1ª Geração
(2010 - 2013)
Ficha técnica, versões e história do Aston Martin Rapide.
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A história do automóvel de luxo no século XXI é marcada pela diversificação de segmentos, onde marcas tradicionalmente focadas em carros esportivos de dois lugares começaram a explorar novos territórios para garantir a sustentabilidade financeira. Dentro desse cenário, o Aston Martin Rapide surge não apenas como um produto, mas como uma afirmação de identidade e resistência estética. Lançado como o primeiro automóvel de quatro portas de produção em série da Aston Martin, o Rapide carregava o peso de reviver uma linhagem histórica, sucedendo as tentativas de baixo volume do Lagonda Rapide da década de 1960 e o futurista sedã Aston Martin Lagonda das décadas de 1970 e 1980.
Diferente de seus rivais alemães, que frequentemente sacrificavam a elegância em prol da habitabilidade traseira, a Aston Martin, sob a direção do Dr. Ulrich Bez, optou por um caminho distinto. O objetivo não era criar um sedã executivo tradicional, mas sim estender a experiência de um cupê esportivo para quatro ocupantes. O resultado foi um veículo que desafiou as categorias convencionais, frequentemente descrito como um "cupê de quatro portas" muito antes de o termo se tornar um clichê de marketing na indústria automotiva.
Este relatório examina exaustivamente o ciclo de vida do Rapide, desde os esboços iniciais de Marek Reichman em 2005 até o cancelamento do projeto elétrico Rapide E em 2020. Analisaremos as nuances de engenharia da plataforma VH, as complexas decisões logísticas que levaram a produção da Áustria para o Reino Unido, as evoluções mecânicas cruciais introduzidas no modelo Rapide S e as variantes de alta performance que marcaram o fim de sua produção.
O desenvolvimento do Rapide começou no verão de 2005, um período de renascimento para a Aston Martin sob a égide do Grupo Ford e do Premier Automotive Group. A marca já havia estabelecido uma nova linguagem de design com o DB9 e o V8 Vantage, baseados na inovadora arquitetura VH (Vertical Horizontal). Esta plataforma utilizava alumínio extrudado e colado, uma técnica oriunda da indústria aeroespacial, que permitia uma rigidez torcional excepcional com baixo peso, além de uma flexibilidade modular que seria crucial para o Rapide.
O desafio imposto ao novo Diretor de Design, Marek Reichman, foi criar um carro de quatro portas que mantivesse as proporções áureas características da marca. Reichman realizou os esboços iniciais e o design básico em um período notavelmente curto de sete semanas. A solução encontrada foi alongar a plataforma do DB9 em aproximadamente 30 centímetros, criando distância entre eixos suficiente para acomodar duas portas traseiras sem romper a silhueta fluida do veículo. O conceito visual evitava a "caixa" traseira típica dos sedãs, mantendo uma linha de teto descendente que fluía suavemente até a tampa do porta-malas, configurando um estilo hatchback disfarçado.
O mundo teve o primeiro vislumbre do projeto em 9 de janeiro de 2006, no Salão Internacional do Automóvel da América do Norte, em Detroit. O Rapide Concept apresentado era funcional e esteticamente muito próximo do que viria a ser o carro de produção. Ele apresentava detalhes exóticos que, embora modificados para a versão final, demonstravam a ambição da marca, como um teto de policarbonato transparente que podia se tornar opaco ao toque de um botão e freios de carbono-cerâmica, uma tecnologia que a Aston Martin só introduziria em série no modelo DBS meses depois.
A recepção foi entusiástica. A imprensa especializada elogiou a coragem da Aston Martin em priorizar a beleza sobre a praticidade absoluta, contrastando fortemente com o Porsche Panamera, que seria lançado pouco depois com um design controverso focado no espaço interno. O Rapide foi posicionado como o "carro esportivo de quatro portas mais elegante do mundo", uma descrição que guiaria todo o seu desenvolvimento subsequente.
Com a aprovação para a produção em série, a Aston Martin deparou-se com um problema logístico: a sua fábrica principal em Gaydon, Warwickshire, estava operando próxima da capacidade máxima com as linhas do DB9, DBS e V8 Vantage. Para viabilizar o Rapide sem comprometer a produção dos modelos existentes, a empresa tomou a decisão inédita de fabricar o veículo fora do Reino Unido.
