1ª Geração
(2009 - 2012)
Ficha técnica, versões e história do Ford Flex.
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A trajetória do Ford Flex na indústria automobilística norte-americana representa um dos períodos mais experimentais e audaciosos da Ford Motor Company no início do século XXI. Lançado como um sucessor indireto tanto para a minivan Ford Freestar quanto para o crossover Ford Taurus X, o Flex foi projetado para capturar um público que desejava a utilidade de um veículo de sete passageiros, mas rejeitava o estigma social associado às minivans tradicionais. Este relatório detalha a gênese, o desenvolvimento técnico, as variações de motorização, as atualizações de meia-vida e o contexto de encerramento de um dos veículos mais distintos da plataforma D4 da Ford.
O desenvolvimento do Ford Flex remonta ao Chicago Auto Show de 2005, onde a Ford apresentou o Fairlane Concept. Nomeado em homenagem à histórica propriedade de Henry Ford e a um modelo clássico da marca, o conceito Fairlane não era apenas um exercício de estilo, mas uma declaração de intenções sobre o futuro dos "people movers". O design, liderado por Peter Horbury, apresentava uma silhueta extremamente "caixote" (boxy) e teto plano, evocando as peruas Woodies das décadas de 1940 e 1950, mas com uma execução moderna e minimalista.
O conceito original foi construído sobre a plataforma CD3 (compartilhada com o Ford Fusion da época), mas para a produção em série, a Ford decidiu migrar o projeto para a plataforma D4 de tamanho total. Esta decisão foi estratégica para garantir que o veículo tivesse as dimensões necessárias para acomodar três fileiras de bancos com conforto real para adultos e capacidade de reboque competitiva. O design de produção manteve quase 90% da estética do conceito, com exceção das portas traseiras "suicidas" (abertura invertida), que foram substituídas por portas convencionais para facilitar a industrialização e aumentar a segurança estrutural.
A base mecânica do Ford Flex é a plataforma D4, uma variante da arquitetura D3 originalmente desenvolvida pela Volvo (Plataforma P2). A plataforma D4 foi especificamente ajustada para veículos com entre-eixos mais longos e maior peso bruto, sendo a base também para o Ford Explorer (2011-2019) e o Lincoln MKT.
Esta arquitetura proporcionava ao Flex uma condução muito mais refinada do que a dos SUVs baseados em chassis de caminhonete (body-on-frame). A suspensão dianteira utilizava o sistema MacPherson com braços inferiores em L e barra estabilizadora, enquanto a traseira era uma suspensão independente multilink, o que garantia um centro de gravidade mais baixo e menor inclinação da carroceria em curvas comparado ao Ford Explorer.
A estrutura do Flex foi otimizada para maximizar o volume interno. Com um entre-eixos de quase 3 metros, o veículo oferecia um aproveitamento de espaço superior a muitos SUVs maiores.
| Atributo Dimensional | Especificação (Sistema Imperial/Métrico) |
|---|---|
| Distância entre eixos | 117,9 pol (2.995 mm) |
| Comprimento Total | 201,8 pol (5.126 mm) |
| Largura (sem espelhos) | 75,9 pol (1.928 mm) |
| Altura | 68,0 pol (1.727 mm) |
| Peso em Ordem de Marcha (FWD) | 4.468 lb (2.026 kg) |
| Peso em Ordem de Marcha (AWD) | 4.640 lb (2.104 kg) |
| Capacidade de Reboque Máxima | 4.500 lb (2.041 kg) |
A rigidez torcional da plataforma D4 permitiu que o Flex oferecesse um ambiente silencioso, com foco no isolamento acústico (NVH - Noise, Vibration, and Harshness), posicionando-o como um crossover premium dentro da linha Ford.
O Ford Flex iniciou sua produção em 3 de junho de 2008, chegando às concessionárias como ano-modelo 2009. No lançamento, estava disponível em três níveis de acabamento: SE, SEL e Limited. O modelo SE era focado no custo-benefício, o SEL oferecia um equilíbrio entre luxo e preço, e o Limited trazia o ápice da tecnologia disponível, incluindo rodas de 19 polegadas e acabamento interno superior.
