1ª Geração
(2022-)
Sinfonia eletrizante a céu aberto: o roadster híbrido que combina tecnologia de ponta com a liberdade absoluta do horizonte.
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(2022-)
A Ferrari 296 GTB representa um marco transformador na história da fabricante italiana, sendo descrita como uma autêntica "revolução" para a casa de Maranello. Lançada em 2021, esta berlinetta de dois lugares com motor central-traseiro reintroduziu um motor de 6 cilindros em um carro de rua da Ferrari após quase 50 anos, mas de uma forma radicalmente nova: acoplado a um sistema híbrido plug-in (PHEV). A filosofia central do projeto, encapsulada no lema "Defining Fun to Drive" (Definindo o Prazer de Dirigir), estabelece que o carro foi concebido para entregar emoções puras não apenas em busca do desempenho máximo em um circuito, mas também na condução diária.
Embora a motorização V6 seja uma novidade para os carros de rua modernos da marca, ela possui uma rica linhagem na história de competição da Ferrari. O primeiro modelo da marca a usar um V6 em posição central-traseira foi o 246 SP de 1961, que venceu a famosa corrida Targa Florio naquele ano e em 1962. No mesmo ano, a Ferrari conquistou seu primeiro título de construtores na Fórmula 1 com o 156 F1, também equipado com um motor V6 de 120 graus.
A decisão de adotar um V6 híbrido na 296 vai além de uma simples resposta às crescentes pressões regulatórias por eletrificação. Representa uma redefinição estratégica do que é um supercarro de entrada da Ferrari. Ao substituir o V8 da antecessora F8 Tributo, a marca não mudou apenas o motor, mas a própria identidade de sua principal berlinetta. A ênfase obsessiva no "prazer de dirigir" indica que o objetivo não era apenas a conformidade ambiental, mas aprimorar a experiência do motorista. Ao combinar um motor a combustão menor com um potente sistema elétrico, os engenheiros não só superaram a potência do V8 anterior, mas também eliminaram virtualmente o atraso dos turbocompressores (turbo lag), um efeito colateral comum em motores turbo. Isso demonstra que a Ferrari enxerga a hibridização não como um compromisso, mas como uma ferramenta para tornar a performance mais explosiva, controlável e, paradoxalmente, mais pura, ao simular a resposta instantânea de um motor naturalmente aspirado.
O conjunto motriz da Ferrari 296 é a peça central de sua revolução tecnológica, combinando um motor a combustão inovador com um sistema elétrico de última geração.
O motor a combustão, de código interno F163, é um V6 com 2.992 cm³ de cilindrada e um ângulo de 120 graus entre as bancadas de cilindros. Essa arquitetura incomum permite que os dois turbocompressores sejam alojados dentro do "V" do motor, uma configuração conhecida como "hot-V". Essa solução oferece múltiplos benefícios: melhora a gestão térmica, torna o conjunto mais compacto e, crucialmente, abaixa o centro de gravidade do carro, aprimorando a dinâmica de condução. Sozinho, este motor gera impressionantes 663 cv de potência, alcançando uma potência específica recorde para um carro de produção de 221 cv por litro.
Complementando o motor V6, há um motor elétrico (MGU-K, ou Unidade Geradora de Motor - Cinética) posicionado entre o motor a combustão e a transmissão de dupla embreagem de 8 velocidades. Este motor elétrico adiciona 167 cv (122 kW) ao sistema. A energia é fornecida por uma bateria de íon-lítio de alta tensão com capacidade de 7,45 kWh, que permite ao carro uma autonomia puramente elétrica de aproximadamente 25 km.
Juntos, os dois motores entregam uma potência máxima combinada de 830 cv a 8.000 rpm e um torque de 740 Nm. Durante a fase de desenvolvimento, o motor V6 ganhou o apelido interno de "piccolo V12" (pequeno V12). Este nome não é apenas marketing; é o resultado de um objetivo de engenharia deliberado. A mudança de um V8 para um V6 poderia ser percebida como um retrocesso em termos de prestígio e, principalmente, de som, um pilar da experiência Ferrari. Para resolver esse problema emocional, os engenheiros projetaram o motor com um ângulo de 120 graus e uma ordem de ignição simétrica, combinados com um sistema de escape que amplifica os harmônicos de alta frequência, resultando em uma sonoridade que lembra a de um motor V12 naturalmente aspirado. Isso demonstra que a Ferrari pode manipular tecnologicamente os atributos emocionais de seus carros, garantindo que a transição para motores menores não dilua a mística da marca.
