1ª Geração
(2020-2024)
A sinfonia definitiva a céu aberto: o retorno triunfal do Spider V12 que une performance extrema ao horizonte infinito.
Selecione uma geração para ver as versões disponíveis
(2020-2024)
A história da Ferrari é, em sua essência, a história do motor de 12 cilindros em V (V12). Desde que o primeiro carro a ostentar o Cavallino Rampante, o 125 S, saiu dos portões de Maranello em 1947, este tipo de motor tornou-se a alma da marca. Setenta anos depois, no Salão do Automóvel de Genebra de 2017, a Ferrari celebrou essa herança com o lançamento de um novo marco em sua linhagem: a Ferrari 812 Superfast.
Posicionada como a sucessora da aclamada F12berlinetta, a 812 Superfast não foi uma revolução, mas sim uma evolução meticulosa da fórmula do Gran Turismo (GT) com motor dianteiro-central. Seu nome é uma declaração de intenções e uma homenagem ao passado. O número "812" é uma descrição literal de sua mecânica: "8" para seus 800 cavalos-vapor (cv) de potência e "12" para o número de cilindros do motor. O sobrenome "Superfast" resgata uma nomenclatura usada em modelos exclusivos da Ferrari nas décadas de 1950 e 1960, conectando-a diretamente à era de ouro dos GTs da marca.
O lançamento da 812 foi um movimento estratégico que transcendeu a simples apresentação de um novo produto. Ao conectar o carro mais potente de sua história (na época) ao seu 70º aniversário, a Ferrari teceu uma narrativa poderosa, transformando o veículo em um evento histórico desde o primeiro dia. Essa estratégia solidificou o valor e a desejabilidade do modelo, posicionando-o não apenas como uma máquina de performance, mas como um capítulo crucial na mitologia da Ferrari. Em um mundo automotivo que se movia rapidamente em direção a turbocompressores e hibridização, a 812 Superfast e suas variantes representaram o auge e, para muitos, a gloriosa despedida da era do V12 puramente aspirado em um modelo de produção regular da marca. Sua sucessora, a 12Cilindri, chegaria anos depois para marcar o fim definitivo deste capítulo.
A 812 Superfast foi projetada com um objetivo claro: estabelecer um novo padrão para carros esportivos de motor dianteiro, combinando performance avassaladora com a capacidade de ser um carro confortável para longas viagens.
No centro da 812 Superfast está uma obra-prima da engenharia: o motor V12 de 65 graus, código F140 GA. Ele é uma evolução direta do motor da F12berlinetta, com seu deslocamento aumentado de 6.3 para 6.5 litros (especificamente 6496 cc). O resultado é uma potência máxima de 800 cv (588 kW) entregue a 8.500 rpm e um torque de 718 Nm a 7.000 rpm. No momento de seu lançamento, este era o motor naturalmente aspirado mais potente já instalado em um carro de produção em série, um feito notável que dispensava o uso de turbo ou tecnologia híbrida.
A potência específica de 123 cv por litro era uma cifra sem precedentes para um motor dianteiro em um carro de produção. Contudo, a Ferrari não focou apenas em números de pico. Para garantir que o carro fosse utilizável no dia a dia, os engenheiros garantiram que 80% do torque máximo estivesse disponível a apenas 3.500 rpm, proporcionando uma aceleração vigorosa e flexibilidade em rotações mais baixas. A capacidade do motor de girar até um regime máximo de 8.900 rpm, com uma curva de potência que sobe constantemente, oferece ao motorista uma sensação de aceleração ilimitada.
Os números de performance da 812 Superfast são impressionantes: aceleração de 0 a 100 km/h em 2.9 segundos, de 0 a 200 km/h em 7.9 segundos e uma velocidade máxima declarada de 340 km/h. Para gerenciar essa potência e garantir uma distribuição de peso perfeita (47% na dianteira e 53% na traseira), o carro utiliza uma arquitetura transaxle, com o motor na frente e a transmissão montada na traseira.
A 812 Superfast introduziu duas tecnologias cruciais que representaram um ponto de inflexão para a Ferrari. A primeira foi a adoção da direção com assistência elétrica (EPS), uma estreia para a marca. Embora puristas tradicionalmente prefiram a direção hidráulica, a Ferrari integrou o EPS a todos os sistemas de controle dinâmico do veículo para explorar plenamente o potencial de performance do carro.
