O Legado do V12 e o Nascimento de um Ícone
A história da Ferrari é, em sua essência, a história do motor de 12 cilindros em V (V12). Desde que o primeiro carro a ostentar o Cavallino Rampante, o 125 S, saiu dos portões de Maranello em 1947, este tipo de motor tornou-se a alma da marca. Setenta anos depois, no Salão do Automóvel de Genebra de 2017, a Ferrari celebrou essa herança com o lançamento de um novo marco em sua linhagem: a Ferrari 812 Superfast.
Posicionada como a sucessora da aclamada F12berlinetta, a 812 Superfast não foi uma revolução, mas sim uma evolução meticulosa da fórmula do Gran Turismo (GT) com motor dianteiro-central. Seu nome é uma declaração de intenções e uma homenagem ao passado. O número "812" é uma descrição literal de sua mecânica: "8" para seus 800 cavalos-vapor (cv) de potência e "12" para o número de cilindros do motor. O sobrenome "Superfast" resgata uma nomenclatura usada em modelos exclusivos da Ferrari nas décadas de 1950 e 1960, conectando-a diretamente à era de ouro dos GTs da marca.
O lançamento da 812 foi um movimento estratégico que transcendeu a simples apresentação de um novo produto. Ao conectar o carro mais potente de sua história (na época) ao seu 70º aniversário, a Ferrari teceu uma narrativa poderosa, transformando o veículo em um evento histórico desde o primeiro dia. Essa estratégia solidificou o valor e a desejabilidade do modelo, posicionando-o não apenas como uma máquina de performance, mas como um capítulo crucial na mitologia da Ferrari. Em um mundo automotivo que se movia rapidamente em direção a turbocompressores e hibridização, a 812 Superfast e suas variantes representaram o auge e, para muitos, a gloriosa despedida da era do V12 puramente aspirado em um modelo de produção regular da marca. Sua sucessora, a 12Cilindri, chegaria anos depois para marcar o fim definitivo deste capítulo.
A Gênese - Ferrari 812 Superfast (2017-2024)
A 812 Superfast foi projetada com um objetivo claro: estabelecer um novo padrão para carros esportivos de motor dianteiro, combinando performance avassaladora com a capacidade de ser um carro confortável para longas viagens.
O Coração da Fera: O Motor F140 GA
No centro da 812 Superfast está uma obra-prima da engenharia: o motor V12 de 65 graus, código F140 GA. Ele é uma evolução direta do motor da F12berlinetta, com seu deslocamento aumentado de 6.3 para 6.5 litros (especificamente 6496 cc). O resultado é uma potência máxima de 800 cv (588 kW) entregue a 8.500 rpm e um torque de 718 Nm a 7.000 rpm. No momento de seu lançamento, este era o motor naturalmente aspirado mais potente já instalado em um carro de produção em série, um feito notável que dispensava o uso de turbo ou tecnologia híbrida.
A potência específica de 123 cv por litro era uma cifra sem precedentes para um motor dianteiro em um carro de produção. Contudo, a Ferrari não focou apenas em números de pico. Para garantir que o carro fosse utilizável no dia a dia, os engenheiros garantiram que 80% do torque máximo estivesse disponível a apenas 3.500 rpm, proporcionando uma aceleração vigorosa e flexibilidade em rotações mais baixas. A capacidade do motor de girar até um regime máximo de 8.900 rpm, com uma curva de potência que sobe constantemente, oferece ao motorista uma sensação de aceleração ilimitada.
Desempenho e Dinâmica Veicular: A Tecnologia a Serviço da Velocidade
Os números de performance da 812 Superfast são impressionantes: aceleração de 0 a 100 km/h em 2.9 segundos, de 0 a 200 km/h em 7.9 segundos e uma velocidade máxima declarada de 340 km/h. Para gerenciar essa potência e garantir uma distribuição de peso perfeita (47% na dianteira e 53% na traseira), o carro utiliza uma arquitetura transaxle, com o motor na frente e a transmissão montada na traseira.
A 812 Superfast introduziu duas tecnologias cruciais que representaram um ponto de inflexão para a Ferrari. A primeira foi a adoção da direção com assistência elétrica (EPS), uma estreia para a marca. Embora puristas tradicionalmente prefiram a direção hidráulica, a Ferrari integrou o EPS a todos os sistemas de controle dinâmico do veículo para explorar plenamente o potencial de performance do carro.
