1ª Geração
(2020-)
Ficha técnica, versões e história do Mclaren GT.
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(2020-)
No vasto e complexo universo da engenharia automotiva de alto desempenho, poucas categorias são tão carregadas de tradição e expectativas quanto a do Grand Tourer (GT). Historicamente, um GT é definido não apenas por números frios de aceleração ou velocidade final, mas por uma filosofia de uso: a capacidade de cruzar continentes em alta velocidade, oferecendo conforto suntuoso para dois ocupantes e sua bagagem, isolando-os das imperfeições do mundo exterior enquanto mantém uma reserva de potência soberana. Durante décadas, a fórmula para atingir esse objetivo foi quase dogmática: um motor de grande cilindrada (geralmente V12 ou V8) montado na dianteira, tração traseira, uma cabine luxuosa forrada em couro e madeira, e um peso substancial que conferia estabilidade em rodovias, mas penalizava a agilidade em curvas fechadas. Marcas como Bentley, Aston Martin e Ferrari (com seus modelos de motor dianteiro) construíram impérios sobre esses pilares.
A McLaren Automotive, sediada em Woking, Inglaterra, entrou neste cenário com uma proposta disruptiva. Conhecida por sua obsessão com a leveza, a aerodinâmica e a pureza de condução derivada da Fórmula 1, a McLaren jamais havia produzido um carro que priorizasse o conforto sobre a performance absoluta de forma tão explícita. A introdução do McLaren GT em 2019 não foi apenas o lançamento de um novo modelo; foi um desafio técnico à ortodoxia do setor. A pergunta central que a McLaren buscou responder foi: é possível criar um verdadeiro Grand Tourer mantendo a arquitetura de motor central-traseiro, um chassi de fibra de carbono ultraleve e a dinâmica incisiva de um supercarro?
Este relatório dedica-se a documentar, de forma exaustiva e detalhada, a trajetória do McLaren GT. Analisaremos desde os primeiros experimentos da marca com a usabilidade diária no modelo 570GT, passando pela engenharia inovadora do chassi MonoCell II-T, até a recente evolução para o modelo McLaren GTS em 2024. Investigaremos os números de produção, as nuances de cada versão, os desafios de manutenção e o impacto deste veículo no mercado global e brasileiro. A narrativa a seguir busca desmistificar a tecnologia complexa por trás do carro, tornando-a acessível, enquanto mantém o rigor técnico exigido para uma compreensão completa do veículo.
Para compreender o McLaren GT, é necessário primeiro entender a cultura da empresa que o criou. Desde o seu renascimento como fabricante de carros de estrada em 2010 (com o MP4-12C), a McLaren focou obsessivamente em bater a Ferrari e a Porsche em seus próprios jogos de performance. Seus carros eram mais rápidos, freavam melhor e faziam curvas mais rápido. No entanto, o feedback dos clientes e da crítica especializada apontava frequentemente para uma lacuna: a usabilidade. Enquanto um Porsche 911 Turbo poderia ser usado para ir ao supermercado ou viajar centenas de quilômetros sem fadiga, os primeiros McLarens, embora civilizados para os padrões de supercarros, ainda eram focados demais na experiência de pilotagem visceral.
A estrutura de produtos da McLaren estava rigidamente dividida em três pilares, conhecidos como "Series":
O conceito de um "Grand Tourer" não se encaixava perfeitamente em nenhuma dessas caixas. Um GT precisava ser mais refinado que a Sports Series, mas menos agressivo que a Super Series.
A primeira tentativa concreta da McLaren de suavizar sua fórmula ocorreu em 2016 com o lançamento do 570GT. Baseado no 570S da Sports Series, este carro foi um laboratório fundamental para o desenvolvimento do futuro modelo dedicado.
O 570GT trouxe modificações importantes que sinalizavam as intenções da marca:
Apesar de ter sido bem recebido, o 570GT revelou as limitações de se adaptar uma plataforma existente. O acesso ao porta-malas traseiro era difícil (apenas pelo lado da calçada em países de mão inglesa, embora a McLaren tenha depois oferecido a opção de escolha do lado de abertura), o calor do motor invadia o compartimento de bagagem e a suspensão, embora mais macia, ainda não tinha a sofisticação necessária para competir com o "tapete mágico" de um Bentley Continental GT. Ficou claro para os engenheiros de Woking: para fazer um GT verdadeiro, eles precisariam de um carro dedicado, não de uma adaptação.