A segunda inovação foi o sistema Virtual Short Wheelbase 2.0 (PCV), ou "Distância Entre Eixos Curta Virtual". Herdado da experiência com a F12tdf, este sistema combina a assistência da direção dianteira com o esterçamento das rodas traseiras. Em baixas velocidades, as rodas traseiras viram na direção oposta às dianteiras, tornando o carro mais ágil, como se tivesse uma distância entre eixos menor. Em altas velocidades, elas viram na mesma direção, aumentando a estabilidade. A introdução dessas tecnologias não foi apenas para tornar o carro mais fácil de dirigir, mas foi enquadrada como uma ferramenta para aprimorar o desempenho, permitindo que um motorista explore os limites de um carro de 800 cv com mais confiança. Isso solidificou uma nova filosofia para os V12 da marca, onde a performance máxima é alcançada através de uma simbiose complexa entre mecânica e software.
Para completar o pacote dinâmico, a 812 Superfast foi equipada com freios de carbono-cerâmica Brembo Extreme Design, os mesmos utilizados na LaFerrari, que melhoraram a performance de frenagem de 100 a 0 km/h em 5.8% em comparação com a F12berlinetta.
O design da 812 Superfast, concebido pelo Ferrari Styling Centre, é uma fusão de beleza e função. O objetivo aerodinâmico era aumentar o downforce — a força que pressiona o carro contra o solo, melhorando a estabilidade — sem aumentar o arrasto aerodinâmico, que prejudicaria a velocidade máxima e o consumo de combustível.
Para isso, foi utilizada uma combinação de soluções ativas e passivas. A frente do carro foi projetada para canalizar o ar e aumentar o downforce, com dutos para refrigeração dos freios e para aumentar o fluxo de ar sob o carro. O assoalho possui três pares de represas curvas que atuam como geradores de vórtice, responsáveis por 30% do aumento de downforce em relação à F12berlinetta. Na traseira, o difusor possui flaps ativos que podem se abrir em altas velocidades para reduzir o arrasto.
Visualmente, a 812 Superfast redefine a linguagem dos V12 dianteiros da Ferrari. Sua silhueta fastback, com uma traseira alta e curta, é uma homenagem direta à icônica 365 GTB/4 "Daytona" de 1969. Detalhes como os faróis full-LED e as quatro lanternas traseiras circulares modernizaram o visual, mantendo a identidade da marca.
O interior inspira-se tanto na F12berlinetta quanto na LaFerrari, com um painel de instrumentos focado no motorista e elementos que parecem "flutuar", criando uma atmosfera esportiva e sofisticada.
Em 2019, a Ferrari resgatou uma de suas mais celebradas tradições com o lançamento da 812 GTS. O modelo marcou o retorno de um carro de produção em série com motor V12 dianteiro e carroceria conversível, algo que não acontecia há 50 anos, desde a lendária 365 GTS/4 "Daytona Spider". A sigla GTS, que significa "Gran Turismo Spider", é uma nomenclatura clássica que reforça essa conexão histórica.
A principal característica da 812 GTS é seu teto rígido retrátil (RHT), que pode ser aberto ou fechado em apenas 14 segundos, mesmo com o carro em movimento a velocidades de até 45 km/h. A remoção do teto fixo, no entanto, apresentou desafios de engenharia significativos. A parte traseira do carro foi completamente redesenhada para acomodar o mecanismo do teto, com a adição de dois contrafortes esculturais que mantêm a fluidez do design.
Para compensar a perda de rigidez estrutural, o chassi foi reforçado. Essa necessidade, somada ao mecanismo do teto, resultou em um aumento de peso de 75 kg em comparação com a 812 Superfast. Para manter a sensação de agilidade, os engenheiros da Ferrari fizeram ajustes mecânicos: o motor V12 de 800 cv permaneceu inalterado, mas a transmissão de dupla embreagem de sete velocidades recebeu relações de marcha mais curtas. Essa mudança melhorou a resposta do acelerador, compensando o peso adicional e garantindo que a sensação de performance fosse preservada.