Nos primeiros anos, o Flex era movido exclusivamente pelo motor Duratec V6 de 3,5 litros naturalmente aspirado. Este motor era acoplado a uma transmissão automática de seis velocidades 6F50, desenvolvida em colaboração com a General Motors.
| Especificação do Motor (2009) | Detalhes |
|---|---|
| Tipo de Motor | 3.5L V6 Duratec 35 |
| Aspiração | Natural |
| Potência | 262 hp @ 6.250 rpm |
| Torque | 248 lb-ft @ 4.500 rpm |
| Transmissão | Automática de 6 marchas |
A tração dianteira (FWD) era o padrão, com o sistema de tração integral inteligente (AWD) disponível como opcional nas versões SEL e Limited. O sistema AWD era capaz de transferir até 100% do torque para o eixo dianteiro ou traseiro conforme a necessidade de tração detectada pelos sensores do AdvanceTrac.
Um marco importante na história do Flex foi a introdução do motor EcoBoost em 2010. Esta nova família de motores utilizava injeção direta de combustível e turbocompressores duplos para oferecer a potência de um V8 com o consumo (teórico) de um V6.
Disponível apenas com tração integral (AWD) nas versões SEL e Limited, o Flex EcoBoost entregava 355 cavalos de potência e 350 lb-ft de torque, transformando o "caixote" familiar em um dos veículos mais rápidos de sua categoria, capaz de atingir 0 a 100 km/h em cerca de 6 segundos. Para lidar com o torque extra, a Ford equipou estas versões com a transmissão 6F55, uma versão reforçada da caixa de seis marchas.
Para manter o interesse no modelo antes do grande facelift, a Ford introduziu atualizações pontuais e novas versões de luxo.
O Ford Flex Titanium (2011)
Em 2011, o nível de acabamento Titanium foi introduzido como o novo topo de linha, substituindo parcialmente o Limited em termos de exclusividade estética. O foco do Titanium era um visual mais "agressivo" e moderno, caracterizado por:
Este modelo ajudou a solidificar a imagem do Flex como um veículo "hip" e urbano, afastando-o ainda mais da imagem de utilitário básico.
O Pacote de Aparência SEL
Também foi disponibilizado um pacote de aparência para a versão SEL, que incluía espelhos retrovisores em preto brilhante, maçanetas das portas na cor da carroceria e rodas exclusivas, permitindo que os compradores de versões intermediárias tivessem um visual similar ao do Limited.
O ano de 2013 marcou a atualização mais significativa na história do Ford Flex. Mais do que uma simples mudança estética, o modelo recebeu atualizações mecânicas profundas e um novo pacote tecnológico.
A mudança mais visível ocorreu na parte frontal. A Ford removeu o tradicional logotipo oval azul da grade dianteira. Em seu lugar, a palavra "FLEX" foi aplicada em letras cromadas na borda do capô, uma decisão ousada que visava tratar o Flex quase como uma sub-marca dentro da Ford.
A Ford revisou ambos os motores V6 para o ano-modelo 2013, focando em eficiência e maior entrega de torque através da adoção do sistema de temporização variável de válvulas independente (Ti-VCT) no motor aspirado.
| Motor (Facelift 2013-2019) | Potência | Torque | Mudança vs 2012 |
|---|---|---|---|
| 3.5L V6 Ti-VCT (Aspirado) | 287 hp | 254 lb-ft | +25 hp / +6 lb-ft |
| 3.5L V6 EcoBoost (Turbo) | 365 hp | 350 lb-ft | +10 hp / Estável |
O motor aspirado, em particular, tornou-se muito mais competitivo, reduzindo a sensação de sub-motorização que ocorria em veículos carregados. Além disso, a direção assistida hidráulica foi substituída por um sistema de direção assistida elétrica (EPAS), o que melhorou levemente o consumo de combustível e permitiu a inclusão de sistemas de assistência de estacionamento.
O facelift trouxe também melhorias na suspensão, com amortecedores recalibrados para oferecer um rodar mais suave sem sacrificar o controle da carroceria. Os rotores dos freios dianteiros foram aumentados para melhorar a dissipação de calor e a potência de frenagem, uma resposta ao aumento de potência dos motores.
O interior do Ford Flex sempre foi seu ponto mais forte. Com capacidade para seis ou sete passageiros, o design interno priorizava o conforto de longa distância e a versatilidade de carga.
O Flex oferecia uma segunda fileira de bancos que podia ser configurada como um banco inteiriço para três pessoas ou duas cadeiras de capitão. Um dos diferenciais era o generoso espaço para as pernas na segunda fileira, superando até mesmo SUVs maiores da época.
| Capacidade de Carga | Volume (Cubic Feet) |
|---|---|
| Atrás da 3ª Fileira | 20,0 cu. ft. |
| Atrás da 2ª Fileira (3ª rebatida) | 43,2 cu. ft. |
| Carga Máxima (Todas rebatidas) | 83,2 cu. ft. |
A terceira fileira de bancos contava com o sistema opcional PowerFold, que permitia que os bancos fossem rebatidos ou invertidos (modo tailgate) com o apertar de um botão, facilitando o uso do porta-malas para lazer ao ar livre.
