1ª Geração
(1993-1998)
Ficha técnica, versões e história do Chrysler Vision.
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(1993-1998)
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A transição da década de 1980 para a década de 1990 representou um período de profunda reestruturação para a indústria automotiva norte-americana, e em particular para a Chrysler Corporation. Após evitar a falência no início dos anos oitenta graças ao sucesso comercial da plataforma K (uma arquitetura focada em veículos compactos, econômicos e de tração dianteira), a empresa encontrou-se, no final da década, dependente de tecnologias envelhecidas e designs retilíneos que perdiam rapidamente o apelo. O mercado global de sedans de luxo e de grande porte estava sendo agressivamente redefinido por fabricantes europeus e japoneses, que introduziam veículos com aerodinâmica avançada, amplo espaço interno e dinâmicas de condução superiores.
Foi diante desta necessidade urgente de um salto geracional que a Chrysler iniciou o desenvolvimento da plataforma LH, uma arquitetura que mudaria o rumo da empresa. O modelo que foi concebido para ser a vitrine tecnológica e estética desta nova plataforma foi um sedan esportivo de grande porte que assumiu duas identidades estratégicas. No mercado norte-americano, ele foi batizado como Eagle Vision, integrando uma marca recém-criada para atrair consumidores mais jovens e entusiastas da dinâmica europeia. No mercado internacional, que incluía a Europa e o Brasil, o veículo foi comercializado com o emblema principal da corporação, adotando o nome Chrysler Vision.
Este relatório técnico oferece uma análise exaustiva da história, do processo de desenvolvimento, da engenharia mecânica, das especificações técnicas, das versões de acabamento e dos números de produção do Chrysler Vision. Importante ressaltar, em atendimento à necessidade de esclarecer as gerações do modelo, que o Vision foi produzido em apenas uma única geração, compreendida entre os anos-modelo de 1993 e 1997. Todas as evoluções e versões detalhadas neste documento referem-se às atualizações anuais aplicadas a esta única e revolucionária geração.
A concepção do Chrysler Vision não ocorreu em um vácuo isolado de engenharia; ela foi o resultado direto de uma série de aquisições corporativas estratégicas e de uma mudança radical na filosofia de design da empresa durante a gestão de Lee Iacocca. O desenvolvimento do veículo uniu três pilares fundamentais: a visão estética avançada da Chrysler, a influência exótica da Lamborghini e a pragmática engenharia de chassi herdada da American Motors Corporation (AMC) e da Renault.
As sementes do design do Vision foram plantadas no ano de 1985, dentro das instalações do Estúdio de Conceitos Avançados da Chrysler. O designer-chefe Kevin Verduyn recebeu a diretriz para idealizar um conceito de "grã-turismo exótico para quatro passageiros". Rompendo com as metodologias tradicionais de design da época, que focavam primeiramente nas proporções exteriores do motor e do porta-malas, a equipe de Verduyn adotou uma abordagem projetual de dentro para fora. O objetivo principal era maximizar o volume do habitáculo e o conforto dos passageiros.
Este método de priorização do espaço humano resultou no desenvolvimento do conceito "cab-forward" (cabine avançada), uma arquitetura visual caracterizada por um para-brisa longo e de inclinação acentuada, e por balanços (a distância entre o centro da roda e a extremidade do para-choque) dianteiros e traseiros extremamente curtos. As rodas foram empurradas para as extremidades extremas do chassi. O primeiro modelo físico em tamanho real utilizando esta linguagem, esculpido em fibra de vidro no ano de 1986, recebeu o codinome de desenvolvimento "Navajo".
Em 1987, a Chrysler Corporation realizou uma manobra ousada ao adquirir a fabricante italiana de supercarros Lamborghini. A diretoria da Chrysler, buscando capitalizar o prestígio da marca recém-adquirida e demonstrar ao mundo a sinergia entre o design americano e a engenharia europeia, instruiu Kevin Verduyn a retrabalhar as linhas do conceito Navajo. O objetivo era transformá-lo em um carro-conceito que ostentasse o emblema do touro dourado.
