1ª Geração
(1991 - 1993)
Ficha técnica, versões e história do Dodge Stealth.
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(1991 - 1993)
(1994 - 1996)
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A trajetória do Dodge Stealth no cenário automobilístico mundial representa um dos capítulos mais intrigantes da indústria, simbolizando o auge da era dos carros esportivos tecnológicos da década de 1990. Este veículo não foi apenas um modelo de nicho, mas sim o resultado de uma aliança estratégica profunda entre a Chrysler Corporation e a Mitsubishi Motors, projetado para competir em um mercado que estava sendo rapidamente dominado pela engenharia japonesa de alta performance. Lançado em 1991, o Stealth foi uma resposta direta a ícones como o Toyota Supra, o Nissan 300ZX e o Mazda RX-7, trazendo para as concessionárias da Dodge uma sofisticação mecânica que a marca, tradicionalmente focada em motores V8 de grande cilindrada, ainda não possuía de forma nativa.
Para compreender a existência do Dodge Stealth, é necessário retroceder à década de 1970, quando a Chrysler adquiriu uma participação de 15% na Mitsubishi Motors. Essa união permitiu que a montadora americana vendesse veículos japoneses rebatizados, conhecidos como "importações cativas", para preencher lacunas em seu catálogo, especialmente em segmentos onde a economia de combustível ou a tecnologia compacta eram primordiais. Modelos como o Dodge Colt e o Dodge Conquest pavimentaram o caminho para o que seria o projeto mais ambicioso dessa parceria.
O Stealth nasceu do desenvolvimento conjunto que também gerou o Mitsubishi GTO (conhecido internacionalmente como 3000GT). Embora o carro tenha sido fabricado integralmente na planta da Mitsubishi em Nagoya, no Japão, a equipe de design da Chrysler teve um papel fundamental na diferenciação estética do modelo. Enquanto o Mitsubishi 3000GT exibia um visual mais agressivo, com entradas de ar proeminentes e sistemas de aerodinâmica ativa, o Dodge Stealth foi concebido com uma filosofia de design mais fluida e futurista, focada no conceito "cab-forward", que posicionava a cabine mais à frente para otimizar o fluxo de ar e o espaço interno.
A fabricação do Stealth começou em 1990, e sua introdução oficial no mercado ocorreu em 1991. O modelo foi posicionado como um "supercarro para o dia a dia", oferecendo níveis de desempenho que rivalizavam com marcas exóticas como Ferrari e Lotus, mas por uma fração do custo. No entanto, sua origem estrangeira causou tensões políticas significativas. Em 1991, o Stealth foi inicialmente selecionado para ser o carro de segurança (pace car) das 500 Milhas de Indianápolis, mas protestos do sindicato United Autoworkers (UAW) forçaram a Chrysler a substituir o modelo por um protótipo do Dodge Viper, alegando que um carro fabricado no Japão não deveria liderar uma das corridas mais tradicionais dos Estados Unidos.
O lançamento inicial do Dodge Stealth em 1991 trouxe quatro níveis de acabamento distintos, permitindo que o modelo atingisse uma base ampla de consumidores, desde aqueles que buscavam apenas um cupê estiloso até entusiastas de performance extrema.
As opções de motorização eram todas baseadas no robusto bloco 6G72 da Mitsubishi, um V6 de 3.0 litros, mas com variações significativas em termos de cabeçotes e aspiração.
| Versão | Configuração do Motor | Potência (hp) | Torque (lb-ft) | Transmissão | Tração |
|---|---|---|---|---|---|
| Base | 3.0L V6 SOHC 12v | 164 | 185 | 5-MT / 4-AT | Dianteira (FWD) |
| ES | 3.0L V6 DOHC 24v | 222 | 201 | 5-MT / 4-AT | Dianteira (FWD) |
| R/T | 3.0L V6 DOHC 24v | 222 | 201 | 5-MT / 4-AT | Dianteira (FWD) |
| R/T Twin Turbo | 3.0L V6 DOHC 24v Twin Turbo | 300 | 307 | 5-MT | Integral (AWD) |
O modelo Base servia como a porta de entrada, utilizando um cabeçote de comando simples (SOHC). Embora não fosse um monstro de performance, ele oferecia uma dirigibilidade confiável e o visual futurista do Stealth por um preço competitivo. Os modelos ES e R/T subiam o nível com o cabeçote de comando duplo (DOHC), proporcionando 222 cavalos de potência, o que os colocava à frente de muitos motores V8 daquela época em termos de eficiência e entrega de torque.
