1ª Geração
(2012-2017)
A força da natureza: o GT de 740 cv que fundiu a elegância clássica do V12 dianteiro à aerodinâmica revolucionária.
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(2012-2017)
A Ferrari F12berlinetta emergiu em 2012 não apenas como um novo modelo, mas como a herdeira de uma das mais prestigiadas linhagens do automobilismo: os Gran Turismos (GT) de motor V12 dianteiro e tração traseira da Ferrari. Apresentada oficialmente no Salão do Automóvel de Genebra, ela chegou com a monumental tarefa de suceder a aclamada 599 GTB Fiorano, um pilar da identidade da marca que combina performance de supercarro com a capacidade de cruzar continentes com conforto.1
O impacto da F12berlinetta foi imediato e avassalador. No momento de seu lançamento, ela se tornou o carro de rua mais potente e rápido já produzido em Maranello. O modelo estabeleceu um novo recorde na pista de testes de Fiorano com o tempo de 1 minuto e 23 segundos, superando ícones como a Ferrari Enzo e a 599 GTO, o que a posicionou instantaneamente como a nova referência de performance da indústria.
A aclamação da crítica acompanhou seu desempenho. A revista Top Gear nomeou-a "O Supercarro do Ano 2012", um reconhecimento que solidificou sua reputação e gerou uma demanda extraordinária. Antes mesmo das primeiras entregas, a Ferrari já havia vendido o equivalente a um ano inteiro de produção, confirmando que o mundo estava testemunhando o nascimento de um novo ícone.
A F12berlinetta representou um salto quântico em relação à sua predecessora. Combinando um motor V12 levado ao limite da engenharia de aspiração natural, um design funcionalmente belo e uma dinâmica de chassi primorosa, ela redefiniu as expectativas para um GT de alta performance.
O centro de toda a experiência da F12berlinetta é seu motor, uma obra-prima da engenharia. O propulsor, de código F140 FC, é um V12 naturalmente aspirado de 6.262 cc (6.3 litros) com os bancos de cilindros a 65°. Ele produz impressionantes 740 cv (730 hp) a 8.250 rpm e 690 Nm de torque a 6.000 rpm, com uma rotação máxima que atinge estonteantes 8.700 rpm. A potência específica de 118 cv por litro era um recorde para um motor deste tipo na época, um testemunho do nível de otimização alcançado pelos engenheiros da Ferrari.
Este motor não foi apenas um exercício de força bruta, mas também de eficiência e usabilidade. Graças a inovações como um sistema de ignição multi-spark e a redução drástica do atrito interno, ele era 30% mais eficiente no consumo de combustível que o da 599 GTB Fiorano. Além disso, 80% do torque máximo estava disponível a apenas 2.500 rpm, garantindo uma aceleração vigorosa e imediata em qualquer faixa de rotação. O reconhecimento de sua excelência veio em 2013, quando o motor V12 da F12 ganhou o prêmio "International Engine of the Year" nas prestigiadas categorias "Melhor Performance" e "Melhor Motor Acima de 4.0 Litros". Este conjunto de características solidificou a F12 como o ápice da tecnologia de motores V12 puramente aspirados, um marco tecnológico antes da inevitável transição da indústria para a turboalimentação e hibridização.
O design da F12berlinetta foi o resultado de uma colaboração entre o Ferrari Styling Centre, liderado por Flavio Manzoni, e o lendário estúdio Pininfarina. Esta parceria resultou no último Ferrari V12 de produção em série desenhado em conjunto com a Pininfarina, marcando o fim de uma era icônica. A filosofia por trás do design foi a integração total entre forma e função, onde a beleza estética era uma consequência direta da eficiência aerodinâmica.
A inovação mais notável foi o "Aero Bridge". Trata-se de um canal de ar que começa no capô, passa pelas laterais e flui ao longo dos flancos do carro. Esta solução engenhosa cria downforce (força descendente que pressiona o carro contra o solo) sem a necessidade de apêndices aerodinâmicos agressivos, como grandes asas traseiras, preservando a silhueta elegante de um GT clássico.
