Para compreender a essência do Série 5 Gran Turismo, é fundamental analisar os seus
alicerces técnicos e conceituais, que revelam uma identidade muito mais complexa do que
o seu nome sugere.
A Gênese do Projeto: "Progressive Activity Sedan" (PAS)
A origem do F07 remonta ao protótipo "BMW Concept 5 Series Gran Turismo", revelado com
grande destaque no Salão do Automóvel de Genebra em 2009. A visão por trás do projeto,
internamente denominada "Progressive Activity Sedan" (PAS), era criar um veículo para um
cliente que buscava mais espaço, luxo e versatilidade do que um sedã tradicional poderia
oferecer, mas que não se identificava com a imagem robusta de um SUV. O foco estava em
criar um automóvel que se destacasse pelo conforto supremo em viagens longas, pela
funcionalidade no uso diário e por um nível de acabamento e sofisticação comparável aos
modelos de topo da BMW.
A Base do Série 7 (F01): A Decisão Chave
Apesar de ter sido batizado e comercializado como parte da família Série 5, o Gran
Turismo foi, na sua essência, construído sobre a plataforma do irmão maior, o BMW Série
7 (F01). Esta decisão de engenharia é o ponto mais crucial para entender o caráter do
F07.
O carro compartilha com o Série 7 de entre-eixos padrão a mesma distância entre eixos de
3.070 mm, bem como a largura de 1.901 mm e as bitolas. Esta base resultou em um espaço
para as pernas no banco traseiro idêntico ao do Série 7 e um espaço para a cabeça
comparável ao do SUV X5, cumprindo a promessa de um interior vasto e arejado.
Essa escolha, no entanto, gerou um paradoxo fundamental. O nome "Série 5" evoca a imagem
de um sedã executivo com foco na dinâmica e na agilidade. Contudo, a engenharia do F07,
herdada do Série 7, priorizava o conforto, o isolamento e a suavidade de rodagem,
resultando em um veículo significativamente mais pesado e menos ágil que o Série 5 sedã
(F10). Essa discrepância entre o nome e a alma do carro criou uma crise de identidade
que confundiu o mercado. Os consumidores que esperavam a esportividade de um Série 5
encontraram o peso e o conforto de um Série 7, embalados em uma carroceria de hatchback.
Essa confusão sobre o propósito do veículo foi um dos grandes desafios para a sua
aceitação.
Design Exterior: A Polêmica Silhueta
O design do F07, assinado por Christopher Weil, foi uma tentativa de harmonizar elementos
de diferentes tipologias de veículos. A carroceria combinava uma silhueta alongada com
uma linha de teto descendente, ao estilo cupê, e quatro portas sem moldura nos vidros —
uma novidade para um modelo BMW de quatro portas na época. A dianteira era imponente,
com a grade "duplo rim" proeminente e verticalizada, e foi o primeiro modelo da marca a
usar anéis de LED ("corona rings") como luz de condução diurna.
A traseira, contudo, foi o ponto mais controverso. Com proporções altas e um volume
considerável, foi frequentemente descrita pela crítica como desajeitada e visualmente
pesada. Essa forma, no entanto, não foi um erro estético isolado, mas uma consequência
direta da sua ambiciosa proposta funcional. Para alcançar o espaço interior prometido e
acomodar o complexo mecanismo do porta-malas, a traseira precisava ter aquele volume. A
BMW, neste caso, priorizou a função sobre a forma convencional, resultando em um design
que, embora polarizador, era ditado pela engenharia.
Inovação Funcional: A Tampa do Porta-Malas de Dupla Abertura
Uma das características mais engenhosas e distintivas do F07 era a sua tampa do
porta-malas, que possuía um mecanismo de abertura de duas vias, uma solução de
engenharia complexa e altamente funcional.
- Modo Sedã: Era possível abrir apenas uma seção inferior da tampa,
como em um sedã tradicional. Esta função era ideal para colocar objetos menores de
forma rápida, sem expor todo o interior do carro a ruídos, vento ou mudanças de
temperatura, mantendo o isolamento térmico e acústico da cabine.
- Modo Hatchback: Para objetos grandes e volumosos, a tampa inteira,
incluindo o vidro traseiro, podia ser aberta, revelando um vão de carga amplo,
típico de um hatchback. A operação podia ser totalmente elétrica, controlada por
botões na chave, no interior do veículo ou na própria tampa.
Interior: Espaço e Luxo de Primeira Classe
Se o exterior era controverso, o interior era universalmente aclamado. A cabine do F07
era o seu maior trunfo, oferecendo um nível de espaço, luxo e conforto que superava em
muito o Série 5 tradicional e rivalizava diretamente com o Série 7. O painel, em grande
parte herdado do Série 7, e a qualidade dos materiais transmitiam uma sensação de
pertencimento a um segmento superior.
A posição dos assentos era ligeiramente elevada ("semi-command"), proporcionando uma
visibilidade superior à de um sedã sem a altura total de um SUV. O verdadeiro destaque,
porém, estava no banco traseiro. Os assentos podiam deslizar longitudinalmente em até
100 mm e tinham encostos reclináveis, permitindo que os passageiros ajustassem o espaço
para as pernas ou priorizassem a capacidade de bagagem. Como opcional, era possível
configurar o banco traseiro com dois assentos individuais de luxo ("executive class
seating"), separados por um console central, transformando o F07 em uma verdadeira
limusine.
A capacidade de carga era igualmente impressionante: o porta-malas oferecia 440 litros na
configuração padrão, que podiam ser expandidos para 590 litros com os bancos traseiros
movidos para a frente, e atingia um máximo de 1.700 litros com os bancos rebatidos — um
volume superior ao de muitas peruas.
Especificações Técnicas Chave do BMW F07 Gran Turismo
| Característica |
Medida / Valor |
| Comprimento |
4.998 mm (LCI: 5.004 mm) |
|
| Largura |
1.901 mm |
| Altura |
1.559 mm |
| Distância entre eixos |
3.070 mm |
| Bitola Dianteira |
1.611 mm |
| Bitola Traseira |
1.654 mm |
| Peso (em ordem de marcha) |
1.940 kg - 2.215 kg |
| Capacidade do Porta-Malas |
440 L (LCI: 500 L) |
| Capacidade Máxima do Porta-Malas |
1.700 L |