A conversão para um conversível eliminou dutos aerodinâmicos importantes que estavam integrados à estrutura do teto da Superfast e que contribuíam para o downforce traseiro. Para uma marca focada em performance, simplesmente perder essa eficiência era inaceitável. A solução foi uma reengenharia completa do difusor traseiro, que incorporou uma "asa triplana". Este novo design gera sucção sob o carro, recuperando efetivamente o downforce perdido e garantindo que a estabilidade e o comportamento dinâmico da GTS permaneçam praticamente idênticos aos do cupê.
Este esforço de engenharia demonstra um ponto fundamental sobre o mercado de supercarros de elite: a experiência emocional é tão valiosa quanto os números brutos. A Ferrari investiu em soluções complexas não para tornar o carro mais rápido, mas para garantir que ele não ficasse mais lento ao se tornar mais emocionante.
Apesar do peso extra, o desempenho da 812 GTS é extraordinário e quase indistinguível do cupê. A aceleração de 0 a 100 km/h é cumprida em 3.0 segundos (apenas 0.1 segundo mais lenta que a Superfast), e a velocidade máxima permanece nos mesmos 340 km/h.
O verdadeiro diferencial da GTS, no entanto, não está no cronômetro, mas na experiência sensorial. Com o teto aberto, o som glorioso do motor V12 aspirado invade a cabine, tornando-se o elemento central da condução. O ruído que começa como um rosnado grave e se transforma em um grito agudo próximo das 9.000 rpm é uma experiência que o cupê, por mais impressionante que seja, não pode replicar com a mesma intensidade.
Em 2021, a Ferrari apresentou a expressão máxima da plataforma 812: a série limitada Competizione. Seguindo a tradição das "Versione Speciale" focadas em pista, como a 599 GTO e a F12tdf, a Competizione foi projetada para oferecer o máximo de performance e prazer de dirigir. Foi lançada em duas variantes: a 812 Competizione, um cupê, e a 812 Competizione A (de "Aperta", ou aberta), uma versão com teto targa de fibra de carbono removível.
O motor V12 de 6.5 litros foi radicalmente retrabalhado para atingir novos patamares. A potência foi elevada para 830 cv, mas a mudança mais impressionante foi o aumento do regime máximo do motor para 9.500 rpm — o mais alto já alcançado por um motor de carro de rua da Ferrari até então.
Para atingir essa rotação de forma confiável, a Ferrari aplicou tecnologias diretamente derivadas de seu programa de Fórmula 1. Componentes internos foram substituídos por materiais exóticos: as bielas de aço deram lugar a bielas de titânio, 40% mais leves; os pinos dos pistões receberam um revestimento de carbono tipo diamante (DLC) para reduzir o atrito; e o virabrequim foi aliviado. Essas não são apenas melhorias, mas sim tecnologias de corrida que justificam a existência e o preço do carro, servindo como uma vitrine da capacidade de engenharia da Ferrari.
A busca pela performance máxima levou a uma completa reformulação aerodinâmica e a uma obsessiva redução de peso. O uso de fibra de carbono é extensivo por toda a carroceria, incluindo para-choques, spoiler traseiro e entradas de ar, além do interior. O resultado é um peso a seco de 1.487 kg para a Competizione, uma redução significativa em relação à Superfast.
A inovação mais visível e radical é a substituição do vidro traseiro do cupê por uma estrutura de alumínio monolítica, patenteada pela Ferrari. Esta peça única integra geradores de vórtice que melhoram a eficiência aerodinâmica, ao mesmo tempo que confere ao carro uma aparência agressiva e inconfundível, onde a função dita a forma de maneira extrema. A refrigeração também foi aprimorada, com uma nova entrada de ar dianteira única e pinças de freio "Aero" com dutos de ar integrados, melhorando a eficiência de resfriamento em 10%.
A maior evolução dinâmica da Competizione é a introdução de um sistema de direção independente nas quatro rodas. Diferente do PCV 2.0, onde as rodas traseiras esterçam juntas, neste sistema os atuadores direito e esquerdo podem se mover de forma independente. Isso permite um controle muito mais preciso do comportamento do carro em curvas, aumentando drasticamente a agilidade e a resposta aos comandos do volante.
O conjunto de todas essas melhorias resulta em uma performance estonteante. A aceleração de 0 a 100 km/h cai para 2.85 segundos, e o tempo de volta no circuito de testes de Fiorano é de 1 minuto e 20 segundos, 1.5 segundos mais rápido que a 812 Superfast.