A verdadeira estrela era o R/T Twin Turbo. Equipado com dois turbocompressores e dois intercoolers, este modelo entregava 300 cavalos de potência e contava com um sistema de tração integral permanente. Ele não era apenas rápido em linha reta, atingindo 0 a 100 km/h em cerca de 5 segundos, mas também era uma vitrine tecnológica, incluindo direção nas quatro rodas (AWS) e suspensão eletrônica ajustável.
Esteticamente, os modelos de 1991 a 1993 eram caracterizados pelos faróis escamoteáveis (pop-up headlights), uma marca registrada dos esportivos da época. O coeficiente de arrasto era de apenas 0,33, o que era equivalente a superesportivos muito mais recentes e caros, como o Lamborghini Murciélago. Uma diferença fundamental entre o Stealth e seu irmão Mitsubishi 3000GT era a ausência do sistema de aerodinâmica ativa no Dodge; enquanto o 3000GT tinha spoilers que se moviam, o Stealth utilizava um aerofólio fixo em formato de arco (hoop spoiler) que era integrado ao design da tampa traseira.
No interior, o carro oferecia um ambiente focado no motorista, com instrumentos voltados para o condutor e a opção de um painel de instrumentos digital que reforçava a imagem de alta tecnologia. O espaço traseiro era limitado, configurado como um 2+2, mais adequado para crianças ou bagagens pequenas.
O ano de 1993 marcou uma transição técnica importante para o motor 6G72. A Mitsubishi introduziu um virabrequim forjado e um bloco reforçado com quatro parafusos nos mancais principais (4-bolt main), substituindo a configuração anterior de dois parafusos. Essa mudança foi crucial para a durabilidade a longo prazo, especialmente para proprietários que desejavam aumentar a pressão dos turbos em modificações pós-venda. Além disso, o sistema de ar condicionado começou a ser atualizado para o fluido R134a, abandonando o antigo R12 em conformidade com as novas regulamentações ambientais.
Em 1994, o Dodge Stealth passou por sua transformação mais significativa. Este facelift não foi apenas cosmético; ele trouxe atualizações mecânicas que elevaram o carro a um novo patamar de desempenho, consolidando sua posição como um dos esportivos mais avançados do mundo na época.
A alteração visual mais óbvia foi a eliminação dos faróis escamoteáveis, substituídos por quatro faróis de projetor fixos sob lentes de Lexan. O capô também foi redesenhado para ser mais plano, eliminando as saliências (blisters) que antes eram necessárias para acomodar o mecanismo dos faróis e as torres da suspensão. Os para-choques dianteiro e traseiro ganharam linhas mais suaves e integradas, e as aberturas laterais de ventilação foram revisadas para um visual mais moderno.
Neste período, a Chrysler simplificou a gama de modelos. O acabamento ES foi descontinuado, deixando o modelo Base, o R/T e o R/T Twin Turbo. Um novo pacote de luxo, o R/T Luxury Equipment Package, foi introduzido para o modelo atmosférico, incluindo itens como teto preto, suspensão ativa de modo duplo e um sistema de áudio Infinity premium de 150 watts.
A motorização do modelo R/T Twin Turbo recebeu uma atualização de software e ajustes mecânicos que elevaram a potência de 300 hp para 320 hp, enquanto o torque subiu para 315 lb-ft. No entanto, a mudança mais celebrada pelos entusiastas foi a substituição da transmissão de 5 marchas por uma nova caixa de 6 velocidades da Getrag. Essa nova transmissão permitia uma melhor exploração da faixa de potência dos turbos, resultando em tempos de aceleração ainda mais rápidos, com o quarto de milha sendo completado na casa dos 13 segundos.
