1ª Geração
(2004-2011)
Ficha técnica, versões e história do Ferrari 612 Scaglietti.
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Lançada em 2004, a Ferrari 612 Scaglietti surgiu para suceder a 456M, marcando um ponto de virada fundamental para os grand tourers com motor V12 da marca de Maranello. O objetivo era claro e ambicioso: criar um autêntico automóvel 2+2, capaz de acomodar quatro adultos com um nível de conforto e espaço até então inédito para a fabricante, redefinindo as expectativas para um carro de longas distâncias que equilibra desempenho esportivo com luxo e praticidade.
O nome "612 Scaglietti" é, por si só, uma dupla homenagem. O número "6" refere-se à cilindrada do motor de 5.748 cm³, arredondada para 6 litros, enquanto o "12" indica o número de cilindros do seu imponente propulsor. O sobrenome "Scaglietti" é uma reverência a Sergio Scaglietti, o lendário artesão e construtor de carrocerias de Modena, responsável por alguns dos Ferraris mais icônicos e valiosos das décadas de 1950 e 1960. Conhecido como o "mestre do alumínio", a sua conexão com o modelo vai além de uma simples homenagem. A escolha do seu nome, feita enquanto ele ainda era vivo – um tributo raro e significativo –, foi uma verdadeira declaração de intenções da Ferrari. Ao associar o novo carro ao maior mestre histórico no trabalho com alumínio, a marca sinalizou a mudança tecnológica fundamental do projeto: a transição para uma construção avançada totalmente em alumínio, criando uma ponte entre o passado glorioso e artesanal da empresa e a sua inovação técnica presente.
A produção da 612 Scaglietti decorreu entre 2004 e 2011 na histórica fábrica de Maranello, Itália. Durante este período, um total de 3.025 unidades foram fabricadas, um número que a posiciona como um modelo relativamente exclusivo no universo automotivo.
O projeto da 612 Scaglietti representa um equilíbrio notável entre a herança estilística da Ferrari e a aplicação de tecnologias de engenharia de ponta para a época.
O design exterior foi concebido pelo renomado estúdio Pininfarina, sob a liderança do designer Ken Okuyama. A inspiração principal para as suas linhas fluidas e musculosas veio de um modelo único e histórico: a Ferrari 375 MM de 1954, encomendada pelo aclamado diretor de cinema Roberto Rossellini como um presente para a sua esposa, a atriz Ingrid Bergman. A homenagem mais direta a este carro icônico são as reentrâncias laterais esculpidas, conhecidas como "scallops", que conferem à 612 um perfil distinto e uma elegância atemporal.
Apesar de ser o Ferrari de produção mais longo da sua época, o design com balanços curtos e uma generosa distância entre eixos de 2.950 mm conseguiu manter as proporções esportivas e a sensação de agilidade. A carroceria era quase inteiramente construída em alumínio, com exceção dos para-choques e algumas coberturas feitas de material termoplástico.
O interior da 612 Scaglietti foi projetado para cumprir a promessa de ser um verdadeiro 2+2. A longa distância entre eixos permitiu a criação de um habitáculo genuinamente espaçoso para quatro adultos, uma melhoria substancial em relação ao seu antecessor. O acesso aos bancos traseiros foi cuidadosamente pensado, com portas que abriam em um ângulo maior e um sistema elétrico que movia os bancos dianteiros para a frente para facilitar a entrada e a saída.
O ambiente interno era de puro luxo, com um uso extensivo de couro de alta qualidade e detalhes em alumínio no painel, console central e controles, reforçando a conexão com o material nobre que definia a estrutura do carro. O painel de instrumentos combinava o melhor de dois mundos: um grande conta-giros analógico em posição central, flanqueado por um velocímetro à direita e uma tela digital multifuncional à esquerda, oferecendo uma leitura clara e intuitiva das informações vitais.
A base da 612 Scaglietti era a sua estrutura avançada. Foi o segundo modelo da Ferrari, depois da 360 Modena, a utilizar um chassi do tipo spaceframe totalmente em alumínio, desenvolvido em colaboração com a empresa americana Alcoa. Composta por extrusões e peças fundidas de alumínio soldadas, esta estrutura oferecia uma rigidez torcional muito superior à da 456M e era cerca de 60 kg mais leve, apesar do aumento significativo nas dimensões do carro.