Utilizando diversos componentes mecânicos e de chassi do Lamborghini Jalpa, o conceito foi dramaticamente modificado e rebatizado como Lamborghini Portofino. O veículo foi revelado ao público e à imprensa especializada no Salão do Automóvel de Frankfurt de 1987. Apresentando portas de abertura antagônica (portas suicidas) e uma evolução fluida da linguagem de cabine avançada, o Portofino foi recebido com aclamação crítica quase universal. O sucesso estrondoso deste conceito de exibição convenceu definitivamente os executivos de alto escalão da Chrysler de que a revolucionária estética "cab-forward" deveria ser a base inegociável para a próxima geração de sedans de produção em massa da companhia, pavimentando o caminho estético do Chrysler Vision.
Enquanto a direção estética estava definida pelo sucesso do Portofino, a Chrysler enfrentava o complexo desafio de desenvolver uma arquitetura mecânica e um chassi capazes de suportar esse novo design. A solução emergiu através de outra monumental movimentação corporativa: a compra da American Motors Corporation (AMC) em 1987. O interesse primordial da Chrysler nesta aquisição era a lucrativa marca Jeep e suas cobiçadas instalações de montagem. No entanto, a incorporação da AMC trouxe benefícios colaterais inestimáveis para a engenharia de automóveis de passeio da Chrysler.
Junto com a AMC, a Chrysler absorveu um quadro de engenheiros altamente capacitados e inovadores, liderados por François Castaing. Castaing, um ex-engenheiro da Renault e da própria AMC, foi rapidamente promovido ao cargo de Vice-Presidente de Engenharia de Veículos da Chrysler. Ele implementou um sistema revolucionário de equipes de plataforma multifuncionais, quebrando os silos tradicionais de desenvolvimento.
Para projetar os novos sedans da plataforma LH, Castaing e sua equipe não partiram do zero. Eles utilizaram o Eagle Premier como ponto de partida fundamental. O Premier era um sedan de grande porte que havia sido desenvolvido pela AMC em forte cooperação com a Renault (sendo amplamente baseado no Renault 25 francês). O Premier possuía um layout mecânico incomum e altamente benéfico: um motor montado longitudinalmente, mas tracionando as rodas dianteiras.
A equipe da Chrysler herdou esta configuração longitudinal, bem como a geometria avançada da suspensão dianteira e o layout do sistema de freios do Premier. Esta fusão brilhante — o arrebatador design "cab-forward" inspirado no Lamborghini Portofino assentado sobre a base de engenharia pragmática e de inspiração europeia do eixo AMC/Renault — deu origem à plataforma LH. O Vision, sendo o descendente mais direto do Premier, tornou-se o único modelo da marca Eagle a ser inteiramente projetado e construído internamente pela Chrysler, servindo como a representação mais pura dessa síntese tecnológica.
Para entender por que o veículo foi chamado de Eagle Vision na América do Norte e Chrysler Vision no resto do mundo, é necessário analisar as complexidades contratuais e de rede de concessionárias da época.
Quando a Chrysler adquiriu a AMC, o contrato com a Renault (a antiga parceira francesa da AMC) estipulava que a Chrysler deveria continuar a produzir e comercializar modelos de automóveis de passeio desenvolvidos em conjunto, além de absorver a rede de revendedores da AMC. Além disso, leis estaduais de franquias nos Estados Unidos proibiam a Chrysler de simplesmente transferir a cobiçada linha de SUVs da Jeep para as suas concessionárias já existentes da Chrysler-Plymouth ou da Dodge. Da mesma forma, os antigos revendedores da AMC não podiam vender produtos tradicionais da Chrysler.
A solução corporativa foi a criação da divisão Jeep-Eagle. A marca Eagle foi estabelecida em 1988 para abrigar os veículos de passeio derivados da AMC/Renault e, posteriormente, veículos cativos importados da Mitsubishi, criando um portfólio voltado para combater a recém-criada marca Saturn da General Motors e atrair compradores de carros importados. O emblema da marca era uma estilização da cabeça de uma águia. O Eagle Vision foi posicionado como o ápice desta marca, uma tentativa genuína de construir um sedan esportivo de estilo europeu em solo americano.
Contudo, a marca Eagle não possuía nenhum reconhecimento, herança ou infraestrutura de vendas fora da América do Norte. Para os mercados de exportação, a introdução de uma marca desconhecida seria um erro estratégico crasso. Consequentemente, a corporação optou por comercializar o sedan utilizando a força de sua marca global primária. Na Europa, no Oriente Médio, na Ásia e na América do Sul, o carro foi rebatizado e vendido como Chrysler Vision. Todos os emblemas da cabeça de águia foram removidos, substituídos pela tradicional estrela de cinco pontas da Chrysler (o Pentastar) ou pelo logotipo das asas da Chrysler, aplicados na grade frontal, na tampa do porta-malas, no volante e no centro das rodas.
