A engenharia do Merak é um estudo de caso fascinante sobre como adaptar componentes
existentes para criar um produto novo e distinto. A fusão de tecnologias italianas e
francesas define a identidade mecânica deste veículo.
O Motor V6 Tipo C.114
O coração do Merak é o motor V6 a 90°, conhecido internamente como Tipo C.114. A história
deste motor é complexa: ele foi desenhado por Giulio Alfieri, engenheiro-chefe da
Maserati, sob encomenda da Citroën para o modelo SM.
Arquitetura Incomum: A maioria dos motores V6 utiliza um ângulo de 60
graus entre as bancadas de cilindros para garantir um equilíbrio natural de vibrações. O
motor do Merak, contudo, possui um ângulo de 90 graus. A razão para isso é pragmática:
este motor foi desenvolvido cortando-se dois cilindros do V8 existente da Maserati
(usado no Indy e no Bora). Isso permitiu à Maserati utilizar o mesmo ferramental de
usinagem, reduzindo drasticamente os custos de capital.
Especificações Detalhadas:
- Deslocamento: Para o uso no Merak, a cilindrada foi aumentada de
2.7 litros (do SM) para 3.0 litros (2.965 cc).
- Dimensões: O diâmetro dos cilindros (bore) foi ampliado para 91,6
mm, mantendo o curso (stroke) de 75 mm.
- Distribuição: O motor é inteiramente de liga leve, com duplo
comando de válvulas no cabeçote (quad-cam) acionados por correntes.
- Alimentação: A mistura ar-combustível era fornecida por três
carburadores Weber de corpo duplo, especificamente o modelo 42 DCNF.
- Potência: Na sua configuração inicial, o motor entregava 190 cv
(187 hp) a 6.000 rpm e 255 Nm de torque a 4.000 rpm.
A escolha deste motor não foi apenas econômica; a sua compacidade longitudinal foi o
fator chave que permitiu à Maserati adicionar dois pequenos bancos traseiros, criando a
configuração 2+2 que diferenciava o Merak do Bora.
A Influência Hidráulica da Citroën
Durante a fase inicial de produção (1972-1975), o Merak incorporou profundamente a
tecnologia hidropneumática da sua empresa-mãe. Diferente dos sistemas convencionais, o
Merak utilizava um sistema de alta pressão centralizado, alimentado por uma bomba
acionada pelo motor e utilizando o fluido verde LHM (Liquide Hydraulique Minéral).
Este sistema controlava três funções principais:
- Sistema de Frenagem: Os freios eram assistidos hidraulicamente,
proporcionando uma força de paragem imensa com muito pouco esforço no pedal. O
sistema era conhecido pela sua resposta imediata, quase binária, que exigia
habituação por parte do condutor. Os freios traseiros eram montados "inboard" (junto
ao diferencial) para reduzir a massa não suspensa.
- Faróis Escamoteáveis: O levantamento dos faróis pop-up era operado
hidraulicamente, ao contrário dos motores elétricos usados pela maioria dos
concorrentes.
- Embreagem: Talvez a característica mais exótica fosse a assistência
hidráulica na embreagem, que a tornava extremamente leve, mas complexa de manter.
A confiabilidade deste sistema tornou-se um ponto de discórdia. Vazamentos na bomba ou
nas esferas acumuladoras podiam deixar o carro sem freios assistidos. A complexidade
assustava mecânicos não familiarizados com a engenharia francesa, criando uma reputação
de manutenção difícil que perdura até hoje.
Chassis e Suspensão
Estruturalmente, o Merak compartilhava o monocoque de aço do Bora até a coluna B. Daí
para trás, no entanto, havia uma diferença crucial. Enquanto o Bora usava uma estrutura
complexa para suportar o V8 pesado, o Merak utilizava um subchassi tubular simplificado
para acomodar o motor V6 e a transmissão.
Esta solução não apenas reduziu custos, mas também facilitou a manutenção, permitindo que
o conjunto motopropulsor fosse removido com mais facilidade. Além disso, o subchassi
tubular ajudava a isolar a cabine das vibrações e ruídos do motor, contribuindo para o
caráter de "Gran Turismo" do carro.
A suspensão era independente nas quatro rodas, com braços duplos (double wishbones) e
molas helicoidais, oferecendo um equilíbrio louvável entre conforto de rodagem e
controle de carroceria. As rodas eram de liga leve Campagnolo, inicialmente de 15
polegadas.