A adoção desta tecnologia, validada no superesportivo de motor central 360 Modena, não foi apenas uma melhoria técnica isolada. Representou uma decisão estratégica de unificar a plataforma de engenharia de ponta da Ferrari, transferindo a tecnologia de chassi de alumínio para a sua linha de grand tourers de motor dianteiro. Isso não só resultou em um carro dinamicamente superior, mas também reforçou a imagem da Ferrari como uma empresa de vanguarda em toda a sua gama de produtos.
Para otimizar a dinâmica de condução, a Ferrari implementou uma configuração de motor central-dianteiro, posicionando o V12 atrás do eixo dianteiro, e um layout transaxle, com a caixa de câmbio montada no eixo traseiro junto ao diferencial. Esta arquitetura complexa permitiu alcançar uma distribuição de peso quase perfeita de 46% na dianteira e 54% na traseira, um fator crucial para a agilidade, o equilíbrio e a previsibilidade do comportamento do carro em estrada.
No centro da experiência da 612 Scaglietti está o seu magnífico motor V12, uma obra-prima da engenharia italiana que combina potência bruta com uma entrega suave e linear.
A 612 Scaglietti é equipada com o motor Tipo F133F, um V12 de 65° naturalmente aspirado com 5.748 cm3 (5.7L) de cilindrada. Esta unidade é uma evolução direta do motor utilizado nos modelos 575M Maranello e 575 Superamerica, aprimorado para entregar mais potência e refinamento.
O motor produz uma potência máxima de 540 CV (397 kW) a 7.250 rpm e um torque máximo de 588 Nm (60 kgfm) a 5.250 rpm. Com 48 válvulas (quatro por cilindro), duplo comando de válvulas no cabeçote e um sistema de lubrificação por cárter seco, foi projetado para oferecer um desempenho excepcional em todas as faixas de rotação.
Os números de desempenho da 612 Scaglietti são impressionantes, mesmo para os padrões atuais. A aceleração de 0 a 100 km/h é cumprida em um tempo entre 4,0 e 4,2 segundos, com uma velocidade máxima que se aproxima dos 320 km/h (199 mph).
A suspensão é independente do tipo "double wishbone" (braços sobrepostos) nas quatro rodas, garantindo um controle preciso da carroceria e um elevado nível de conforto. Os freios originais eram discos ventilados de aço, com 345 mm de diâmetro na dianteira e 330 mm na traseira. Posteriormente, freios de carbono-cerâmica foram introduzidos como parte de pacotes de desempenho e se tornaram padrão nos modelos mais recentes, oferecendo uma resistência superior à fadiga e uma maior potência de frenagem.
A 612 Scaglietti foi oferecida com duas opções de transmissão, que definem radicalmente o caráter e o valor do carro no mercado atual.
A baixíssima taxa de adoção do câmbio manual (apenas 6,5% da produção total) forneceu à Ferrari um dado de mercado inequívoco. A esmagadora preferência dos clientes por um GT de luxo pela conveniência da transmissão F1A demonstrou que a era das transmissões manuais nos carros V12 da marca estava chegando ao fim. Essa tendência, observada na 612, influenciou diretamente a decisão de não desenvolver uma opção manual para os seus sucessores, efetivamente encerrando um capítulo importante na história da Ferrari.
| Característica | Especificação |
|---|---|
| Motor | V12 a 65°, naturalmente aspirado |
| Cilindrada | 5.748 cm3 |
| Potência Máxima | 540 CV (397 kW) @ 7.250 rpm |
| Torque Máximo | 588 Nm (60 kgfm) @ 5.250 rpm |
| Transmissão | Manual de 6 marchas ou Automatizada F1A de 6 marchas |
| Tração | Traseira |
| 0-100 km/h | 4,0 - 4,2 segundos |
| Velocidade Máxima | Aprox. 320 km/h (199 mph) |
| Chassi | Spaceframe de alumínio |
| Suspensão | Independente, braços sobrepostos (dianteira e traseira) |
| Freios | Discos ventilados (aço ou carbono-cerâmica) |
| Comprimento | 4.902 mm |
| Largura | 1.957 mm |
| Altura | 1.344 mm |
| Dist. entre Eixos | 2.950 mm |
| Peso (em ordem de marcha) | Aprox. 1.840 kg |
| Porta-malas | 240 litros |
| Tanque de Combustível | 105 - 110 litros |
A vida da 612 Scaglietti pode ser dividida em duas fases distintas, marcadas por importantes atualizações tecnológicas que a mantiveram relevante e desejável ao longo dos seus sete anos de produção.