A implementação da arquitetura "cab-forward" no Chrysler Vision não foi um mero exercício de estilo, mas uma reformulação completa da dinâmica espacial do automóvel.
A cabine avançada permitiu que os engenheiros expandissem o espaço útil do habitáculo, deslocando o compartimento do motor para a frente e reduzindo os espaços mortos nas extremidades do veículo. A consequência mais notável desta decisão foi a oferta de um espaço para as pernas dos ocupantes que rivalizava com limusines convencionais, sem a necessidade de alongar excessivamente o entre-eixos do carro.
Esteticamente, o Chrysler Vision apresentava o perfil mais esportivo e agressivo entre todos os sedans da plataforma LH (uma família que incluía o Chrysler Concorde, o Dodge Intrepid, o Chrysler LHS e o Chrysler New Yorker). A dianteira do Vision era caracterizada por faróis afilados e uma grade frontal dividida e esguia, que muitos jornalistas automotivos compararam a "narinas", conferindo ao veículo uma postura visual predatória. Esta silhueta em forma de cunha, combinada com um teto de curvatura suave e vidros nivelados à carroceria, resultou em um coeficiente de arrasto aerodinâmico (Cd) excepcionalmente baixo de 0,31. Para fins de comparação de engenharia, este coeficiente era idêntico ao de muitos carros esportivos de alto desempenho da época, como as gerações contemporâneas do Porsche 911, o que garantia ao Vision níveis mínimos de ruído de vento na cabine e uma excelente eficiência em consumo de combustível em velocidades de cruzeiro.
Do ponto de vista mecânico, a herança do Eagle Premier provou ser a maior vantagem técnica da plataforma LH. A maioria dos veículos de tração dianteira de grande volume utilizava (e ainda utiliza) motores montados transversalmente. Esta configuração transversal frequentemente obriga a utilização de semi-eixos de transmissão de comprimentos desiguais para conectar o diferencial às rodas dianteiras. Sob forte aceleração, essa assimetria causa o fenômeno conhecido como esterçamento por torque (torque steer), onde a força mecânica faz com que o volante puxe violentamente para um dos lados, prejudicando o controle direcional do motorista.
O Chrysler Vision, ao adotar a montagem longitudinal do motor (posicionado de frente para trás no cofre do motor) em conjunto com a tração dianteira, permitiu o uso de semi-eixos de comprimento exatamente igual. Esta engenharia anulou o esterçamento por torque, proporcionando ao Vision uma aceleração linear, uma direção eletricamente estável e uma dinâmica de condução neutra e previsível, características fundamentais para um carro que se propunha a competir com refinados sedans europeus. Adicionalmente, este layout longitudinal foi projetado com uma visão de futuro; a arquitetura facilitava enormemente uma eventual conversão para tração traseira, um potencial que os engenheiros da Chrysler exploraram extensivamente e que serviria de alicerce estrutural para a posterior plataforma LX nos anos 2000.
As dimensões físicas do Chrysler Vision atestavam seu enquadramento na categoria de sedans de luxo de grande porte (Full-size luxury car). O veículo possuía uma distância entre eixos generosa que variava entre 2.870 mm e 2.873 mm (113,0 polegadas), o que assegurava uma estabilidade direcional imperturbável em rodovias.
| Especificação Dimensional | Medida |
|---|---|
| Comprimento Total | 5.121 mm (201,6 polegadas) |
| Largura Total | 1.890 mm (74,4 polegadas) |
| Altura (Modelos 1993-1994) | 1.417 mm (55,8 polegadas) |
| Altura (Modelos 1995-1997) | 1.430 mm a 1.434 mm (56,3 polegadas) |
| Bitola Dianteira e Traseira | 1.574 mm |
| Peso em Ordem de Marcha | 1.529 kg a 1.680 kg (dependendo do pacote e mercado) |
| Capacidade do Porta-Malas | Aproximadamente 473 a 509 litros |
| Capacidade do Tanque de Combustível | 68 litros |
Fontes consolidadas a partir de dados técnicos e catálogos.