Em 2008, após um estudo de viabilidade de seis meses, a Aston Martin firmou uma parceria com a Magna Steyr, uma renomada fabricante contratada sediada em Graz, na Áustria. Uma instalação dedicada, batizada de Aston Martin Rapide Plant (AMRP), foi estabelecida dentro do complexo da Magna. A meta inicial era ambiciosa: produzir cerca de 2.000 unidades por ano, aproveitando a expertise da Magna em montagem de veículos de luxo de baixo volume.
A versão final de produção estreou no Salão do Automóvel de Frankfurt em 2009, com as primeiras unidades saindo da linha de montagem austríaca em maio de 2010. No entanto, o momento econômico era desfavorável. O mundo ainda se recuperava da crise financeira global de 2008, o que retraiu significativamente o mercado de sedãs de ultra-luxo. A demanda real ficou abaixo das projeções otimistas de 2.000 carros anuais, criando uma capacidade ociosa na fábrica austríaca que se tornaria um ponto de tensão financeira para o projeto.
O Rapide de primeira geração chegou ao mercado equipado com o venerável motor V12 de 6.0 litros (5.935 cc) naturalmente aspirado da Aston Martin. Este propulsor, montado na posição central-dianteira (atrás do eixo dianteiro), produzia 477 cavalos de potência (470 hp) e 600 Nm de torque. A potência era enviada às rodas traseiras através de um eixo de transmissão de fibra de carbono alojado em um tubo de torque de liga leve, conectando-se a uma caixa de câmbio automática de seis velocidades "Touchtronic II" (ZF 6HP26) montada na traseira (transaxle).
Esta configuração mecânica resultava em uma distribuição de peso quase perfeita de 49% na frente e 51% na traseira, algo raro para um carro de quatro portas. O comportamento dinâmico foi amplamente elogiado por ser indistinguível do DB9, com uma direção precisa e controle de carroceria exemplar, embora a potência fosse considerada apenas adequada para o peso extra de 1.950 kg em comparação aos rivais turboalimentados que emergiam no mercado.
| Parâmetro | Especificação |
|---|---|
| Motor | V12 6.0L Naturalmente Aspirado |
| Potência | 477 cv (470 bhp) @ 6.000 rpm |
| Torque | 600 Nm (443 lb-ft) @ 5.000 rpm |
| Câmbio | Automático 6 marchas (ZF Touchtronic II) |
| 0-100 km/h | 5,2 segundos |
| Velocidade Máx. | 296 km/h (184 mph) |
| Peso | ~1.950 kg |
O interior do Rapide foi concebido sob a filosofia de "honestidade dos materiais". Onde se via madeira, era madeira real; onde se via metal, era liga sólida; e o couro de alta qualidade cobria quase todas as superfícies, exigindo cerca de dez peles completas por veículo. O layout era estritamente para quatro pessoas, com um console central alto percorrendo todo o comprimento da cabine, criando um ambiente de "cockpit" individual para cada passageiro.
Uma das características mais distintivas e funcionais do modelo eram as "Swan Doors" (Portas de Cisne). As quatro portas abriam-se não apenas para fora, mas também ligeiramente para cima, em um ângulo de 12 graus. Esta solução de engenharia tinha um propósito duplo: esteticamente, evocava as asas de um cisne, adicionando drama visual; praticamente, permitia que as portas evitassem raspar em calçadas altas, dado o perfil extremamente baixo do chassi, e facilitava o acesso à cabine em espaços apertados, compensando a linha de teto baixa.
Durante este período inicial, a Aston Martin lançou uma variante focada no conforto supremo, denominada Rapide Luxe. Produzida em números extremamente limitados (apenas 84 unidades identificadas), esta versão vinha equipada de série com quase todos os opcionais disponíveis. Os diferenciais incluíam um sistema de entretenimento para os passageiros traseiros com telas integradas aos encostos de cabeça, bancos ventilados e aquecidos nas quatro posições, rodas exclusivas de 20 polegadas com acabamento polido e um conjunto de malas de couro sob medida, projetado para encaixar perfeitamente no porta-malas de 317 litros (expansível para 886 litros com os bancos rebatidos).
