A jornada para o lançamento do primeiro SUV da Maserati foi longa e marcada por mudanças
corporativas significativas. A ideia não surgiu em 2016, mas sim treze anos antes,
manifestando-se em dois conceitos distintos, ambos batizados de "Kubang", que refletem
momentos geopolíticos diferentes da empresa.
O Primeiro Conceito: Kubang GT Wagon (2003)
A primeira incursão da Maserati no universo dos utilitários ocorreu em 2003, no Salão do
Automóvel de Detroit. Desenhado pelo lendário Giorgetto Giugiaro, o conceito Kubang GT
Wagon era uma visão vanguardista que tentava fundir a perua esportiva com o SUV.
Nesta época, a Maserati operava sob uma esfera de influência que buscava sinergias com o
Grupo Volkswagen/Audi. O conceito foi projetado sobre a base técnica do Audi A8, com a
previsão de utilizar o sistema de tração Quattro e um motor V8 de 368 cv derivado do
Maserati 3200 GT. O projeto, no entanto, foi vítima de negociações corporativas falhas;
o acordo com a Audi não se concretizou e o Kubang GT Wagon permaneceu apenas como um
estudo de design, deixando a Maserati fora da primeira onda de SUVs de luxo que
consagrou o Porsche Cayenne.
O Segundo Conceito: Kubang (2011)
O sonho foi reavivado em 2011, no Salão de Frankfurt, sob a nova gestão do grupo
Fiat-Chrysler (FCA). Este segundo conceito, também chamado Kubang, tinha uma proposta
técnica radicalmente diferente: utilizava a plataforma do Jeep Grand Cherokee como base.
A lógica era aproveitar a economia de escala do grupo americano para viabilizar o
produto italiano. O design já antecipava as linhas do Levante final, com uma grade
dianteira agressiva e uma postura muscular.
A Decisão Final: Uma Plataforma Italiana
Entre 2011 e 2015, a direção da Maserati tomou uma decisão crucial que definiria o
caráter do veículo. Para garantir que o SUV se comportasse como um verdadeiro Maserati e
não como um Jeep rebatizado, a engenharia descartou a plataforma americana. Optou-se por
desenvolver o Levante sobre a arquitetura dos sedãs Ghibli e Quattroporte VI. Essa
escolha técnica permitiu priorizar a tração traseira e o comportamento dinâmico
esportivo, distanciando o Levante de seus concorrentes mais utilitários.
O nome "Kubang" foi abandonado em favor de Levante, inspirado em um vento quente do
Mediterrâneo capaz de mudar de brisa suave para vendaval em instantes — uma metáfora
direta para a dualidade de comportamento pretendida para o carro.