O peso relativamente contido (entre 1.529 kg e 1.680 kg, dependendo da motorização e dos equipamentos) evidenciava um trabalho avançado de otimização estrutural.
A conexão do veículo com o solo era gerida por um sistema de suspensão totalmente independente nas quatro rodas, utilizando braços sobrepostos e molas helicoidais. Enfatizando sua natureza orientada para o motorista entusiasta, o Vision era o único sedan da família da plataforma LH a sair de fábrica com a suspensão calibrada para o padrão "Touring" (Turismo) como equipamento de série em todas as suas configurações básicas. Para os compradores que demandavam um comportamento dinâmico ainda mais afiado e menor rolagem de carroceria em curvas acentuadas, a Chrysler disponibilizava uma suspensão esportiva ainda mais rígida, denominada "Performance", oferecida como opcional ou como parte de pacotes dinâmicos nas versões superiores.
O sistema de frenagem contava com freios a disco, sendo os dianteiros e traseiros ventilados nas versões mais completas, suportados por um sistema antibloqueio (ABS) como equipamento de série. Um sistema de controle de tração estava disponível na lista de equipamentos opcionais para mitigar a patinação das rodas motrizes em superfícies de baixo atrito.
O coração do Chrysler Vision repousava em sua oferta de motores V6, que foram projetados para cobrir um espectro que ia desde o consumidor que buscava a estética inovadora até o motorista focado puramente em alta performance.
A configuração mecânica de entrada do Vision era equipada com o motor V6 de 3.3 litros (3.301 cc) pertencente à família EGA da Chrysler. Este propulsor utilizava uma arquitetura mecânica mais tradicional, caracterizada por um bloco de ferro fundido com comando de válvulas posicionado no bloco (arquitetura OHV, ou pushrod) e operação através de duas válvulas por cilindro.
Apesar de sua concepção conservadora, era um motor altamente confiável. Em seu ano de estreia (modelo 1993), este V6 fornecia uma potência de 153 cavalos (bhp) (114 kW) e um torque de 177 lb-ft (240 N⋅m). Graças ao contínuo refinamento de engenharia, os modelos produzidos em 1994 e 1995 receberam ajustes no fluxo de admissão que elevaram o rendimento para 162 bhp (121 kW) e o torque para 194 lb-ft (263 N⋅m). Para os anos de 1996 e 1997, em resposta às exigências de conformidade com o novo padrão de diagnóstico de emissões OBD-II, o motor sofreu um sutil remapeamento. A potência máxima sofreu uma levíssima queda para 158 bhp (118 kW), mas os engenheiros priorizaram a entrega de força em baixas rotações, aumentando o pico de torque para robustos 203 lb-ft (275 N⋅m).
A motorização de destaque, que equipava a versão topo de linha na América do Norte e praticamente todas as unidades destinadas à exportação internacional (incluindo o Brasil), era o avançado motor V6 de 3.5 litros (3.518 cc) da família EGE.
Este propulsor representava o estado da arte da engenharia da Chrysler no período. Ele mantinha a base de um bloco em ferro fundido para garantir durabilidade e controle de ruído, mas empregava cabeçotes de alto fluxo fabricados em liga de alumínio. A grande revolução respiratória deste motor residia no seu sistema de distribuição: ele contava com um comando de válvulas simples no cabeçote (SOHC) gerenciando quatro válvulas por cilindro, totalizando 24 válvulas.
O sistema de injeção era multiponto e sequencial. O funcionamento conjunto de um coletor de admissão especialmente sintonizado permitia que este motor respirasse livremente em altas rotações, ao mesmo tempo em que entregava força abundante desde a marcha lenta. A potência atingia notáveis 214 cavalos (bhp) (160 kW) a 5.800 rpm — valor também aferido como 211 cv a 215 ps dependendo da norma regional de homologação. O pico de torque de 221 lb-ft (300 N⋅m, ou 30,8 kgfm) era atingido de forma linear, disponível predominantemente na faixa de 2.800 a 3.350 rpm.
A relação peso/potência resultante de cerca de 10,41 kg/kW transformava o Vision em um veículo de reacelerações vigorosas. O sedan era capaz de sair da imobilidade e atingir a marca de 100 km/h (62 mph) em aproximadamente 9,5 segundos, alcançando uma velocidade final superior a 210 km/h (cerca de 133 mph).
