Para o mercado europeu, foi introduzida a versão 520d, equipada com um motor 2.0 de quatro cilindros a diesel com 184 cv, tornando-se a porta de entrada para o modelo. Os motores existentes receberam melhorias: o V8 do 550i passou a desenvolver 450 cv e 650 Nm, enquanto o 535d foi atualizado para 313 cv e 630 Nm.
| Modelo | Anos | Motor | Tipo | Potência | Torque | Tração |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 535i GT | 2013–2017 | 3.0L I6 Turbo (N55) | Gasolina | 306 cv | 400 Nm | RWD / xDrive |
| 550i GT | 2013–2017 | 4.4L V8 Biturbo (N63TU) | Gasolina | 450 cv | 650 Nm | RWD / xDrive |
| 520d GT | 2013–2017 | 2.0L I4 Turbo (N47) | Diesel | 184 cv | 380 Nm | RWD |
| 530d GT | 2013–2017 | 3.0L I6 Turbo (N57) | Diesel | 258 cv | 560 Nm | RWD / xDrive |
| 535d GT | 2013–2017 | 3.0L I6 Turbo (N57) | Diesel | 313 cv | 630 Nm | RWD / xDrive |
Nota: Os dados de potência e torque podem ter pequenas variações dependendo do ano e mercado.
O Série 5 Gran Turismo não era apenas um experimento de carroceria; era também uma vitrine tecnológica. Por ser posicionado entre o Série 5 e o Série 7, ele democratizou o acesso a muitas das tecnologias de ponta reservadas ao sedã de luxo da marca, tornando-se uma proposta de valor interessante para quem buscava o máximo de conforto e inovação.
O F07 podia ser equipado com praticamente todos os recursos mais avançados que a BMW oferecia na época, muitos deles herdados diretamente do Série 7. A lista de equipamentos de série e opcionais era vasta e incluía:
O pacote de tecnologias BMW ConnectedDrive oferecia um conjunto completo de sistemas de assistência ao motorista, como o controle de cruzeiro adaptativo com função Stop & Go (capaz de parar e arrancar o carro no trânsito), alerta de saída de faixa, monitoramento de ponto cego e um sistema de câmeras que fornecia uma visão de 360 graus ao redor do veículo (Top View e Side View), facilitando manobras em espaços apertados.
A experiência de condução do F07 era dominada pelo seu foco no conforto, uma consequência direta da sua plataforma de Série 7. A suspensão dianteira era do tipo double-wishbone e a traseira, Integral-V, ambas construídas em grande parte com alumínio para reduzir o peso não suspenso. Um elemento crucial era a suspensão traseira a ar com autonivelamento, que vinha de série em todas as versões. Este sistema garantia que a altura da traseira se mantivesse constante independentemente da carga, contribuindo para a estabilidade e o conforto em longas viagens.
De série, o F07 vinha com o Dynamic Drive Control, um seletor que permitia ao motorista escolher entre os modos de condução COMFORT, NORMAL, SPORT e SPORT+. Cada modo ajustava a resposta do acelerador, a velocidade das trocas de marcha da transmissão automática e o peso da direção assistida.
Para quem desejava uma dinâmica mais apurada, a BMW oferecia dois sistemas opcionais de ponta:
Apesar desses auxílios tecnológicos, o consenso da crítica era claro: o F07 não tinha a agilidade característica de um Série 5. O seu comportamento era o de um carro grande, pesado e imponente, que priorizava o conforto e a estabilidade em linha reta. Era um veículo para "flutuar" em autoestradas, absorvendo imperfeições com maestria, mas não para atacar estradas sinuosas com o mesmo entusiasmo de seus irmãos sedãs.
A trajetória comercial do Série 5 Gran Turismo foi tão complexa quanto o seu conceito, marcada por números de vendas modestos e uma recepção crítica que elogiava a função enquanto questionava a forma.
O F07 foi produzido exclusivamente na moderna fábrica da BMW em Dingolfing, na Alemanha, na mesma linha de montagem de onde saíam o Série 7 e, posteriormente, o Série 5 sedã.
Obter um número exato da produção total do F07 é um desafio, pois a BMW tradicionalmente não divulga dados de produção detalhados por variante de carroceria para seus modelos de grande volume. No entanto, os dados parciais disponíveis pintam um quadro de um modelo de nicho com vendas limitadas:
Embora a sexta geração do Série 5 como um todo tenha sido um enorme sucesso, com mais de 2 milhões de unidades vendidas, fontes da indústria consistentemente descrevem as vendas do F07 como "lentas" ao longo de todo o seu ciclo de vida.
