A drástica queda na produção do Chrysler 300C (e consequentemente da perua) não foi
motivada por falhas inerentes ao produto, mas pelo divórcio conturbado entre a Daimler e
a Chrysler em 2007, e pela devastação econômica global de 2008. A falência da Chrysler
nos Estados Unidos resultou em seu resgate pela Fiat, gerando a corporação Fiat Chrysler
Automobiles (FCA).
A direção italiana procedeu ao redesenho substancial da plataforma LX, criando a segunda
geração designada por arquitetura "LD" para o ano modelo de 2011 em diante. A geração LD
modernizou a grade frontal, adotou a nova e avançada família de motores a gasolina V6
Pentastar de 3,6 litros (em substituição ao criticados 2.7 e 3.5), introduziu um
interior repaginado muito superior em materiais, LEDs diurnos nos faróis e suspensão
refinada. O Hemi V8 teve sua cilindrada aumentada nas versões SRT para 6.4 litros (392
polegadas cúbicas), chegando a 485 cv na edição derradeira de despedida do sedã 300C em
2023.
No entanto, as notícias para os fãs de station wagons foram fatais. A diretoria concluiu
que a conversão dos painéis da nova carroceria LD para uma perua (e todas as aprovações
de segurança em crash-tests e aerodinâmica para LHD e RHD) representariam custos de
engenharia injustificáveis num mundo dominado por SUVs. Ademais, a base física da perua,
a Dodge Magnum, havia sido sumariamente cancelada e enterrada em 2008 devido ao baixo
volume. Consequentemente, a configuração Touring foi extinta para sempre, e as linhas
austríacas da Magna Steyr encerraram a produção do 300C em 2010.
O Capítulo Lancia Thema (2011-2014)
Para a Europa, a reestruturação da FCA determinou que a rede Chrysler e Lancia não
deveriam competir ou despender fundos redundantes. Assim, o novo Chrysler 300 de segunda
geração foi submetido a uma badge engineering profunda (substituição de marcas). Em
todos os mercados da Europa Continental, exceto no Reino Unido e Irlanda, o sedã
canadense fabricado em Brampton, Ontário, passou a ostentar a insígnia clássica italiana
e foi batizado como Lancia Thema.
A Lancia, uma marca renomada por esportividade e sofisticação tátil nos anos 80 e 90
(incluindo o notório Thema original Type 834 fabricado entre 1984 e 1994, que inclusive
possuía uma aclamada perua assinada pelo estúdio Pininfarina), tentou injetar requinte
transcontinental no robusto bloco americano. O exterior recebeu sutis polimentos
italianos na grade frontal e no interior luxuoso de madeira porosa (oferecido em versões
Gold e Platinum). Mecanicamente, o Thema abandonou o antigo 3.0 V6 CRD alemão e abraçou
o novíssimo V6 3.0 turbodiesel desenvolvido localmente na Itália pela VM Motori (em
variantes de 190 cv e 239 cv), além de um poderoso V6 3.6 a gasolina de 286 cv atrelado
à excelente caixa automática ZF de 8 velocidades.
No entanto, ao reviver a mística da saudosa carrinha/perua Thema da Pininfarina e
confrontada com o fato de que a plataforma do 300 atual (LD) havia abolido a variante
station wagon, a operação do Thema não encontrou ressonância. Os clientes de carros
executivos europeus consideraram a identidade fraturada entre raízes de Detroit, o
desaparecimento do porta-malas em L da antiga perua austríaca e um escudo Lancia no capô
por demais artificial. A meta modesta de comercializar entre 10.000 a 15.000 unidades
anuais jamais se materializou, provocando a retirada silenciosa do Thema das vitrines
europeias em 2014. O modelo americano, como sedã puro de tração traseira, lutou nos
bastidores da frota local até o desligamento definitivo e comemorativo de toda a linha
300 no final do ano civil de 2023.