Independentemente do propulsor escolhido, a responsabilidade de transferir a força mecânica para as rodas dianteiras ficava a cargo da transmissão automática transaxle de quatro velocidades, codificada como 42LE. Esta caixa de câmbio foi concebida utilizando a arquitetura fundamental da transmissão eletrônica A604 "Ultradrive" da própria Chrysler, mas foi extensivamente modificada, reforçada e redimensionada para operar na disposição longitudinal da plataforma LH, inspirando-se também nos parâmetros de confiabilidade das transmissões automáticas fornecidas pela ZF e Audi para o antigo Eagle Premier.
O marco tecnológico absoluto relacionado à transmissão do Vision ocorreu no ano modelo de 1996. A engenharia da Chrysler introduziu um sistema revolucionário de controle de marchas batizado de AutoStick. O sistema foi conceituado e inventado pelo engenheiro Peter Gruich, funcionando como uma resposta americana direta à transmissão Tiptronic recém-apresentada pela alemã Porsche.
O AutoStick fundia a conveniência de um câmbio totalmente automático com a capacidade de intervenção manual e retenção de marchas típicas de uma transmissão manual convencional. A alavanca seletora, montada no console central inferior, exibia a progressão padrão de engrenagens: P (Park - Estacionamento), R (Reverse - Marcha à Ré), N (Neutral - Ponto Morto) e D (Drive - Condução Automática). A genialidade do mecanismo residia na base do trilho de seleção. Ao posicionar a alavanca no final do curso e empurrá-la lateralmente, o motorista entrava no modo manual-sequencial. A partir deste ponto, um leve toque direcional na alavanca instruía o módulo eletrônico a subir uma marcha ou efetuar a redução para a marcha imediatamente inferior, com trocas quase instantâneas. O Vision TSi de 1996 foi historicamente o primeiro automóvel destinado ao mercado de consumo de massa a disponibilizar uma transmissão com controle sequencial manual/automático como equipamento de fábrica, pavimentando o caminho para o que se tornaria um padrão na indústria global nas décadas seguintes.
No mercado norte-americano, o veículo foi subdividido em duas nomenclaturas de acabamento que determinavam seu pacote tecnológico e mecânico: ESi e TSi. É crucial notar que o Vision foi posicionado estritamente como um sedan de comportamento esportivo. Como evidência dessa diretriz, ao contrário de seu irmão de plataforma, o Chrysler Concorde, o Vision jamais foi oferecido com a opção de um banco dianteiro inteiriço com alavanca de marchas na coluna de direção; todas as unidades produzidas eram dotadas de assentos individuais anatômicos (bucket seats) divididos por um console central integrando a alavanca de transmissão no assoalho. Além disso, os apliques de acabamento interno em imitação de madeira, populares em veículos de luxo conservadores da época, foram terminantemente vetados no Vision para preservar sua aura de máquina focada no motorista e no dinamismo.
O nível de acabamento ESi atuava como o degrau de entrada para a linha Vision, tendo sido precificado em aproximadamente US$ 19.545 no ano de 1996. Esta versão era invariavelmente impulsionada pelo motor V6 de 3.3 litros EGA. Longe de ser um modelo básico, o ESi oferecia um nível de conforto que incluía ar-condicionado de alta capacidade, acionamento elétrico de vidros e travas de portas, direção hidráulica, sistema de freios antibloqueio (ABS) e a suspensão independente com calibração "Touring" de série, um pacote que priorizava uma viagem excepcionalmente suave em rodovias.
O acabamento TSi representava o estado da arte do modelo, exigindo um investimento inicial de cerca de US$ 23.835 em 1996. A distinção primária do TSi era a adoção exclusiva do potente motor V6 de 3.5 litros e 24 válvulas. Esta versão transformava o sedan em um devorador de rodovias, dotado de um catálogo de equipamentos voltado para a ostentação e sofisticação:
A decisão corporativa de suprimir a marca Eagle em mercados fora da América do Norte ditou que as unidades destinadas à exportação recebessem emblemas da Chrysler. No entanto, o rebatismo do veículo exigiu mais do que apenas a troca de adesivos e logotipos. A exportação para a Europa exigiu adequações estritas a normativas de segurança veicular e de sinalização visual inerentes àquele continente.
