1ª Geração
(2018-2019)
Performance sem filtros: a liberdade do céu aberto unida à rigidez inabalável do chassi de carbono da McLaren.
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A indústria automotiva de alta performance testemunhou, em 2015, um movimento tectônico protagonizado pela McLaren Automotive. Conhecida historicamente por sua atuação na Fórmula 1 e, mais recentemente, pelo lançamento de hipercarros de produção limitada como o P1 e a linha Super Series (650S), a fabricante de Woking, Surrey, decidiu expandir suas operações para um território até então inexplorado pela marca: o segmento de carros esportivos de uso diário, mas com pedigree de supercarro. Este movimento estratégico culminou na criação da "Sports Series", uma família de veículos projetada para competir diretamente com gigantes estabelecidos como o Porsche 911 Turbo S, o Audi R8 V10 e o Lamborghini Huracán, oferecendo uma alternativa britânica focada na pureza da engenharia e na leveza estrutural.
O McLaren 570S Coupé, revelado ao mundo no Salão Internacional do Automóvel de Nova York de 2015, não foi apenas mais um modelo no portfólio da marca; ele representou a democratização da tecnologia de fibra de carbono em um ponto de preço onde o alumínio ainda era o material predominante. A missão do 570S era clara e ambiciosa: entregar uma experiência de condução visceral, digna da herança de competição da McLaren, mas embalada em um veículo capaz de oferecer usabilidade cotidiana ("day-to-day usability"), conforto de rodagem e conveniências modernas que faltavam nos modelos mais extremos da empresa.
Ao longo de seu ciclo de produção, que se estendeu de 2015 até 2021, o 570S estabeleceu-se como o núcleo comercial da McLaren, impulsionando volumes de vendas e permitindo que a empresa atingisse a marca de 30.000 veículos produzidos. A importância deste modelo transcende seus números de vendas; ele serviu como plataforma para diversas variantes, incluindo o 570GT, focado em turismo, o aclamado 570S Spider, e versões focadas em pista como o 600LT e o 620R, antes de finalmente passar o bastão para o híbrido McLaren Artura. Este relatório disseca minuciosamente a engenharia, a evolução histórica, as variantes de mercado e o impacto comercial deste ícone moderno.
A filosofia de design da McLaren, "toda a forma segue a função", encontra sua expressão máxima na arquitetura do 570S. Diferentemente de seus concorrentes, que utilizam chassis de alumínio ou estruturas híbridas, o 570S foi construído em torno de uma célula de sobrevivência de fibra de carbono, uma tecnologia que a McLaren foi pioneira em introduzir na Fórmula 1 em 1981 com o MP4/1 e nos carros de estrada com o lendário F1 em 1993.
O componente central do 570S é o chassi MonoCell II. Esta estrutura monocoque de fibra de carbono pesa menos de 80 kg e oferece uma rigidez torsional excepcional, fundamental para a dinâmica de condução precisa do veículo. A designação "II" é crucial aqui, pois denota uma evolução significativa em relação ao MonoCell original utilizado no MP4-12C e no 650S. A principal crítica aos modelos anteriores era a dificuldade de acesso à cabine devido às soleiras largas e altas.
Para o 570S, destinado a um uso mais frequente e menos focado exclusivamente em pistas, os engenheiros da McLaren redesenharam a estrutura, rebaixando e estreitando as soleiras das portas. Isso facilitou drasticamente a entrada e saída ("ingress and egress"), tornando o carro viável para o uso diário, sem comprometer a integridade estrutural que a fibra de carbono proporciona. Esta rigidez inerente eliminou a necessidade de reforços estruturais adicionais nas variantes conversíveis, um ponto que será explorado em profundidade na análise do modelo Spider.
O design exterior do 570S, assinado por Rob Melville, utiliza uma linguagem visual descrita como "shrink-wrapped" (embalada a vácuo), onde os painéis da carroceria de alumínio parecem estar esticados sobre os componentes mecânicos para minimizar o volume visual e o arrasto aerodinâmico.