O McLaren GT foi anunciado no Salão do Automóvel de Genebra de 2019 e revelado oficialmente em maio daquele ano. Sua chegada marcou uma mudança estratégica: ele não pertencia a nenhuma das séries existentes (Sports, Super ou Ultimate). Ele inaugurou sua própria categoria dentro da marca, simplesmente chamada de "GT". O objetivo era atrair um novo tipo de cliente, aquele que talvez nunca tivesse considerado uma McLaren antes devido à percepção de ser uma marca focada apenas em pistas.
Visualmente, o GT rompeu com a agressividade angular do 720S e do 570S. Sob a direção de Rob Melville, o design adotou linhas mais fluidas e elegantes, inspiradas em formas aerodinâmicas naturais. O carro é mais longo que seus irmãos da época, medindo 4,68 metros, o que lhe confere uma presença de estrada mais imponente e ajuda na estabilidade direcional.
Um detalhe crucial do design foi a gestão do fluxo de ar. Em supercarros de motor central, grandes tomadas de ar laterais são necessárias para alimentar os radiadores. No GT, essas tomadas foram esculpidas de forma sutil nas laterais e nas "lâminas" das portas, escondendo sua função agressiva para manter a elegância da silhueta. A frente foi projetada com um ângulo de ataque maior (10 graus, ou 13 graus com o sistema de elevação ativado), permitindo que o carro enfrente lombadas e rampas de garagem com a mesma facilidade de um sedã médio como um Mercedes Classe C, resolvendo uma das maiores dores de cabeça dos proprietários de supercarros.
O McLaren GT é um triunfo de engenharia de embalagem e materiais. Ao contrário de seus concorrentes que utilizam estruturas de alumínio ou aço, o GT manteve a fidelidade da marca à fibra de carbono, mas com modificações significativas.
A base do GT é o chassi monocoque de fibra de carbono denominado MonoCell II-T (o "T" refere-se a Touring).
Embora o GT compartilhe a arquitetura básica do motor com o 720S (o bloco M840T), as mudanças foram tão extensas que o motor recebeu uma nova designação: M840TE.
Especificações Detalhadas:
Diferenciação Técnica: A principal diferença do motor "E" (Evolution/Enhanced) está nos turbocompressores. Eles são unidades de baixa inércia menores do que as usadas no 720S. O objetivo não era buscar potência máxima em altas rotações, mas sim reduzir o "turbo lag" (atraso na resposta da turbina) e aumentar a resposta do acelerador em baixas e médias rotações. A McLaren afirma que mais de 95% do torque está disponível a partir de 3.000 rpm, o que é crucial para um GT, permitindo ultrapassagens sem esforço sem a necessidade de reduzir várias marchas.
Transmissão: A caixa de câmbio é uma unidade SSG (Seamless Shift Gearbox) de 7 velocidades e dupla embreagem. No modo "Comfort", o software de controle suaviza as trocas para torná-las imperceptíveis, imitando a fluidez de um conversor de torque automático tradicional usado em limusines. No entanto, nos modos "Sport" e "Track", ela recupera a agressividade característica da marca, com cortes de ignição que produzem estalos no escapamento durante as trocas.
Para resolver o dilema conforto versus performance, a McLaren aplicou uma versão adaptada de sua suspensão proativa.
A experiência interna do McLaren GT é onde ele mais se diferencia de seus irmãos focados em pista.
A métrica universal para Grand Tourers é a capacidade de carregar um conjunto de tacos de golfe. O McLaren GT não só passa nesse teste, como o excede.
Colocar bagagem em cima de um motor V8 biturbo que opera a temperaturas altíssimas apresenta um desafio térmico óbvio. Para evitar que os tacos de golfe derretessem ou as roupas chegassem quentes ao destino, a McLaren utilizou materiais avançados.