Os modelos de lançamento vinham com as opções de transmissão F1A ou manual, freios de aço como padrão e um interior que ainda não contava com o seletor Manettino no volante. Para clientes que buscavam uma experiência de condução mais apurada, a Ferrari introduziu dois pacotes de performance opcionais:
Em 2008, a Ferrari lançou o programa de personalização "One-To-One" (OTO), uma iniciativa que transformou a experiência de compra e o próprio carro. Os clientes passaram a configurar os seus veículos diretamente na fábrica, com uma vasta gama de opções exclusivas. Com isso, a produção passou a ser feita estritamente sob encomenda.
No entanto, o programa OTO foi muito mais do que apenas personalização estética. Ele marcou a introdução de uma série de atualizações tecnológicas substanciais que efetivamente criaram uma "segunda geração" não oficial da 612. Esta modernização foi uma resposta estratégica à necessidade de manter a 612 competitiva, especialmente após o lançamento da tecnologicamente superior 599 GTB Fiorano em 2006. Ao transferir tecnologias-chave da 599 para a 612, a Ferrari não só rejuvenesceu o modelo e impulsionou as vendas, mas também estabeleceu as bases para o seu futuro programa "Atelier" de personalização.
As principais atualizações dos carros OTO incluíam:
Além das atualizações de produção, a exclusividade da 612 Scaglietti foi amplificada por uma série de edições especiais e modelos únicos, que hoje são altamente valorizados por colecionadores.
| Edição | Ano | Quantidade Produzida | Mercado de Destino | Principais Características Distintivas |
|---|---|---|---|---|
| 612 Sessanta | 2007 | 60 | Global | Pintura bicolor, teto eletrocrômico, rodas forjadas, interior exclusivo, Manettino no volante |
| Cornes 30th Anniversary | 2006 | 20 | Japão | Cor "Blu Cornes", pacote HGTC padrão, tampa de combustível em fibra de carbono |
| GP Berne Edition | 2006 | 9 | Suíça | Pintura cinza/prata, pacote HGTC, interior vermelho, placa comemorativa do circuito de Berna |
Criada para celebrar o 60º aniversário da Ferrari, a 612 Sessanta foi uma edição limitada a apenas 60 unidades. Disponível exclusivamente com a transmissão F1, cada carro apresentava uma pintura em dois tons (Grigio Scuro/Nero ou Rubino Micalizzato/Nero), o teto de vidro eletrocrômico, rodas forjadas de 19 polegadas, um interior luxuoso em couro "Terra Bruciata" ou "Charcoal", e a adição do Manettino e do botão de partida no volante. Cada unidade possuía uma placa comemorativa única, tornando-a instantaneamente um item de colecionador.
Para comemorar os 30 anos de parceria com o seu importador no Japão, a Cornes & Co., a Ferrari produziu uma série especial de 20 unidades destinadas exclusivamente a este mercado. Estes carros distinguiam-se pela cor exclusiva "Blu Cornes", pela inclusão do pacote HGTC como padrão, uma tampa de combustível em fibra de carbono e emblemas comemorativos no interior.
Limitada a apenas 9 unidades para o mercado suíço, esta edição celebrava o 40º aniversário da Ferrari no país. Caracterizava-se por uma pintura bicolor em cinza escuro com os "scallops" laterais em prata, o pacote HGTC com freios de carbono-cerâmica, um interior em couro vermelho com detalhes em cinza e uma placa comemorativa com o traçado do histórico circuito de Berna.
Outros exemplares únicos reforçam o legado da 612, como a 612 Kappa (2006), um "one-off" encomendado pelo colecionador Peter Kalikow com detalhes de design exclusivos, e o GG50 (2005), um carro-conceito criado por Giorgetto Giugiaro para celebrar os seus 50 anos de carreira, ambos baseados na plataforma da 612.
