Sob a pele futurista desenhada por Giugiaro, o Bora escondia uma mecânica que traçava
suas raízes diretamente à era dourada das corridas de sport-protótipos da Maserati.
O Motor V8: Linhagem e Especificações
O motor do Bora era uma evolução da família de motores V8 de alumínio da Maserati,
descendentes diretos do lendário 450S de corrida e do ultra-exclusivo 5000 GT. Giulio
Alfieri optou por montar o motor longitudinalmente (ao contrário do V12 transversal do
Miura ou do V6 do Dino), uma decisão que simplificava a ligação do câmbio e melhorava o
acesso para manutenção.
O bloco e os cabeçotes eram fundidos em liga leve de alumínio, com camisas de cilindro
úmidas em ferro fundido. O comando de válvulas era duplo no cabeçote (DOHC), acionado
por correntes, operando duas válvulas por cilindro. As válvulas de escape eram
preenchidas com sódio para auxiliar na dissipação de calor, uma tecnologia vital para
garantir a durabilidade em uso intenso.
A alimentação ficava a cargo de quatro carburadores Weber 42 DCNF verticais
(downdraught). Esta escolha foi crítica: enquanto carburadores horizontais poderiam ter
reduzido a altura do motor, os verticais ofereciam um fluxo de mistura melhor e resposta
de acelerador mais imediata, embora exigissem a elevação da tampa do motor.
Versões do Motor e Desempenho
O Bora foi oferecido com duas cilindradas durante sua vida útil. A transição e a
coexistência desses motores criaram uma complexa matriz de especificações, especialmente
quando se considera as diferenças entre os mercados europeu e norte-americano.
| Especificação Técnica |
Bora 4.7 (Europa) |
Bora 4.9 (EUA - Federalizado) |
Bora 4.9 (Europa - Padrão Tardio) |
| Código do Motor |
Tipo AM 107.07 |
Tipo AM 107.16 |
Tipo AM 107.16 |
| Período de Produção |
1971 – 1978 |
1973 – 1978 |
1976 – 1978 |
| Cilindrada |
4.719 cc |
4.930 cc |
4.930 cc |
| Diâmetro x Curso |
93,9 x 85 mm |
93,9 x 89 mm |
93,9 x 89 mm |
| Taxa de Compressão |
8.5:1 |
8.5:1 (reduzida para emissões) |
8.75:1 |
| Potência Máxima |
310 cv @ 6.000 rpm |
300 cv @ 6.000 rpm |
320 - 330 cv @ 5.500 rpm |
| Torque Máximo |
46,9 kgfm @ 4.200 rpm |
42,9 kgfm @ 3.500 rpm |
48,1 kgfm @ 4.000 rpm |
| Velocidade Máxima |
~270 km/h (168 mph) |
~265 km/h (estimada) |
~280 km/h (174 mph) |
A introdução do motor 4.9 litros nos EUA em 1973 foi uma medida compensatória. Os
equipamentos de controle de emissões (bombas de ar, recirculação de gases) sufocavam o
motor 4.7, reduzindo drasticamente sua potência. Ao aumentar o curso do pistão para
89mm, a Maserati recuperou o torque perdido, mantendo a dirigibilidade aceitável para o
mercado americano, mesmo com a potência nominal caindo para 300 cv. Na Europa, onde tais
restrições não existiam, o motor 4.9 livre de amarras produzia até 330 cv, tornando-se a
versão definitiva em termos de performance a partir de 1976.
Transmissão e Diferencial
A potência era transmitida às rodas traseiras através de uma caixa manual de cinco
velocidades ZF (ZF-1 DS-25/2). Esta transaxle, montada em balanço atrás do eixo
traseiro, era a mesma unidade robusta utilizada no Ford GT40 e no De Tomaso Pantera. Sua
durabilidade era lendária, capaz de lidar com torques muito superiores aos gerados pelo
V8 Maserati. O padrão de trocas era "Dog-leg" (primeira marcha para a esquerda e para
trás), priorizando o alinhamento das marchas 2ª e 3ª, e 4ª e 5ª, para condução esportiva
rápida. O diferencial traseiro era autoblocante, essencial para colocar a potência no
chão nas saídas de curva.
Chassi e Suspensão: A Busca pelo Refinamento
O chassi do Bora representou um salto tecnológico para a Maserati. Tratava-se de um
monobloco de aço estampado, fabricado em Módena pela Officine Padane. No entanto, a
verdadeira inovação estava na gestão de ruído e vibração (NVH).
Giulio Alfieri projetou um subchassi tubular traseiro que sustentava o motor, a
transmissão e a suspensão traseira. Este subchassi era isolado do monobloco principal
por quatro grandes coxins elásticos (bushings). Esta solução desacoplava efetivamente a
cabine das vibrações mecânicas de alta frequência e do ruído da estrada, criando um
ambiente interno notavelmente silencioso.
Além disso, o Bora foi o primeiro carro de estrada da Maserati a apresentar suspensão
independente nas quatro rodas, abandonando o eixo rígido traseiro que equipava o Ghibli
e o Indy. A configuração utilizava braços triangulares sobrepostos (double wishbones) de
comprimentos desiguais, molas helicoidais e amortecedores telescópicos em todas as
rodas, além de barras estabilizadoras dianteira e traseira. O resultado foi um carro que
absorvia irregularidades com uma competência surpreendente, evitando a dureza punitiva
típica dos supercarros da época.