A evolução tecnológica do Flex acompanhou os ciclos de software da Ford, passando por três fases distintas:
O Flex era conhecido por recursos pouco comuns em sua categoria:
A partir de 2013, o Flex recebeu uma suíte de tecnologias de segurança que o mantiveram competitivo até o final de sua vida útil. O pacote incluía:
O Ford Flex foi produzido exclusivamente na Oakville Assembly Complex em Ontário, Canadá. Ao contrário do Ford Explorer, que era um sucesso de vendas massivo, o Flex sempre foi um veículo de nicho, atraindo um público fiel mas limitado.
Embora a Ford esperasse vender cerca de 100.000 unidades por ano no início do projeto, a realidade do mercado foi diferente. As vendas atingiram o pico em 2009 e mantiveram-se estáveis em torno de 20.000 a 30.000 unidades anuais durante a maior parte de sua vida útil.
| Ano Civil | Unidades Vendidas (EUA) |
|---|---|
| 2008 | 14.457 |
| 2009 | 38.717 |
| 2010 | 34.227 |
| 2011 | 27.608 |
| 2012 | 30.236 |
| 2013 | 25.953 |
| 2014 | 23.822 |
| 2015 | 19.570 |
| 2016 | 22.588 |
| 2017 | 22.389 |
| 2018 | 20.308 |
| 2019 | 24.484 |
| 2020 | 4.848 (Estoque final) |
| Total Acumulado | ~309.207 |
A produção total do Flex superou ligeiramente as 300.000 unidades ao longo de 11 anos de fabricação. No Canadá, o modelo era menos popular, vendendo cerca de 2.000 a 3.000 unidades anuais em seus últimos anos.
Abaixo, detalhamos as pequenas mudanças que ocorreram em cada ano-modelo para manter o Flex atualizado.
Embora tenha sido projetado principalmente para o mercado dos EUA e Canadá, o Ford Flex teve uma presença internacional estratégica, sendo exportado para o México e o Oriente Médio.
No Oriente Médio, o Flex era posicionado como um veículo familiar de luxo para transporte no deserto e viagens longas entre cidades. As especificações eram geralmente similares às do modelo americano, mas com calibrações de ar-condicionado reforçadas para lidar com o clima extremo. Em países como os Emirados Árabes Unidos e Omã, o modelo foi vendido até 2019, mantendo o motor 3.5L V6 de 290 hp e o EcoBoost de 365 hp. No México, o Flex serviu como uma alternativa mais estilosa ao Ford Explorer, embora em volumes menores.
A Ford anunciou oficialmente o fim da produção do Flex em outubro de 2019. O último veículo saiu da linha de montagem em Oakville em novembro de 2019.
Vários fatores contribuíram para a aposentadoria do Flex após uma única geração de 11 anos:
Apesar de nunca ter sido um campeão de vendas, o Ford Flex deixou um legado de originalidade. Ele provou que era possível criar um crossover de sete lugares com um design polarizador que conquistasse um público extremamente leal. Proprietários de Flex costumam elogiar o silêncio a bordo, a visibilidade externa excelente (proporcionada pelas janelas grandes e teto plano) e a facilidade de entrada e saída comparada aos SUVs mais altos.
No mercado de usados, o Flex continua sendo uma opção popular para famílias que buscam versatilidade sem o visual de uma minivan, especialmente as versões equipadas com o motor EcoBoost, que são consideradas "sleepers" (carros que parecem lentos mas são muito rápidos).
O Ford Flex representou um momento único na história da Ford Motor Company. Ele foi o resultado de uma época em que a marca estava disposta a arriscar em designs não convencionais para se diferenciar de concorrentes como a Toyota e a Chevrolet. Com sua plataforma robusta, motores potentes e interior focado no passageiro, ele cumpriu sua missão de ser um "people mover" eficiente por mais de uma década.
Embora tenha sido descontinuado para dar lugar a modelos mais rentáveis e tecnologicamente avançados, a história do Flex serve como um lembrete de que a funcionalidade não precisa ser genérica. Ele permanece como um ícone do design industrial automotivo do início do século XXI, combinando nostalgia retrô com a engenharia moderna da plataforma D4.
Imagens do Ford Flex