A plataforma 812 também serviu de base para criações exclusivas do programa "Special Projects" da Ferrari, onde clientes selecionados podem encomendar carros únicos (one-off), projetados em colaboração com o centro de estilo da marca. Esses veículos representam o auge da personalização e da exclusividade, sendo mais do que apenas carros: são a manifestação do relacionamento profundo entre um cliente e a marca.
Baseada na 812 Superfast, a Omologata foi encomendada por um cliente europeu e levou mais de dois anos para ser concluída. Apenas o para-brisa e os faróis foram mantidos do carro original; toda a carroceria de alumínio foi feita à mão e é completamente nova. O design é futurista, mas repleto de referências a GTs clássicos da Ferrari, como a 250 GTO. Detalhes como a pintura com efeito martelado em peças do interior e a cor externa exclusiva, Rosso Magma, reforçam sua singularidade.
Construída sobre a plataforma da 812 GTS para um colecionador de Taiwan, a SP51 é um roadster puro, sem qualquer tipo de teto. Seu design foi meticulosamente otimizado em túnel de vento para garantir conforto na cabine, mesmo sem capota. A pintura, um tom exclusivo chamado Rosso Passionale, é complementada por uma faixa azul e branca inspirada na lendária Ferrari 410 S de 1955. O tema da faixa externa continua no interior do carro, criando uma conexão visual única entre o exterior e o habitáculo.
A exclusividade é um pilar da estratégia da Ferrari, e os números de produção da família 812 refletem isso, especialmente nas versões de edição limitada.
| Modelo | Período de Produção | Unidades Produzidas | Notas |
|---|---|---|---|
| 812 Superfast | 2017–2024 | Não divulgado oficialmente | Sendo um modelo de produção em série, estima-se que milhares de unidades foram fabricadas. |
| 812 GTS | 2019–2022 | 5.348 (segundo o F-Register) | Houve controvérsia, com fontes iniciais mencionando uma produção limitada a 500 unidades, possivelmente para um mercado ou ano específico. |
| 812 Competizione | 2021 | 999 | Edição limitada, com todas as unidades vendidas antes mesmo do lançamento oficial. |
| 812 Competizione A | 2021 | 599 | Edição limitada, também esgotada antes do lançamento. |
| Omologata | 2020 | 1 | Exemplar único do programa Special Projects. |
| SP51 | 2022 | 1 | Exemplar único do programa Special Projects. |
A controvérsia em torno dos números da 812 GTS merece atenção. Enquanto algumas fontes, incluindo concessionárias, citaram uma produção limitada a 500 unidades para o ano de 2022, registros detalhados, como o F-Register, apontam para um total de 5.348 unidades fabricadas ao longo de seu ciclo de produção. A conclusão mais provável é que a menção a "500 unidades" foi uma estratégia de marketing ou se referia a uma alocação específica, e não ao total global, tornando a GTS um carro raro, mas não uma edição estritamente limitada como a Competizione.
A produção da família 812 foi encerrada para dar lugar à sua sucessora, a Ferrari 12Cilindri, apresentada em 2024, marcando oficialmente o fim do capítulo 812 na longa história da Ferrari.
A família Ferrari 812 representa o pináculo da engenharia de motores V12 naturalmente aspirados de Maranello. Ela simboliza o ponto máximo de uma era, combinando uma potência recorde com tecnologias de assistência que tornaram essa performance explorável. A 812 Superfast estabeleceu um novo padrão para os Gran Turismos, a 812 GTS resgatou uma tradição de 50 anos com emoção a céu aberto, e a 812 Competizione levou essa fórmula ao seu limite absoluto, aproximando um carro de rua de um carro de corrida como poucos antes.
No futuro, a 812 será lembrada não apenas por seus números impressionantes, mas por sua alma: o som, a resposta e a emoção de um dos maiores motores V12 já construídos. Para muitos entusiastas e colecionadores, ela será para sempre a "última grande Ferrari V12 de verdade", o último de sua espécie a reinar sem a complexidade de turbos ou sistemas híbridos em um modelo de produção regular da Ferrari. Seu legado está assegurado como um dos capítulos mais gloriosos na história do Cavallino Rampante.