O DNA da McLaren e a Busca pela Usabilidade
Para compreender o McLaren GT, é necessário primeiro entender a cultura da empresa que o
criou. Desde o seu renascimento como fabricante de carros de estrada em 2010 (com o
MP4-12C), a McLaren focou obsessivamente em bater a Ferrari e a Porsche em seus próprios
jogos de performance. Seus carros eram mais rápidos, freavam melhor e faziam curvas mais
rápido. No entanto, o feedback dos clientes e da crítica especializada apontava
frequentemente para uma lacuna: a usabilidade. Enquanto um Porsche 911 Turbo poderia ser
usado para ir ao supermercado ou viajar centenas de quilômetros sem fadiga, os primeiros
McLarens, embora civilizados para os padrões de supercarros, ainda eram focados demais
na experiência de pilotagem visceral.
A estrutura de produtos da McLaren estava rigidamente dividida em três pilares,
conhecidos como "Series":
- Sports Series: A porta de entrada (modelos 540C, 570S), focada em
diversão ao volante.
- Super Series: O núcleo de performance (modelos 650S, 720S, 750S),
onde a tecnologia de ponta é aplicada.
- Ultimate Series: Os hipercarros limitados (P1, Senna, Speedtail,
Elva).
O conceito de um "Grand Tourer" não se encaixava perfeitamente em nenhuma dessas caixas.
Um GT precisava ser mais refinado que a Sports Series, mas menos agressivo que a Super
Series.
O Laboratório de Testes: McLaren 570GT (2016-2019)
A primeira tentativa concreta da McLaren de suavizar sua fórmula ocorreu em 2016 com o
lançamento do 570GT. Baseado no 570S da Sports Series, este carro foi um laboratório
fundamental para o desenvolvimento do futuro modelo dedicado.
O 570GT trouxe modificações importantes que sinalizavam as intenções da marca:
- Design da Traseira: Substituiu o deck traseiro plano e os
contrafortes aerodinâmicos ("flying buttresses") por uma escotilha de vidro com
abertura lateral. Isso criou um espaço de carga adicional de 220 litros sobre o
cofre do motor, chamado de "Touring Deck".
- Ajuste de Chassi: A rigidez das molas foi reduzida (15% na frente,
10% atrás) e a direção ficou 2% mais lenta para reduzir o nervosismo em altas
velocidades em rodovias.
- Conforto Acústico: Foi introduzido um sistema de escapamento mais
silencioso e pneus Pirelli com tecnologia de cancelamento de ruído (PNCS).
Apesar de ter sido bem recebido, o 570GT revelou as limitações de se adaptar uma
plataforma existente. O acesso ao porta-malas traseiro era difícil (apenas pelo lado da
calçada em países de mão inglesa, embora a McLaren tenha depois oferecido a opção de
escolha do lado de abertura), o calor do motor invadia o compartimento de bagagem e a
suspensão, embora mais macia, ainda não tinha a sofisticação necessária para competir
com o "tapete mágico" de um Bentley Continental GT. Ficou claro para os engenheiros de
Woking: para fazer um GT verdadeiro, eles precisariam de um carro dedicado, não de uma
adaptação.