A segunda inovação foi o sistema Virtual Short Wheelbase 2.0 (PCV), ou "Distância Entre Eixos Curta Virtual". Herdado da experiência com a F12tdf, este sistema combina a assistência da direção dianteira com o esterçamento das rodas traseiras. Em baixas velocidades, as rodas traseiras viram na direção oposta às dianteiras, tornando o carro mais ágil, como se tivesse uma distância entre eixos menor. Em altas velocidades, elas viram na mesma direção, aumentando a estabilidade. A introdução dessas tecnologias não foi apenas para tornar o carro mais fácil de dirigir, mas foi enquadrada como uma ferramenta para aprimorar o desempenho, permitindo que um motorista explore os limites de um carro de 800 cv com mais confiança. Isso solidificou uma nova filosofia para os V12 da marca, onde a performance máxima é alcançada através de uma simbiose complexa entre mecânica e software.
Para completar o pacote dinâmico, a 812 Superfast foi equipada com freios de carbono-cerâmica Brembo Extreme Design, os mesmos utilizados na LaFerrari, que melhoraram a performance de frenagem de 100 a 0 km/h em 5.8% em comparação com a F12berlinetta.
Aerodinâmica Esculpida pelo Vento
O design da 812 Superfast, concebido pelo Ferrari Styling Centre, é uma fusão de beleza e função. O objetivo aerodinâmico era aumentar o downforce — a força que pressiona o carro contra o solo, melhorando a estabilidade — sem aumentar o arrasto aerodinâmico, que prejudicaria a velocidade máxima e o consumo de combustível.
Para isso, foi utilizada uma combinação de soluções ativas e passivas. A frente do carro foi projetada para canalizar o ar e aumentar o downforce, com dutos para refrigeração dos freios e para aumentar o fluxo de ar sob o carro. O assoalho possui três pares de represas curvas que atuam como geradores de vórtice, responsáveis por 30% do aumento de downforce em relação à F12berlinetta. Na traseira, o difusor possui flaps ativos que podem se abrir em altas velocidades para reduzir o arrasto.
Design e Interior
Visualmente, a 812 Superfast redefine a linguagem dos V12 dianteiros da Ferrari. Sua silhueta fastback, com uma traseira alta e curta, é uma homenagem direta à icônica 365 GTB/4 "Daytona" de 1969. Detalhes como os faróis full-LED e as quatro lanternas traseiras circulares modernizaram o visual, mantendo a identidade da marca.
O interior inspira-se tanto na F12berlinetta quanto na LaFerrari, com um painel de instrumentos focado no motorista e elementos que parecem "flutuar", criando uma atmosfera esportiva e sofisticada.
A Experiência a Céu Aberto - Ferrari 812 GTS (2019-2022)
Em 2019, a Ferrari resgatou uma de suas mais celebradas tradições com o lançamento da 812 GTS. O modelo marcou o retorno de um carro de produção em série com motor V12 dianteiro e carroceria conversível, algo que não acontecia há 50 anos, desde a lendária 365 GTS/4 "Daytona Spider". A sigla GTS, que significa "Gran Turismo Spider", é uma nomenclatura clássica que reforça essa conexão histórica.
Engenharia e Adaptações Estruturais
A principal característica da 812 GTS é seu teto rígido retrátil (RHT), que pode ser aberto ou fechado em apenas 14 segundos, mesmo com o carro em movimento a velocidades de até 45 km/h. A remoção do teto fixo, no entanto, apresentou desafios de engenharia significativos. A parte traseira do carro foi completamente redesenhada para acomodar o mecanismo do teto, com a adição de dois contrafortes esculturais que mantêm a fluidez do design.
Para compensar a perda de rigidez estrutural, o chassi foi reforçado. Essa necessidade, somada ao mecanismo do teto, resultou em um aumento de peso de 75 kg em comparação com a 812 Superfast. Para manter a sensação de agilidade, os engenheiros da Ferrari fizeram ajustes mecânicos: o motor V12 de 800 cv permaneceu inalterado, mas a transmissão de dupla embreagem de sete velocidades recebeu relações de marcha mais curtas. Essa mudança melhorou a resposta do acelerador, compensando o peso adicional e garantindo que a sensação de performance fosse preservada.
