A primeira geração do GranTurismo é uma das mais longevas na história dos carros
esportivos modernos, permanecendo em produção por 12 anos. Sua persistência no mercado
não foi apenas um sinal de restrições orçamentárias da FCA (Fiat Chrysler Automobiles),
mas um testemunho da intemporalidade do seu design e do carisma do seu conjunto
mecânico.
Design e Estética: A Obra-Prima de Pininfarina
O design do GranTurismo M145 foi confiado ao estúdio Pininfarina, sob a direção criativa
do designer americano Jason Castriota. A instrução era clara: criar um verdadeiro quatro
lugares (um 2+2 real, capaz de acomodar quatro adultos confortavelmente),
distinguindo-se de rivais como o Porsche 911 ou o Jaguar XK, que ofereciam bancos
traseiros meramente simbólicos.
O resultado visual foi uma masterclass em proporção. O carro era grande — 4.881 mm de
comprimento e 2.942 mm de entre-eixos — mas as linhas camuflavam sua massa. A frente era
dominada por uma grade oval agressiva com o tridente côncavo, uma referência direta aos
carros de corrida da década de 1950. A silhueta lateral fluía organicamente, com uma
linha de cintura que subia sobre as rodas traseiras para criar "ombros" musculosos,
evocando potência e estabilidade.
Um detalhe crucial do design foi a influência do carro-conceito "Birdcage 75th". A
fluidez das linhas dos para-lamas dianteiros e a forma como o capô mergulhava em direção
à grade foram elementos herdados diretamente deste conceito, conferindo ao GranTurismo
uma elegância que envelheceu graciosamente, resistindo às tendências efêmeras de design
automotivo.
Engenharia Mecânica: Chassi e Suspensão
Construído sobre a plataforma M139 (uma evolução encurtada da plataforma do sedã
Quattroporte V), o GranTurismo utilizava uma estrutura monobloco de aço. Embora mais
pesado que estruturas de alumínio usadas pela Ferrari ou Audi, o aço oferecia a rigidez
torcional necessária para o conforto de um GT e a segurança passiva.
A distribuição de peso foi um ponto de obsessão para os engenheiros. Para combater a
tendência de subviragem típica de carros com motor dianteiro, a Maserati empurrou o
motor V8 para trás do eixo dianteiro, configurando um layout "front-mid engine" (motor
central-dianteiro).
- Distribuição Inicial: Nas versões com câmbio automático
convencional, a distribuição era de 49% no eixo dianteiro e 51% no traseiro.
- Layout Transaxle: Nas versões mais esportivas (S e MC Stradale
iniciais), a caixa de câmbio foi movida para o eixo traseiro, em bloco com o
diferencial. Isso alterou a distribuição para 47% na frente e 53% atrás, um
equilíbrio tipicamente associado a carros de motor central-traseiro, garantindo uma
tração excepcional na saída de curvas.
A suspensão utilizava braços duplos triangulares (double wishbones) nas quatro rodas, com
sistema "anti-dive" (anti-mergulho) na frente e "anti-squat" (anti-agachamento) atrás,
garantindo que a carroceria se mantivesse nivelada sob aceleração e frenagem fortes. O
sistema de amortecimento adaptativo Skyhook, padrão em muitas versões e opcional em
outras, utilizava sensores para ajustar a rigidez dos amortecedores continuamente,
priorizando o conforto em modo normal e a rigidez em modo Sport.
O Coração da Lenda: A Família de Motores F136
O elemento definidor da experiência do GranTurismo M145 foi o motor V8 naturalmente
aspirado da família F136, desenvolvido em conjunto pela Ferrari e Maserati e produzido
na fábrica da Ferrari em Maranello.
Ao contrário dos motores F136 usados pela Ferrari (como no F430 e 458), que utilizavam um
virabrequim plano (flat-plane crank) para atingir rotações estratosféricas e potência
máxima em detrimento do torque em baixa, a Maserati optou por um virabrequim cruzado
(cross-plane crank).
Por que Virabrequim Cruzado?
Esta escolha de engenharia foi fundamental para o caráter do carro. O virabrequim cruzado
gera um intervalo de ignição desigual entre as bancadas de cilindros, o que resulta em
duas características principais:
- Vibração Secundária Reduzida: Tornando o motor mais suave e luxuoso
para viagens longas.
- Assinatura Sonora: O som produzido é grave, profundo e gutural em
baixas rotações, transformando-se em um uivo mecânico em alta. É amplamente
considerado um dos melhores sons de motor de produção da história.
Houve duas variantes principais deste motor ao longo da vida do modelo:
- F136 U (4.2 Litros): 4.244 cc, cárter seco, entregando 405 cv e 460
Nm.
- F136 Y (4.7 Litros): 4.691 cc, cárter úmido (em algumas versões) ou
seco, entregando entre 440 cv e 460 cv dependendo da especificação.