A transição do 3200 GT para o 4200 GT envolveu uma reengenharia completa da distribuição
de peso e da transmissão de potência.
O Layout Transaxle
A mudança mais radical na engenharia do chassi foi a adoção do layout Transaxle. No
modelo anterior (3200 GT), a caixa de câmbio estava acoplada diretamente atrás do motor,
na frente do carro. No M138, a caixa de câmbio foi movida para o eixo traseiro, formando
uma unidade integrada com o diferencial.
O motor na dianteira e a caixa na traseira são conectados por um tubo de torque rígido,
dentro do qual gira o eixo cardã na velocidade do motor. Este arranjo é dispendioso e
complexo, mas oferece benefícios dinâmicos inigualáveis. Ele desloca uma massa
significativa (a transmissão) para a traseira, contrabalançando o peso do motor. O
resultado é uma distribuição de peso quase perfeita:
- Maserati Coupe: 52% Dianteira / 48% Traseira.
- Maserati Spyder: 53% Dianteira / 47% Traseira.
Esta distribuição reduz o momento polar de inércia, permitindo que o carro mude de
direção com mais prontidão e mantenha uma atitude neutra no limite da aderência,
evitando o subesterço excessivo típico de carros pesados com motor dianteiro.
Opções de Câmbio: GT vs. Cambiocorsa
A Maserati ofereceu duas interfaces para a mesma transmissão mecânica de 6 velocidades
fabricada pela Graziano:
- GT (Manual): A versão purista, equipada com um pedal de embreagem e
uma alavanca de câmbio tradicional com grelha metálica. Devido à localização
traseira da caixa, a alavanca usa cabos ou varões longos para acionar as marchas.
Embora ofereça envolvimento total, esta versão representou uma minoria das vendas e
hoje é extremamente rara.
- Cambiocorsa (Automática Sequencial): A tecnologia de destaque da
época. "Cambiocorsa" significa "Câmbio de Corrida" em italiano. Não é uma
transmissão automática convencional com conversor de torque fluido, que "desliza" e
suaviza as trocas. É a mesma caixa mecânica da versão GT, mas robotizada. Um sistema
eletro-hidráulico de alta pressão, controlado por uma unidade de processamento
(TCU), opera a embreagem e a seleção das marchas.
O motorista comanda as trocas através de borboletas ("paddles") montadas na coluna de
direção (não no volante, o que significa que elas ficam fixas enquanto o volante gira,
uma preferência derivada da F1 para que o piloto saiba sempre onde está o comando de
subida e descida).
Modos de Operação: O sistema oferece modos "Sport" (trocas mais rápidas e agressivas),
"Auto" (o computador decide, simulando um automático) e "Low Grip" (para neve/gelo).
Evolução do Software: Ao longo da produção, o software de controle (apelidado de
"SOFAST") foi atualizado. As primeiras versões (2002-2003) podiam ser um pouco bruscas
no trânsito. A partir de 2004/2005, e especialmente no GranSport, o software tornou-se
muito mais refinado, suavizando as manobras e agilizando as trocas em alta carga.
Suspensão Skyhook: Adaptação em Tempo Real
A suspensão de braços duplos sobrepostos (wishbones) em alumínio nas quatro rodas
garantia a geometria correta. No entanto, a inovação tecnológica residia no sistema de
amortecimento adaptativo Skyhook, desenvolvido em parceria com a Mannesmann-Sachs.
O sistema Skyhook utiliza uma rede de sensores que monitoram os movimentos verticais das
rodas, a aceleração da carroceria e os inputs do motorista (direção, freio, acelerador).
Uma central eletrônica processa esses dados milhares de vezes por segundo e ajusta a
viscosidade do fluido dentro de cada amortecedor individualmente através de válvulas
eletromagnéticas.
O conceito teórico é isolar a carroceria das imperfeições da estrada, como se o carro
estivesse suspenso por um "gancho no céu" (sky-hook), mantendo-se nivelado enquanto as
rodas trabalham. O motorista pode selecionar entre modos "Normal" (foco no conforto de
absorção) e "Sport" (foco no controle de rolagem e precisão).