A rutura com o passado quadrado da era Biturbo exigia uma linguagem visual completamente
nova. A tarefa foi confiada à Italdesign, liderada pelo lendário Giorgetto Giugiaro, o
homem responsável por obras-primas anteriores da marca como o Ghibli (1967), o Bora e o
Merak.
A Escultura Exterior
Giugiaro concebeu o 3200 GT como um retorno à elegância muscular. O design é
caracterizado por curvas voluptuosas e orgânicas, afastando-se radicalmente das linhas
de cunha e arestas vivas que dominaram os anos 70 e 80. O perfil lateral apresenta uma
silhueta clássica de coupé, com um capô longo e mergulhante, uma cabine recuada e
quadris traseiros proeminentes que enfatizam a tração traseira.
Com 4.510 mm de comprimento e 1.822 mm de largura, o 3200 GT era significativamente maior
que o Porsche 911 (996) contemporâneo, oferecendo uma presença na estrada mais
substancial. A grelha frontal oval, com o tridente flutuante, evocava diretamente os
carros de corrida da Maserati dos anos 50, estabelecendo uma ligação visual imediata com
a herança da marca.
As Luzes Traseiras "Boomerang": Inovação e Política
O elemento de design mais icónico, e subsequentemente mais debatido, do 3200 GT são as
suas luzes traseiras. Giugiaro e a Italdesign inovaram ao utilizar, pela primeira vez
num carro de produção em série, a tecnologia LED (Díodos Emissores de Luz) para as luzes
de presença e travão. Esta tecnologia permitiu criar uma forma fina, curva e contínua —
o "bumerangue" — que seguia o contorno da carroçaria traseira, algo impossível com as
lâmpadas incandescentes volumosas da época.
Estas luzes não eram apenas funcionais; eram uma assinatura artística. No entanto, a sua
existência foi curta. Quando o 3200 GT evoluiu para o 4200 GT (Maserati Coupé) em 2002,
as luzes bumerangue foram substituídas por unidades triangulares volumosas e genéricas,
frequentemente criticadas por se assemelharem às de sedans comuns.
A Teoria da Conspiração e a Realidade da Homologação
A razão oficial para a eliminação das luzes bumerangue centrou-se frequentemente nas
regulamentações do Departamento de Transportes dos EUA (DOT). Argumentava-se que a área
de superfície iluminada ou a visibilidade angular não cumpria os requisitos federais
para o regresso da Maserati à América do Norte.
No entanto, investigações mais aprofundadas e testemunhos de designers envolvidos, como
Frank Stephenson (que supervisionou o design da Ferrari/Maserati na época), sugerem uma
motivação diferente. Stephenson relatou que a decisão foi impulsionada diretamente por
Luca di Montezemolo. Numa reunião, Montezemolo terá expressado desagrado pelas luzes, ou
talvez, numa leitura mais cínica da política corporativa, tenha visto nelas um elemento
de distinção demasiado forte que ofuscava a identidade visual da Ferrari. A substituição
das luzes foi, portanto, tanto uma manobra de homogeneização estética para o mercado
global quanto um ato de afirmação de hierarquia dentro do grupo. O resultado é que o
3200 GT permanece o único modelo a ostentar esta característica, tornando-o
instantaneamente reconhecível e mais valorizado por colecionadores puristas.
Arquitetura Interior
O interior do 3200 GT, desenhado por Enrico Fumia (então no Centro Stile Lancia,
colaborando com a Maserati), foi projetado para oferecer um luxo opulento que
contrastasse com a austeridade germânica dos rivais. A cabine era quase inteiramente
revestida em couro Connolly de alta qualidade, incluindo o tablier, painéis das portas e
o teto.
O layout apresentava um design de "duplo cockpit", separando subtilmente o condutor do
passageiro. O relógio analógico oval no centro do painel tornou-se uma marca registada
da "nova" Maserati, simbolizando a fusão de tradição e luxo. Em termos de
habitabilidade, o 3200 GT superava largamente o Jaguar XKR e o Porsche 911, oferecendo
dois lugares traseiros genuinamente utilizáveis para adultos em viagens curtas ou
médias, graças a uma distância entre eixos generosa de 2.660 mm.