Para compreender plenamente o legado da 612 Scaglietti, é essencial posicioná-la entre o modelo que a antecedeu e o que a sucedeu, analisando a evolução tecnológica e conceitual da linha de grand tourers V12 da Ferrari.
A 612 Scaglietti representou um salto quântico em relação à 456M GT. Em termos de dimensões, a 612 era significativamente maior, com uma distância entre eixos 350 mm mais longa, o que se traduziu diretamente no espaço interior superior. Onde a 456M utilizava um chassi de aço tubular com painéis de alumínio, a 612 adotou a moderna estrutura spaceframe totalmente em alumínio, que era mais rígida e proporcionalmente mais leve. No coração, o motor V12 de 5.5L e 442 CV da 456M foi substituído pelo V12 de 5.7L e 540 CV da 612, um aumento de quase 100 CV que reduziu o tempo de aceleração de 0 a 100 km/h de 5,2 para cerca de 4,2 segundos.
Se a 612 foi uma evolução, a sua sucessora, a Ferrari FF (Ferrari Four), foi uma revolução. A FF rompeu com a tradição dos coupés de duas portas, introduzindo um design arrojado do tipo "shooting brake" de três portas. A mudança mais radical, no entanto, foi a introdução do primeiro sistema de tração nas quatro rodas (4RM) da Ferrari, projetado para oferecer usabilidade em todas as condições climáticas. O powertrain também foi completamente novo: um V12 de 6.3L com injeção direta, produzindo 660 CV, acoplado a uma transmissão de dupla embreagem de 7 velocidades, muito mais rápida e suave que a F1A de embreagem única da 612. A performance foi elevada a um novo patamar, com uma aceleração de 0 a 100 km/h em apenas 3,7 segundos.
| Característica | Ferrari 456M GT (1998-2003) | Ferrari 612 Scaglietti (2004-2011) | Ferrari FF (2011-2016) |
|---|---|---|---|
| Motor | 5.5L V12 | 5.7L V12 | 6.3L V12 GDI |
| Potência | 442 CV | 540 CV | 660 CV |
| 0-100 km/h | 5,2 s | 4,2 s | 3,7 s |
| Vel. Máxima | > 300 km/h | ~ 320 km/h | 335 km/h |
| Transmissão | Manual 6M / Auto 4A | Manual 6M / F1A 6M | Dupla Embreagem 7M |
| Tração | Traseira | Traseira | Integral (4RM) |
| Chassi | Aço tubular / Alumínio | Spaceframe de alumínio | Spaceframe de alumínio |
| Peso (seco) | 1.690 kg | ~ 1.840 kg | 1.790 kg |
| Dist. entre Eixos | 2.600 mm | 2.950 mm | 2.990 mm |
A Ferrari 612 Scaglietti foi muito mais do que um simples grand tourer; foi um modelo de transição crucial na história da marca. Ela introduziu a engenharia de alumínio moderna na linhagem de GTs V12, redefiniu o padrão de espaço e usabilidade para um Ferrari de quatro lugares e, de forma marcante, foi o último da sua espécie a oferecer a pureza de uma transmissão manual tradicional.
Inicialmente subestimada por alguns devido ao seu design e tamanho considerável, a 612 Scaglietti tem sido cada vez mais valorizada no mercado de clássicos modernos. Os raríssimos modelos manuais atingem valores estratosféricos, enquanto os carros da era OTO, tecnologicamente superiores, são procurados pela sua combinação de modernidade e caráter analógico. Para muitos, ela representa uma proposta de valor relativa no mundo dos V12 da Ferrari, oferecendo uma combinação de performance, luxo e praticidade que dificilmente será replicada.
O seu legado final é o de um carro que ocupa um lugar único na cronologia da Ferrari. A 612 Scaglietti homenageia o passado artesanal da marca – evocando os nomes de Scaglietti, Pininfarina e o glamour da 375 MM – enquanto pavimenta o caminho para o futuro tecnológico, servindo como a ponte perfeita entre o GT clássico e o super-GT moderno.
Imagens do Ferrari 612 Scaglietti