1ª Geração
(2019 - 2020)
Ficha técnica, versões e história do Mclaren 620R.
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A indústria automotiva de alto desempenho opera frequentemente na interseção entre o marketing aspiracional e a engenharia aplicada. No entanto, raramente um veículo transgride a barreira teórica entre um carro de competição puro e um veículo de estrada com a fidelidade mecânica apresentada pela McLaren 620R. Este relatório disseca a engenharia, a história de produção e o posicionamento estratégico deste modelo, que serve como o capítulo final da aclamada linha "Sports Series" da McLaren Automotive.
A premissa fundamental da 620R não reside apenas em ser uma variante mais rápida do modelo 570S, mas sim em uma inversão da lógica tradicional de desenvolvimento. Enquanto a maioria dos supercarros focados em pista, como a McLaren 600LT, são veículos de estrada modificados para suportar o rigor de um circuito, a 620R é, em sua essência, o carro de corrida McLaren 570S GT4 submetido a um processo de engenharia reversa para obter a legalidade das vias públicas.1
A motivação para o desenvolvimento deste veículo surgiu diretamente da base de clientes da McLaren. A 570S GT4 consolidou-se como o carro de corrida GT mais bem-sucedido já construído pela fabricante de Woking, acumulando vitórias em campeonatos em quatro continentes desde sua estreia em 2017.1 Proprietários e equipes de corrida, familiarizados com a dinâmica do chassi de competição, questionaram repetidamente o que o pacote mecânico da GT4 poderia realizar se fosse libertado das restrições regulatórias de "Balanço de Desempenho" (BoP) impostas pela FIA e outras federações de automobilismo.1 A resposta a essa indagação técnica é a 620R: um veículo que mantém o DNA do motorsport, mas opera com a potência total de seu trem de força, sem restritores de admissão ou lastros de peso artificiais.
O coração da McLaren 620R é uma evolução direta da unidade de potência utilizada no programa de automobilismo, mas com alterações críticas que alteram fundamentalmente sua curva de entrega de potência.
O veículo é impulsionado pelo motor M838TE, um V8 de 3,8 litros com turbocompressores duplos.3 Embora este bloco seja compartilhado com a 570S GT4, sua aplicação na 620R é drasticamente diferente. Em competições GT4, a potência é frequentemente limitada eletrônica e mecanicamente para garantir a paridade entre diferentes fabricantes, geralmente situando-se na faixa de 400 a 500 cavalos de potência.
Livre dessas amarras burocráticas, a equipe de engenharia da McLaren reconfigurou a Unidade de Controle do Motor (ECU) e o gerenciamento dos turbocompressores para atingir o pico de eficiência do hardware. O resultado é uma potência máxima de 620 PS (610 bhp ou 611 cv) atingida a 7.500 rpm, acompanhada por um torque de 620 Nm (457 lb-ft) disponível a 3.500 rpm.2 Estes números tornam a 620R o modelo mais potente de toda a linhagem Sports Series, superando a 600LT e a 570S.6
A transmissão da potência para as rodas traseiras é gerenciada por uma caixa de câmbio SSG (Seamless Shift Gearbox) de 7 velocidades.2 Diferente de uma transmissão automática convencional focada no conforto, esta unidade de dupla embreagem foi calibrada para priorizar a velocidade de troca e a integridade mecânica sob alta carga térmica.
Um componente crucial desta transmissão é a incorporação da tecnologia "Inertia Push" da McLaren. Originalmente desenvolvida para projetos de alta performance, essa tecnologia aproveita a energia cinética acumulada no volante do motor e nos componentes rotativos da transmissão. Durante uma troca de marcha ascendente (upshift) sob aceleração plena, o sistema converte essa energia cinética em um pulso de torque momentâneo conforme a próxima marcha é engatada.2 Isso elimina a queda de torque que normalmente ocorre durante a interrupção da potência, resultando em uma aceleração linear e contínua, uma característica vital para maximizar a velocidade em saídas de curva.
