1ª Geração
(2016 - 2024)
Ficha técnica, versões e história do Maserati Levante.
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A indústria automobilística global testemunhou, na segunda década do século XXI, uma transformação paradigmática no segmento de luxo. A hegemonia dos sedãs executivos e dos cupês de alto desempenho foi desafiada pela ascensão inexorável dos Utilitários Esportivos (SUVs). Para fabricantes com um legado centenário enraizado nas pistas de corrida, como a Maserati, essa mudança representou um dilema existencial: como integrar a praticidade robusta de um SUV com a elegância e a dinâmica de condução exigidas pelo emblema do Tridente? A resposta a essa questão estratégica materializou-se no Maserati Levante.
Este relatório oferece uma análise exaustiva e direta sobre a trajetória do Levante, desde suas origens conceituais controversas até o encerramento de sua produção em 2024. Examinamos a engenharia por trás do chassi M161, a evolução das motorizações produzidas pela Ferrari, as nuances de cada atualização de ano-modelo (MY) e o desempenho comercial que definiu a saúde financeira da marca durante quase uma década.
A jornada para o lançamento do primeiro SUV da Maserati foi longa e marcada por mudanças corporativas significativas. A ideia não surgiu em 2016, mas sim treze anos antes, manifestando-se em dois conceitos distintos, ambos batizados de "Kubang", que refletem momentos geopolíticos diferentes da empresa.
A primeira incursão da Maserati no universo dos utilitários ocorreu em 2003, no Salão do Automóvel de Detroit. Desenhado pelo lendário Giorgetto Giugiaro, o conceito Kubang GT Wagon era uma visão vanguardista que tentava fundir a perua esportiva com o SUV.
Nesta época, a Maserati operava sob uma esfera de influência que buscava sinergias com o Grupo Volkswagen/Audi. O conceito foi projetado sobre a base técnica do Audi A8, com a previsão de utilizar o sistema de tração Quattro e um motor V8 de 368 cv derivado do Maserati 3200 GT. O projeto, no entanto, foi vítima de negociações corporativas falhas; o acordo com a Audi não se concretizou e o Kubang GT Wagon permaneceu apenas como um estudo de design, deixando a Maserati fora da primeira onda de SUVs de luxo que consagrou o Porsche Cayenne.
O sonho foi reavivado em 2011, no Salão de Frankfurt, sob a nova gestão do grupo Fiat-Chrysler (FCA). Este segundo conceito, também chamado Kubang, tinha uma proposta técnica radicalmente diferente: utilizava a plataforma do Jeep Grand Cherokee como base. A lógica era aproveitar a economia de escala do grupo americano para viabilizar o produto italiano. O design já antecipava as linhas do Levante final, com uma grade dianteira agressiva e uma postura muscular.
Entre 2011 e 2015, a direção da Maserati tomou uma decisão crucial que definiria o caráter do veículo. Para garantir que o SUV se comportasse como um verdadeiro Maserati e não como um Jeep rebatizado, a engenharia descartou a plataforma americana. Optou-se por desenvolver o Levante sobre a arquitetura dos sedãs Ghibli e Quattroporte VI. Essa escolha técnica permitiu priorizar a tração traseira e o comportamento dinâmico esportivo, distanciando o Levante de seus concorrentes mais utilitários.
O nome "Kubang" foi abandonado em favor de Levante, inspirado em um vento quente do Mediterrâneo capaz de mudar de brisa suave para vendaval em instantes — uma metáfora direta para a dualidade de comportamento pretendida para o carro.
O Maserati Levante (código interno M161) foi produzido exclusivamente na fábrica de Mirafiori, em Turim, Itália. A sua construção reflete um compromisso com a performance em asfalto, diferenciando-se da maioria dos SUVs que priorizam o espaço ou a capacidade off-road extrema.
