1ª Geração
(2019 - 2023)
Ficha técnica, versões e história do Mclaren 720S Spider.
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(2019 - 2023)
A história da McLaren 720S não começa apenas no seu lançamento em 2017, mas sim na necessidade crítica da McLaren Automotive de se afirmar como uma construtora de automóveis de estrada madura, capaz de não apenas competir, mas superar a hegemonia italiana estabelecida pela Ferrari e Lamborghini. Após o lançamento do MP4-12C em 2011 e a sua evolução para o 650S, a marca britânica, sediada em Woking, precisava de um produto que definisse a segunda geração da sua "Super Series" — a espinha dorsal da sua gama de produtos.
O projeto, codinome P14, nasceu sob o ambicioso plano de negócios "Track22", que previa um investimento de 1 bilhão de libras em pesquisa e desenvolvimento para lançar 15 novos modelos ou derivados até 2022. O objetivo não era apenas incremental; a McLaren buscava um salto quântico em desempenho que tornasse a 720S intocável em comparações diretas por um ciclo de vida inteiro. Quando as cortinas caíram no 87º Salão Automóvel de Genebra, em março de 2017, o mundo não viu apenas um sucessor para o 650S, mas sim um veículo que redefiniu os parâmetros de performance para supercarros de produção em série.
A premissa era criar um carro com uma amplitude de capacidade sem precedentes: ele precisava ser refinado o suficiente para o uso diário, absorvendo imperfeições do asfalto urbano com a docilidade de um sedã executivo, e simultaneamente, oferecer desempenho de pista capaz de desafiar hipercarros dedicados. Para atingir tal dicotomia, a engenharia da McLaren teve que abandonar componentes tradicionais e repensar a aerodinâmica, a estrutura de carbono e a gestão eletrônica do chassi do zero. O resultado foi um veículo que, segundo dados oficiais, atingia 341 km/h de velocidade máxima e acelerava de 0 a 100 km/h em 2,9 segundos, números que colocaram a concorrência em estado de alerta imediato.
O design da 720S, liderado por Rob Melville e Frank Stephenson, rompeu radicalmente com a linguagem visual dos modelos anteriores. A característica mais polarizadora no lançamento foi a ausência de faróis convencionais. No seu lugar, a McLaren introduziu o que chamou de "órbitas oculares" — grandes cavidades escuras na fáscia frontal.
Esta decisão não foi estética, mas puramente funcional. Dentro dessas cavidades, não residem apenas os faróis de LED adaptativos, mas também dutos de ar críticos que canalizam o fluxo de ar para os radiadores de baixa temperatura (Low Temperature Radiators - LTRs). Esta solução permitiu que a frente do carro permanecesse baixa e agressiva, melhorando a visibilidade do motorista, ao mesmo tempo que resolvia as necessidades térmicas de um motor significativamente mais potente.
Talvez a inovação mais significativa do design da 720S seja a ausência das grandes entradas de ar laterais, que eram uma assinatura visual de quase todos os supercarros de motor central desde os anos 1980. A McLaren conseguiu eliminar essas aberturas visíveis através da criação de portas de "parede dupla" ou "pele dupla".
O ar rápido e turbulento que sai das rodas dianteiras e passa pela coluna A é capturado por um canal escondido dentro da própria estrutura da porta. Este canal acelera o fluxo de ar e o direciona diretamente para os radiadores de alta temperatura (High Temperature Radiators - HTRs) montados à frente das rodas traseiras. Segundo a McLaren, esta solução melhorou a eficiência de resfriamento em 15% em comparação com o modelo 650S, ao mesmo tempo que aumentou o downforce (pressão aerodinâmica descendente) geral do veículo. O design é biomimético, inspirado na eficiência hidrodinâmica do Grande Tubarão Branco, resultando numa forma orgânica, fluida e livre de apêndices desnecessários.
A traseira do veículo é dominada por uma asa ativa de largura total, que opera em harmonia com o restante da carroceria. Esta asa não serve apenas para gerar pressão aerodinâmica em curvas de alta velocidade. Ela possui três funções principais operadas automaticamente pelo software do veículo:
A McLaren é pioneira no uso de fibra de carbono, tendo introduzido o material na Fórmula 1 em 1981 e nos carros de rua com o F1 em 1993. A 720S estreou a estrutura Monocage II. Diferente da estrutura "MonoCell" da geração anterior (que era uma "banheira" aberta com estruturas de alumínio para o teto), o Monocage II é uma célula de segurança completa, integrando o teto e a estrutura dos pilares em uma única peça de fibra de carbono extremamente rígida e leve.
A rigidez estrutural do Monocage II permitiu que os engenheiros da McLaren reduzissem a largura das soleiras das portas e as rebaixassem, facilitando drasticamente a entrada e saída do veículo — uma crítica comum aos supercarros anteriores. Além disso, a resistência do material permitiu pilares A, B e C extremamente finos. O pilar C, em particular, é envidraçado ou translúcido em certas configurações, proporcionando uma visibilidade traseira de "ombro" que é praticamente inexistente em concorrentes como o Lamborghini Huracán.