Além disso, para aumentar a conexão mecânica e a resposta do chassi, o trem de força da 620R utiliza coxins (suportes) de motor e transmissão significativamente mais rígidos do que os modelos de estrada padrão.2 Isso reduz a inércia do trem de força sob altas cargas laterais e longitudinais, impedindo que a massa do motor "balance" e perturbe o equilíbrio do carro durante transições rápidas de direção. O efeito colateral, intencional e aceito, é um aumento na transferência de ruído, vibração e aspereza (NVH) para a cabine, reforçando a experiência sensorial de um carro de corrida.2
A combinação de alta potência, baixo peso e tração otimizada resulta em números de aceleração que rivalizam com a categoria "Super Series" da marca (como o 720S).
É notável que a velocidade máxima de 322 km/h é inferior à de alguns outros supercarros menos potentes. Isso é uma consequência direta do pacote aerodinâmico agressivo, que prioriza a força descendente (downforce) em detrimento da eficiência de arrasto, uma troca consciente feita para priorizar o desempenho em circuito.12
É no sistema de suspensão que a 620R se distancia mais radicalmente de seus pares de estrada, como a 600LT e a 570S. Enquanto a indústria de supercarros tem migrado massivamente para sistemas de suspensão adaptativa eletrônica (que alteram a viscosidade do fluido do amortecedor em milissegundos para se adequar à estrada), a 620R rejeita essa tecnologia em favor de uma solução analógica puramente derivada do motorsport.
A 620R está equipada com amortecedores de competição (coilovers) ajustáveis manualmente de duas vias, exatamente como os encontrados na 570S GT4.3 Estes componentes oferecem 32 cliques de ajuste individual para compressão e rebote em cada canto do veículo.2
A decisão de usar amortecedores manuais tem múltiplas implicações de engenharia:
Complementando os amortecedores, a arquitetura da suspensão utiliza braços de controle (wishbones) de alumínio leve e montantes (uprights) de alumínio, juntamente com barras estabilizadoras mais rígidas.2 Crucialmente, a 620R substitui muitas das buchas de borracha tradicionais por montagens superiores de aço inoxidável sólido.3
Em um carro de rua comum, as buchas de borracha permitem uma certa "complacência" ou movimento nas articulações da suspensão para absorver impactos e reduzir ruído. No entanto, essa complacência introduz imprecisão: quando o motorista vira o volante, a borracha se comprime antes que o pneu reaja. Ao usar montagens sólidas de aço, a 620R elimina essa latência. A resposta da direção torna-se imediata e a geometria da suspensão mantém-se precisa mesmo sob as cargas mais altas de curva, melhorando significativamente o feedback tátil e o controle da direção.3
A base estrutural do veículo é o chassi MonoCell II de fibra de carbono, uma peça única que provê a rigidez torcional necessária para que a suspensão de competição funcione corretamente. A rigidez do chassi garante que não haja flexão estrutural, permitindo que os amortecedores e pneus realizem todo o trabalho dinâmico.13
Este foco na leveza, combinado com a remoção de itens de conforto e o uso extensivo de carbono, resulta em métricas de peso impressionantes:
A aerodinâmica da 620R não é estilística; é inteiramente funcional e herdada diretamente das túneis de vento e pistas de teste da GT4.
O elemento visual mais dominante é a asa traseira de fibra de carbono. Esta é a mesma peça utilizada no carro de corrida, elevada em 32 cm para capturar o fluxo de ar "limpo" (não turbulento) que passa sobre a cabine do veículo.2 Para homologar este componente de corrida para uso em estradas públicas, a única modificação técnica necessária foi a incorporação de uma terceira luz de freio na estrutura da asa, satisfazendo as regulamentações de iluminação.1
A asa é ajustável em três ângulos de ataque. Quando configurada no ângulo mais agressivo (máxima incidência), ela gera 185 kg de força descendente (downforce) adicional a 250 km/h.2 Este downforce é vital para estabilizar o eixo traseiro em curvas de alta velocidade e zonas de frenagem forte.
Para evitar que o downforce traseiro excessivo levante a frente do carro (o que causaria subesterço), a dianteira foi profundamente revisada. O para-choque dianteiro, o splitter (divisor) e o capô foram redesenhados.2 O capô possui saídas de ar pronunciadas que extraem o ar quente do radiador e o direcionam para cima e para fora, reduzindo a pressão sob o carro e aumentando o downforce.
