M145
(2010 - 2017)
Ficha técnica, versões e história do Maserati GranCabrio.
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(2010 - 2017)
(2018 - 2020)
(2024-)
O Maserati GranCabrio não é apenas um modelo isolado na linha do tempo da fabricante de Modena; ele representa a culminação de uma estratégia de reposicionamento de marca iniciada sob a gestão da Ferrari e consolidada dentro do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Lançado mundialmente no Salão do Automóvel de Frankfurt em 2009 e entrando em produção em 2010, o GranCabrio — conhecido como GranTurismo Convertible no mercado norte-americano — foi projetado para preencher uma lacuna crítica no portfólio da Maserati: a ausência de um verdadeiro conversível de quatro lugares (full four-seater).
Historicamente, a Maserati oferecia o modelo Spyder (baseado no Coupé 4200 GT), que era estritamente um carro de dois lugares com entre-eixos curto. O mercado de luxo, no entanto, demandava um veículo que pudesse transportar quatro adultos com conforto, competindo diretamente com os conversíveis de alto luxo britânicos e alemães. O GranCabrio foi a resposta a essa demanda, mantendo a filosofia de Grand Tourer (GT) que prioriza a capacidade de cruzar continentes em alta velocidade e conforto absoluto, em detrimento da performance pura de pista.
Este relatório detalha a trajetória técnica e comercial deste ícone, desde a sua concepção pela Pininfarina, passando pela era dourada dos motores V8 aspirados, até o renascimento tecnológico da segunda geração com motores V6 biturbo e a revolucionária variante elétrica Folgore.
A primeira geração do GranCabrio, designada internamente pelo código M145, é amplamente celebrada como uma das obras mais puras do design automotivo do século XXI. O projeto foi liderado pelo estúdio Pininfarina, com direção criativa de Jason Castriota e Lowie Vermeersch. O desafio central era transformar o cupê GranTurismo em um conversível sem destruir a harmonia das linhas ou comprometer a rigidez torcional, um problema comum ao remover o teto fixo de um monobloco.
A solução adotada foi a manutenção de um entre-eixos longo de 2.942 mm, o maior da categoria na época. Isso permitiu que os designers criassem uma silhueta fluida, onde a capota de lona (soft-top) se integrava organicamente à traseira, evitando a necessidade de uma "corcunda" volumosa para abrigar um teto rígido retrátil. A escolha pela capota de lona não foi apenas estética, mas técnica: ela pesava menos e ocupava um volume menor no porta-malas quando recolhida, além de manter o centro de gravidade mais baixo em comparação com mecanismos de teto metálico.
No entanto, a engenharia de um conversível de tais dimensões exigiu reforços estruturais massivos no assoalho e nas soleiras para evitar a torção do chassi em curvas. O resultado foi um aumento significativo de peso. O GranCabrio registrava um peso em ordem de marcha (curb weight) variando entre 1.880 kg e 1.980 kg, dependendo da versão, o que representava um acréscimo de aproximadamente 100 kg em relação ao cupê. A distribuição de peso foi meticulosamente ajustada para mitigar esse aumento, alcançando um equilíbrio de 49% no eixo dianteiro e 51% no traseiro com a capota fechada (alterando-se para 48/52 com a capota aberta), uma configuração ideal para tração traseira que privilegiava a motricidade na saída de curvas.
O coração da experiência do GranCabrio M145 é o motor V8 da família F136, desenvolvido em parceria técnica com a Ferrari e produzido em Maranello. Este propulsor é frequentemente citado por especialistas como um dos motores de melhor sonoridade na história automotiva, uma característica intencionalmente projetada pelos engenheiros acústicos da Maserati.
Diferentemente dos V8 utilizados pela Ferrari (que empregavam virabrequim plano para atingir rotações estratosféricas), a versão da Maserati utilizava um virabrequim de plano cruzado (cross-plane). Essa configuração equilibra as forças de inércia de segunda ordem, resultando em um funcionamento mais suave e com menos vibrações — ideal para um GT de luxo — e produzindo aquele ronco grave e profundo característico, que se transforma em um uivo metálico próximo ao limitador de 7.500 rpm.
A evolução deste motor no GranCabrio seguiu três fases distintas:
Um ponto crucial de análise técnica, frequentemente mal compreendido, diz respeito à transmissão. O cupê GranTurismo ofereceu, em suas versões mais esportivas, uma caixa manual robotizada de embreagem simples montada no eixo traseiro (transaxle), conhecida comercialmente como "MC Shift". Esta caixa era famosa por trocas brutais de 60 milissegundos.
No entanto, para o GranCabrio, a Maserati optou quase exclusivamente pela transmissão automática convencional ZF 6HP26 de 6 velocidades com conversor de torque. A razão era pragmática: o cliente do conversível valorizava o conforto e a suavidade em baixas velocidades, algo que a caixa robotizada não conseguia oferecer sem trancos. Para compensar a perda de esportividade, a Maserati desenvolveu o software MC Auto Shift.
Este software, presente nas versões Sport e MC do GranCabrio, alterava drasticamente o comportamento do conversor de torque. No modo "Manual-Sport", a caixa ZF era capaz de segurar a marcha no limitador de giros sem trocar automaticamente, realizava blips (ponta-taco eletrônico) nas reduções para equalizar a rotação e reduzia os tempos de troca em até 50%. Portanto, embora o marketing utilizasse a sigla MC, a mecânica subjacente era a confiável caixa ZF montada logo atrás do motor, e não o sistema transaxle robotizado.
A longevidade da primeira geração, que permaneceu em produção por quase uma década, exigiu atualizações constantes para manter o modelo competitivo.