O peso seco do 720S Coupé, na sua configuração mais leve, é de apenas 1.283 kg, enquanto o peso em ordem de marcha (DIN), com fluidos e 90% de combustível, é de 1.419 kg. Esta leveza é fundamental para a performance do carro, resultando em uma relação peso-potência de 561 PS por tonelada, um número que supera a maioria dos rivais da época.
O coração da 720S é o motor M840T. Embora compartilhe a linhagem V8 biturbo com o motor M838T usado no 650S e 570S, o M840T foi significativamente reformulado, com 41% de seus componentes sendo novos.
Os dados oficiais de fábrica são impressionantes por si só:
No entanto, o mundo automotivo rapidamente descobriu que esses números eram conservadores. Testes independentes em dinamômetros (dyno) frequentemente mostravam o carro produzindo quase 700 cavalos nas rodas, o que, ao calcular as perdas mecânicas da transmissão e diferencial, sugeria que a potência real do motor (no virabrequim) estava mais próxima de 750 a 780 cavalos. Essa prática de "subestimar e entregar a mais" (under-promise and over-deliver) tornou-se uma marca registrada da McLaren nesta era, solidificando a reputação da 720S como uma "matadora de hipercarros".
A potência é enviada para as rodas traseiras através de uma caixa de câmbio de dupla embreagem de 7 velocidades (SSG - Seamless Shift Gearbox). O software da transmissão foi recalibrado para trocas ainda mais rápidas em modo de pista, utilizando a inércia dos componentes rotativos para dar um "empurrão" de torque nas trocas ascendentes, aumentando a sensação de aceleração.
Enquanto a maioria dos concorrentes utiliza barras estabilizadoras físicas (barras de torção metálicas) para controlar a inclinação da carroceria em curvas, a McLaren utiliza um sistema hidráulico interconectado. Na 720S, este sistema evoluiu para o Proactive Chassis Control II (PCC II).
O PCC II conecta os amortecedores hidraulicamente: quando uma roda do lado esquerdo é comprimida em uma curva, o fluido é transferido para resistir à compressão e manter a carroceria plana. Em linha reta, o sistema desacopla essa rigidez, permitindo que cada roda absorva buracos independentemente.
O cérebro do sistema PCC II baseia-se numa pesquisa de doutorado da Universidade de Cambridge. O sistema utiliza 12 sensores adicionais em comparação ao 650S, incluindo um acelerômetro em cada cubo de roda e sensores de pressão em cada amortecedor. Esses sensores leem a superfície da estrada e as ações do motorista (ângulo de direção, posição do acelerador) e ajustam as válvulas de amortecimento em milissegundos. O resultado é um carro que oferece um conforto de rodagem "de tapete mágico" em modo Comfort, mas que se torna cirurgicamente preciso e rígido em modo Track.
Para tornar a performance de 720 cavalos acessível e divertida, a McLaren introduziu o Variable Drift Control. Este sistema permite que o motorista ajuste, através de um gráfico na tela central, o nível de intervenção do controle de tração e o ângulo de derrapagem permitido. Isso democratizou a pilotagem no limite, permitindo que motoristas menos experientes explorassem a sobresterço (traseira saindo) com uma rede de segurança eletrônica ajustável.
Historicamente, transformar um supercarro cupê em um conversível (Spider) envolvia compromissos significativos: o carro ficava mais pesado devido aos reforços estruturais necessários e ao mecanismo do teto, e a rigidez torcional diminuía. Com a 720S Spider, lançada em dezembro de 2018, a McLaren desafiou essa convenção.
Graças à rigidez inerente da estrutura de carbono Monocage II, nenhuma estrutura de reforço adicional foi necessária na parte inferior do chassi. A única alteração estrutural foi a adaptação da parte superior traseira para acomodar o teto, resultando na estrutura Monocage II-S.
O resultado foi um aumento de peso de apenas 49 kg em relação ao Coupé, totalizando um peso seco de 1.332 kg. Para colocar isso em perspectiva, a McLaren afirma que o 720S Spider é 88 kg mais leve que seu concorrente direto mais próximo (a Ferrari 488 Spider).
O sistema de teto é uma peça única de fibra de carbono operada eletricamente (abandonando o sistema hidráulico dos modelos anteriores para economizar peso e ganhar velocidade).
Uma inovação de design exclusiva do Spider são os contrafortes (flying buttresses) envidraçados. Em vez de painéis sólidos que bloqueiam a visão traseira em diagonal (ponto cego), a McLaren usou vidro, melhorando drasticamente a visibilidade e a sensação de espaço na cabine. Além disso, o teto de carbono podia ser especificado com um painel de vidro eletrocrômico, que alternava entre transparente e opaco ao toque de um botão, permitindo luz na cabine mesmo com o teto fechado.
Os números de desempenho do 720S tornaram-se lendários.