Especificação Técnica (1994-1996)
| Detalhes do R/T Twin Turbo | Especificação |
|---|---|
| Motor | V6 3.0L DOHC 24v Twin Turbo |
| Potência Máxima | 320 hp @ 6.000 rpm |
| Torque Máximo | 315 lb-ft @ 2.500 rpm |
| Transmissão | Getrag 6-MT (Manual) |
| Sistema de Tração | AWD Permanente com Acoplamento Viscoso |
| Rodas / Pneus | 18" Cromadas / P245/40ZR18 (Opcional) |
O Dodge Stealth R/T Twin Turbo era, em essência, um laboratório sobre rodas. Muitas das tecnologias que ele oferecia em 1991 só se tornariam comuns em carros esportivos de luxo décadas depois.
O sistema de tração integral (AWD) utilizava um diferencial central com acoplamento viscoso que distribuía 45% do torque para a frente e 55% para a traseira em condições normais. Isso garantia uma tração excepcional em qualquer clima, permitindo que o Stealth acelerasse com segurança onde carros de tração traseira teriam dificuldades.
A tecnologia de Direção nas Quatro Rodas (AWS) era ainda mais impressionante. Em velocidades acima de 50 km/h, o sistema hidráulico permitia que as rodas traseiras virassem em até 1,5 grau na mesma direção que as dianteiras. Isso não era projetado para manobras de estacionamento, mas sim para aumentar a estabilidade em curvas de alta velocidade e trocas de faixa na estrada, combatendo a tendência natural do carro ao subesterço devido ao seu peso elevado.
A Suspensão Eletronicamente Controlada (ECS) oferecia dois modos: "Tour" e "Sport". No modo Tour, o computador monitorava sensores de força G, frenagem e aceleração para ajustar automaticamente a dureza dos amortecedores entre três níveis de amortecimento em frações de segundo. No modo Sport, a suspensão ficava permanentemente na configuração mais rígida para máxima performance em pista.
O Escape Ativo (Active Exhaust) era outra característica única. Através de um botão no painel, o motorista podia acionar uma válvula no silencioso traseiro. No modo silencioso, os gases eram direcionados para reduzir o ruído em áreas urbanas; no modo esporte, o fluxo era liberado para um ronco mais encorpado e uma leve redução na contrapressão. Embora alguns críticos da época considerassem esses sistemas excessivos, eles demonstravam a ambição da Mitsubishi e da Chrysler em criar o carro mais avançado da categoria.
Apesar de sua excelência técnica, o Dodge Stealth enfrentou desafios comerciais significativos. Após um sucesso inicial estrondoso, as vendas começaram a cair drasticamente a partir de 1994. Isso se deveu a vários fatores, incluindo o aumento do preço (o R/T Twin Turbo chegou a custar cerca de US$ 38.000 em 1996), a complexidade de manutenção e a mudança de preferência do consumidor americano para SUVs e caminhonetes.
Abaixo, os dados compilados mostram a trajetória de produção do Stealth ao longo de sua vida útil.
| Ano | Base | ES | R/T | R/T Turbo | R/T Luxury | Total Anual |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1991 | 4.529 | 5.756 | 3.979 | 3.016 | 0 | 17.280 |
| 1992 | 4.811 | 5.283 | 5.247 | 4.355 | 0 | 19.696 |
| 1993 | 6.351 | 5.282 | 2.317 | 1.299 | 0 | 15.249 |
| 1994 | 4.346 | 0 | 2.493 | 924 | 681 | 8.444 |
| 1995 | 2.856 | 0 | 1.418 | 0* | 0 | 4.274 |
| 1996 | 188 | 0 | 115 | 57 | 0 | 360 |
| Total | 23.081 | 16.321 | 15.569 | 9.651 | 681 | 65.303 |
*Nota: Algumas fontes indicam que não houve modelos R/T Turbo produzidos para venda geral em 1995, retornando apenas para o lote final de 1996.
A análise dos números revela que o Stealth foi mais popular que o Mitsubishi 3000GT nos primeiros três anos. No entanto, a partir de 1994, a situação inverteu-se, com o modelo japonês mantendo vendas mais estáveis enquanto a Dodge via seu cupê perder espaço rapidamente. O volume de apenas 360 unidades em 1996 torna os exemplares deste ano extremamente raros e cobiçados por colecionadores.