Aerodinâmica Compensatória
A conversão para um conversível eliminou dutos aerodinâmicos importantes que estavam integrados à estrutura do teto da Superfast e que contribuíam para o downforce traseiro. Para uma marca focada em performance, simplesmente perder essa eficiência era inaceitável. A solução foi uma reengenharia completa do difusor traseiro, que incorporou uma "asa triplana". Este novo design gera sucção sob o carro, recuperando efetivamente o downforce perdido e garantindo que a estabilidade e o comportamento dinâmico da GTS permaneçam praticamente idênticos aos do cupê.
Este esforço de engenharia demonstra um ponto fundamental sobre o mercado de supercarros de elite: a experiência emocional é tão valiosa quanto os números brutos. A Ferrari investiu em soluções complexas não para tornar o carro mais rápido, mas para garantir que ele não ficasse mais lento ao se tornar mais emocionante.
Performance e Sensações
Apesar do peso extra, o desempenho da 812 GTS é extraordinário e quase indistinguível do cupê. A aceleração de 0 a 100 km/h é cumprida em 3.0 segundos (apenas 0.1 segundo mais lenta que a Superfast), e a velocidade máxima permanece nos mesmos 340 km/h.
O verdadeiro diferencial da GTS, no entanto, não está no cronômetro, mas na experiência sensorial. Com o teto aberto, o som glorioso do motor V12 aspirado invade a cabine, tornando-se o elemento central da condução. O ruído que começa como um rosnado grave e se transforma em um grito agudo próximo das 9.000 rpm é uma experiência que o cupê, por mais impressionante que seja, não pode replicar com a mesma intensidade.
O Ápice da Performance - 812 Competizione e Competizione A (2021)
Em 2021, a Ferrari apresentou a expressão máxima da plataforma 812: a série limitada Competizione. Seguindo a tradição das "Versione Speciale" focadas em pista, como a 599 GTO e a F12tdf, a Competizione foi projetada para oferecer o máximo de performance e prazer de dirigir. Foi lançada em duas variantes: a 812 Competizione, um cupê, e a 812 Competizione A (de "Aperta", ou aberta), uma versão com teto targa de fibra de carbono removível.
O V12 em Sua Forma Mais Extrema
O motor V12 de 6.5 litros foi radicalmente retrabalhado para atingir novos patamares. A potência foi elevada para 830 cv, mas a mudança mais impressionante foi o aumento do regime máximo do motor para 9.500 rpm — o mais alto já alcançado por um motor de carro de rua da Ferrari até então.
Para atingir essa rotação de forma confiável, a Ferrari aplicou tecnologias diretamente derivadas de seu programa de Fórmula 1. Componentes internos foram substituídos por materiais exóticos: as bielas de aço deram lugar a bielas de titânio, 40% mais leves; os pinos dos pistões receberam um revestimento de carbono tipo diamante (DLC) para reduzir o atrito; e o virabrequim foi aliviado. Essas não são apenas melhorias, mas sim tecnologias de corrida que justificam a existência e o preço do carro, servindo como uma vitrine da capacidade de engenharia da Ferrari.
Revolução Aerodinâmica e Redução de Peso
A busca pela performance máxima levou a uma completa reformulação aerodinâmica e a uma obsessiva redução de peso. O uso de fibra de carbono é extensivo por toda a carroceria, incluindo para-choques, spoiler traseiro e entradas de ar, além do interior. O resultado é um peso a seco de 1.487 kg para a Competizione, uma redução significativa em relação à Superfast.
A inovação mais visível e radical é a substituição do vidro traseiro do cupê por uma estrutura de alumínio monolítica, patenteada pela Ferrari. Esta peça única integra geradores de vórtice que melhoram a eficiência aerodinâmica, ao mesmo tempo que confere ao carro uma aparência agressiva e inconfundível, onde a função dita a forma de maneira extrema. A refrigeração também foi aprimorada, com uma nova entrada de ar dianteira única e pinças de freio "Aero" com dutos de ar integrados, melhorando a eficiência de resfriamento em 10%.
Dinâmica de Pista de Última Geração
A maior evolução dinâmica da Competizione é a introdução de um sistema de direção independente nas quatro rodas. Diferente do PCV 2.0, onde as rodas traseiras esterçam juntas, neste sistema os atuadores direito e esquerdo podem se mover de forma independente. Isso permite um controle muito mais preciso do comportamento do carro em curvas, aumentando drasticamente a agilidade e a resposta aos comandos do volante.
O conjunto de todas essas melhorias resulta em uma performance estonteante. A aceleração de 0 a 100 km/h cai para 2.85 segundos, e o tempo de volta no circuito de testes de Fiorano é de 1 minuto e 20 segundos, 1.5 segundos mais rápido que a 812 Superfast.