Um elemento distintivo do design são os "flying buttresses" (arcobotantes) na traseira do Coupé. Estas estruturas não são meramente estéticas; elas desempenham uma função aerodinâmica vital, canalizando o ar limpo sobre o convés traseiro para aumentar a força descendente (downforce) e auxiliar na refrigeração do compartimento do motor, tudo isso sem a necessidade de uma asa traseira ativa complexa e pesada, diferenciando o 570S dos modelos da Super Series. As portas diédricas ("Dihedral Doors"), uma assinatura da marca, também possuem canais de ar integrados (frequentemente chamados de "tendões") que direcionam o fluxo de ar para as entradas dos radiadores laterais de alta temperatura, garantindo o resfriamento ideal do motor V8 biturbo.
No coração da Sports Series reside uma unidade de potência que, embora familiar na arquitetura, foi profundamente revisada para atender aos objetivos específicos do 570S.
O 570S é impulsionado pelo motor M838TE, um V8 de 3,8 litros com duplo turbocompressor. Embora compartilhe a base do bloco com o motor utilizado no 650S e no P1, a designação "E" (Evolution) sinaliza que aproximadamente 30% dos componentes foram redesenhados especificamente para este modelo.
A calibração do motor foi ajustada para oferecer uma entrega de potência linear e controlável, mas com um pico de torque situado em uma faixa de rotações que encoraja o motorista a explorar os limites do conta-giros. O sistema "Stop-Start" foi integrado para melhorar a eficiência de combustível em ciclo urbano, refletindo a proposta de uso diário do modelo.
A potência é transmitida exclusivamente às rodas traseiras através de uma caixa de câmbio de dupla embreagem de 7 velocidades, denominada SSG (Seamless Shift Gearbox). Desenvolvida em colaboração com a Graziano Trasmissioni na Itália, esta transmissão oferece trocas de marcha ultrarrápidas e quase imperceptíveis em modo automático, mas torna-se agressiva e mecânica quando os modos de performance são ativados.
A ausência de um diferencial de deslizamento limitado mecânico (LSD) tradicional é compensada pelo sistema de "Brake Steer" (esterçamento por freio). Tecnologia derivada diretamente da Fórmula 1 (onde foi banida por ser excessivamente vantajosa), o Brake Steer aplica sutilmente os freios na roda traseira interna durante uma curva, reduzindo a tendência ao subesterço e permitindo que o carro rotacione com maior agilidade em torno do ápice da curva.
Diferentemente dos modelos da Super Series (como o 720S), que utilizam o complexo sistema de suspensão hidráulica interconectada "ProActive Chassis Control", o 570S adota uma abordagem mais tradicional, porém refinada. Ele utiliza uma suspensão de braços duplos (double wishbone) com amortecedores adaptativos e barras estabilizadoras convencionais. Os amortecedores adaptativos podem ser ajustados através do painel "Active Dynamics", oferecendo três modos distintos: Normal, Sport e Track.
O sistema de frenagem padrão no 570S Coupé e Spider é composto por discos de carbono-cerâmica massivos, com pinças de alumínio de 6 pistões na dianteira e 4 pistões na traseira. É importante notar que, embora os freios de carbono-cerâmica fossem padrão no 570S, houve variações e opções de "downgrade" para freios de ferro fundido em alguns mercados ou configurações específicas, especialmente para uso intenso em pista onde o custo de reposição da cerâmica é proibitivo, embora o padrão de fábrica enfatizasse a performance superior da cerâmica.
A linha 570S bifurcou-se em duas variantes de carroceria principais, cada uma atendendo a um perfil de cliente específico, mas ambas mantendo o núcleo de performance da marca.
O Coupé estabeleceu a referência dinâmica. Com um peso seco de apenas 1.313 kg (mais leve que qualquer concorrente direto na época), ele oferecia uma relação peso-potência de 434 PS por tonelada. Acelera de 0 a 100 km/h em 3,2 segundos e atinge 200 km/h em 9,5 segundos, com uma velocidade máxima de 328 km/h.
Lançado em 2017, o 570S Spider desafiou a convenção de que conversíveis são estruturalmente comprometidos e significativamente mais pesados.
O Spider utiliza um teto rígido retrátil de duas peças construído com painéis compostos leves. O mecanismo é capaz de abrir ou fechar em apenas 15 segundos, podendo ser operado em velocidades de até 40 km/h (25 mph).