O piso do bagageiro traseiro é revestido com SuperFabric. Este material, que incorpora minúsculas placas de blindagem em um tecido flexível, é resistente a cortes, manchas e, crucialmente, ao calor. Abaixo dele, há um sistema de gestão de fluxo de ar que canaliza ar fresco externo ao redor do compartimento do motor e expele o ar quente pela traseira, criando um colchão de ar térmico que isola a bagagem.
O GT foi o primeiro carro de produção do mundo a oferecer Cashmere (lã de caxemira) como opção de revestimento interno. Tradicionalmente usado em roupas de alta costura, o material foi tratado para atender aos rigorosos padrões automotivos de durabilidade e resistência à abrasão. Ele pode ser aplicado nos centros dos bancos, painéis das portas e no painel, oferecendo um nível de conforto tátil e aconchego que o couro tradicional não consegue replicar.
O sistema de infoentretenimento, muitas vezes um ponto fraco em supercarros de baixo volume, foi atualizado para o sistema MIS II.
No final de 2023, a McLaren anunciou a substituição do GT pelo novo McLaren GTS, com entregas iniciando em 2024. O GTS não é uma nova geração completa, mas sim um "facelift" pesado (atualização de meia-vida) que refinou o conceito original.
| Característica | McLaren GT (2019-2023) | McLaren GTS (2024-Presente) | Detalhes da Mudança |
|---|---|---|---|
| Potência | 620 PS (612 cv) | 635 PS (626 cv) | Aumento de 15 PS (14 cv) via recalibração da ECU. |
| Peso (DIN) | 1.530 kg | 1.520 kg | Redução de 10 kg através de otimização de componentes. |
| 0-200 km/h | 9,0 segundos | 8,9 segundos | Melhoria na aceleração em alta velocidade. |
| Suspensão | Amortecimento Proativo | Amortecedores de Válvula Dupla | Nova tecnologia de válvula dupla permite controle independente de compressão e rebote. |
| Lift Dianteiro | ~4 segundos | < 4 segundos | O sistema de elevação do nariz agora é duas vezes mais rápido. |
| Visual | Entradas de ar sutis | Entradas de ar "Martelo" | Para-choque dianteiro mais agressivo e tomadas de ar traseiras maiores para refrigeração. |
A mudança mais significativa no GTS, além do aumento de potência, está na suspensão. A introdução de amortecedores de válvula dupla (continuamente variáveis) permite uma separação maior entre os modos de condução. No modo "Comfort", o carro pode ser ainda mais macio e complacente do que o GT original, enquanto no modo "Track", a suspensão pode ficar mais rígida, controlando melhor a massa do veículo em frenagens e curvas fortes. Isso amplia a "largura de banda" dinâmica do carro, tornando-o melhor em ambas as extremidades do espectro de uso.
Visualmente, o GTS adota uma postura mais assertiva. As tomadas de ar nos "ombros" traseiros são mais altas e pronunciadas, captando mais fluxo de ar para alimentar o motor que agora gera mais calor devido à potência extra. Detalhes em preto brilhante (Gloss Black) substituem muitos dos acabamentos acetinados ou cromados do modelo anterior, alinhando-se com as tendências modernas de design "stealth".
A divisão de personalização da marca, McLaren Special Operations (MSO), desempenhou um papel vital em manter o interesse no modelo GT ao longo de sua vida útil, criando versões que exploram os limites estéticos do carro.
Esta edição especial é uma vitrine de pintura artesanal. A carroceria apresenta um acabamento degradê complexo que mistura três tons de verde acetinado: Horsell Green, Arbor e Steppe Green. A transição entre as cores é feita manualmente e o processo de pintura leva mais de 430 horas para ser concluído.
No interior, o tema Verdant ("Verdejante") combina couro verde Laurel com Cashmere cinza carvão, evocando as paisagens naturais de florestas e campos que um Grand Tourer cruzaria em uma viagem pela Europa.
Lançada em 2023, esta foi uma série ultra-limitada de apenas 8 carros, exclusiva para o mercado do Reino Unido.
A McLaren é notoriamente reservada quanto aos números exatos de produção por modelo individual. No entanto, analisando os relatórios financeiros anuais da empresa, podemos traçar um panorama claro.