Exemplares Únicos - O Programa Special Projects
A plataforma 812 também serviu de base para criações exclusivas do programa "Special Projects" da Ferrari, onde clientes selecionados podem encomendar carros únicos (one-off), projetados em colaboração com o centro de estilo da marca. Esses veículos representam o auge da personalização e da exclusividade, sendo mais do que apenas carros: são a manifestação do relacionamento profundo entre um cliente e a marca.
Ferrari Omologata (2020)
Baseada na 812 Superfast, a Omologata foi encomendada por um cliente europeu e levou mais de dois anos para ser concluída. Apenas o para-brisa e os faróis foram mantidos do carro original; toda a carroceria de alumínio foi feita à mão e é completamente nova. O design é futurista, mas repleto de referências a GTs clássicos da Ferrari, como a 250 GTO. Detalhes como a pintura com efeito martelado em peças do interior e a cor externa exclusiva, Rosso Magma, reforçam sua singularidade.
Ferrari SP51 (2022)
Construída sobre a plataforma da 812 GTS para um colecionador de Taiwan, a SP51 é um roadster puro, sem qualquer tipo de teto. Seu design foi meticulosamente otimizado em túnel de vento para garantir conforto na cabine, mesmo sem capota. A pintura, um tom exclusivo chamado Rosso Passionale, é complementada por uma faixa azul e branca inspirada na lendária Ferrari 410 S de 1955. O tema da faixa externa continua no interior do carro, criando uma conexão visual única entre o exterior e o habitáculo.
Números de Produção e o Fim de uma Era
A exclusividade é um pilar da estratégia da Ferrari, e os números de produção da família 812 refletem isso, especialmente nas versões de edição limitada.
| Modelo | Período de Produção | Unidades Produzidas | Notas |
|---|---|---|---|
| 812 Superfast | 2017–2024 | Não divulgado oficialmente | Sendo um modelo de produção em série, estima-se que milhares de unidades foram fabricadas. |
| 812 GTS | 2019–2022 | 5.348 (segundo o F-Register) | Houve controvérsia, com fontes iniciais mencionando uma produção limitada a 500 unidades, possivelmente para um mercado ou ano específico. |
| 812 Competizione | 2021 | 999 | Edição limitada, com todas as unidades vendidas antes mesmo do lançamento oficial. |
| 812 Competizione A | 2021 | 599 | Edição limitada, também esgotada antes do lançamento. |
| Omologata | 2020 | 1 | Exemplar único do programa Special Projects. |
| SP51 | 2022 | 1 | Exemplar único do programa Special Projects. |
A controvérsia em torno dos números da 812 GTS merece atenção. Enquanto algumas fontes, incluindo concessionárias, citaram uma produção limitada a 500 unidades para o ano de 2022, registros detalhados, como o F-Register, apontam para um total de 5.348 unidades fabricadas ao longo de seu ciclo de produção. A conclusão mais provável é que a menção a "500 unidades" foi uma estratégia de marketing ou se referia a uma alocação específica, e não ao total global, tornando a GTS um carro raro, mas não uma edição estritamente limitada como a Competizione.
A produção da família 812 foi encerrada para dar lugar à sua sucessora, a Ferrari 12Cilindri, apresentada em 2024, marcando oficialmente o fim do capítulo 812 na longa história da Ferrari.
O Legado Duradouro da Ferrari 812
A família Ferrari 812 representa o pináculo da engenharia de motores V12 naturalmente aspirados de Maranello. Ela simboliza o ponto máximo de uma era, combinando uma potência recorde com tecnologias de assistência que tornaram essa performance explorável. A 812 Superfast estabeleceu um novo padrão para os Gran Turismos, a 812 GTS resgatou uma tradição de 50 anos com emoção a céu aberto, e a 812 Competizione levou essa fórmula ao seu limite absoluto, aproximando um carro de rua de um carro de corrida como poucos antes.
No futuro, a 812 será lembrada não apenas por seus números impressionantes, mas por sua alma: o som, a resposta e a emoção de um dos maiores motores V12 já construídos. Para muitos entusiastas e colecionadores, ela será para sempre a "última grande Ferrari V12 de verdade", o último de sua espécie a reinar sem a complexidade de turbos ou sistemas híbridos em um modelo de produção regular da Ferrari. Seu legado está assegurado como um dos capítulos mais gloriosos na história do Cavallino Rampante.