A alteração mais óbvia foi implementada nos grupos ópticos. A legislação dos Estados Unidos permite historicamente que as lâmpadas de sinalização de direção traseira pisquem na cor vermelha, freqüentemente utilizando a mesma área iluminada da luz de freio. Em contraste, as rigorosas regulamentações europeias mandam o uso impositivo de luzes de indicação de conversão na cor âmbar (amarelo-alaranjado), garantindo um contraste visual imediato contra as luzes vermelhas de freio e posição. O Chrysler Vision recebeu conjuntos de lanternas traseiras reprojetados que abrigavam seções centrais exclusivas na cor âmbar para as setas.
Além da traseira, repetidores de setas laterais (pequenas lentes âmbar) foram perfurados e adicionados aos para-lamas dianteiros para alertar motoristas no ponto cego durante trocas de faixa. O projeto interno dos faróis dianteiros foi alterado em seu defletor de luz e no tipo de lâmpada utilizada, de forma a emitir um feixe de luz assimétrico adequado aos padrões das autoestradas europeias, evitando o ofuscamento dos condutores no sentido oposto. Adicionalmente, as luzes de demarcação lateral fixas (side markers retrorefletivos) presentes nos para-choques dos modelos americanos foram removidas nas unidades de exportação para limpar a estética da carroceria.
No que tange à motorização, os mercados internacionais foram privilegiados. Quase a totalidade dos veículos enviados para exportação sob o nome Chrysler Vision saiu de fábrica equipada com a combinação mecânica mais potente disponível: o motor EGE V6 de 3.5 litros de 24 válvulas e os acabamentos correspondentes à linha TSi americana.
A história do Chrysler Vision cruza-se com um dos momentos mais marcantes da economia automotiva brasileira: o período de reabertura do mercado nacional para veículos importados no início da década de 1990, instituído durante a administração do presidente Fernando Collor. A abertura das fronteiras encerrou anos de protecionismo que isolaram as ruas brasileiras da evolução tecnológica global. Foi sob essa onda de liberação alfandegária que a Chrysler Corporation retomou as suas operações oficiais de importação no Brasil, desembarcando uma frota que representava o supra-sumo tecnológico americano da época, tendo o Chrysler Vision como um de seus carros-chefes.
No Brasil, o Chrysler Vision não foi tratado como um simples carro de transporte, mas posicionado de imediato no escalão superior de "Sedã de Porte Grande". Longe de ser um veículo para as massas, era vendido a um preço premium, servindo como um manifesto de status social, sofisticação e apreciação pela mecânica de alta capacidade. O modelo competia diretamente contra o conservadorismo dos tradicionais sedans de luxo europeus (das marcas Mercedes-Benz e BMW) e com outros imponentes modelos norte-americanos, como o Ford Taurus. O contraste estilístico do perfil aerodinâmico "cab-forward" do Vision chocava e encantava o consumidor brasileiro, que até pouco tempo atrás estava limitado a designs defasados produzidos nacionalmente, como o Chevrolet Opala ou o Volkswagen Santana.
As importações oficiais do modelo pela Chrysler do Brasil ocorreram com mais força entre os anos modelo de 1994 e 1995, embora seja possível encontrar em solo nacional unidades fabricadas em 1993, 1996 ou 1997 trazidas através de métodos de importação independente (onde compradores privados traziam os veículos por vias não oficiais utilizando despachantes).
Todas as documentações oficiais de importação confirmam que a Chrysler selecionou exclusivamente a motorização superior para o Brasil. As unidades disponíveis no mercado interno são impulsionadas pelo motor V6 aspirado transversal de 3.5 litros, cabeçote em alumínio com 24 válvulas e sistema de injeção eletrônica de combustível multiponto.
Conforme a aferição métrica constante nas fichas técnicas brasileiras, o propulsor gera cerca de 211 cv (cavalos-vapor) a 5.850 rpm e produz uma sólida curva de torque que alcança o pico de 30,8 kgfm a 3.350 rotações por minuto. Tracionando o peso total de 1.680 kg através da caixa automática de 4 marchas, o desempenho era formidável para as estradas do Brasil. O veículo superava a barreira dos 100 km/h em 9,5 segundos e atingia velocidades de cruzeiro com extrema suavidade, possuindo uma velocidade máxima declarada de 210 km/h.