A aerodinâmica ativa também desempenhou um papel crucial. Dutos de refrigeração dos freios abrem-se automaticamente apenas quando os freios atingem altas temperaturas, permanecendo fechados no resto do tempo para reduzir o arrasto. O resultado de todo esse trabalho foi um coeficiente de arrasto (Cd) de apenas 0.299 e a geração de 123 kg de downforce a 200 km/h, o dobro do que a 599 GTB Fiorano conseguia produzir. A F12 demonstrou uma mudança de paradigma na Ferrari: a aerodinâmica não era mais apenas um componente funcional, mas uma parte intrínseca e bela do design.
A base da F12berlinetta é uma avançada estrutura de alumínio (space frame) desenvolvida em parceria com a Scaglietti, utilizando 12 ligas de alumínio diferentes. Esta construção resultou em um aumento de 20% na rigidez torcional e uma redução de 70 kg no peso em comparação com a 599. O carro era mais curto, mais baixo e mais estreito que seu antecessor, com o motor e os assentos posicionados mais abaixo para otimizar o centro de gravidade.
O peso seco foi declarado em 1.525 kg, com um peso em ordem de marcha de 1.630 kg. A distribuição de peso era ideal para um carro de motor dianteiro, com 46% na dianteira e 54% na traseira, contribuindo para uma dirigibilidade ágil e equilibrada. A potência era enviada às rodas traseiras através de uma transmissão F1 de dupla embreagem com 7 velocidades, que contava com relações de marcha mais curtas para explorar ao máximo a potência do motor. O conjunto era gerenciado por sistemas eletrônicos de última geração, incluindo freios de carbono-cerâmica (CCM3), suspensão magnetoreológica (SCM-E), um diferencial eletrônico (E-diff 3) e o controle de tração F1-Trac.
Os números de desempenho da F12berlinetta eram impressionantes: aceleração de 0 a 100 km/h em 3,1 segundos, 0 a 200 km/h em 8,5 segundos e uma velocidade máxima superior a 340 km/h. No entanto, o que mais cativou a crítica foi sua dualidade. A F12 era, ao mesmo tempo, um supercarro visceralmente rápido e um Gran Tourer surpreendentemente confortável e utilizável no dia a dia.
Jeremy Clarkson, no programa Top Gear, capturou perfeitamente essa essência. Ele elogiou a beleza estonteante do carro e o som majestoso do motor, mas também observou, com sua ironia característica, que o carro seria "melhor ainda se tivesse... um pouco menos de potência" para as estradas públicas. Este comentário, embora um elogio à performance avassaladora do carro, destacou a natureza selvagem da F12 e, sem saber, antecipou a necessidade das soluções de engenharia que seriam implementadas em sua futura versão de pista.
A Ferrari F12berlinetta foi produzida entre 2012 e 2017. A marca nunca anunciou oficialmente o número total de unidades fabricadas, mas a estimativa da indústria é que cerca de 5.000 exemplares foram produzidos globalmente.
Se a F12berlinetta era a expressão máxima do Gran Turismo V12, a F12tdf foi sua transformação em uma arma focada para as pistas. Lançada em 2015, a "tdf" não era apenas uma versão mais potente; era uma reengenharia completa, projetada para oferecer a experiência de condução mais extrema possível em um carro de rua.
A tabela a seguir ilustra a magnitude da evolução da versão tdf em relação à Berlinetta padrão.
| Métrica | F12berlinetta | F12tdf |
|---|---|---|
| Potência | 740 cv @ 8.250 rpm | 780 cv @ 8.500 rpm |
| Torque | 690 Nm @ 6.000 rpm | 705 Nm @ 6.250 rpm |
| Peso em Ordem de Marcha | 1.630 kg | 1.520 kg |
| Aceleração 0-100 km/h | 3,1 segundos | 2,9 segundos |
| Aceleração 0-200 km/h | 8,5 segundos | 7,9 segundos |
| Downforce a 200 km/h | 123 kg | 230 kg |
| Unidades Produzidas | ~5.000 (estimado) | 799 |
O nome "tdf" é uma homenagem direta à lendária corrida de rua Tour de France Automobile, um evento de resistência que a Ferrari dominou nas décadas de 1950 e 1960, principalmente com o modelo 250 GT Berlinetta. A F12tdf foi concebida para ser a expressão máxima de um carro de rua extremo, igualmente à vontade em um circuito de corrida.