A maior conquista da engenharia do Spider reside no chassi MonoCell II. Devido à sua imensa rigidez inerente, a McLaren não precisou adicionar reforços estruturais pesados ao chassi quando o teto foi removido. Como resultado, o aumento de peso em relação ao Coupé foi limitado a apenas 46 kg, atribuídos exclusivamente ao mecanismo do teto e aos sistemas de operação. Isso contrasta fortemente com concorrentes que frequentemente ganham mais de 100 kg em suas versões conversíveis.
A performance do Spider é virtualmente idêntica à do Coupé. O tempo de 0-100 km/h permanece em 3,2 segundos. A velocidade máxima com o teto fechado é a mesma: 328 km/h (204 mph). Com o teto aberto, a velocidade máxima é ligeiramente reduzida para 315 km/h (196 mph) devido ao arrasto aerodinâmico.
A McLaren implementou uma estratégia de refinamento contínuo ao longo do ciclo de vida do 570S, introduzindo melhorias e novos pacotes a cada ano-modelo ("Model Year").
A divisão McLaren Special Operations (MSO) desempenhou um papel crucial em manter o 570S relevante e desejável, oferecendo níveis de personalização que permitiam aos proprietários criar veículos únicos.
Para guiar os clientes através da complexidade de especificações, a McLaren lançou cinco "Design Editions", curadas pelos próprios designers da marca para garantir harmonia estética.
Disponível para Coupé e Spider, o "Track Pack" foi projetado para proprietários que frequentavam track days. O pacote focava exclusivamente na redução de peso e aumento de downforce.
O MSO X representa o ápice da exclusividade na linha 570S. Encomendado pela concessionária McLaren Newport Beach, apenas 10 unidades foram produzidas. Estes veículos foram projetados para serem "carros de corrida GT4 para a estrada".
A credibilidade do 570S como carro de performance é reforçada pela sua versão de competição, o 570S GT4. Competindo globalmente, o GT4 compartilha o chassi MonoCell II e o motor V8 biturbo com o carro de rua, provando a robustez do projeto original.
Diferenças Técnicas: O GT4 utiliza uma asa traseira fixa montada em pilares altos, um splitter dianteiro agressivo e suspensão com amortecedores ajustáveis do tipo coilover (abandonando o sistema adaptativo de rua). As rodas são de cubo rápido (center lock) de magnésio.
Restrições de BoP: Devido às regras de "Balance of Performance", o GT4 corre frequentemente com potência reduzida (cerca de 100 cv a menos que o carro de rua) e lastro de peso adicional, tornando-o mais pesado que o modelo de estrada, mas capaz de tempos de volta muito mais rápidos devido aos pneus slick e aerodinâmica avançada.
A família "Sports Series" foi um sucesso comercial retumbante, com mais de 8.500 unidades vendidas globalmente até o final de 2020. O 570S (somando Coupé e Spider) representou a maior fatia desse volume, com estimativas indicando uma divisão de produção próxima de 50/50 entre as variantes de teto rígido e conversível nos mercados onde ambas foram oferecidas integralmente.
No Brasil, o 570S posicionou-se como um objeto de desejo ultra-exclusivo.
Para potenciais compradores no mercado secundário, a confiabilidade do 570S é um fator crucial.
Confiabilidade Geral: O motor e a transmissão são considerados robustos ("bulletproof") para os padrões de supercarros. No entanto, problemas menores são relatados.
O McLaren 570S encerrou sua produção em 2021, deixando um legado de transformação. Ele provou que um chassi de fibra de carbono poderia ser produzido em escala para um segmento "acessível", oferecendo uma dinâmica de condução que muitos puristas consideram superior até mesmo à do seu irmão maior, o 720S, devido à sua natureza mais analógica e explorável em velocidades legais.
A transição para o McLaren Artura, com seu motor V6 híbrido, marca o fim da era V8 biturbo pura na Sports Series. Para colecionadores e entusiastas, o 570S – especialmente nas versões Spider com Track Pack ou nas raras edições MSO – permanece como um marco da engenharia britânica moderna: leve, rápido e incrivelmente focado no motorista.
Imagens do McLaren 570S Spider