A recepção do F07 foi um estudo de contrastes. A crítica especializada e o público em geral dividiram-se em dois campos claros:
As vendas lentas e a recepção estética negativa levaram a uma forte desvalorização no mercado de usados. Anos após o seu lançamento, essa alta depreciação transformou o F07 em uma "barganha de luxo". Compradores de carros seminovos descobriram que podiam ter o espaço, o conforto e a tecnologia de um Série 7 por um preço muito mais acessível. Isso criou um novo público para o carro: clientes pragmáticos que valorizavam a substância e a funcionalidade acima da estética, dispostos a ignorar o design controverso em troca de um custo-benefício excepcional. O mesmo fator que limitou o seu sucesso como carro novo — a sua aparência — tornou-se a chave para a sua atratividade no mercado de usados.
No mercado de seminovos, proprietários relatam alguns pontos de atenção, sendo os mais comuns problemas relacionados à complexa suspensão a ar traseira e um desgaste por vezes prematuro dos pneus, especialmente os do tipo run-flat, que são mais rígidos.
Apesar de sua carreira comercial modesta, o F07 deixou um legado importante e deu origem a um sucessor que tentou corrigir suas falhas e refinar seu conceito.
O Série 5 Gran Turismo provou que existia um público, ainda que de nicho, para um veículo de luxo que oferecesse mais versatilidade que um sedã tradicional, mas com uma dinâmica de condução e um refinamento superiores aos de um SUV. Foi um experimento ousado que, embora não tenha se tornado um sucesso de vendas, forneceu à BMW lições valiosas sobre a criação de novos segmentos, o posicionamento de produtos e, acima de tudo, a importância da harmonia estética.
Em 2017, com o fim da produção do F07, a BMW não abandonou o conceito. Em vez disso, lançou o seu sucessor com uma mudança estratégica fundamental: o carro foi rebatizado como BMW Série 6 Gran Turismo (G32).
Essa mudança de nome foi, na prática, uma admissão de que o posicionamento original dentro da família Série 5 havia sido um erro. Ao mover o modelo para a Série 6 — uma linha historicamente associada a cupês elegantes e modelos de maior exclusividade — a BMW buscou criar uma identidade própria para o conceito. O objetivo era distanciar o carro da imagem esportiva da Série 5 e associá-lo ao luxo e ao estilo, justificando um preço mais elevado e, crucialmente, deixando para trás a bagagem estética negativa do F07. Foi uma correção de curso estratégica para tentar salvar a ideia do "Gran Turismo".
O Série 6 GT (G32) foi uma evolução significativa em relação ao seu predecessor:
Apesar de todas as melhorias, o Série 6 Gran Turismo também não conseguiu cativar um público amplo. As vendas permaneceram modestas e, em 2023, a BMW descontinuou o modelo sem anunciar um sucessor direto, marcando o fim do experimento "Gran Turismo" de grande porte que começou com o F07.
O BMW Série 5 Gran Turismo (F07) será lembrado na história automotiva como um carro de profundas contradições. Por um lado, foi um triunfo da engenharia, um veículo que materializou uma visão de versatilidade e conforto de uma forma que nenhum outro concorrente conseguiu igualar na época. Ele oferecia uma combinação de espaço de limusine, praticidade de hatchback e luxo de primeira classe que era, em teoria, a solução para muitos dilemas do consumidor moderno.
No entanto, a sua ambição funcional teve um custo estético. O design, ditado pela necessidade de acomodar tanto espaço e funcionalidade, não ressoou com o público, provando a máxima da indústria de que a emoção da estética muitas vezes se sobrepõe à lógica da função. O F07 não foi um carro ruim; pelo contrário, para o seu propósito específico, era um carro excelente. O seu erro não foi de engenharia ou de qualidade, mas sim de comunicação, posicionamento e, para muitos, de aparência. Ele permanece como um capítulo fascinante e incompreendido na história da BMW — um carro que ousou ser radicalmente diferente e que, por sua audácia, se tornou um clássico cult para aqueles que valorizam a substância acima do estilo.
Imagens do Bmw Série 5 Gran Turismo