A versão inaugural focava puramente na elegância. Era equipada com a suspensão ativa Skyhook como padrão, calibrada para absorver irregularidades do asfalto. Visualmente, distinguia-se pelos para-choques com entradas de ar menores e saídas de escape ovais duplas. O desempenho era competente, mas contido, com 0-100 km/h na casa dos 5,3 segundos.
Apresentada no Salão de Genebra de 2011, esta versão injetou agressividade visual e dinâmica.
A versão definitiva e mais extrema. Inspirada no sucesso do GranTurismo MC Stradale, o GranCabrio MC trouxe a estética de pista para as ruas.
A Maserati utilizou séries limitadas para manter o apelo do modelo e celebrar marcos históricos. Estas versões são hoje as mais valorizadas por colecionadores.
Uma colaboração de luxo com a casa de moda italiana Fendi.
Criada para celebrar os 100 anos da marca (1914-2014), esta edição é considerada o "santo graal" dos GranCabrios.
A análise dos números de produção revela a exclusividade do GranCabrio frente ao seu irmão cupê. Durante o ciclo de vida de 12 anos (2007-2019 para a família completa), a fábrica de Modena produziu um total de 40.520 unidades da plataforma M145.
Tabela 1: Breakdown de Produção (2007–2019)
| Modelo | Unidades Produzidas | % do Total |
|---|---|---|
| GranTurismo (Cupê - Todas as versões) | 28.805 | 71,1% |
| GranCabrio (Conversível - Total) | 11.715 | 28,9% |
| Total Geral | 40.520 | 100% |
Fonte: Consolidação de dados oficiais e relatórios de final de produção.
Insight de Mercado: Com menos de 12.000 unidades produzidas mundialmente ao longo de uma década, o GranCabrio mantém uma média de produção anual de cerca de 1.100 carros. Isso garante uma exclusividade natural. As versões mais raras, como a Centennial Edition e a Fendi, representam frações minúsculas desse total, com produções na casa das dezenas, o que sustenta valores de revenda elevados no mercado de colecionáveis.
A produção foi oficialmente encerrada em dezembro de 2019, marcando o fim da era V8 aspirado na linha GT da Maserati. A fábrica de Viale Ciro Menotti entrou então em um período de reforma para a produção do MC20.
Após um hiato de quatro anos, o GranCabrio retornou ao mercado em 2024. A nova geração, embora visualmente evolutiva, representa uma ruptura total em termos de engenharia. O modelo abandonou o V8 aspirado em favor de soluções mais eficientes e introduziu a eletrificação total.
A nova geração utiliza uma plataforma multienergia, projetada desde o início para acomodar tanto trens de força a combustão quanto elétricos sem comprometer o espaço interno ou o design. A estrutura utiliza extensivamente alumínio e magnésio para conter o peso, embora as dimensões tenham crescido ligeiramente para melhorar a habitabilidade.
A capota de lona foi aprimorada tecnologicamente: agora opera em velocidades de até 50 km/h e completa a abertura em apenas 14 segundos. O isolamento térmico e acústico foi reforçado, e o sistema de aquecimento de pescoço (neck warmer) tornou-se item de série, soprando ar quente diretamente da base do encosto de cabeça para permitir o uso conversível em dias frios.
A versão a combustão principal, denominada Trofeo, adota o motor V6 biturbo "Nettuno", estreado no supercarro MC20. Este motor é uma vitrine tecnológica da Maserati, incorporando sistemas derivados da Fórmula 1.
A variante Folgore coloca a Maserati em uma posição única no mercado: é o primeiro conversível de luxo totalmente elétrico disponível globalmente.
Tabela 2: Comparativo Técnico da Geração M189 (2024)
| Característica | GranCabrio Trofeo | GranCabrio Folgore |
|---|---|---|
| Motorização | 3.0L V6 Biturbo (Nettuno) | 3 Motores Elétricos (Radial) |
| Potência Máxima | 542 cv | 761 cv (818 cv Boost) |
| Torque Máximo | 650 Nm | 1.350 Nm |
| 0-100 km/h | 3,6 s | 2,8 s |
| Velocidade Máxima | 316 km/h | 290 km/h |
| Peso (Ordem de Marcha) | ~1.958 kg | ~2.340 kg |
| Autonomia (WLTP) | N/A | 419 - 447 km |
| Tração | AWD (Mecânica) | AWD (Vetorização Elétrica) |
Fonte: Dados técnicos oficiais consolidados
A Maserati possui uma presença de nicho no Brasil, representada oficialmente pelo grupo Via Itália. O GranCabrio, devido ao seu preço e configuração específica, sempre foi um veículo de volume extremamente baixo no país.
A trajetória do Maserati GranCabrio ilustra a evolução do conceito de luxo automotivo. A Primeira Geração (2010-2019) garantiu seu lugar na história como um dos últimos guardiões da experiência analógica: motor aspirado de grande cilindrada, som operístico e design Pininfarina atemporal. É um carro que apela para a emoção pura e cujo valor colecionável tende a crescer à medida que a indústria se afasta da combustão interna.
A Segunda Geração (2024-) marca a adaptação da Maserati aos novos tempos. Ao oferecer tanto o estado da arte da combustão (V6 Nettuno) quanto a vanguarda da eletrificação (Folgore) em uma mesma carroceria sedutora, a marca prova que é possível manter a alma do Grand Tourer viva, independentemente da fonte de energia. O GranCabrio deixa de ser apenas um belo carro italiano para se tornar uma vitrine tecnológica de alta performance.