O design da 296 GTB redefine a identidade da berlinetta de motor central-traseiro da Ferrari, com uma linha compacta, moderna e original que esconde uma imensa complexidade tecnológica sob uma aparência de pureza e elegância.
Liderado por Flavio Manzoni, o Centro de Estilo da Ferrari buscou uma pureza de formas, com linhas limpas e uniões bem definidas que acentuam a esportividade. A inspiração principal veio de carros da década de 1960, caracterizados pela simplicidade e funcionalidade, com a Ferrari 250 LM de 1963 sendo a influência mais clara. Elementos específicos da 250 LM foram herdados, como o corte vertical do pilar "B", os para-lamas traseiros musculosos e a traseira truncada (conhecida como "Kamm tail"). A escolha da 250 LM foi considerada perfeita devido à sua natureza compacta, semelhante à da 296. O lema que guiou a equipe de design foi uma citação do escultor Constantin Brâncuși: "simplicidade é complexidade resolvida", refletindo a intenção de criar um design elegante que mascara a engenharia avançada.
Essa abordagem de design serve como uma "ponte psicológica" para os puristas da marca. Diante de um carro tecnologicamente complexo, um design excessivamente futurista poderia alienar a base de clientes tradicional. Ao invocar um ícone de corrida puro e funcional como a 250 LM, a Ferrari ancora a 296 em sua herança, comunicando que, apesar da tecnologia de ponta, a alma do carro ainda é a de uma clássica berlinetta esportiva italiana.
A 296 GTB representa uma inversão do paradigma aerodinâmico ativo da Ferrari. Em modelos anteriores, dispositivos ativos eram frequentemente usados para reduzir o arrasto aerodinâmico e aumentar a velocidade máxima. Na 296, o spoiler traseiro ativo, integrado à carroceria, é projetado para fazer o oposto: gerar força descendente adicional (downforce). Em condições normais, ele permanece recolhido, mas em situações de alta performance, como curvas e frenagens fortes, ele se estende para adicionar até 100 kg de downforce sobre o eixo traseiro, melhorando o controle e a estabilidade.
O cockpit é focado no piloto e construído em torno da interface totalmente digital introduzida na SF90 Stradale. No entanto, na 296, a abordagem é mais refinada e elegante, buscando integrar o conteúdo técnico de forma sofisticada. Uma característica notável é a tela dedicada ao passageiro, que permite uma participação maior na experiência de condução, funcionando quase como um copiloto.
A combinação de um chassi ágil, peso contido e sistemas eletrônicos avançados permite que a 296 GTB traduza sua imensa potência em um desempenho excepcional e controlável.
O chassi da 296 possui uma distância entre eixos 50 mm mais curta que as berlinettas de motor central-traseiro anteriores da Ferrari, o que melhora significativamente sua agilidade dinâmica. O peso seco do veículo, quando equipado com opcionais de redução de peso, é de 1.470 kg. Isso resulta em uma relação peso/potência de 1,77 kg/cv, a melhor em sua categoria. A distribuição de peso é otimizada para um carro de motor central, com 40,5% na dianteira e 59,5% na traseira.
Para gerenciar a performance, a 296 GTB estreia sistemas eletrônicos de ponta. O controlador "ABS evo", integrado a um novo sensor de chassi de 6 vias (6w-CDS), é uma novidade absoluta. Ele permite explorar melhor os limites de aderência dos pneus, especialmente na traseira, garantindo frenagens mais curtas e consistentes, além de melhorar o desempenho na entrada de curvas. O carro também conta com o eSSC (electronic Side Slip Control), um conjunto de sistemas que inclui controle de tração (eTC) e diferencial eletrônico (eDiff), que trabalham em conjunto para tornar a potência do carro surpreendentemente acessível e divertida.
A tabela abaixo resume os principais dados técnicos da Ferrari 296 GTB.
| Característica | Especificação (Ferrari 296 GTB) |
|---|---|
| Motor a Combustão | V6 - 120° Twin-Turbo (F163) |
| Cilindrada | 2.992 cm3 |
| Potência (Combustão) | 663 cv @ 8.000 rpm |
| Potência (Elétrico) | 167 cv (123 kW) |
| Potência Máxima Combinada | 830 cv @ 8.000 rpm |
| Torque Máximo Combinado | 740 Nm @ 6.250 rpm |
| Bateria | 7,45 kWh (Íon-Lítio) |
| Transmissão | F1 DCT de 8 velocidades |
| Tração | Traseira (RWD) |
| Velocidade Máxima | > 330 km/h |
| 0-100 km/h | 2,9 s |
| 0-200 km/h | 7,3 s |
| Tempo em Fiorano | 1' 21" |
| Peso Seco (com opcionais) | 1.470 kg |
| Relação Peso/Potência | 1,77 kg/cv |
| Dimensões (C x L x A) | 4565 x 1958 x 1187 mm |
| Distância entre Eixos | 2.600 mm |
| Autonomia Elétrica | ~25 km |
A plataforma 296 foi projetada para atender a diferentes perfis de clientes, desde aqueles que buscam um cupê de alta performance até os que preferem a experiência de dirigir a céu aberto ou competir nas pistas.