Em 2011, a realidade de mercado forçou um ajuste. As vendas não atingiram o volume necessário para sustentar a operação dedicada na Áustria. A produção foi temporariamente reduzida, e em meados de 2012, a Aston Martin anunciou o encerramento da produção na Magna Steyr. A fabricação do Rapide foi transferida para Gaydon no segundo semestre de 2012. Esta mudança foi possível graças a melhorias na eficiência da linha de montagem britânica e foi apoiada por um fundo de crescimento regional do governo britânico.
O retorno ao Reino Unido permitiu à Aston Martin recuperar o selo "Handmade in England" para toda a sua gama e ajustar a produção em tempo real de acordo com a demanda flutuante, eliminando os custos fixos da terceirização. Estima-se que a Magna Steyr tenha produzido a grande maioria dos Rapides de primeira geração, totalizando cerca de 2.872 unidades (incluindo as primeiras unidades montadas em Gaydon após a transição) antes da introdução do modelo atualizado.
A resposta da Aston Martin às críticas sobre a potência e a necessidade de atualização tecnológica veio em janeiro de 2013 com o lançamento do Rapide S. Mais do que um simples facelift, o modelo "S" representou uma reengenharia profunda sob a pele do carro.
O coração da atualização foi a introdução do motor V12 de especificação "AM11". Este motor incorporava tecnologia derivada do Vanquish, incluindo comandos de válvulas variáveis duplos e câmaras de combustão usinadas em CNC. A potência saltou significativamente para 558 cavalos (550 bhp), um aumento de 17% em relação ao modelo original. O torque também subiu para 620 Nm. Além do ganho de força, os engenheiros conseguiram posicionar o motor 19 milímetros mais baixo no chassi, reduzindo o centro de gravidade e melhorando a resposta direcional.
Externamente, o Rapide S distinguia-se imediatamente pela sua nova grade frontal maciça. A antiga grade bipartida deu lugar a uma peça única de alumínio, a maior já instalada em um Aston Martin até então. Esta mudança não foi apenas estética; foi necessária para cumprir as novas normas europeias de proteção a pedestres (a grade foi projetada para deformar-se de maneira controlada no impacto) e para suprir a maior necessidade de refrigeração do motor mais potente. A traseira recebeu um spoiler mais pronunciado na tampa do porta-malas para reduzir a sustentação aerodinâmica em altas velocidades.
Embora o lançamento de 2013 tenha sido significativo, a mudança mais transformadora na vida do Rapide S ocorreu no modelo 2015 (anunciado em agosto de 2014). A Aston Martin substituiu a envelhecida transmissão de 6 marchas pela moderna caixa automática ZF 8HP (Touchtronic III) de 8 velocidades.
Esta nova transmissão, desenvolvida em parceria técnica com a ZF, alterou radicalmente o caráter do carro. As trocas de marcha passaram a ocorrer em apenas 130 milissegundos nos modos esportivos. Juntamente com um novo sistema de gerenciamento de motor da Bosch, a potência foi levemente ajustada para 560 cavalos (552 bhp) e o torque para 630 Nm. O impacto na performance foi drástico: o tempo de aceleração de 0 a 100 km/h caiu de 4,9 segundos (no Rapide S de 2013) para 4,2 segundos (no modelo 2015), colocando o Rapide S novamente em competição direta com os sedãs superesportivos contemporâneos. A eficiência de combustível também melhorou em cerca de 11%, tornando o carro mais utilizável em viagens longas.
Um ponto fraco histórico dos modelos da era VH da Aston Martin era a tecnologia de bordo, muitas vezes derivada de sistemas antigos da Volvo (herança da época Ford). Durante a vida do Rapide S, a marca fez esforços contínuos para mitigar isso através de atualizações do sistema de infotainment AMi (Aston Martin Infotainment).
Quando o ciclo de vida da plataforma VH se aproximava do fim, a Aston Martin decidiu dar ao Rapide uma despedida digna através de sua submarca de performance, a AMR (Aston Martin Racing). Lançado em versão de produção em 2018, o Rapide AMR é amplamente considerado a versão definitiva e mais colecionável do modelo.
A produção do Rapide AMR foi limitada a estritas 210 unidades globais, garantindo sua raridade. O modelo herdou o motor V12 de aspiração natural em sua configuração mais agressiva, derivada do Vantage GT12, equipada com coletores de admissão maiores e calibração de corrida. A potência foi elevada para 603 cavalos (595 bhp / 600 PS) nos mercados do Reino Unido e Europa, enquanto restrições climáticas e de emissões limitaram a potência a 588 cavalos (580 bhp) em outros mercados globais. O torque manteve-se em robustos 630 Nm. O desempenho resultante foi impressionante: 0 a 100 km/h em 4,4 segundos e uma velocidade máxima de 330 km/h (205 mph), tornando-o um dos sedãs mais rápidos do mundo na época.