Considerando que se trata de um motor V6 da década de 90 movimentando um carro pesado, o consumo de gasolina refletia o padrão tecnológico do período. O Vision registrava uma média de 5,5 km por litro no pesado ciclo urbano brasileiro. Contudo, no seu habitat natural — o ciclo rodoviário —, o design aerodinâmico ajudava o motor a atingir respeitáveis 8,5 km por litro. Aliado ao vasto tanque de combustível com capacidade para 68 litros, o sedan possuía uma formidável autonomia rodoviária de cerca de 578 quilômetros, permitindo longas viagens interestaduais com interrupções mínimas para abastecimento. O generoso compartimento de bagagem, comportando 509 litros de volume, reforçava sua vocação para o turismo familiar de luxo.
Com o passar das décadas, o Chrysler Vision transitou do status de veículo luxuoso de uso diário para o panteão dos chamados "neo-colecionáveis" ou "youngtimers" no Brasil. Unidades que sobreviveram ao tempo, quando bem preservadas, são cobiçadas por entusiastas da engenharia americana e apaixonados pela história da abertura das importações.
Financeiramente, a avaliação dos veículos reflete a brutal curva de depreciação típica de importados de luxo dessa era; modelos do ano de 1995 constam em tabelas históricas de avaliação com um preço base aproximado de R$ 11.220. Essa precificação, contudo, é apenas um guia, visto que exemplares mantidos em estado de coleção comandam valores muito superiores no mercado de nicho. O atrativo econômico para possuir esse clássico hoje em dia é fortalecido pela legislação tributária brasileira; por possuírem mais de 20 anos de fabricação, os Chrysler Vision gozam de isenção total da cobrança anual de IPVA em estados como São Paulo e na maioria do território nacional, barateando consideravelmente o custo burocrático de manutenção.
O grande desafio de possuir o modelo hoje no Brasil reside na escassez de certas peças de acabamento interior e exterior e componentes eletrônicos específicos. Ainda assim, para proprietários que mantêm esses sedans rodando, o conforto inigualável proporcionado pelo longo entre-eixos de 2.870 mm, a suavidade e potência inabalável do V6 de 3.5 litros, e a experiência auditiva dos sistemas de escapamento garantem que a manutenção do Vision valha cada esforço empregado na preservação desse fragmento da história automotiva global.
Como pontuado anteriormente, o Vision consistiu de um único ciclo de geração. Contudo, a engenharia realizou extensas atualizações e refinamentos iterativos em cada ano-modelo de produção.
A análise quantitativa da produção do Eagle e do Chrysler Vision revela um produto que obteve aceitação sólida no lançamento, mas que foi vítima de uma erosão acelerada de demanda na segunda metade da década.
As tabelas de registros de fábrica da unidade de montagem de Brampton e dados corporativos históricos totalizam de forma conservadora a construção de 94.550 unidades entre 1993 e 1997, distribuídas conforme os volumes discriminados no segmento de evolução anual.
| Ano Modelo | Unidades Produzidas |
|---|---|
| 1993 | 28.678 |
| 1994 | 22.064 |
| 1995 | 25.128 |
| 1996 | 12.806 |
| 1997 | 5.874 |
| Produção Total Registrada | 94.550 unidades |
Observação técnica de registro estatístico: Embora a contagem estrita, baseada no encerramento de anos modelos da fábrica, compute 94.550 carros, documentações agregadas frequentemente publicadas pela corporação relatam que o modelo Vision "vendeu números respeitáveis, com 115.699 construídos". Essa variância numérica de pouco mais de 21.000 unidades pode ser decorrência da contabilidade paralela das variantes exportadas com a marca Chrysler, frotas construídas para o Canadá ou estoques retidos em transição do ano fiscal da Chrysler Corporation em contraste com o ano-modelo oficial do chassi.
A descontinuação do Vision em setembro de 1997 não decorreu de um fracasso mecânico ou falhas de design do produto, que permaneceu altamente avaliado pela mídia especializada até o fim de seus dias. O veículo foi estrangulado por uma crise generalizada da própria marca que o abrigava nos Estados Unidos.