O mesmo motor V12 de 6.3 litros foi extensivamente retrabalhado para produzir 780 cv a 8.500 rpm e 705 Nm de torque, com o limite de rotação elevado para 8.900 rpm. Para alcançar esses números, os engenheiros utilizaram componentes derivados de programas de competição, como tuchos mecânicos e cornetas de admissão de geometria variável, semelhantes às usadas na Fórmula 1.
A F12tdf passou por uma dieta rigorosa, resultando em uma redução de 110 kg em relação à Berlinetta. Isso foi alcançado através do uso extensivo de fibra de carbono na carroceria e em um interior deliberadamente "espartano", onde o couro foi substituído por Alcantara e os painéis das portas foram reduzidos a uma única concha de fibra de carbono. A carroceria foi completamente redesenhada, com um spoiler traseiro mais longo e alto, um difusor traseiro redesenhado com flaps ativos e um para-choque dianteiro mais complexo. Essas mudanças resultaram em um aumento de 87% no downforce, praticamente dobrando a eficiência aerodinâmica do carro.
A F12berlinetta era conhecida por sua potência avassaladora, que podia ser um desafio para domar no limite. A Ferrari, ao aumentar ainda mais a potência para a tdf, precisava de uma solução de engenharia para tornar essa performance não apenas utilizável, mas eficaz. A resposta foi a introdução do "Virtual Short Wheelbase", o primeiro sistema de esterçamento das rodas traseiras em um carro da Ferrari.
Este sistema inovador permite que as rodas traseiras girem levemente, compensando a tendência de sobresterço (saída de traseira) causada pelos pneus dianteiros mais largos e garantindo tempos de resposta de direção mais rápidos. O resultado é um carro com a agilidade de um veículo com entre-eixos mais curto em curvas apertadas, mas com a estabilidade de um com entre-eixos longo em altas velocidades. Esta não foi uma adição de luxo, mas uma necessidade de engenharia que transformou o caráter do carro, convertendo sua natureza selvagem em precisão cirúrgica.
Com todas as melhorias, a F12tdf era capaz de acelerar de 0 a 100 km/h em apenas 2,9 segundos e de 0 a 200 km/h em 7,9 segundos. Na pista de Fiorano, ela marcou o tempo de 1 minuto e 21 segundos, dois segundos mais rápido que a F12berlinetta.
A produção foi estritamente limitada a 799 unidades em todo o mundo, todas vendidas antes mesmo do anúncio oficial, tornando-a um item de colecionador instantâneo. O sucesso estrondoso da F12tdf consolidou a estratégia de "versione speciale" da Ferrari, provando a existência de um mercado robusto para versões de produção limitada e focadas em pista de seus carros V12. Este modelo de negócio foi replicado com grande sucesso em modelos posteriores, como a 812 Competizione, demonstrando que o legado da tdf influenciou diretamente a estratégia de produto da empresa.
Além dos modelos de produção em série, a plataforma da F12 serviu como base para algumas das criações mais raras e exclusivas da Ferrari. Através do programa "Special Projects", clientes selecionados podem encomendar carros únicos (one-off), com carrocerias e designs totalmente personalizados. O chassi robusto da F12 e seu carismático motor V12 a tornaram a tela ideal para esses projetos ambiciosos, resultando em um número notável de criações sob medida.
A tabela abaixo resume as principais edições especiais e one-offs baseados na F12.