O ano de 1996 marcou a despedida do Dodge Stealth. Chrysler decidiu encerrar a importação do modelo, enquanto a Mitsubishi continuou a produzir o 3000GT por mais alguns anos. Os poucos carros produzidos em 1996 traziam refinamentos exclusivos que os diferenciam de todos os outros anos.
A raridade do modelo 1996 é tamanha que exemplares bem preservados, como os pintados em Galaxy White Pearl (apenas 17 produzidos naquela configuração), são considerados "unicórnios" no mercado de entusiastas.
Conduzir um Dodge Stealth R/T Twin Turbo nos anos 90 era uma experiência surreal. Devido ao seu peso de quase 1.800 kg, ele não era um carro de agilidade extrema como o Mazda RX-7, mas sim um "Grand Tourer" imponente. Sua estabilidade em alta velocidade era comparável à de trens de alta velocidade; a combinação da tração AWD e da suspensão eletrônica permitia que o motorista fizesse curvas em velocidades que desafiavam a física para um carro daquelas dimensões.
No entanto, essa complexidade tinha um preço. A manutenção do Stealth tornou-se notória pela dificuldade. O compartimento do motor é tão apertado que tarefas simples, como a troca de velas traseiras ou da correia dentada, exigem mãos pequenas e muita paciência, ou muitas vezes a remoção de diversos componentes auxiliares. Além disso, os sistemas eletrônicos de primeira geração (como a suspensão ativa e o AWS) tendem a apresentar falhas com o tempo, e as peças de reposição tornaram-se escassas e caras.
Apesar disso, o motor 6G72 provou ser uma plataforma excepcional para modificações. Com ajustes simples na pressão do turbo e no sistema de combustível, não era difícil extrair 450 cavalos de potência do bloco, permitindo que o Stealth humilhasse carros muito mais modernos e caros em pistas de arrancada.
Após o cancelamento do Stealth em 1996, a Dodge tentou preencher o vazio com o Dodge Avenger. Embora visualmente inspirado pelo Stealth (especialmente nas lanternas traseiras envolventes), o Avenger era um carro muito mais modesto, baseado na plataforma do Chrysler Sebring e sem as opções de tração integral ou motores turbo de alto desempenho do seu antecessor.
O legado do Stealth, porém, permanece vivo entre os entusiastas de carros japoneses da "Era da Bolha". Ele é frequentemente visto como o "azarão" daquela geração. Enquanto o Toyota Supra ganhou fama mundial através de filmes e jogos, o Stealth permaneceu sob o radar (fazendo jus ao seu nome), sendo apreciado por um círculo mais restrito de conhecedores que valorizam sua tecnologia pioneira e seu design que ainda hoje parece moderno.
Recentemente, surgiram rumores de que a Dodge pode ressuscitar o nome Stealth para um novo modelo, possivelmente um SUV híbrido ou elétrico. Embora isso represente uma mudança drástica de filosofia em relação ao cupê tecnológico original, mostra que o nome ainda carrega um peso significativo e uma aura de inovação dentro da marca.
O Dodge Stealth representa o ápice de uma era onde as montadoras não tinham medo de arriscar com tecnologias complexas para atingir a supremacia técnica. Para o colecionador moderno, o modelo R/T Twin Turbo de 1994 a 1996 representa o melhor investimento, combinando o visual atualizado dos faróis fixos com a robustez da transmissão de 6 marchas e o motor de 320 hp.
| Ponto Positivo | Ponto Negativo |
|---|---|
| Tração excepcional em todas as condições (AWD) | Manutenção extremamente difícil e cara |
| Design futurista que envelheceu muito bem | Peso elevado prejudica a agilidade em pistas travadas |
| Motor 6G72 altamente capaz de receber upgrades | Escassez de peças específicas da marca Dodge |
| Cabine confortável com muitos recursos tecnológicos | Eletrônica complexa sujeita a falhas por idade |
O Dodge Stealth foi, e continua sendo, um testemunho da ambição da década de 1990. Ele provou que a Dodge poderia oferecer um veículo de classe mundial que não dependia apenas de força bruta, mas de uma inteligência mecânica e eletrônica refinada. Para quem busca um clássico que oferece desempenho real de supercarro com uma história de origem única, o Stealth permanece como uma das opções mais fascinantes e tecnicamente ricas do mercado de carros usados.
Imagens do Dodge Stealth