A introdução da primeira geração do Audi A4 Avant (código interno Typ 8D, plataforma B5)
no final de 1995 marcou um ponto de inflexão na história da montadora. Substituindo o
robusto, porém esteticamente conservador, Audi 80 Avant, o B5 foi desenhado para colocar
a Audi em pé de igualdade com o BMW Série 3 (E36/E46) e a Mercedes-Benz Classe C (W202).
Engenharia de Chassi e Suspensão
O aspecto mais revolucionário da geração B5 não era visível externamente. A Audi
implementou uma suspensão dianteira "four-link" (quatro braços independentes) de
alumínio. Historicamente, carros de tração dianteira sofriam com o "torque steer"
(tendência da direção puxar para os lados durante acelerações fortes) e falta de
precisão. O sistema four-link separou as forças longitudinais e laterais, permitindo que
o eixo virtual de direção fosse posicionado exatamente no centro da roda.
Isso transformou a dinâmica do carro. O A4 Avant B5 oferecia um conforto de rodagem
superior e uma estabilidade direcional que se tornou referência na classe. Na traseira,
as versões de tração dianteira utilizavam um eixo de torção semi-independente para
economizar espaço no porta-malas, enquanto as versões Quattro empregavam uma suspensão
independente de duplos braços (double wishbone).
Dimensões e Design
O design, liderado por Imre Hasanic, rompeu com as linhas angulares dos anos 80. O B5
apresentava uma cintura alta, colunas estreitas e superfícies arredondadas e fluidas.
- Comprimento: 4.488 mm
- Largura: 1.733 mm
- Altura: 1.440 mm
- Entre-eixos: 2.615 mm
Embora o design fosse elogiado, o espaço interno traseiro era criticado por ser apertado,
uma consequência direta do layout longitudinal do motor que empurrava a cabine para
trás.
Powertrain: A Era das 5 Válvulas
A Audi inovou ao introduzir cabeçotes com 5 válvulas por cilindro (3 de admissão, 2 de
escape) em seus motores a gasolina, visando melhorar a respiração do motor em altas
rotações ("breathing capacity"). O motor mais emblemático desta geração foi o 1.8 Turbo
20V.
| Motorização (B5) |
Configuração |
Potência |
Torque |
Observações Técnicas |
| 1.6 |
4 cil. em linha |
101 cv |
140 Nm |
Entrada de gama, foco urbano. |
| 1.8 20V |
4 cil. aspirado |
125 cv |
173 Nm |
Cabeçote de 5 válvulas, performance linear. |
| 1.8 Turbo |
4 cil. turbo |
150 / 180 cv |
210 / 235 Nm |
O grande sucesso da geração. Torque em baixa. |
| 2.4 V6 |
V6 30V |
165 cv |
230 Nm |
Substituiu o antigo 2.6, funcionamento suave. |
| 2.8 V6 |
V6 30V |
193 cv |
280 Nm |
Topo de linha "civil", elástico e potente. |
| 1.9 TDI |
4 cil. diesel |
90 / 110 cv |
202 / 235 Nm |
Introdução do turbo de geometria variável (VGT). |
| 2.5 V6 TDI |
V6 diesel |
150 cv |
310 Nm |
Alto torque para viagens de longa distância. |
A transmissão poderia ser manual de 5 marchas ou automática Tiptronic de 5 marchas
(fabricada pela ZF), que permitia trocas manuais sequenciais, uma novidade tecnológica
na época para este segmento.
O Legado do Primeiro RS4 Avant (2000-2001)
A geração B5 foi o palco para o nascimento do RS4, um modelo que definiu o gênero de
"super peruas". Lançado exclusivamente como Avant, o RS4 B5 foi desenvolvido pela
quattro GmbH (hoje Audi Sport). A Audi, na época proprietária da empresa de engenharia
britânica Cosworth, encarregou-a de modificar o motor 2.7 V6 Biturbo do S4.
A Cosworth redesenhou os cabeçotes (fundidos em liga especial de alumínio), instalou
turbocompressores maiores (KKK K04), intercoolers de maior capacidade e um sistema de
escape redimensionado. O resultado foram 380 cv a 7.000 rpm e 440 Nm de torque. Com
câmbio manual de 6 marchas obrigatório e tração Quattro Torsen, o RS4 B5 acelerava de 0
a 100 km/h em apenas 4,9 segundos, humilhando supercarros contemporâneos em condições de
baixa aderência. A produção total foi de apenas 6.030 unidades, tornando-o um clássico
altamente colecionável.
Contexto Brasileiro: A Abertura dos Portos
No Brasil, a chegada do A4 Avant B5 coincidiu com a consolidação da Audi no país após a
reabertura das importações. A Senna Import (empresa da família de Ayrton Senna) foi
responsável por trazer a marca. A Avant B5 tornou-se símbolo de status nas capitais
brasileiras, competindo com a BMW Série 3 Touring e a Volvo V40. As versões 1.8 Turbo e
2.8 V6 Quattro foram as mais importadas. Devido à legislação brasileira de 1976, que
proíbe motores a diesel em carros de passeio com capacidade de carga inferior a 1.000
kg, as excelentes versões TDI nunca foram vendidas oficialmente no Brasil, privando o
consumidor local da lendária autonomia desses modelos.