Nas pistas de arrancada (drag strips), o 720S cimentou sua reputação. Enquanto a fábrica declarava um tempo de 10,3 segundos para o quarto de milha (402 metros), proprietários e canais especializados como DragTimes registraram tempos originais de fábrica na casa dos 9,9 segundos e até 9,59 segundos em condições ideais de aderência e densidade do ar.
Estes tempos colocavam a 720S, um carro de produção em série "regular", no mesmo território de hipercarros limitados e híbridos muito mais caros, como o Porsche 918 Spyder e a LaFerrari, em corridas de aceleração lançada (rolling races). Essa dominância forçou a concorrência a responder: a Ferrari, por exemplo, teve que equipar o F8 Tributo (sucessor do 488) com o motor do 488 Pista apenas para conseguir acompanhar o ritmo do 720S padrão.
A McLaren manteve o ciclo de vida do 720S vibrante através de várias edições especiais e pacotes focados, muitas vezes desenvolvidos pela divisão MSO (McLaren Special Operations).
Logo no lançamento em Genebra, a McLaren apresentou o tema "Velocity" para demonstrar as capacidades da MSO.
Não uma edição limitada por número, mas uma especificação focada em proprietários que frequentam circuitos.
Uma coleção extremamente restrita de apenas 15 unidades, comercializada na Europa.
Lançada para celebrar o 25º aniversário da vitória da McLaren F1 GTR nas 24 Horas de Le Mans de 1995.
A versão de competição homologada pela FIA para campeonatos de GT3 globais. Este carro foi o primeiro GT desenvolvido internamente pela divisão McLaren Customer Racing (anteriormente, os carros GT eram desenvolvidos em parceria com a CRS GT). Devido às regras de Balance of Performance (BoP), o motor do GT3 é frequentemente restrito a cerca de 500-550 cavalos para garantir paridade com carros de outras marcas, apesar de ter aerodinâmica e chassi muito superiores ao carro de rua.
Lançado em 2021, o GT3X é a resposta da McLaren à pergunta: "O que o carro de corrida poderia fazer sem as restrições das regras?".
A McLaren opera com volumes muito mais baixos que marcas como Porsche ou mesmo Ferrari. A capacidade total da fábrica de Woking para todos os modelos gira em torno de 4.000 a 5.000 carros por ano.
O ciclo de vida da 720S coincidiu com períodos de turbulência e sucesso para a McLaren Group. O lançamento em 2017 ajudou a impulsionar vendas recordes, com a empresa vendendo 3.286 carros em 2016 e crescendo nos anos subsequentes.
No entanto, os anos finais da produção (2020-2022) foram marcados pela pandemia de COVID-19 e pela crise global de semicondutores. Relatórios financeiros de 2021 e 2022 indicam que, apesar da demanda forte ("order books" cheios), a produção foi limitada por restrições na cadeia de suprimentos, o que afetou o volume de entrega final das últimas unidades da 720S e do 765LT.
A produção da McLaren 720S foi encerrada silenciosamente em dezembro de 2022. A empresa confirmou que o modelo não podia mais ser encomendado e que toda a capacidade estava sendo direcionada para o sucessor, o McLaren 750S.
O modelo chegou ao Brasil através da importadora oficial Eurobike, consolidando a presença da marca no mercado de luxo nacional.
A 720S manteve uma retenção de valor robusta no Brasil. Em 2025, modelos 2018 usados ainda são anunciados por valores próximos a R$ 2,7 milhões (conforme tabela FIPE e anúncios de mercado), indicando que a depreciação foi mínima em termos nominais, protegida pela exclusividade e pela variação cambial do dólar/real ao longo dos anos.
A McLaren 720S não foi apenas "mais um carro rápido". Foi um marco tecnológico que forçou toda a indústria de supercarros a se mover. Sua combinação de chassi de fibra de carbono, suspensão hidráulica proativa e aerodinâmica funcional criou um produto que oferecia conforto de classe GT com desempenho de hipercarro.
| Característica | 720S Coupé | 720S Spider |
|---|---|---|
| Motor | V8 4.0L Biturbo (M840T) | V8 4.0L Biturbo (M840T) |
| Potência | 720 PS (710 hp) | 720 PS (710 hp) |
| Torque | 770 Nm | 770 Nm |
| Peso Seco (Leve) | 1.283 kg | 1.332 kg (+49kg) |
| 0-100 km/h | 2,9 s | 2,9 s |
| 0-200 km/h | 7,8 s | 7,9 s |
| Velocidade Máx. | 341 km/h | 341 km/h (325 km/h aberto) |
| Preço Lançamento BR | ~R$ 2,9 Milhões | ~R$ 3,45 Milhões |
O modelo foi sucedido pelo McLaren 750S em 2023, que é uma evolução direta (30% de peças novas, 30 cv a mais, 30 kg a menos), provando que a base de engenharia estabelecida pela 720S em 2017 era tão avançada que, mesmo seis anos depois, precisava apenas de refinamentos para continuar no topo da classe. Para colecionadores e entusiastas, a 720S permanece como um dos supercarros mais completos e tecnicamente impressionantes do século XXI.