| Nome do Modelo | Ano | Base | Unidades Produzidas | Característica Principal |
|---|---|---|---|---|
| F12 TRS | 2014 | Berlinetta | 2 | Carroceria barchetta (sem teto) inspirada na 250 Testa Rossa. |
| SP America | 2014 | Berlinetta | 1 | Coupé com design da Pininfarina inspirado na 250 GTO. |
| F60 America | 2014 | Berlinetta | 10 | Roadster para celebrar 60 anos da Ferrari na América do Norte. |
| Touring Berlinetta Lusso | 2015 | Berlinetta | 5 | Carroceria de alumínio artesanal pela Touring Superleggera. |
| SP275 RW Competizione | 2016 | Berlinetta/tdf | 1 | Design inspirado na 275 GTB/C com motor e câmbio da F12tdf. |
| F12berlinetta SG50 | 2015 | Berlinetta | 1 | Edição única para comemorar 50 anos de Cingapura. |
| SP3JC | 2018 | Berlinetta | 2 | Roadster com design único e inspiração em modelos dos anos 50/60. |
F12 TRS (2014): Encomendada por um único cliente que pediu duas unidades, a F12 TRS é uma barchetta (roadster sem capota) com design inspirado na icônica 250 Testa Rossa de 1957. Apresenta uma carroceria radicalmente redesenhada, com um para-brisa envolvente e uma janela de vidro no capô que exibe as tampas vermelhas do motor V12.
SP America (2014): Um coupé one-off com carroceria personalizada pela Pininfarina. Sua inspiração vem da lendária 250 GTO, evidente nas três saídas de ar no capô e nas fendas nos para-lamas que remetem ao clássico de corrida.
F60 America (2014): Uma edição limitada a apenas 10 unidades, criada para celebrar os 60 anos da Ferrari na América do Norte. Baseada na F12, possui uma carroceria roadster com teto de lona removível, um interior com design assimétrico (vermelho para o motorista, preto para o passageiro) e uma pintura azul e branca inspirada na equipe NART (North American Racing Team).
Touring Berlinetta Lusso (2015): Uma reinterpretação de luxo da F12, criada pela famosa casa de design italiana Carrozzeria Touring Superleggera. Limitada a 5 unidades, cada carro tem uma carroceria de alumínio totalmente nova, moldada à mão, com um design mais clássico e fluido, mantendo a mecânica original da F12berlinetta.
SP275 RW Competizione (2016): Este one-off é uma fusão do melhor da família F12. Utiliza o chassi da F12berlinetta, mas incorpora o motor e a transmissão mais potentes da F12tdf. O design, inspirado na Ferrari 275 GTB/C que venceu sua categoria em Le Mans em 1965, apresenta fendas laterais, uma traseira redesenhada e uma pintura amarela em homenagem à equipe Ecurie Francorchamps.
A proliferação de projetos especiais baseados na F12 não foi uma coincidência. Sua arquitetura clássica de motor dianteiro e seu chassi de alumínio versátil a tornaram a plataforma ideal para recaracterização, uma tela em branco perfeita para os clientes mais exigentes da marca. A forte inspiração retrô vista em quase todos esses modelos revela uma tendência clara: para o cliente de topo da Ferrari, a conexão com o legado histórico da marca é tão valiosa quanto a performance de ponta, e a F12 foi a plataforma que permitiu a fusão perfeita desses dois mundos.
A Ferrari F12, em todas as suas formas, representa um dos capítulos mais significativos na história moderna da marca. Ela é amplamente considerada um dos últimos e mais grandiosos exemplos de um supercarro Ferrari com motor V12 puramente aspirado, livre de assistência híbrida ou turboalimentação, marcando o auge e o fim de uma era de pureza mecânica. Seu sucessor, o 812 Superfast, manteve a tradição do V12 aspirado, mas a F12 capturou um ponto de equilíbrio entre beleza, brutalidade e tecnologia que a tornou única.31
Como resultado de sua importância histórica, seu desempenho avassalador e o fato de ser a última colaboração de design em um V12 de série com a Pininfarina, a F12berlinetta já é vista como um clássico moderno. A F12tdf, com sua produção estritamente limitada e foco extremo, alcançou o status de lenda instantaneamente, com valores de mercado que refletem sua raridade e significado.
Em suma, a F12 não foi apenas a sucessora da 599; ela redefiniu o que um Gran Turismo V12 da Ferrari poderia ser. Ela serviu como um carro de produção aclamado, uma arma de pista temível e a base para os sonhos mais exclusivos dos clientes da Ferrari. Seu legado é o de um dos mais completos, emocionantes e importantes capítulos na longa e célebre história dos motores V12 de Maranello