O posicionamento comercial do PT Cruiser no Brasil foi completamente diferente do
aplicado nos Estados Unidos. Lá fora, ele nasceu com a promessa de ser um carro prático,
criativo e, sobretudo, barato para a família média e fácil de manter ("affordable").
Quando a Chrysler iniciou suas importações no Brasil nos primeiros anos da década de
2000, o modelo sofreu o impacto dos pesados impostos de importação e da taxa de câmbio
da época. A solução da filial brasileira da montadora foi tratar o PT Cruiser não como
um utilitário barato, mas sim como um carro importado de imagem e status, mirado para as
pessoas de alta classe social que desejavam aparecer no trânsito urbano.
Preços, Equipamentos e Vendas no Mercado Nacional
Devido ao seu posicionamento mais luxuoso no Brasil, o carro vinha equipado de fábrica
com tudo aquilo que era cobrado como opcional caro nos EUA. As unidades comercializadas
aqui traziam de série múltiplos airbags, freios com tecnologia ABS moderna, sistema
eletrônico de estabilidade, estofamento de couro natural e elétrico com aquecimento,
além das rodas grandes de alumínio.
Quase todo o lote importado para cá foi equipado com um único motor: o quatro cilindros
de 2.4 litros sem turbo e dezesseis válvulas. Na calibração enviada ao nosso país, ele
entregava cerca de 143 cavalos de potência e 21,8 kgfm de torque de força. Esse motor
trabalhava atrelado de forma obrigatória ao câmbio automático Autostick de quatro
marchas, focado mais no conforto de não ter trancos do que em oferecer velocidades
altas. A versão mais forte com motor turbo (GT Turbo de mais de 215 cavalos) foi trazida
de forma oficial em quantidades minúsculas, tornando-se raridade disputada entre quem
compra carros usados modernos hoje no país.
Em 2008, no pico de maturidade da linha, a tabela de preços oficiais mostrava a distância
do carro para os compradores comuns. A versão de entrada ("Classic"), que foi
modernizada naquele ano ganhando um computador de bordo, custava R$ 68.900. Se o cliente
quisesse a versão conversível de luxo ("Cabrio"), o preço disparava para extorsivos R$
94.900 nas concessionárias.
A exclusividade da carroceria conversível é demonstrada pelos números de venda em toda a
história do modelo por aqui: o Brasil emplacou apenas 7.600 unidades com o teto de lona
retrátil, garantindo a sua posição como um objeto raro.
Em seu último ano de mercado, 2010, a Chrysler trouxe para o Brasil a Decade Edition. Era
o presente de despedida que comemorava os 10 anos de lançamento mundial. Ele custava R$
69.900, apenas uma margem de R$ 4.000 de diferença sobre o modelo "Limited" na época.
Pelo valor extra, o dono levava faróis de neblina e retrovisores que não embaçavam, além
de placas cromadas comemorativas escritas “Decade Edition 2000 – 2010” fixadas na
traseira. A parte mais interessante para o dono do veículo era que ele recebia um
certificado físico atestando a autenticidade e a numeração daquela edição final de
fabricação.
Aceitação e Problemas de Uso no Brasil
A percepção dos proprietários brasileiros, catalogada em clubes, oficinas e portais, é
dividida. Pelo lado positivo, ele é considerado nos dias de hoje um carro com excelente
"custo-benefício" no mercado de usados. Isso se deve ao conforto alto e design que não
aparenta ser tão velho, associado ao fato de que peças de reposição baratas e
compatíveis podem ser facilmente importadas da internet (de sites como eBay ou Mercado
Livre) direto dos fabricantes nos EUA, por serem do mesmo estoque do antigo sedã Dodge
Neon.
A maior insatisfação técnica documentada pelos donos brasileiros refere-se
implacavelmente ao alto consumo de gasolina. O PT Cruiser era pesado para a sua época (o
documento registra quase 1.580 kg nas versões brasileiras), possuía o teto alto (com
péssima aerodinâmica de vento frontal) e um motor que trabalhava com poucas marchas
automáticas e arrastava longas trocas. Como resultado final do projeto, os dados e
testes no Brasil revelam médias pífias de apenas 7,2 quilômetros por litro andando no
trânsito de cidade, e no máximo 12 quilômetros por litro viajando de forma suave na
estrada. Consequentemente, a força para arrancar era muito prejudicada pelo grande peso
de aço, com a aceleração de velocidade zero aos 100 quilômetros por hora demorando de
longos 10,3 a terríveis 13,5 segundos, dependendo das configurações de mercado.
Defeitos Crônicos de Manutenção e Suspensão
Devido ao longo tempo que este mesmo modelo esteve nas ruas, com a mesma plataforma
rodando por mais de dez anos, oficinas mecânicas do mundo todo conseguiram identificar
quais eram os erros básicos de projeto e quais peças sofriam de grande desgaste
antecipado na plataforma do Chrysler PT Cruiser. Embora o bloco do motor em si aguente
alta quilometragem sem estourar, os acessórios em volta sofrem. A mecânica registra dez
problemas sistemáticos repetitivos que o dono do veículo terá, invariavelmente, que
enfrentar:
A lista técnica detalhada de problemas graves a seguir afeta o desempenho diário do
veículo:
- Destruição Prematura de Buchas: As buchas de borracha colocadas no
braço de controle inferior da suspensão sofrem rasgamento devido ao peso grande da
frente do veículo. Quando elas quebram, a roda não obedece ao volante diretamente,
gerando desalinhamento constante na geometria e gastando os pneus rapidamente de
forma irregular.
- Rompimento dos Coxins do Motor: As grandes molas de borracha e
peças de ferro que seguram o motor fixo na carroceria (os coxins) são mal
dimensionadas. Com o tempo de uso, elas rompem. O sintoma é claro: quando o
motorista dá uma arrancada brusca ou o câmbio automático dá o tranco para trocar a
marcha, o motor balança livre no cofre, soltando grandes estrondos metálicos (ruídos
e solavancos intensos).
- Sensor de Posição do Virabrequim (Crankshaft Sensor): Este é um
problema perigoso de parte elétrica. O sensor eletrônico sofre mau funcionamento
pelo calor. Quando ele erra a leitura da posição em que as válvulas do motor estão
virando, o cérebro eletrônico do carro se confunde e corta todo o funcionamento da
gasolina. O carro desliga completamente (apagão total) sem nenhum aviso prévio
durante as viagens normais.
- Terminais de Direção com Folga: Os eixos conhecidos como terminais
de tirante estragam a articulação antes da hora, fazendo a direção ficar solta
quando o motorista chacoalha o volante rapidamente para a esquerda ou direita,
perdendo a precisão esportiva da suspensão.
- Sobrecarga da Bomba de Direção Hidráulica: A peça que bombeia óleo
de direção sofre muito e passa a gerar chiados metálicos altíssimos com o passar dos
anos. Com a avaria total da peça hidráulica, a capacidade de mandar a pressão do
fluido vai a zero e o volante endurece de repente, exigindo força excessiva dos
braços do motorista para virar esquinas simples.
- Pane do Motor de Partida (Arranque): Um problema elétrico falso em
que o dono insere a chave e, ao dar a partida elétrica para ligar, só ocorrem ruídos
elétricos leves, ou "cliques" fracos parecendo bateria sem energia nenhuma. Contudo,
é o desgaste crônico nas peças que fazem o motor elétrico primário girar as
engrenagens.
- Problemas Recorrentes no Sistema de Injeção Eletrônica: Causados
por módulos fracos, falham ao gerenciar a injeção regular e causam comportamento
instável.