Além disso, a 620R incorpora "dive planes" (aletas laterais) de fibra de carbono no para-choque dianteiro. Estes componentes contribuem com até 30 kg de downforce, como parte de um pacote aerodinâmico frontal total que gera 65 kg de carga vertical.2 O equilíbrio resultante, ou "centro de pressão", é ajustado para fornecer uma plataforma neutra e previsível para o piloto.
A 620R sai de fábrica equipada com pneus Pirelli P Zero Trofeo R, que são compostos semi-slick legais para estrada.2 As rodas são de alumínio forjado com travamento central (center lock) de 19 polegadas na dianteira e 20 polegadas na traseira, dispensando as porcas de roda convencionais em favor de uma única porca central de grande diâmetro, facilitando trocas rápidas.7
Um detalhe técnico crucial é que a 620R foi projetada desde o início para acomodar pneus slick de competição completos (apenas para pista) sem a necessidade de ajustes mecânicos na suspensão ou na carroceria para evitar atrito. Os pneus slick opcionais, desenvolvidos pela Pirelli Motorsport especificamente para este carro, oferecem uma área de contato (contact patch) 8% maior do que os pneus de estrada, desbloqueando um nível de aderência lateral e frenagem inatingível por qualquer pneu legalizado para rua.1
O sistema de freios utiliza a mais recente tecnologia de materiais leves da McLaren. Discos de cerâmica de carbono (CCM) de 390 mm na frente e 380 mm atrás são mordidos por pinças de alumínio forjado.3 Para melhorar a modulação e a sensação do pedal — críticas em situações de corrida onde o piloto deve gerenciar o limite de travamento das rodas — a 620R utiliza um servofreio (brake booster) derivado do hipercarro McLaren Senna.1
A história de produção da 620R é marcada por exclusividade planejada e escassez acidental, criando um cenário complexo para colecionadores e historiadores da marca.
Originalmente, a McLaren anunciou uma produção estritamente limitada a 350 unidades globais, com a fabricação iniciando em janeiro de 2020.16 Cada veículo deveria ostentar uma placa de dedicação numérica identificando sua sequência na produção (ex: "1 de 350").15
No entanto, a produção foi severamente impactada pela pandemia de COVID-19, que interrompeu as cadeias de suprimentos globais e forçou o fechamento temporário da fábrica em Woking. Como consequência, a produção da 620R foi encerrada prematuramente em dezembro de 2020, totalizando apenas 225 unidades completas construídas.9
Este corte de aproximadamente 36% no volume planejado gerou anomalias interessantes na numeração dos chassis. Existem relatos confirmados de veículos com placas numeradas próximas ao final da série original planejada (como o carro número 349), apesar de apenas 225 carros existirem fisicamente.18 Isso sugere que a McLaren manteve a alocação de números de chassi original para pedidos específicos, mesmo que os slots intermediários não tenham sido preenchidos, ou que a numeração não seguiu uma ordem cronológica perfeita de construção. Essa raridade "acidental" elevou o status de colecionabilidade do modelo.
A distribuição e a especificação dos carros variaram significativamente por região.
O "R Pack", oferecido por £25.000 no Reino Unido, foi uma coleção de melhorias desenvolvidas pela divisão de operações especiais da marca para intensificar a experiência sensorial e visual.20 O pacote incluía:
A existência do R Pack cria uma hierarquia de valor no mercado de usados na Europa, onde carros equipados com o pacote são considerados "completos" e tendem a comandar preços mais altos.
A estética da 620R é ditada pela função, mas a personalização permitida pela McLaren ofereceu aos clientes a chance de homenagear a história da marca.