A 296 GTB (Gran Turismo Berlinetta) é o modelo de base, o cupê que estabeleceu o conceito revolucionário da nova era V6 híbrida da Ferrari.
Lançada posteriormente, a 296 GTS (Gran Turismo Spider) é a versão conversível, equipada com um teto rígido retrátil (Retractable Hard Top - RHT). Para compensar a ausência do teto fixo, o chassi da GTB foi redesenhado e otimizado para a GTS, a fim de melhorar a rigidez torcional e de flexão. O design da traseira da GTS é descrito como "absolutamente único" para acomodar o mecanismo do teto, diferenciando-a visualmente da GTB.
Disponível tanto para a GTB quanto para a GTS, o Assetto Fiorano é um pacote opcional focado em maximizar o desempenho em pista. Seus componentes exclusivos incluem amortecedores Multimatic derivados de competições GT, apêndices aerodinâmicos de fibra de carbono no para-choque dianteiro para maior downforce, e o uso extensivo de materiais leves, como fibra de carbono no interior e exterior e uma tela traseira de Lexan®, que juntos reduzem o peso do carro em mais de 12 kg. Uma pintura especial inspirada na 250 LM também está disponível exclusivamente com este pacote.
A 296 GT3 é a versão de corrida, desenvolvida para competir em campeonatos de Gran Turismo ao redor do mundo. Uma diferença fundamental é que, ao contrário do carro de rua, a 296 GT3 não é híbrida, para cumprir os regulamentos da categoria. Seu motor V6 é ajustado para gerar cerca de 600 cv. O foco principal do projeto foi a aerodinâmica, que gera 20% mais downforce que sua antecessora, a 488 GT3. Posteriormente, uma versão "Evo" foi lançada, com aprimoramentos baseados no feedback dos pilotos e na experiência de corrida. A existência de uma versão de corrida não-híbrida revela o pragmatismo da Ferrari: enquanto a hibridização é a tecnologia de ponta para os carros de rua, a simplicidade e a confiabilidade de um motor a combustão puro ainda são preferíveis para as corridas de clientes, onde custos e regulamentos são primordiais.
Além do tradicional seletor Manettino no volante, que ajusta a dinâmica do carro (como controle de tração e suspensão), a 296 introduz o "eManettino", um seletor de gerenciamento de energia que permite ao motorista escolher como o sistema híbrido deve operar. Isso transforma a 296 em múltiplos carros em um só, aumentando drasticamente sua usabilidade. Os quatro modos são:
Essa versatilidade permite que o proprietário use o carro em mais cenários, redefinindo o conceito de um supercarro "utilizável". A maior inovação da 296 pode não ser apenas sua potência, mas sua capacidade de se adaptar ao humor e à necessidade do motorista, tornando-a um produto comercialmente mais inteligente.
A Ferrari 296 GTB e suas variantes representam o início de uma nova era para a marca, provando que a eletrificação pode ser usada não como um compromisso, mas como uma ferramenta para amplificar a emoção, a performance e a usabilidade. O carro é um herdeiro digno da filosofia da Ferrari, combinando inovação radical com um profundo respeito por sua herança de design e competição.
Quanto aos números de produção, a Ferrari mantém uma política de não divulgar dados oficiais para seus modelos de série. A 296 GTB/GTS não é uma edição limitada e numerada; é um modelo de produção regular, construído sob encomenda em Maranello. Com base em dados de registro de mercado na Europa e nos Estados Unidos, a produção é estimada em "alguns milhares de unidades por ano", variando de acordo com a demanda global.
Essa recusa em divulgar números é uma ferramenta de marketing deliberada. A mística da Ferrari é construída sobre a ideia de escassez e desejo. Ao manter os números em segredo, a empresa evita que um modelo seja percebido como "comum", mesmo que sua produção seja relativamente alta para os padrões da marca. Essa estratégia ajuda a sustentar os valores de revenda e o prestígio da marca, demonstrando que a política de produção da Ferrari é tão parte de sua identidade quanto a engenharia de seus motores.