O Contexto e a Gênese do Projeto
Em meados da década de 1960, o cenário dos supercarros estava em ebulição. A Lamborghini
havia chocado o mundo com o chassi de motor central do Miura, e a Ferrari dominava as
pistas e as estradas com seus V12. A Maserati, sob a liderança da família Orsi e com a
engenharia do lendário Giulio Alfieri, precisava de um sucessor para o 5000 GT e o
Mistral que reafirmasse sua posição no topo da hierarquia automotiva.
O projeto AM115 nasceu com um objetivo claro: criar o GT mais belo e rápido do mundo, mas
sem sacrificar o conforto, uma marca registrada do Tridente. Ao contrário da
Lamborghini, que buscava a performance extrema através do layout de motor
central-traseiro, a Maserati optou por uma configuração clássica de motor dianteiro e
tração traseira. Essa escolha permitiu um habitáculo mais espaçoso e um porta-malas
utilizável, essenciais para a clientela aristocrática e industrial que compunha a base
da marca.
Design: A Obra-Prima de Giugiaro
O design do Ghibli foi confiado à Carrozzeria Ghia, onde um jovem Giorgetto Giugiaro
estava começando a deixar sua marca indelével na história do design industrial.
Apresentado como protótipo no Salão do Automóvel de Turim de 1966, o carro causou
sensação imediata.
A estética do Ghibli AM115 é definida por suas proporções dramáticas. Giugiaro desenhou
um capô extraordinariamente longo e plano, que dominava a silhueta do carro. A linha do
teto fluía suavemente em um formato fastback até uma traseira truncada (estilo
Kamm-tail), que melhorava a aerodinâmica e conferia uma aparência de movimento mesmo
quando o carro estava parado. Com apenas 1,16 metros de altura, o Ghibli era um dos
carros mais baixos de sua época, exigindo que os ocupantes praticamente se deitassem em
seus assentos.
A frente era caracterizada por uma grade larga e baixa com o tridente flutuando ao
centro, e faróis escamoteáveis (pop-up) que mantinham a pureza das linhas quando
fechados. A ausência de para-choques proeminentes nos primeiros modelos acentuava a
limpeza do design, uma característica que seria comprometida em anos posteriores devido
às regulamentações de segurança norte-americanas.
Engenharia e Motorização
Sob o capô escultural residia uma evolução do motor de corrida que equipava o Maserati
450S, um dos carros esporte mais potentes da década de 1950.
O Motor V8
O coração do Ghibli era um V8 de 90 graus, construído inteiramente em liga leve de
alumínio.
- Distribuição: Quatro comandos de válvulas no cabeçote (DOHC),
acionados por corrente.
- Lubrificação: Cárter seco. Esta foi uma decisão crucial de
engenharia. Ao eliminar o reservatório de óleo profundo na parte inferior do motor e
armazenar o óleo em um tanque separado, o motor pôde ser montado muito mais baixo no
chassi. Isso não apenas baixou o centro de gravidade, melhorando a estabilidade, mas
também permitiu a linha de capô extremamente baixa desenhada por Giugiaro.
- Alimentação: Quatro carburadores Weber 42 DCNF de corpo duplo.
O Chassi
O chassi era uma estrutura tubular de aço, robusta mas convencional. A suspensão
dianteira era independente com braços duplos e molas helicoidais. Na traseira, a
Maserati optou por um eixo rígido com feixe de molas, assistido por uma barra
anti-rolagem e braços de reação. Embora criticado por alguns jornalistas da época como
"agrícola" em comparação com a suspensão independente do Jaguar E-Type, o eixo traseiro
do Ghibli era excepcionalmente bem localizado e oferecia uma estabilidade direcional
superior em altas velocidades de cruzeiro, condizente com sua missão de GT.
Versões e Evolução do Modelo (AM115)
Ghibli 4.7 (1967–1970)
A versão de lançamento vinha equipada com o V8 de 4.719 cc.
- Potência: 310 cv (algumas fontes citam 330 cv SAE).
- Torque: Robusto e disponível em baixas rotações, permitindo uma
condução relaxada.
- Transmissão: Manual de 5 velocidades da ZF (padrão) ou automática
de 3 velocidades da BorgWarner (opcional, raramente escolhida na Europa).
- Detalhes: Os primeiros modelos apresentavam ignição dupla (duas
velas por cilindro), um recurso caro e complexo derivado das corridas, que foi
substituído por uma ignição simples em modelos posteriores para facilitar a
manutenção. O painel de instrumentos utilizava medidores da marca Smiths e
interruptores do tipo alavanca ("toggle switches").
Ghibli SS 4.9 (1969–1973)
Em resposta às novas normas de emissões nos EUA que sufocavam a potência, e para combater
rivais cada vez mais rápidos, a Maserati lançou o Ghibli SS (Tipo AM115/49).
- Motor: O curso dos pistões foi aumentado em 4mm, elevando a
cilindrada para 4.930 cc.
- Potência: 335 cv a 5.500 rpm.
- Performance: A velocidade máxima subiu para a casa dos 280 km/h,
tornando o Ghibli SS o Maserati de estrada mais rápido até então.
- Identificação: Externamente, era quase idêntico ao 4.7,
distinguível apenas pelo emblema "SS" na tampa do porta-malas (embora muitos
proprietários de 4.7 tenham adicionado o emblema posteriormente). Internamente, o
painel foi atualizado para acomodar novas normas de segurança, com interruptores do
tipo "rocker" (basculantes) substituindo as alavancas metálicas, e uma coluna de
direção colapsável.
Ghibli Spyder (1969–1973)
Talvez a variante mais desejável, o Spyder foi lançado dois anos após o cupê. A conversão
exigiu reforços estruturais significativos no chassi para compensar a perda do teto.
- Design: A capota de lona dobrava-se perfeitamente sob uma cobertura
de metal rígida (tonneau cover) na cor da carroceria, mantendo a linha de cintura
limpa. Um hardtop (teto rígido removível) de fábrica estava disponível como opcional
raro, transformando o carro em um cupê para o inverno.
- Mecânica: Disponível tanto na versão 4.7 quanto na 4.9 SS.
- Raridade: A produção foi extremamente limitada devido ao alto custo
e à complexidade de fabricação.
Dados de Produção e Identificação
A produção total da primeira geração do Ghibli superou a de seus rivais diretos, o
Ferrari 365 GTB/4 "Daytona" e o Lamborghini Miura, provando o acerto da fórmula de "luxo
utilizável".
| Modelo |
Período |
Unidades Produzidas |
Notas de Chassi |
| Ghibli Coupé (Total) |
1967–1973 |
1.170 |
Chassis pares (ex: AM115.1002). |
| Ghibli Spyder (Total) |
1969–1973 |
125 |
Chassis ímpares (ex: AM115S.1001). |
| -- Spyder 4.7 |
|
~80 |
Estimativa. |
| -- Spyder SS 4.9 |
|
~45 |
Uma das variantes mais raras. |
| Total Geral |
|
~1.295 |
|
Nota Importante para Colecionadores: A distinção entre números de chassi
pares (Coupé) e ímpares (Spyder) é crucial. Estima-se que cerca de 50 Coupés tenham sido
cortados e transformados em conversíveis por oficinas independentes ao longo das
décadas. Um chassi par em um carro aberto indica uma conversão, que vale
significativamente menos que um Spyder original de fábrica.