A utilização da plataforma dos sedãs (M156) adaptada para o SUV conferiu ao Levante características raras no segmento:
Diferentemente do Ghibli, que utilizava molas de aço convencionais, o Levante foi equipado de série em todas as versões com um sistema de suspensão a ar (molas pneumáticas) combinado com amortecedores eletrônicos variáveis Skyhook.
Este sistema permite a variação da altura de rodagem em seis níveis diferentes, adaptando o carro para múltiplas situações:
A suspensão dianteira utiliza um esquema de braços duplos (double-wishbone), típico de carros de corrida, enquanto a traseira emprega um sistema Multi-link de cinco braços, garantindo o controle preciso das rodas em superfícies irregulares.
A Maserati equipou o Levante com o sistema de tração inteligente Q4, projetado para oferecer a sensação de um carro de tração traseira, mas com a segurança da tração integral.
| Condição de Condução | Distribuição de Torque (Dianteira/Traseira) | Comportamento Dinâmico |
|---|---|---|
| Cruzeiro / Piso Seco | 0% / 100% | O motor envia toda a força para as rodas traseiras, economizando combustível e mantendo a pureza da direção esportiva. |
| Perda de Aderência | Até 50% / 50% | Em apenas 150 milissegundos, o sistema detecta deslizamento e transfere até metade da força para o eixo dianteiro. |
O sistema Q4 trabalha em conjunto com um Diferencial Traseiro de Deslizamento Limitado (LSD) mecânico, que assegura a tração mesmo em curvas fechadas sob forte aceleração. Esse foco na mecânica tradicional, em vez de depender apenas de freios eletrônicos para simular um diferencial, é uma marca registrada da engenharia da Maserati.
Ao longo de seus oito anos de produção, o Levante foi impulsionado por quatro famílias de motores distintas. A grande maioria dessas unidades foi projetada em Modena e fabricada pela Ferrari em Maranello, um ponto de venda crucial para a exclusividade do modelo.
O motor mais popular do Levante é o V6 de 3.0 litros, bi-turbo, com injeção direta de combustível (GDI). Este motor foi desenvolvido pela Maserati Powertrain e produzido pela Ferrari.
Uma característica notável deste motor é o sistema de escape ativo. No modo "Sport", válvulas pneumáticas no escapamento se abrem, contornando os silenciadores para produzir o ronco agudo e metálico característico da marca.
Introduzido em 2018 para competir com os "super SUVs" como o Lamborghini Urus, este motor V8 de 3.8 litros é derivado da unidade usada no Ferrari California T e no Maserati Quattroporte GTS.
No lançamento em 2016, o mercado europeu ainda demandava motores a diesel. A Maserati utilizou um V6 de 3.0 litros fornecido pela VM Motori.
Com o declínio do diesel e o aperto nas normas de emissões, a Maserati introduziu em 2021 o Levante Hybrid.
Embora pertença a uma única geração, o Levante foi submetido a um processo de melhoria contínua. Analisar as mudanças ano a ano é fundamental para entender a maturação do produto no mercado de usados.
O Levante chegou ao mercado com a missão de dobrar as vendas da marca. As primeiras unidades foram criticadas pela mídia especializada por alguns materiais de interior que pareciam compartilhados com marcas generalistas do grupo Chrysler (como botões de vidro elétrico e a tela multimídia antiga). No entanto, a dinâmica de condução foi universalmente elogiada.
Brasil: O lançamento ocorreu no Salão do Automóvel de São Paulo em 2016, com preços iniciando em R$ 640.000 para a versão de entrada e chegando a R$ 740.000 para a versão S.
A primeira grande atualização técnica ocorreu em 2018.
O ano-modelo 2019 trouxe refinamentos no interior para responder às críticas sobre a qualidade percebida.
Em 2021, o Levante recebeu sua atualização estética mais significativa.
Para marcar o encerramento da produção, a Maserati simplificou a gama em duas versões principais, sob a nomenclatura "Ultima", carregadas de equipamentos que antes eram opcionais.
A Maserati utilizou edições limitadas para manter o frescor do modelo e atrair colecionadores.