A marca Eagle, criada artificialmente a partir dos espólios da AMC, nunca conseguiu enraizar uma identidade sólida no imaginário do consumidor norte-americano. O maior gargalo encontrava-se no chão de fábrica e no interior das concessionárias. As revendedoras franqueadas pela rede Jeep-Eagle concentravam a esmagadora maioria de seus esforços de vendas, incentivos e espaço de showroom nas lucrativas e populares SUVs da linha Jeep. Vender um sedã de luxo importador para um cliente que visitava a loja atraído pela imagem robusta do Jeep Grand Cherokee provou ser um esforço inútil.
Ademais, o Eagle Vision sofria do que especialistas chamam de "canibalização interna". Devido às sobreposições da rede de revendas Chrysler-Plymouth, o Vision disputava espaço no mesmo estacionamento comercial e competia pela mesma fatia de mercado que os seus irmãos de plataforma LH: o Dodge Intrepid e o Chrysler Concorde. Estes últimos contavam com o respaldo de marcas centenárias, orçamentos milionários de publicidade e uma legião de consumidores fiéis. Sem uma alocação clara de identidade ou de publicidade que explicasse ao público o que a Eagle representava frente às suas marcas irmãs, o Vision foi ofuscado.
Diante da hemorragia contínua de recursos e de quase uma década de vendas pífias e estratégias confusas, os executivos da Chrysler tomaram a inevitável decisão de encerrar em definitivo a marca Eagle. Após a aposentadoria do Vision em 1997, a Eagle sobreviveu por apenas mais um ano, comercializando estoques finais do esportivo compacto Talon em 1998, culminando na extinção oficial da divisão e da marca de automóveis no dia 4 de julho de 1999.
A herança intelectual e de engenharia investida na plataforma LH e no projeto do Vision, no entanto, não desapareceu com o fim da marca Eagle. Ironicamente, a descontinuação do modelo acabou precipitando o nascimento de um dos carros mais bem-sucedidos da Chrysler na virada do milênio.
Durante os anos de 1996 e 1997, as equipes de desenvolvimento da Chrysler já trabalhavam em ritmo acelerado na segunda geração da arquitetura LH, com orçamentos substanciais investidos no que seria o redesenhado "Eagle Vision 1998". Quando a alta gerência da Chrysler puxou o plugue de encerramento da marca Eagle, o departamento de desenvolvimento agiu rapidamente para salvar os bilhões de dólares empregados na plataforma. A carroceria que estava finalizada em túneis de vento, testada e pronta para portar o logotipo da águia, recebeu alterações urgentes em sua grade frontal, detalhes cromados e foi inteiramente rebatizada.
Para manter a Chrysler no lucrativo segmento de sedans esportivos de grande porte focados em competir com as marcas europeias, a corporação lançou este "Vision renegado" no mercado no ano-modelo de 1999, batizando-o como Chrysler 300M. O 300M foi deliberadamente projetado com balanços dianteiros e traseiros extremamente encurtados, garantindo que o comprimento do carro permanecesse estritamente abaixo dos 5 metros de comprimento estipulados pelas rigorosas normas regulatórias de taxação do mercado de exportação europeu, assumindo com perfeição a missão global que o seu ancestral Chrysler Vision havia iniciado anos antes.
A médio prazo, a audácia da engenharia do Vision e da plataforma LH transcendeu o próprio século XX. A prova irrefutável de que o layout do motor longitudinal herdeiro da AMC, acoplado ao eixo dianteiro, era a arquitetura mais equilibrada do mercado, forneceu à Chrysler a base estrutural exata que os seus engenheiros precisavam para efetuar a transição definitiva da corporação para os carros de tração traseira no início dos anos 2000. Os trilhos de chassi e geometrias refinadas ao longo da existência do Vision e do LH evoluíram de forma linear para a aclamada e monumental plataforma LX de tração traseira. Dessa forma, sedans de potência maciça reverenciados na era moderna, como o Chrysler 300C, o Dodge Charger e a lendária reencarnação esportiva do Dodge Challenger, carregam intrinsecamente o DNA tecnológico pioneiro do Vision em suas longarinas estruturais. Sem as validações empíricas proporcionadas por esta máquina de "cab-forward" nos anos 90, o triunfal retorno dos muscle cars americanos da Chrysler teria exigido um custo e tempo de desenvolvimento vastamente superiores.
Imagens do Chrysler Vision 3.5 V6