Com base nesses dados, estima-se que a produção total do McLaren GT (geração 2019-2023) esteja na faixa de 2.000 a 3.000 unidades globais. Isso o torna um carro consideravelmente raro. Para comparação, a Porsche produz dezenas de milhares de 911s anualmente.
No Brasil, o McLaren GT ocupa um nicho exclusivo. Chegou com preço inicial em torno de R$ 2,4 milhões em 2019/2020. Devido à variação cambial e impostos, o preço do novo modelo GTS (modelo 2025) já é referenciado na Tabela Fipe em torno de R$ 2.800.000, podendo ultrapassar R$ 3.200.000 com opcionais e personalização MSO.
O carro encontrou um público fiel entre compradores que desejam um supercarro utilizável nas condições de rodagem brasileiras (graças ao sistema de lift eficiente) sem abrir mão do status de uma marca de F1.
O GT compete em um "oceano de tubarões" do luxo:
Possuir um McLaren GT exige consciência sobre a complexidade da máquina. Embora seja mais robusto que os modelos antigos da marca, ainda é um supercarro de baixa produção.
A segurança e a qualidade são monitoradas de perto, resultando em campanhas de recall que o comprador deve verificar se foram realizadas:
A manutenção deve ser feita anualmente ou a cada 10.000 milhas (aprox. 16.000 km). O custo de manutenção é alto, comparável ao da Ferrari e superior ao da Porsche. No Brasil, a rede de assistência é concentrada em São Paulo, o que exige logística de transporte em caminhão fechado para proprietários de outros estados. A garantia estendida da McLaren é altamente recomendada para mitigar riscos de falhas mecânicas caras fora do período de garantia original.
O McLaren GT e seu sucessor, o GTS, representam um capítulo fascinante na história da marca. Eles desafiaram a noção de que um carro de motor central deve ser desconfortável e provaram que a fibra de carbono pode ser usada para criar não apenas carros de corrida, mas também cruzadores continentais refinados.
Embora não tenha o "peso" luxuoso de um Bentley ou a tradição de motor dianteiro de uma Ferrari Roma, o McLaren GT oferece algo único: a precisão cirúrgica de um supercarro embalada em um corpo que aceita a rotina diária. Para o entusiasta que valoriza a tecnologia, a engenharia de materiais e a pilotagem pura acima do status tradicional, o McLaren GT permanece como uma escolha singular e ousada no mundo automotivo. Sua raridade, garantida pelos números de produção limitados, assegura que ele será um futuro clássico, lembrado como o momento em que a McLaren decidiu reescrever as regras do jogo do Grand Touring.
| Especificação | McLaren GT (2019-2023) | McLaren GTS (2024-Presente) | Ferrari Roma (Comparativo) |
|---|---|---|---|
| Motor | 4.0L V8 Biturbo (M840TE) | 4.0L V8 Biturbo (M840TE) | 3.9L V8 Biturbo |
| Posição do Motor | Central-Traseiro | Central-Traseiro | Dianteiro-Central |
| Potência | 620 PS (612 cv) | 635 PS (626 cv) | 620 PS (612 cv) |
| Torque | 630 Nm | 630 Nm | 760 Nm |
| Peso (DIN) | 1.530 kg | 1.520 kg | 1.570 kg |
| 0-100 km/h | 3,2 s | 3,2 s | 3,4 s |
| 0-200 km/h | 9,0 s | 8,9 s | 9,3 s |
| Velocidade Máx. | 326 km/h | 326 km/h | > 320 km/h |
| Porta-malas | 570 L (Total) | 570 L (Total) | 272 L |
| Lugares | 2 | 2 | 2+2 (Simbólicos) |
| Preço (Fipe 2025) | ~R$ 2.4 mi (Usado) | ~R$ 2.8 mi (Novo) | ~R$ 3.4 mi |
Nota sobre as fontes: Este relatório foi compilado com base em dados oficiais da McLaren Automotive, relatórios financeiros de investidores (2021-2024), boletins de segurança da NHTSA e análises da imprensa automotiva especializada global e brasileira.