Limitada a 100 unidades globais, esta edição marcou a estreia do motor V8. Caracterizava-se pela pintura exclusiva fosca Blu Emozione Matte, rodas de 22 polegadas Orione e interior com costuras contrastantes na cor da carroceria. O interior trazia uma placa numerada "One of 100" no console central.
Uma série limitada a 150 unidades exclusivas para a Europa e Ásia. Disponível apenas na cor Grigio Lava (cinza fosco), com o pacote "Nerissimo" que escurecia todos os cromados (grade, escapamento, molduras das janelas). As pinças de freio eram vermelhas e o interior apresentava fibra de carbono de alto brilho e bancos em couro vermelho.
Homenagem ao ultrararo Quattroporte Royale de 1986. A produção foi restrita a 100 unidades (divididas entre Levante, Ghibli e Quattroporte).
Diferencial: Disponível em duas cores exclusivas (Blu Royale e Verde Royale). O interior estreou o material Zegna PELLETESSUTA™, um tecido inovador feito de tiras finas de couro Nappa entrelaçadas como fios de lã, oferecendo uma textura tátil única e luxuosa.
Uma homenagem à história de corridas da marca e ao piloto Juan Manuel Fangio (o "F" do nome).
Cores: Rosso Tributo (Vermelho) e Azzurro Tributo (Azul). O vermelho simboliza as cores das corridas italianas, enquanto o azul remete à bandeira da cidade de Modena.
Detalhes: As rodas e as pinças de freio receberam acabamento em amarelo, uma referência às cores da frente do Maserati 250F que Fangio pilotou na Fórmula 1.
O Brasil recebeu o Levante em um momento de expansão do mercado de luxo, embora a volatilidade cambial tenha afetado seus preços.
No lançamento em 2016, a Maserati (representada pela importadora Via Itália) trouxe duas versões do V6:
Esses valores colocavam o Levante acima das versões de entrada do Porsche Cayenne, posicionando-o como um produto de nicho mais exclusivo.
A análise dos preços ao longo dos anos mostra a valorização das versões mais potentes e o impacto do câmbio.
De acordo com dados de mercado (Fipe e Webmotors) referenciados na pesquisa:
Os números de produção do Levante contam a história de um sucesso inicial fulgurante seguido por um declínio gradual, típico de modelos que permanecem muito tempo no mercado sem renovação total.
O Levante foi o motor de crescimento da Maserati. Antes dele, a marca vendia volumes modestos.
O encerramento da produção foi abrupto e marcado por uma crise na fábrica de Mirafiori. Em 2024, a produção total da fábrica (incluindo os últimos Levante e os novos GranTurismo) despencou para apenas 2.250 unidades, uma queda de 74% em relação a 2023. A Stellantis, controladora da marca, interrompeu a produção do Levante no primeiro trimestre de 2024, sem um sucessor direto imediato na linha de montagem, gerando greves e incertezas trabalhistas na região de Turim.
A produção total estimada do Levante ao longo de seus 8 anos de vida gira em torno de 100.000 a 110.000 unidades, consolidando-o como um dos Maseratis mais produzidos da história, apesar do final melancólico.
O Maserati Levante foi muito mais do que apenas um produto; foi uma ferramenta de sobrevivência. Ele provou que a marca do Tridente poderia sair de seu nicho de carros esportivos e competir em um mercado global de massa sem perder sua alma italiana.
Pontos Fortes do Legado:
O Futuro:
Com o fim do Levante, a Maserati deixa temporariamente o segmento de SUVs grandes (E-UV). O bastão foi passado para o Maserati Grecale, um SUV menor (D-UV) lançado em 2022, que agora carrega a responsabilidade de volume da marca. Um sucessor direto do Levante, provavelmente totalmente elétrico (Folgore), está nos planos futuros da marca, mas o Levante original permanecerá na história como o último de sua espécie: um SUV grande, movido a gasolina, com coração de Ferrari e alma de GT.
Imagens do Maserati Levante