As cores padrão foram selecionadas para espelhar as livrarias das equipes de corrida GT4:
Além dessas, a MSO ofereceu opções de personalização extensivas, incluindo cores fora do catálogo padrão (como "Ceramic Grey" 23) e decalques de corrida personalizados. A opção mais exclusiva era a livraria inspirada no McLaren Senna GTR, criando uma ligação visual direta com o hipercarro de pista da marca.17 Existem também referências extremamente raras a uma livraria "Senna Sempre", prestando tributo a Ayrton Senna com cores inspiradas na bandeira brasileira e detalhes de seu capacete.25
O interior reflete a natureza espartana do projeto. Itens como tapetes, porta-luvas, ar-condicionado, sistema de navegação IRIS e sistema de áudio foram removidos como padrão para economizar peso. No entanto, a McLaren permitiu que os clientes adicionassem o ar-condicionado e o sistema de infoentretenimento de volta sem custo adicional, reconhecendo que alguns trajetos até a pista poderiam ser insuportáveis sem eles.1 Os assentos são bancos de corrida de fibra de carbono superleves com cintos de seis pontos instalados de fábrica.2
Para compreender plenamente a 620R, é necessário situá-la em relação aos seus irmãos de plataforma. A confusão comum reside na comparação entre a 600LT e a 620R.
| Característica Técnica | McLaren 570S (Base) | McLaren 600LT (Longtail) | McLaren 620R (Homologation) |
|---|---|---|---|
| Potência do Motor | 570 PS | 600 PS | 620 PS |
| Suspensão | Adaptativa Eletrônica | Adaptativa Eletrônica (Rígida) | Manual GT4 (Coilovers) |
| Coxins de Motor | Padrão | Rígidos | Mais Rígidos / Motorsport |
| Aerodinâmica | Integrada / Limpa | Asa Fixa / Splitter Estendido | Asa Ajustável GT4 / Dive Planes |
| Pneus Padrão | Pirelli P Zero Corsa | Pirelli P Zero Trofeo R | Pirelli P Zero Trofeo R (Slicks Op.) |
| Escapamento | Saída Traseira Convencional | Saída Superior (Top-Exit) | Saída Traseira (Titânio opcional) |
| Produção | Série (Milhares) | Limitada por Tempo (1 ano) | Limitada por Número (225 un.) |
| Filosofia | Carro Esportivo de Rua | Carro de Estrada Focado em Pista | Carro de Corrida Legalizado |
A 600LT é um carro de estrada que foi otimizado para a pista. Ela mantém a conveniência da suspensão adaptativa e possui a característica única do escapamento "top-exit" (saída por cima), que economiza peso e melhora a aerodinâmica traseira.26
A 620R, em contraste, é um carro de corrida adaptado minimamente para a estrada. A ausência de suspensão eletrônica e o uso de componentes sólidos de chassi resultam em uma qualidade de rodagem muito mais severa em vias públicas, mas oferecem uma pureza de feedback que a 600LT, apesar de brilhante, não consegue igualar totalmente devido aos filtros eletrônicos inerentes aos seus sistemas de estrada.26 A 620R não possui o escapamento de saída superior da 600LT, mantendo a configuração de saída traseira da GT4 para acomodar a asa traseira maciça.
A McLaren 620R representa o fim de uma era significativa para a McLaren Automotive. Como o último modelo produzido sob a designação "Sports Series", ela encerra o capítulo iniciado em 2015 com o 570S, que foi responsável por democratizar o acesso à engenharia de fibra de carbono e expandir a marca globalmente.7
O legado da 620R reside na sua autenticidade. Em um mercado saturado de "edições especiais" que muitas vezes se limitam a alterações cosméticas e aumentos de potência nominais, a 620R destaca-se por oferecer hardware de competição genuíno. A decisão de manter os amortecedores manuais, a aerodinâmica ajustável e a opção de pneus slick demonstra um compromisso com a performance pura em detrimento do conforto ou da conveniência.
Com apenas 225 unidades existentes, a 620R garantiu seu lugar como um dos McLarens modernos mais raros e focados. Ela serve como um tributo físico ao sucesso da 570S GT4 e permanece como a expressão máxima do que a plataforma MonoCell II e o motor V8 biturbo poderiam alcançar quando libertados de todas as restrições. Para o entusiasta que valoriza a conexão mecânica e a precisão cirúrgica acima de tudo, a 620R não é apenas um carro; é uma ferramenta de precisão forjada nas pistas e licenciada para a estrada.
Imagens do Mclaren 620R