Para lidar com o aumento de performance, o Rapide AMR recebeu modificações extensas no chassi:
O interior refletia a natureza esportiva, com um console central inteiramente em fibra de carbono, bancos em Alcantara e detalhes na cor Lime Green (verde limão), a cor assinatura da equipe de corrida da Aston Martin.
O Rapide E foi concebido para ser o pioneiro da eletrificação na Aston Martin, servindo como uma ponte tecnológica para o futuro da marca. O projeto passou por diversas fases, inicialmente em parceria com a empresa chinesa LeEco, e posteriormente, após problemas financeiros da parceira, com a Williams Advanced Engineering.
O Rapide E prometia ser um "super sedã" elétrico. A Aston Martin substituiu o V12, a transmissão e o tanque de combustível por uma bateria de 65 kWh e dois motores elétricos montados no eixo traseiro, envoltos em kevlar e fibra de carbono. Esta configuração de 800 volts visava permitir carregamento ultrarrápido e desempenho consistente e repetível, algo que muitos elétricos da época não conseguiam oferecer.
Apesar de ter sido revelado em forma quase final e de ter 155 unidades planejadas para produção, o projeto foi abruptamente cancelado em janeiro de 2020. A Aston Martin, enfrentando dificuldades financeiras e focando todos os seus recursos no lançamento crítico do SUV DBX, decidiu transformar o Rapide E em um projeto de pesquisa puramente interno. Nenhuma unidade foi entregue a clientes finais, tornando o Rapide E um "fantasma" tecnológico na história da marca.
Uma menção especial deve ser feita ao Bertone Jet 2+2 (2013), uma versão Shooting Brake (perua esportiva) do Rapide criada pela lendária casa de design italiana Bertone. Encomendado por um colecionador britânico, o carro foi o último veículo fabricado pela Bertone antes de sua falência. O design estendeu a linha do teto, melhorando significativamente o espaço para a cabeça nos bancos traseiros e a versatilidade do porta-malas, transformando o Rapide em uma perua de caça suprema. Apenas uma unidade foi produzida, embora houvesse planos iniciais para uma pequena série de dez carros que nunca se concretizou.
O Aston Martin Rapide encerrou sua produção em 2020 como um dos modelos mais raros de seu segmento. Enquanto concorrentes como o Porsche Panamera vendiam dezenas de milhares de unidades anualmente, o Rapide permaneceu um produto de nicho exclusivo.
| Versão do Modelo | Período | Local de Fabricação | Unidades Estimadas |
|---|---|---|---|
| Rapide (Original) | 2010 – 2012 | Graz, Áustria (Magna Steyr) | ~2.400 |
| Rapide (Transição) | 2012 – 2013 | Gaydon, Reino Unido | ~470 |
| Rapide S | 2013 – 2018 | Gaydon, Reino Unido | ~3.000 |
| Rapide AMR | 2018 – 2020 | Gaydon, Reino Unido | Máx. 210 |
| Rapide E | 2019 | Gaydon, Reino Unido | 0 (Protótipos) |
| Bertone Jet 2+2 | 2013 | Itália (Bertone) | 1 |
| Total Global | 2010 – 2020 | ~6.000 unidades |
O Aston Martin Rapide não deixou um sucessor direto na forma de um sedã. O mercado de luxo migrou massivamente para os SUVs, e o Aston Martin DBX assumiu o papel de veículo familiar da marca. No entanto, o legado do Rapide permanece intacto como um triunfo do design sobre a convenção.
Ele provou que era possível criar um carro de quatro portas com a alma e a estética de um Grand Tourer puro. As versões equipadas com a transmissão de 8 velocidades (pós-2015) representam o ponto ideal de maturidade mecânica, enquanto o raro Rapide AMR já começa a ser reconhecido como um futuro clássico de alto valor. O Rapide será lembrado como um dos capítulos mais belos e audaciosos da história moderna da Aston Martin, um carro que se recusou a ser apenas um transporte executivo, insistindo em ser, acima de tudo, um Aston Martin.
Imagens do Aston Martin Rapide